Por União Terra e Trabalho (UTT)
No Ceará, mais de 500 trabalhadores do atendimento da Amazon recebem cerca de R$ 1.389 por mês, por 36 horas semanais. É menos que o salário mínimo do país, de R$ 1.621. Em São Paulo, quem faz o mesmo trabalho, com o mesmo treinamento e a mesma jornada, recebe o dobro, segundo os trabalhadores.
A denúncia veio de uma trabalhadora da operação, que em 2026 gravou vídeos públicos sobre as condições de trabalho. O nome dela fica preservado aqui. A pergunta que ela deixa resume o caso:
“Meu trabalho vale menos que o de uma pessoa que mora em São Paulo?”
Atendimento de casa, para o país inteiro
Desde 2024, a Amazon mantém no Ceará uma central de atendimento em home office. Cada trabalhador atende de casa, por telefone, chat e e-mail, clientes de todo o Brasil. É atendimento receptivo, SAC e ouvidoria. “Nós não atuamos com vendas”, diz a trabalhadora.
A própria empresa deixa o desenho à vista. Uma vaga de 2025 para o Ceará oferecia R$ 1.280 quando o mínimo era R$ 1.518, ou seja, 84% dele. A vaga exigia morar no estado, previa turnos rotativos entre 6h e 24h, inclusive em feriados, e pedia que o trabalhador fornecesse o cômodo silencioso, a mesa, a cadeira e a internet banda larga.
Segundo o relato, a maioria encontra erro no contracheque todo mês e precisa cobrar a correção. Um trabalhador ficou quase dois meses sem receber o salário correto.
Faltam R$ 232 por mês
Para chegar ao mínimo, faltam R$ 232 por mês. Descontado o INSS de 7,5%, sobram cerca de R$ 1.285 no bolso, e só a cesta básica de Fortaleza, R$ 779,96 em setembro de 2026, leva 61% disso.
Pagar o mínimo custaria à Amazon ao menos R$ 3.090 por trabalhador por ano, com 13º salário e férias. Para 500 trabalhadores, R$ 1,55 milhão. Isso equivale a pouco mais de dois minutos do lucro líquido de US$ 77,7 bilhões que a empresa teve em 2025, ao câmbio de R$ 4,975 por dólar de 6 de outubro de 2026. O cálculo é da UTT.
Um patrão, muitos preços
A Amazon organiza o atendimento como uma operação só: mesmo sistema, mesmo treinamento, mesmos clientes. O que muda é quanto ela paga por hora, conforme o lugar onde o trabalhador mora. No Ceará, a hora sai por R$ 7,72. Em São Paulo, por cerca de R$ 15,43. Nos Estados Unidos, o atendimento remoto da empresa começa em torno de US$ 15 por hora, cerca de R$ 75
A justificativa da empresa é o custo de vida. Os números não confirmam: a cesta básica em São Paulo custa 18% mais que em Fortaleza (R$ 922,51 contra R$ 779,96), mas o salário relatado é 100% maior. O que existe é uma desigualdade antiga entre as regiões do Brasil, que a empresa transforma em margem de lucro. A renda por pessoa no Ceará é de R$ 1.390, menos da metade da de São Paulo, R$ 2.956.
Como isso funciona:
- Contratar onde o salário é mais baixo. A vaga exige morar no Ceará, embora o trabalho seja remoto e atenda o país inteiro.
- Prender o salário ao lugar. A lei brasileira aplica ao trabalho remoto as regras e convenções do lugar onde o trabalhador está lotado (CLT, art. 75-B, § 7º). A mesma função passa a valer menos no Nordeste.
- Fugir da categoria. A Amazon diz ser varejista, não empresa de telemarketing, e escapa das convenções que garantem mais que o mínimo por 36 horas.
O trabalho remoto poderia apagar a distância. A empresa faz o contrário: usa a casa de cada trabalhador como posto de trabalho e escolhe a mão de obra mais barata sem mudar de endereço. É a mesma lógica que leva fábricas e centrais de atendimento para onde o salário é menor.
Trabalhar menos não pode ser ganhar menos
A Amazon se apoia numa regra do Tribunal Superior do Trabalho, a OJ 358, que permite pagar o mínimo proporcional a quem trabalha menos de 44 horas por semana. Mas as 36 horas não são escolha da empresa. São o limite legal do teleatendimento, fixado por uma norma de saúde, a NR-17, Anexo II, que diz: “sem prejuízo da remuneração”. A jornada menor existe para proteger quem atende o público o dia inteiro, não para cortar salário.
O Brasil acaba de afirmar o mesmo princípio. Em 14 de outubro de 2026, o Senado aprovou, por 75 votos a 1, a emenda que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas sem redução de salário. A Amazon no Ceará pratica o contrário: menos horas, salário menor.
O que os trabalhadores reivindicam
A UTT apoia as reivindicações dos trabalhadores:
- Nenhum salário abaixo do mínimo do país: R$ 1.621 pela jornada de 36 horas do teleatendimento.
- Reconhecimento da função como teleatendimento, com todas as garantias de saúde da NR-17: jornada de 6 horas, pausas e proteção contra metas abusivas.
- Mesmo trabalho, mesmo salário: fim da diferença entre Ceará e São Paulo.
- Folha de pagamento correta e no prazo.
- Nenhuma retaliação contra quem denunciou.
A resposta também atravessa fronteiras
A Amazon é um patrão global, que usa as fronteiras entre países e entre regiões de um mesmo país para pagar menos. Por isso a UTT preparou um relatório internacionalista sobre o caso, em português e em inglês, para organizações da classe trabalhadora de outros países. Pedimos que tomem este conflito como causa de solidariedade, divulguem o caso e nos ajudem a documentar quanto a empresa paga pelo atendimento em cada lugar.
Se você trabalha ou já trabalhou no atendimento da Amazon, no Ceará, em São Paulo ou em qualquer outro lugar, fale com a UTT pelo e-mail [email protected]. Preservamos a identidade de quem nos procura.
MESMO TRABALHO, MESMO SALÁRIO.

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