Por Thiago Canettieri
Em um texto já clássico deste site, Caio Martins e Leonardo Cordeiro refletem sobre a experiência do Movimento Passe Livre (MPL), já em um rescaldo de 2013, quando, definitivamente, a fervura entornou do caldeirão. Quem se lembra das ruas, já há mais de dez anos, sabe muito bem que ali era confronto — a imediatidade com que explodiam, os rojões de um lado e as balas de borracha de outro não deixam espaço para dúvidas. O conflito contra a tarifa do transporte público. Como notam, acertadamente, a natureza dessa luta em específico, diferentemente de “outros movimentos urbanos — de moradia, por exemplo — dificilmente ultrapassam o limite de sua ocupação ou bairro, nas lutas contra o aumento, a mobilização tem a tendência a tomar conta de toda a cidade, a se generalizar como revolta”.
Para eles, a revolta — palavrinha-chave para compreender 2013 — se refere a “um processo de fôlego curto, mas explosivo, intenso, radical e descentralizado. As primeiras manifestações atuam como ignição de uma mobilização que extrapola o controle de quem a iniciou – que perde toda a capacidade de interrompê-la. Há uma escalada de ações diretas: ocupação massiva e travamento de importantes artérias da cidade, enfrentamento com a polícia, ataques ao patrimônio público e privado, saques”.
Por um lado, os jovens militantes do MPL sabiam muito bem o que poderia acontecer quando lançavam a primeira marcha contra o aumento de 20 centavos. Uma manifestação pequena aqui, que explode e incendeia todo um país. Era essa a intencionalidade por trás da mobilização. Claro, não há ingenuidade em acreditar que a explosão ocorra espontaneamente — “depende quase sempre de um polo altamente organizado da luta, uma organização que elabora e formaliza seu sentido e lhe garante alguma coesão”, escrevem Caio e Leonardo.
A medida que junho avança, a revolta esquenta o inverno brasileiro daquela longínqua data:
Greve geral, ocupação dos prédios públicos, tomada da cidade por barricadas em cada bairro, expropriação de frotas… eis alguns desdobramentos que o ascenso popular abria à imaginação às vésperas do anúncio da revogação do aumento. É precisamente a ameaça de um enorme salto organizativo dos trabalhadores que alarma a classe dominante – o “caos social” bate à porta e deve ser contido pelo governo, cedendo. A tática histórica das lutas contra o aumento, que aqui chamamos de “revolta popular”, aposta para seu sucesso nessa ameaça e, no entanto, depende, ao mesmo tempo, de que ela não se realize. Para conquistar a reivindicação central, a revolta deflagra um processo explosivo, que é necessariamente freado no momento em que se atinge a conquista.
Se a tática é eficiente, o salto organizativo já nasce castrado e vai existir apenas como vislumbre. A breve perda de poder sobre as ruas permite entrever outro poder, um poder popular, tão palpável quanto inalcançável naqueles dias. Ao existir justamente na tensão entre uma minoria altamente organizada e uma maioria não organizada, a revolta popular limita a si mesma. Pois, ao mesmo tempo que, na luta contra o aumento de São Paulo, a população agiu diretamente sobre sua vida, não é menos certo que existia um comando que decidia o que fazer. Se depois de junho uma parte da esquerda avaliou que o problema no processo era a carência de uma “direção revolucionária”, nos parece o contrário: nas revoltas contra o aumento, o que falta – e por isso se trata de revoltas – é horizontalidade, ou seja, poder direto dos que estavam nas ruas sobre o que estavam fazendo, algo que depende da existência de estruturas enraizadas no dia a dia dos trabalhadores.
A revolta popular deve sair do controle — é nessa perda de controle que se permite conceber, pensar, sentir, viver uma transformação social, ainda que inconstante e muito breve. E, assim, junho passou; a revolta arrefeceu e foi administrada. Por um lado, forças repressivas aprenderam a dispersar as marchas, a destruir barricadas. Por outro lado, de dentro das revoltas, despontaram interesses partidários institucionais que colocaram essa energia para girar a máquina de disputa de votos. “Os protestos entram nos cálculos dos políticos, da imprensa e das seguradoras. A rua como fim em si mesma é um beco sem saída”. Dessa maneira, Caio e Leonardo apontam para o esgotamento da tática da revolta popular, não por deixar de existir, mas porque não foi possível ir além dela.
Dizer que a tática histórica que aqui chamamos de “revolta popular” se esgotou não é, em nenhuma instância, decretar o fim da revolta – aquela atitude que há séculos pulsa entre os dominados. Ao contrário, esta nunca esteve tão presente: desde junho, a disposição à luta só cresceu. Mas o que construímos além dessa disposição? Milhões saíram às ruas e, de volta à casa, ao bairro, ao local de trabalho, voltaram à rotina de sofrimentos e humilhações (talvez um pouco mais indignados)? Embora tenha produzido ecos, o momento de mobilização não conseguiu ir além de si mesmo, não encontrou continuidade em um momento de organização.
Alguns anos mais tarde, Francesc e El Quico escreveram outro texto para este site que ecoa as formulações apresentadas. Com um ano de pandemia e dois de governo Bolsonaro, os conflitos na sociedade brasileira se acumulavam. O trabalho urbano ganhava uma nova fisionomia, marcada agora pela gestão algorítmica do trabalho precarizado, que aumentou na pandemia. E nesse cenário, Francesc e El Quico identificam que a esquerda se retirava do conflito – para eles, há nas fileiras da esquerda, um temor pelo conflito que acabam “imobilizando sua capacidade de imaginar conflitos que não terminem por voltar-se contra ela mesma”. Daí se deriva o caráter restauracionista do progressismo brasileiro, enquanto “os reacionários se tornaram progressistas no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro”, como escreve Felipe Catalani.
Assim, a esquerda via-se enredada na manutenção governamental da administração securitária do colapso social — o que necessariamente resulta na incapacidade de transformar o mundo. Mais do que isso, como se olha essa situação com os olhos de um passado idílico, carece na esquerda os instrumentos epistemológicos e organizacionais para pensar a partir desse novo terreno social. O mapeamento cognitivo que fez sentido para a esquerda, baseado num mundo do trabalho relativamente estável e em instituições democráticas e republicanas mais ou menos consolidadas, parecia dar régua e compasso à ação da esquerda.
O capital, enquanto processo cego, automático e contraditório, não permite que sua existência seja sempre idêntica ao longo da história. Enquanto forma social, o capital se reproduz de modo contraditório. Na medida em que busca aumentar a produtividade do trabalho para abocanhar uma fatia sempre crescente de mais-valor, ele impede a valorização de acontecer, pois, no mesmo golpe, expulsa o trabalho vivo das tramas produtivas. Assim, em sua ânsia de valorização, acaba tornando a si mesmo anêmico de valor. Essa dinâmica contraditória foi primeiramente exposta por Marx, mas foi mantida como contribuição marginal à esquerda marxista. O diagnóstico de Marx envolveu reconhecer a necessidade da crise. Contudo, essa leitura foi negligenciada pelas organizações políticas que se diziam inspiradas em seus escritos. Há causa para essa situação controversa: o diagnóstico não cabia na gramática política, que, desde antes de Marx, já colocava o trabalho como categoria privilegiada da ação política. Colocar ênfase na crise do trabalho e em sua obsolescência significaria a dissolução de sua gramática política — o que definitivamente aconteceu.
Seja como for, essa interpretação marxiana ficou relegada às correntes subterrâneas do marxismo e apenas germinou novamente quando se tornou patente a situação descrita por Marx um século antes. A crise se instalou à medida que os desenvolvimentos das forças produtivas, propiciados pela revolução da robótica, da programação e da microeletrônica, se disseminavam: a elevação da produtividade é tamanha que o trabalho, enquanto mediação social, torna-se estruturalmente supérfluo ao capital. Situação percebida não só pelos marxistas subterrâneos, mas também pelo nosso presidente-sociólogo tucano: agora há os inempregáveis.
Esses estão fora do mundo do trabalho — a sobrevivência dessa classe crescente depende da viração. Uma vez que uma massa de “ex-proletários virtuais” já não encontra como se inserir nessa gramática política, o mapeamento cognitivo que permitia estruturar a prática política por meio das organizações vai ao chão. A despeito, é claro, do sincero apego de muitos em relação a essas formas, o que ocorre nas últimas décadas do século XX e se intensifica ao longo do século XXI é a dissolução dessas formas sociais. As categorias que determinaram a existência social por muito tempo vêm se erodindo. Trata-se de uma impossibilidade lógica de continuar a utilizá-las para substancializar o mapeamento cognitivo de nossa realidade em crise.
A complexidade não diminuiu em nada — o mundo não se tornou mais transparente porque as determinações de existência impostas pelo processo social do capital entraram em debacle. Ao contrário, a situação embaralha ainda mais nossa capacidade de tomar ações comensuráveis à realidade social. Embaralha-se porque as formas pelas quais era possível estabelecer a transitividade entre as escalas, do local ao global, do específico ao geral, também são corroídas pela crise.
O capitalismo de crise contemporâneo colocou um desafio, podemos dizer, metapolítico para a tradição que se dedica não só à interpretação do mundo, mas também à sua transformação. Para pensar uma resposta comensurável com a realidade do novo tempo do mundo é preciso pensar uma resposta comensurável com a realidade em que uma organização política se encontra.
Sem mais um mapa da realidade, “É por aí que se deve compreender a ressurreição periódica e intempestiva do trabalho de base e certas noções meio franciscanas de solidariedade e autodisciplina” – como escrevem Franscesc e El Quico. Curiosamente, às vezes, as saídas são mais fetichistas do que a porta de entrada nessa realidade social em desagregação.
Se, por motivos de desposessão originária, as pessoas em todo o mundo tornaram-se trabalhadoras, durante um tempo, essa condição de reprodução social compartilhada servia de âncora política para a ação. Agora, parece que “a única alternativa é seguir na correria sem fim, se virando em condições mais e mais adversas”, como ensina a Masterclass de fim do mundo. A reprodução social passa agora por uma miríade de estratégias que frequentemente prescindem da forma-trabalho, o que, claro, produz efeitos políticos profundos, como tentei escrever em um texto anterior para este site. Nessas condições, a ação política toma a forma de motins que não permite o acúmulo de forças:
Sem o antigo “horizonte de ‘conquistas’ a serem acumuladas, numa perspectiva mais ampla de integração progressiva”, o que resta às lutas do nosso tempo é refluir aos poucos ou escalar imediatamente, assumindo, sem qualquer mediação, formas insurrecionais (sem antes e depois).
Há luta, insurgência e conflito na sociedade, “tão intensos quanto descontínuos, sem jamais assumir formas estáveis” – continua a Masterclass.
Na viração das esquinas, entre “empregos de merda” e “trampos” temporários – ali onde não há nada de promissor à vista a não ser cair fora –, a insubordinação irrompe com a mesma urgência, o mesmo imediatismo da produção just in time. Os conflitos explodem como um gesto desesperado, um grito de “foda-se” em que se misturam “sofrimento, frustração e revolta”, frequentemente sob a forma de um ato de desforra individual – ou, quando muito, coletiva. Assim como a recente onda de deserções do trabalho nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, a debandada dos call centers nos primeiros dias da pandemia no Brasil era um sinal de recusa a uma rotina que, para arcar com a “normalidade” em colapso, torna-se ainda mais infernal. A cada nova emergência – sanitária, ambiental, econômica, social –, gira o parafuso da intensificação do trabalho, todos integralmente mobilizados num esforço sem fim em que não se formam senão “experiências negativas”. Se os “não-movimentos” trazem uma boa notícia, contudo, ela é justamente essa: eles “indicam que o proletariado já não tem nenhuma tarefa romântica”, sem ter nada a esperar e também nada a perder.
Voltemos a 2013. Caio e Leonardo, no primeiro texto resenhado aqui, notam que “ Se não saímos de 2013 com um aumento na organização dos de baixo, talvez o terreno para essa organização esteja mais fértil. Ao apontar para algo vivo para além do cotidiano morto de consensos e consentimentos, junho quebrou o feitiço”. Se essa afirmação “envelheceu mal” como se diz, não é por erro de análise dos camaradas no calor do momento, mas porque a própria realidade agudizou suas contradições em direção ao cenário de desagregação social e de motins sem acúmulo. O que interessa, contudo, é o questionamento levantado pelos autores ao final do texto: “Como fazer com que o vislumbrado passe do possível para o real? É, no mínimo, indispensável superar a centralidade da tática de revolta e formular uma perspectiva estratégica mais ampla, a perspectiva de uma recusa mais potente, enraizada no cotidiano. É preciso construir o que se tornou imaginável.” Questão que foi acompanhada por outras colocadas por Leo Vinicius, em um comentário ao texto: “É possível ir além da ‘revolta popular’ quando a tarifa aumenta (e lembrando que são relativamente poucas vezes que há manifestações com forte adesão quando elas aumentam), em direção a uma construção/situação de conflito permanente? É possível ir da greve na cidade-fábrica à construção do conflito permanente na cidade-fábrica? É possível construir um conflito cotidiano, permanente no transporte coletivo, que torne cada vez mais insustentável a forma de organização/gestão do transporte, abrindo caminho para a tarifa zero? Se sim, como?”
Quando se navega de dentro da crise, encontramos um cenário de crise que acumula adversidades, dificultando a construção da centralidade da tática da revolta. O mundo do trabalho entre o emprego de merda, a uberização, e o empreendedorismo; a renda familiar carcomida por pagamento de juros dos endividamentos sucessivos ou da fantasia nas apostas online; a presença irremediável de recursos dos programas assistenciais do Estado ou das igrejas, entre tantos outros. Contudo, essa mesma crise parece oferecer possibilidades de ação que não colocam a centralidade no conflito, mas sim no território.
Por território, entendo o conjunto de relações de reprodução social que ocorrem em um determinado espaço. O território é o lugar onde o cotidiano acontece. São várias as experiências militantes que parecem produzir uma sobrevida temporal das experiências de luta a partir da construção de um vínculo territorial. As ZADs, as ocupações, os territórios liberados. Baruq, da ocupação em BH, Kasa Invisível, compreende a importância de se construir infraestruturas reprodutivas para liberar pessoas das relações sociais capitalistas, permitindo que mais energia seja dispendida em organização e em luta (inclusive na produção de revoltas populares) do que a energia gasta no trabalho.
Desta maneira, pensar o território é pensar em como conferir perenidade à revolta, que é, por natureza, fugaz. É dar continuidade a algo descontínuo. Um território pode surgir de uma revolta — não foi isso que aconteceu, por exemplo, na Paris de 1870 ou em Capitol Hill, de 2020? É no território que é possível a fusão entre política e cotidiano, militância e reprodução. Nessas condições, a ação política não se torna um momento de interrupção dos fluxos da cidade, mas estende-se ao cotidiano. Mesmo nos casos efêmeros, como a Comuna (72 dias) ou a Capitol Hill Autonomous Zone (23 dias), há um saldo: a transformação se colou ao cotidiano.
Claro, se um determinado território vai se tornar uma plataforma eleitoral, de comércio ou mais um bairro comum — perdendo seu vínculo com uma política de transformação social —, o tempo revelará. Ou então, pode ser massacrado, despejado e perdido. Frequentemente, esse parece ser o destino dos territórios.
Não se trata aqui de negar os conflitos — ou não apostar nos conflitos como faíscas para incendiar o rastilho de pólvora de uma vida desgraçadamente incorporada ao colapso que vivemos. Por exemplo, Wohleben reconhece que “O que importa é identificar, nesta ou naquela situação, como práticas anônimas, sem dono e inapropriáveis, originárias da vida cotidiana, são magnetizadas por conflitos, e qual o alcance potencial que cada uma delas ainda pode ter.”
Voltemos, mais uma vez, a 2013. No dia 27 de junho de 2013, numa ocupação da prefeitura de São Paulo convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL) no contexto da onda de grandes manifestações que tomou as ruas de todo o Brasil, ocorreu uma aula pública com Paulo Arantes. O professor tratou de responder a seguinte questão: Como se explica o fato de que um milhão de pessoas tomaram as ruas das metrópoles brasileiras em menos de uma semana? O próprio filósofo já descarta a resposta usual que atribuía importância à internet e às novas redes sociais, que tentava explicar Occupy Wall Street, Primavera Árabe ou a experiência das acampadas dos Indignados espanhóis. Para tanto, Paulo Arantes faz uma resenha de um artigo de Gladwell no qual busca pensar as condições da livre associação com potência de transformação.
Gladwell então recupera uma pequena história do movimento negro por direitos civis na segunda metade do século XX nos Estados Unidos, uma sociedade profundamente segregada. A história é sobre quatro jovens negros, calouros na North Carolina A&T, uma faculdade para negros. Eles entraram numa lanchonete e se sentaram na área destinada aos brancos (os negros deviam se alimentar de pé no balcão). Um deles pediu: “um café por favor”. A atendente recusou e lembrou os jovens que não poderiam se sentar naquele local, mas insistiram no pedido e não saíram da posição a despeito do risco de serem linchados. Brancos, que provavelmente estavam dispostos a tomarem tal atitude, se colocaram logo atrás dos jovens negros e proferiram as ameaças mais terríveis contra eles, mas, ainda assim, continuaram sentados até o fechamento da lanchonete e, no dia seguinte, retornaram ao mesmo local e repetiram o pedido. Continuaram durante a semana inteira, enquanto corria a notícia por todo o Estado, e, em menos de dez dias, caravanas de negros que se organizavam foram até a pequena cidade do interior de 50.000 habitantes, até o momento em que esses peregrinos militantes eram equivalentes a metade da cidade.
O que interessa é notar as condições que permitiram tal ato de existir e de lograr sucesso. Paulo percebe três características fundamentais: i. vínculos fortes entre os envolvidos, de amizade e camaradagem – ou seja, uma rede através das quais ações podem repercutir e se acumular; ii. a implicação do corpo de cada um em uma situação de risco compartilhado com seus amigos – uma vez que o corpo negro faz diferença no sistema de opressão racializada e; iii. o envolvimento em uma mesma causa, ou seja, a capacidade de adotar uma perspectiva comum, a partir da qual as perturbações sociais produzidas pelo “experimento” dos estudantes podiam ser reconhecidas e transmitidas entre todos os que se engajaram na luta.
Essas características marcaram, por exemplo, a experiência política dos Black Panther Party: trata-se de uma forma de organização comunitária para que jovens negros permaneçam vivos, atrelada fortemente aos vínculos cotidianos, aos riscos corridos e ao compartilhamento da pauta. Frequentemente esquecidos, os Panteras Negras organizaram, por mais de uma década, o programa de cafés da manhã para as crianças das comunidades negras onde atuavam.
Esse tipo de atuação desloca o eixo que tradicionalmente caracterizou a prática política. Nesse formato clássico, o espaço da política é um espaço separado da vida cotidiana — baseado nas ideias de representação que informaram tanto a democracia formal quanto a ação de muitas das organizações revolucionárias por aí. Uma forma de organização da política, direcionada ao que estou chamando aqui de território, produz uma aproximação, um amálgama entre o gesto político e a prática reprodutiva cotidiana. Como escreve Wohleben, “Podemos até dizer que o verdadeiro movimento começa no momento em que as pessoas deixam de procurar alguma fonte externa para legitimar suas ações e passam a confiar e agir de acordo com sua própria sensibilidade, sua própria percepção do que faz sentido e do que é intolerável. A partir desse momento, todo o aparato da política oficial começa a entrar em colapso, permitindo que todos vejam que ele é o inferno gerencial que realmente é.” O mesmo autor reconhece que o verdadeiro horizonte dessas ocupações do espaço não é interromper o fluxo da economia, mas “produzir bases territoriais habitadas” e que, assim, permita colocar a ação política no “mapa da vida cotidiana”.
Duas citações podem, talvez, iluminar meu argumento. A primeira, de Marx, nos Manuscritos de 1844:
Quando artesãos comunistas formam associações, o ensino e a propaganda são seus primeiros objetivos. Mas, sua própria associação cria uma necessidade nova – a necessidade da sociedade – o que parecia ser um meio torna-se um fim. Os resultados mais notáveis desse fato prático podem ser vistos quando operários socialistas franceses se reúnem. Fumar, comer e beber não mais são meios de congregar pessoas. A sociedade, a associação, o divertimento tendo também como fito a sociedade, é suficiente para eles; a fraternidade do homem não é frase vazia, mas uma realidade, e a nobreza do homem resplandece sobre nós vindo de seus corpos fatigados.
Cento e setenta e cinco anos depois, Torino e Wohleben, escrevem:
Foram estas últimas lutas que mais claramente provaram a eficácia estratégica de armar “lugar” como elemento de ataque, de converter a habitação vital de um território de vida intensa em um meio de deslegitimação da gestão estatal e econômica. Ao mesmo tempo, a manobra dos Coletes Amarelos é diferente. Em vez de muitas pessoas de toda a Europa convergindo em duas ou três “zonas a defender”, as rotundas de Coletes Amarelos permanecem próximas da vida cotidiana. Esta proximidade à vida cotidiana é a chave para o potencial revolucionário do movimento: quanto mais próximos os bloqueios estiverem da casa dos participantes, mais provável é que esses lugares se tornem pessoais e importantes de um milhão de outras formas. E o fato de ser uma rotunda que é ocupada em vez de uma floresta ou um vale retira o conteúdo prefigurativo ou utópico desses movimentos. Embora isto possa parecer, à primeira vista, uma fraqueza, pode revelar-se uma força.
Apesar da distância histórica, elas se encontram ao elucidar uma questão de método: é no compartilhamento de um território, a partir de práticas cotidianas de reprodução da vida, que reside a possibilidade de transformação. Como escrevem Torino e Wohleben, “É a constituição de lugares coletivos que forma o núcleo destituinte/revolucionário do movimento, que supera a oposição entre a revolta e a vida cotidiana”. A ação política transformadora não estaria fundamentada essencialmente no local de trabalho ou na figura do trabalhador, nem na identidade territorial delimitada, nem em um evento de verdade, muito menos em uma campanha eleitoral apoteótica, mas sim em questões de reprodução social que atravessam o tecido social e constituem um território. Talvez esteja aí o lugar para pensarmos uma estratégia política para o tempo presente.

Texto interessante pra iniciar um debate sério sobre estratégia nesses tempos desfavoráveis. Interessante também a liga que o texto dá para outros já escritos por camaradas. Gostaria de colocar alguns pontos pro debate.
1) O que está sendo apresentado aqui pode ser inscrito dentro da “estratégia da composição”, apresentada por Hugh Farrell no artigo de mesmo nome publicado no portal Ill Will ( https://illwill.com/composition ). O artigo se baseia nas lutas territoriais, usando como exemplo o ZAD (abordado aqui), Standing Rock, a Rebelião de George Floyd, e outros. A estratégia da composição é apresentada no artigo em oposição a “diversidade de táticas”, uma perspectiva difusa adotada pelos ativistas do movimento anti-globalização cujo problema seria “o abandono da possibilidade de uma estratégia coletiva ou modo de organização”. É colocada também em oposição ao “programatismo” da fase anterior das lutas operárias (cuja crítica pode ser encontrada em teóricos da comunização como o TC). A estratégia da composição deve ser permeável, deve possibilitar que o movimento se mantenha múltiplo e ao mesmo tempo que garanta a unidade através de alianças práticas. Composição enquanto estratégia seria, então, a criação de um “framework” que possibilitaria a articulação de multiplicidade de identidades e necessidades para um objetivo comum (e que o autor reforça, nesse processo as multiplas identidades devem estar abertas o suficiente para se negarem). Tudo isso, o autor afirma, já se apresenta, de uma forma ou outra, com mais ou menos intensidade, nas lutas que se desenvolvem nesse período (em especial as que ele cita).
2) Os autores de “The Fate of Composition ” que assinam como “Decompositions” ( https://theanarchistlibrary.org/library/decompositions-the-fate-of-composition ) entram no debate mapeando o conceito de “composição” tanto como descritivo como prescritivo, retomando a perspectiva da composição de classe definida pelo operaísmo e apresentando o ressurgimento do termo em duas vertentes: de um lado uma retomada de uma perspectiva operaísta por um neo-operaísmo (citando como exemplos o Angry Workers e o Notes From Below) e, de outro, numa retomada da “esquerda ativista” (palavras do autor) que situa a conceito de forma diferente (e que se apresentam nas lutas citadas também por Hugh Farrell) que os autores descrevem como “[…] “composição” passou a se referir a uma estratégia específica de organização que refletia problemas de defesa territorial, incluindo reivindicações concorrentes de interesse e posições de classe de diversos atores envolvidos.”. Os autores identificam o quanto a estratégia da composição, ao invés de apontar para um avanço das lutas, favoreceu uma posição de se fechar nelas. A centralidade do território que guiava essas lutas e possibilitava a “estratégia da composição” levou no final a própria conformação dos limites dessas lutas que reforçam o caráter de decomposição do momento histórico atual que a perspectiva mais aberta e abstrata da estratégia não consegue lidar, e no final sucumbe a ela – a estratégia da composição coloca o problema para em seguida se ver preso a ela. Por outro lado, os autores também fazem crítica da perspectiva fechada dos neo-operaístas que também não oferecem perspectivas estratégicas dignas do período histórico limitando suas atuações na logística e setores de serviço. Prescrição e descrição, então, se encontram divididas nas duas tendências mapeadas pelos autores. E qual seria a alternativa? “Compreender o problema da composição como decomposição é talvez muito mais sombrio, mas também muito mais tangível e, portanto, uma base para uma estratégia política real quando as contradições se generalizam, a possibilidade de insurreição dá lugar a medidas comunistas e, por fim, à reparação do tecido metabólico — no qual a defesa territorial assumirá um significado inteiramente transformado na reprodução das relações comunistas.”. No final, uma aposta que se assemelha em muito à dos teóricos da comunização – o que também não explica muito, mas joga pela necessidade de condições de novo tipo para que uma possibilidade estratégica digna de nome se torne possível, afinal, não há estratégia revolucionária em períodos não(ou contra)-revolucionários… ou há?
3) Se a decomposição é a condição em que nos situamos, qualquer perspectiva composicionista parece determinada ao fracasso, e daí talvez a aposta na própria decomposição dos autores de “The Fate of Composition” como condição para o desenvolvimento de novas formas. É no conflito que as perspectivas podem apontar pra uma superação da condição, e não numa tentativa de forçar esquemas em condições adversas. Nesse sentido, quando você aponta “As ZADs, as ocupações, os territórios liberados. Baruq, da ocupação em BH, Kasa Invisível” como exemplos do que aqui chama da centralidade do território, a pergunta que fica é se essas experiências tem mais a nos oferecer do que as formas de luta e organização desenvolvidas pelos trabalhadores de aplicativo ( https://passapalavra.info/2024/04/152631/ ), ou as revoltas populares que eclodiram (e continuam a eclodir) nos últimos anos, como o exemplo no Sudão, no Sri Lanka, ou na luta dos trabalhadores de gás e petroquímica do Irã na Campanha 1400 que desenvolveu em uma estutura de coordenação e articulação da luta pelo país chamado de “Conselho para a Organização de Protestos dos Trabalhadores Contratados do Setor de Petróleo” e que envolveu mais de 100 mil trabalhadores ( https://libcom.org/article/iranian-oil-and-petrochemical-workers-strikes-go )? Aliás, é um caso a se pensar o quanto a necessidade de se ultrapassar os locais de trabalho para uma radicalização da luta social já não traz em si a necessidade desse desenvolvimento territorial desde sempre, e se as coisas não estão muito mais ligadas do que se pensa. Você trouxe o exemplo da Comuna, mas o próprio desenvolvimento dos conselhos operários não se encontra apartado da questão territorial também, muito pelo contrário. O mesmo podemos dizer dos cordones industriales no chile em 73. Mas se formas organizativas surgidas das lutas historicamente, como os conselhos, são raros hoje em dia, e se apresentam mais como exceção do que como regra, não podemos dizer o mesmo das “formas territoriais radicais”? O texto dá a impressão de que a superação do impasse dos “riots” sem acúmulo organizativo se dá pela criação de territórios rebeldes, mas estamos mesmo vivendo uma situação em que essas formas se mostram com mais potência do que a décadas atrás? Vivemos formas mais interessantes e combativas do que aquelas experimentadas pelos camaradas do MST no passado, por exemplo? Fico com uma impressão que o texto mapeia a incapacidade do desenvolvimento de novas formas radicais e generalizantes à partir das lutas nos locais de trabalho, descolando para o território (e daí a opção pelos exemplos que você apresentou), sem a análise de que essas formas também estão enfrentando a “decomposição” do tempo histórico atual. De forma alguma dizer isso é desvalorizar os exemplos que você trouxe, mas é entender que até esses exemplos que encontram continuidade após as lutas explosivas encontrarão sua verdadeira potência em processos posteriores de novas explosão e novas experiências.
Em resumo, não acho que há uma estratégia geral para o tempo, embora possa haver várias estratégias distintas para o período, e essas serão levadas à partir de onde se situam os atores envolvidos nesses processos. Já a estratégia revolucionária (ou estratégias) possível, só o tempo e o desenvolvimento das lutas (em toda sua multiplicidade) apontarão qual será.
Caro, obrigado pelo comentário e pelas questões.
Eu concordo com você – nem toda luta territorial produz necessariamente formas mais radicais. Minha militância vem do movimento de moradia em Belo Horizonte e acho que mais serve como um contra-exemplo do que um exemplo do que descrevi aqui, pois o que produziu foi candidatos à política institucional, mercantilização (informal) da propriedade, e, no máximo, “mais um bairro” na cidade (tentei contar essa história numa série de textos publicados aqui no PP ano passado). Claro, para a urgência que vive a população sem-teto, isso já é muita coisa que possibilita “mudar de vida” sem, no entanto, transformá-la radicalmente.
Certamente o território também vive os efeitos da decomposição do nosso tempo de crises. O que penso (talvez ainda faltem elementos para uma demonstração empírica) é que os territórios parecem oferecer um elemento que falta às revoltas (e não necessariamente oferece mais), isto é, a perenidade: a possibilidade da reprodução cotidiana continuada. Agora, fica a questão de como fazer isso para que não se torne mais um bairro, um colateral para a emissão de papéis financeiros ou uma plataforma eleitoral, por exemplo. Experiências de formas territoriais radicais são raras – talvez mais exceção do que regra, como você aponta. Eu acho que, mesmo sendo raras, é possível aprender muito com essas experiências, de modo que as revoltas não caiam nos problemas elencados nos textos que resenhei aqui.
Oi Thiago, tudo bem?
Chegando com atraso aqui, mas não queria deixar de comentar. É curioso que você comece retomando o “Revolta popular: o limite da tática” para construir um contraponto entre a fugacidade da revolta e a perenidade do território. À medida em que os textos você cita em seguida (“Centralidade do conflito” e “Masterclass”) parecem continuar a linha de raciocínio iniciada no primeiro, o argumento ganha ares de polêmica. Mas esses dois últimos foram escritos por outras pessoas ou pelo menos por composições políticas diferença, e têm quase uma década de distância em relação ao primeiro, com Bolsonaro e pandemia no meio. Curiosamente, acho que tua tese aqui é bem próxima do que eu e o Leonardo estávamos pensando em 2014, quando escrevemos o “Revolta popular”.
Em 2014, estávamos no MPL, intuíamos que o movimento (tanto o coletivo quanto a mobilização do período) tinha batido num limite, e tentamos formular isso num texto. A “tática da revolta popular” (o roteiro do MPL para as lutas contra o aumento) bateu no teto, é preciso “formular uma perspectiva estratégica mais ampla, a perspectiva de uma recusa mais potente, enraizada no cotidiano. É preciso construir o que se tornou imaginável”. Apesar de meio vaga, essa conclusão tinha um sentido bem prático no interior do MPL: significava uma defesa das “comissões regionais” criadas pelo coletivo de São Paulo no pós-junho. Eram coletivos de “luta do transporte” com base territorial nas periferias da cidade, que em 2014 já estavam se desdobrando em algumas experiências de luta interessantes, mas que corriam o risco de serem atropeladas pela agenda de grandes atos (Não vai ter Copa e afins…).
Mas um texto não é só o que está escrito nele, menos ainda a intenção inicial dos autores, às vezes o debate que continuou a partir dele se sobrepõe. Todo esse debate sobre a “centralidade” disso ou daquilo não tava no nosso texto inicial: talvez remonte mais a uma polêmica de 2016, que rendeu várias réplicas e tréplicas aqui no PP, iniciada por um texto de dois militantes de uma organização leninista (ASS/Intersindical) criticando a “centralidade da tática” para os autonomistas (https://passapalavra.info/2016/01/107317/). Enfim, achei que valia a deixa para fazer essa nota “histórica” sobre o debate ao redor desse texto, que vira e mexe reaparece.
Dito isso, hoje acho que os tais limites da revolta (falando amplamente, não no sentido estrito de uma tática das lutas contra o aumento como pensava o texto de 2014) não são só delas. Elas seriam antes paradigmáticas de um problema geral das lutas no nosso tempo, inclusive no território. Nesse sentido, concordo com o Galo, brincando com os estados da matéria: o território pode parecer como uma solidez em meio ao trabalho gasoso, mas talvez “o conjunto de relações de reprodução social que ocorrem em um determinado espaço”, quando experimentadas mais de perto, talvez também andem evaporando. Isso não é uma sentença de morte das lutas, pelo contrário, faz parte de entender o ambiente onde travamos as batalhas contemporâneas. Nesse sentido, vejo tão apressada e ilusória a solução da “centralidade do território” quanto o decreto de que a obsolescência do trabalho “definitivamente aconteceu” (neste texto apresentada como ponto passivo). Na verdade, o que me parece é que as duas esferas (trabalho e território, produção e reprodução) estão mais misturadas do que nunca (e aí a metáfora do gás combina outra vez), o significaria uma multiplicação das possibilidades do conflito de classe. E é a partir deles que podem se forjar “vínculos fortes”, relações sociais de outro tipo, quem sabe, comunistas.
A questão de constituição de laços fortes: eles tendencialmente se constituem quando há uma experiência compartilhada, pessoalmente, criando relações de confiança e empatia, criando uma comunidade. As comunidades de imigrantes tem sido importantes nas lutas trabalhistas de trabalhadores precarizados pelo mundo. As relações no bairro, na Igreja, também em diferentes casos constituiu apoio importante nas lutas trabalhistas. Não só apoio, mas muitas vezes o foco de campanhas trabalhistas de trabalhadores do setor de serviços foi mobilizar a comunidade (ver o livro Forças do Trabalho, de Beverly Silver)
Se hoje esses espaços de sociabilidade fora do espaço-tempo do trabalho parecem ter maior importância para constituição desses laços fortes, é, em parte considerável, devido ao refluxo de lutas significativas a partir dos locais de trabalho, no que podemos chamar de pós-fordismo.
Mas sem atingir os meios de produção, sem paralisá-los, sem controlá-los, tomá-los, me parece que qualquer luta anticapitalista nunca atingirá o objetivo de esvaziar ou acabar com o poder capitalista. Nesse sentido o local de trabalho é ainda central.
Se pegarmos a experiência zapatista, que é bastante territorizalizada, a tomada da terra foi também a expropriação e tomada dos meios de produção. Em 2007 o finado Subcomandante Marcos fez questão de frisar que a base de todos os avanços zapatistas foi a tomada dos meios de produção. E enquanto houver trabalho humano explorado por capitalistas, o local de trabalho será fundamental pra ação humana num horizonte anticapitalista.
Ei Caio, valeu pelo comentário.
Primeiro, não queria estabelecer uma continuidade direta entre os textos RP, CC e MFM. Sei que há momentos históricos e grupos diferentes. DE toda forma, acho que vale a nota histórica! Me explica melhor por que você acha que também no território, quando experimentadas mais de perto, estão “evaporando”. Eu acho que essa condição gasosa é inerente à posição não hegemônica. Não queria dar a entender que há algo inato a todo e qualquer território que possibilita a sua centralidade nas lutas. Isso depende de contexto, organização, etc. Mas acho que, na crise do trabalho, há mais possibilidades na esfera reprodutiva do que na produtiva. Aqui, outra polêmica (ou falsa polêmica?): produtivo x reprodutivo. O que a gente entende por cada uma delas? De toda forma, parece-nos que encontramos um ponto: a centralidade dos vínculos fortes, relações sociais de outro tipo, comunistas talvez. Ponto fundamental que politicamente se sobrepõe à (falsa) polêmica do produtivo x reprodutivo.
Ei, Leo, obrigado também pelo comentário. Concordo contigo — e ainda tenderia a reforçar: não há nada imanente do território (ou da comunidade) que garanta que a luta seja anticapitalista. A Verónica Gago faz um comentário interessante em Economias Barrocas, embora não leve até as últimas consequências, como é o vínculo comunitário de imigrantes que exatamente legitima e possibilita a hiperexploração daquele trabalho. Aqui, eu tenderia a pensar contigo (não tenho muitas certezas): não é a mesma coisa “paralisar” ou “controlar” os meios de produção… Qual pode oferecer mais possibilidades para uma luta comunista?
Engraçado sobre as narrativas de 2013 é que o mpl-sp vinha pautando isso sozinho… pq na verdade a irrupção veio de Porto Alegre que em Abril o Bloco de Lutas pelo Transporte Público sobre forte influência da Frente Autonoma e essa por sua vez pela Federação Anarquista Gaúcha venceu a luta e revogou o aumento naquele momento e dando o impulso que os outros locais precisavam… Tirar porto alegre da cena e focar só em SP é não compreender de fato junho de 2013 e esconder o papel do anarquismo organizado da Coordenação Anarquista Brasileira em tudo aquilo. Sobre a linha geral do texto… sem tirar nem por, é por aí.
Jovemmmm1 – não sei o quão jovem, isto é, se estava naquela época…
Mas se for para dizer “onde começou”, por que esquecer de Goiânia, onde a luta que derrubou a tarifa começou em maio? Na bem da verdade, a primeira cidade onde protestos derrubaram a tarifa em 2013 foi Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, em janeiro. A virada do ano foi marcada por muitos atos na Grande SP. Mas claro, até aí seria uma reconstituição também parcial, afinal em Natal a “Revolta do Busão” tinha derrubado a tarifa em setembro de 2012. Se estamos falando de Natal, por que não falar do Movimento Não Pago em Aracaju logo antes? Ou da revolta que derrubou a tarifa em Teresina em agosto de 2011? Porto Velho no início de 2011? E assim vamos voltando até Florianópolis em 2004 e Salvador em 2003.
No fim, talvez seja seu recorte que confesse uma tentativa de superestimar o “papel do anarquismo organizado da CAB em tudo aquilo”. Mas por que reduzir o papel do MES-PSOL no movimento, especialmente em Porto Alegre, onde foi a ação de um mandato que deu os meios institucionais para a suspensão do aumento? A tentativa de polêmica é inclusive despropositada já que alguém da CAB da época provavelmente argumentaria que eles tinham militantes em coletivos do MPL, enquanto o MPL discutia internamente a possibilidade da Frente Autônoma entrar na federação nacional como o coletivo local de Porto Alegre.
Ao invés de disputar louros das velhas batalhas, valeria mais a pena refletir sobre o derretimento político desses vários espaços, e os novos problemas de hoje.
Eis aqui uma crítica à defesa da centralidade do território: https://blogdaboitempo.com.br/2026/01/21/contra-nego-bispo/.
Será que as propostas presentes neste texto publicado no passa palavra se distancia da cosmovisão de Nego Bispo?
Jovemmm1 e Véio de Guerra – de fato, não foi objetivo do texto construir essa genealogia das lutas, mas estabelecer um diálogo com os textos publicados neste site que partiram dessas experiências.
Territorialista, tentei formular no texto a centralidade do território enquanto algo produzido coletivamente por estruturas coletivas e que dependem de organização, evitando qualquer tipo de essencialismo (que acredito ser o alvo da crítica do Douglas neste texto).