Por Jan Cenek
Mario Vargas Llosa [1] inicia o romance Conversa na catedral com uma pergunta incômoda: “em que momento o Peru se fodera?” O romancista mistura o país aos peruanos: “Zavalita era como o Peru: tinha se fodido em algum momento. Pensa: em qual?” Como a pergunta acontece em movimento – entre as avenidas Tacna e Wilson, a caminho da praça San Martín –, fica a impressão de que o Peru se fodeu não apenas no tempo, mas no espaço. Ainda no parágrafo inicial o romancista menciona uma grande fila no ponto em que passam os ônibus que vão para Miraflores, que é o bairro turístico, com calçadão sobre as falésias, de frente para o Pacífico. Então o Peru se fodeu no espaço: entre o bairro sofisticado e o centro de Lima, entre a costa banhada pelo Pacífico e as montanhas da cordilheira dos Andes, entre estas e a selva amazônica. Mas o Peru se fodeu também no tempo, em algum momento específico, quando? Mais que isso, os peruanos são como seu país, ambos se foderam. A pergunta passa por cima dos indivíduos e das fronteiras, é universal. O socrático “conhece-te a ti mesmo” ficou para trás. A questão é: quando a gente se fodeu? A ideia camusiana [2] segundo a qual o suicídio é o único problema filosófico realmente sério também ficou para trás. Saber em que momento a gente se fodeu é mais importante do que julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida.
Já devem ter percebido aonde quero chegar: em que momento o Brasil se fodeu? O mais correto é que tenha se fodido em 22 de abril de 1500, no dia da invasão. Desde então o Brasil foi transformado em colônia de exploração. Uma rima e um destino. Também é possível pensar que a pergunta incômoda unifica a América Latina. Do Peru ao Brasil, da Argentina ao México, passando pela Colômbia e todos os demais países latino-americanos. Em que momento a América Latina se fodeu?
As perguntas anteriores renderiam um textão. Quando acordar à noite angustiado porque o Brasil e a América Latina se foderam, vou tentar enumerar tragédias sociais até pegar no sono. Quem sabe um dia desperte e escreva um textão detalhando quando e por que nós nos fodemos. Antes disso, registro alguns pitacos pontuais, limitados ao Brasil do século XXI.
A ideia de ampliar a pergunta incômoda de Vargas Llosa para o Brasil sempre me atraiu. Mas só consegui rascunhar alguma coisa entre os dois turnos da última eleição. Já era sabido que a extrema direita havia sido a grande vencedora do primeiro turno. Comecei a escrever nos dias imediatamente posteriores ao primeiro turno, quando a esquerda reunia seus cacos e se organizava para “virar votos”. Provavelmente o Brasil se foderia novamente no segundo turno. Mas não faria grande diferença porque o país já estava fodido.
Como não escrevi o tal textão detalhando quando e por que o Brasil se fodeu, vou responder de forma breve. Mas fica o convite para pensarmos. O leitor pode iniciar a reflexão individualmente, sempre que acordar angustiado com o futuro. Já disseram que a ansiedade é excesso de futuro [3], mas fazer o quê? Olhar para o passado talvez nos liberte minimamente da angústia com os dias que virão, ou não. Enfim, segue a minha resposta provisória e limitada:
- O Brasil se fodeu em 27 de outubro de 2002, quando Lula ganhou o segundo turno das eleições presidenciais e afirmou que a esperança havia vencido o medo. É que a esperança é a última que morre porque nos mata primeiro.
- O Brasil se fodeu em 2004 quando, no primeiro governo Lula, foram enviadas tropas para liderar a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). Ali se fortaleceram os generais que mais tarde integrariam o governo Bolsonaro. Em vez de passar a ditadura militar a limpo, fortaleceu o setor linha dura das forças armadas.
- O Brasil se fodeu quando começaram a cair os preços das commodities que exportava. Os fundamentos da economia estavam sólidos, repetia-se à exaustão. Não era bem assim.
- O Brasil se fodeu em 2013 quando o governo petista foi absolutamente incapaz de dialogar com os protestos de rua, além de se aliar com as forças da ordem contra os manifestantes.
- O Brasil se fodeu em 2014, quando construiu estádios discutíveis e acreditou que se consolidaria como potência com a conquista da Copa do Mundo. Veio o choque de realidade: derrota por 7 x 1 para a Alemanha.
- O Brasil se fodeu novamente em 2014 quando a esquerda majoritária chamou voto para Dilma em nome do retrocesso representado por Aécio, daí venceu a eleição e aplicou um ajuste fiscal daqueles.
- O Brasil se fodeu quando ampliou o crédito e transformou pobres em consumidores endividados. Esse setor se tornou um dos pilares de sustentação da extrema direita.
- O Brasil se fodeu em 2018 quando a esquerda – incluindo os setores mais organizados da classe trabalhadora e a extrema esquerda – foi às ruas e ao WhatsApp para dizer “Ele não”! Que nada mais era do que um envergonhado sim para Haddad. Apesar do tamanho razoável do “Ele não”, o candidato da extrema direita cresceu após as manifestações da esquerda. É que a extrema direita não teve vergonha de defender os seus nem de expor o seu programa de destruição.
- O Brasil se fodeu em 2022 quando elegeu para o terceiro mandato um conciliador numa conjuntura em que não havia brechas para conciliações. O Brasil não se fodeu só por causa do Lula nem foi só o Lula que fodeu o Brasil. Seria dar mais importância do que ele tem. Mas, por outro lado, não relacionar o grande conciliador à tragédia brasileira é bizarro.
- O Brasil se fodeu apesar dos setores minoritários da extrema esquerda que defenderam e defendem o voto nulo. O que é o voto nulo se não um limitado “Eles não”?
- O Brasil se fodeu com as reformas trabalhista (do governo Temer) e previdenciária (do governo Bolsonaro). O Brasil pode se foder com as reformas que virão no próximo período.
- O Brasil se fodeu em 2023, quando o golpismo da extrema direita não foi devidamente tratado e julgado. Excluindo os processos midiáticos, a pauta “sem anistia” levitou no limbo.
- O Brasil se fodeu quando a esquerda majoritária terceirizou o combate à extrema direita para o judiciário. O país se fodeu um pouco por dia com cada um dos memes que cutucavam os bolsonaristas e, por tabela, elogiavam um dos ministros do STF. A careca brilhante do tal ministro é um espelho que reflete o vazio imaginativo da esquerda. Pouco tempo depois foram reveladas as relações suspeitas do paladino da justiça.
- O Brasil se fodeu quando o setor majoritário da esquerda assumiu a função ingrata de gerir o capitalismo nacional. A militância de esquerda, que foi para as ruas e para o WhatsApp, virou votos da direita defendendo que as gestões petistas são melhores que as bolsonaristas: bolsa família, elevação do salário mínimo, redução do desemprego. Só que os não convertidos já perceberam que o capitalismo é ingovernável. Como não estão em questão alternativas coletivas contra o capital, dá para intuir por que a extrema direita se fortaleceu. Somente a esquerda acredita que é possível gerenciar o capitalismo.
- O Brasil se fodeu quando a extrema direita aprendeu a jogar no erro e nas brechas da esquerda.
- O Brasil se fodeu porque a classe trabalhadora e a extrema esquerda não criaram nenhuma alternativa a Lula e ao PT por baixo e pela esquerda. Antes pelo contrário, no limite, os setores mais organizados da classe trabalhadora e da extrema esquerda se abrigaram debaixo do guarda-chuva petista sempre que houve tempestades.
A lista é grande e fico por aqui. Alguns vão se irritar com a associação de Lula à tragédia brasileira. Em breve começará a ser repetida a ladainha segundo a qual “não é o momento para criticar Lula e o PT”. Outros dirão que é preciso ter esperança. Uma coisa não está distante da outra. Esperança tem a ver com esperar e aguardar. Por isso que a esperança é a última que morre, é que ela nos mata primeiro, de tanto esperar. A vitória eleitoral da esquerda é significativa porque passou pela mobilização popular. Teremos energia e criatividade para as próximas batalhas? Conseguiremos criar alternativas por baixo e pela esquerda? O Brasil vai se foder se a energia das ruas – decisiva na virada eleitoral – for desperdiçada.
Notas
[1] Mario Vargas Llosa. Conversa na catedral. São Paulo: Saraiva, 2009.
[2] Albert Camus. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2025.
[3] Glauber Ataide. Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio. Petrópolis: Vozes, 2025.





