Por EducaLuta
O cenário das eleições e papel ativo dos trabalhadores
A cada disputa eleitoral no Brasil, repete-se um cenário no qual temos os candidatos da esquerda liberal, capitaneados pelo PT, que querem manter a instituições da República que estão irremediavelmente corrompidas e não apresentam perspectivas de avanços na melhoria das condições de vida dos trabalhadores. O que os candidatos do PT podem apenas prometer é uma defesa abstrata da democracia contra um fascismo abstrato e tentar manter o que resta de programas sociais, pois o que resta a fazer é manter o que ainda está aí. Ou seja, essa posição política/eleitoral não almeja nenhuma melhora substancial nas condições de vida, mas para garantir sua posição de administrador de um Estado em crise é capaz de negociar (pactuar, buscar consenso) do que ainda resta de direitos adquiridos pelos trabalhadores com setores do capital, para manter sua posição de gestor do Estado, tendo acesso a inimagináveis volumes de capital.
Por outro lado, há a extrema direita que se caracteriza por atacar qualquer forma de legislação trabalhista, seguridade social, previdenciária e ambiental, pois quer garantir uma capacidade irrestrita de acumulação de capital aos empresários, pois entende que os marcos da social democracia ou mesmo um liberalismo humanizado já não é possível no capitalismo nos dias de hoje. Por isso há sempre um discurso de austeridade fiscal (corte de gastos) e um brutal ataque ao meio ambiente, para buscar novas fronteiras para acumulação de capital, por exemplo expandindo a fronteira agrícola ou a especulação financeira imobiliária. Esse discurso individualista, do cada um por si, está intimamente ligado à lógica religiosa de que aqueles que ascendem à riqueza são “ungidos” por Deus. A extrema direita faz uma síntese do discurso do empresário de si próprio com a religiosidade conservadora, baseada em uma teologia da prosperidade, mas é incapaz de atender aos verdadeiros anseios e necessidades concretas da classe dos trabalhadores.
Devido ao cenário apresentado acima, as eleições têm um papel menor quando se trata de melhora nas condições de vida do trabalhador. Os dois lados favoritos a administrar o Estado estão comprometidos com a acumulação de capital. Mesmo considerando que um dos lados têm uma visão social liberal e o outro tem uma postura autoritária, ambos estão comprometidos em assegurar as atuais condições de reprodução do sistema e farão a repressão necessária para isso. O que irá determinar se os trabalhadores manterão o que ainda têm de benefícios sociais ou mesmo a possibilidade de avanços, será sua capacidade de organização para resistir e lutar pelas suas demandas, a partir de instrumentos de luta desenvolvidos pelos próprios trabalhadores.

O 5º governo do PT
O PT busca governar o Brasil pela 6ª vez. O partido já representou os anseios por transformação social no país, no entanto já em 2002 – portanto, antes de sua primeira vitória em eleições presidenciais – Lula assinava a sua chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, que ficou conhecida como a “Carta aos Banqueiros”, em que se comprometia em acalmar empresários e investidores com “respeito aos contratos e obrigações do país”. De fato, o PT segue firme no compromisso de garantir ao capitalismo brasileiro e estrangeiro suas melhores condições de reprodução, sem atingir nenhuma estrutura jurídica, política ou econômica.
O governo Lula 3 confirmou mais uma vez esse pacto. Enquanto se apresentava como rival ao agronegócio, garantiu o “maior plano SAFRA da história”. Embora tenha criado um Ministério dos Povos Indígenas, os três primeiros anos de Lula 3 registraram mais assassinatos de indígenas do que os quatro anos de Bolsonaro; foram registrados 169 conflitos relativos a direitos territoriais, e apontou-se que centenas de terras indígenas continuam pendentes de regularização. Enquanto se diz alternativa à extrema-direita, brindou os patriotas com José Múcio no Ministério da Defesa, com aprovação direita de Jair Bolsonaro; Múcio tem longa carreira no PFL (Democratas) e no PTB, sendo um aliado de Roberto Jefferson no Mensalão; Jefferson, agora um bolsonarista, ao fazer a denúncia deste esquema em 2005, colocou o PL no centro do “escândalo” petista.

O atual governo PT também demitiu Ana Moser, do Ministério dos Esportes, dando lugar para Fufuca, do PP, que abrigou bolsonaristas na sua equipe. O Ministério do Turismo foi cedido ao União Brasil, então partido de Sergio Moro. O Ministério do Planejamento e Orçamento foi destinado a Simone Tebet, que votou a favor do impeachment de Dilma Roussef. Luciano Bivar, que abrigou Jair Bolsonaro no PSL, hoje é suplente do senador Humberto Costa, ex-presidente do PT. Em 2024, PT e PL se uniram em 85 disputas municipais. Com a saída de Haddad do Ministério da Fazenda, Dario Durigan – tecnocrata ex-diretor de “políticas públicas do Whatsapp”, da big tech Meta (Facebook, Instagram e Whatsapp) – assumiu o comando da economia e finanças do Brasil.
Nas redes sociais, o petismo usa a expressão “Congresso inimigo do povo”; Lula, por sua vez, declara que conseguiu no Congresso todas as aprovações que precisou. Em entrevista à GloboNews, a ministra Simone Tebet afirmou que infelizmente o governo não encontrou um congresso fiscalista. Ou seja, o próprio Congresso impediu que o governo Lula 3 promovesse cortes mais profundos nos gastos. Tebet afirma que o final de 2026 é uma oportunidade para o Brasil arrochar ainda mais os “gastos”. Fernando Haddad, candidato do PT à presidência em 2018, criador da EBSERH – que terceirizou os hospitais universitários -, e ministro responsável pelo Novo Arcabouço Fiscal (atualização do Teto de Gastos do Temer, batizado na época pelo petismo de “PEC do Fim do Mundo / PEC da Morte”), pretende retirar da Constituição os gastos mínimos com Saúde e Educação. O próprio presidente Lula pretende mudar a Constituição ainda em 2026. O PT quer que as forças federais também sejam responsáveis pela “segurança pública”, o que a atual Constituição não permite. Caso eleito, Flávio Bolsonaro ganhará esta carta branca.
Outra questão que cabe reflexão é que após tantos governos petistas, os dados do Anuário Estatístico do ILAESE 2025/26, explicitam uma superexploração do trabalho no país. Segundo o ILAESE, em 2024, na Comgás, campeã em exploração do trabalho, apenas o equivalente a 16 minutos de uma jornada de oito horas correspondia aos salários e benefícios dos trabalhadores, enquanto as 7 horas e 44 minutos restantes eram classificadas como trabalho não pago. Segundo a PEIC, os dados nacionais de setembro mostram que o endividamento continua atingindo mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras.
Em outubro de 2026, o salário mínimo nacional vigente é de R$ 1.621,00, enquanto o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE para set/26 foi de R$ 7.750,01. Em todos esses anos, o analfabetismo não foi superado, mantendo na casa dos 5,6% em 2022 e 4,9% em 2025. Na segurança alimentar, 6,5 milhões permanecem em insegurança em 2024, segundo o IBGE.
Por fim, o novo governo do PT não cumpriu demandas como a reestatização da Eletrobras e da BR Distribuidora (assim como Lula 2 rejeitou em 2007 o plebiscito popular pela Reestatização da Vale do Rio Doce). Depois de quatro anos de Lula 3, a extrema-direita acaba de ampliar seu número de cadeiras nas câmaras e nos governos estaduais, com aumento da participação de empresários, ruralistas e comerciantes. Fica evidente que o PT não é uma ameaça ao sistema ou à qualquer direita.
E o Bolsonaro, hein?
O que podemos esperar de um governo Flávio Bolsonaro? Seu plano de governo e falas de campanha são caminhos importantes para conjecturar o futuro, contudo, o primeiro passo é recapitular o que sua família e seu espectro político fizeram na última década.

Enquanto “oposição crítica” ao governo Temer, votaram em peso nas medidas que aprofundaram a fragilidade dos vínculos de trabalho e no desmonte garantias trabalhistas e sociais: Reforma Trabalhista, Lei da Terceirização, Teto de Gastos, Novo Ensino Médio e a retirada da exclusividade da Petrobrás na exploração dos poços do pré-sal (Lei nº 13.365/2016).
Já no governo de Jair Bolsonaro, o projeto de desmonte de empresas estatais, principalmente no setor energético, foi mantido com a PPI (Preço de Paridade de Importação) e ampliado com a privatização da BR Distribuidora e de três refinarias, sendo que o objetivo era oito. Ficamos ainda mais reféns das variações do preço do barril de petróleo no mercado internacional e o resultado foi o aumento vertiginoso da gasolina e do diesel, pela primeira vez na história brasileira mais alto que a gasolina, e, consequentemente, dos alimentos. A privatização da Eletrobrás, iniciada com Temer, foi concluída por Jair e vimos o aumento do preço da luz elétrica. O governo Bolsonaro também promoveu a liquidação da empresa estatal de microchips CEITEC, a única do setor no país.
Jair Bolsonaro e seus filhos também levaram adiante a Reforma da Previdência, capitaneada por Paulo Guedes. A idade das mulheres subiu para 62 anos e o cálculo atual diminui o salário dos novos aposentados. Presenciamos os diversos e repetidos descasos diante da pandemia e ainda aguardamos o dia em que Bolsonaro será condenado por estes crimes cometidos contra o povo brasileiro.
Não foram poucas as tentativas do bolsonarismo em emplacar a reforma administrativa, que tem a estabilidade e a ampliação dos contratos temporários como seus principais alvos, sendo um duro golpe na qualidade dos serviços públicos.
O plano de governo de Flávio Bolsonaro intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso”, reúne em nove eixos temáticos elementos que indicam a ampliação do desmonte de empresas e serviços estatais , da precarização das relações de trabalho e do entreguismo.
No primeiro eixo, “Brasil sem Medo”, o plano propõe endurecer a repressão intensificando com um estado policial com objetivos claros de criminalizar a pobreza e legitimar a morte de trabalhadores/as por forças policiais e militares.

O segundo eixo, “Brasil por Elas”, apresenta ações de proteção e autonomia feminina, sendo que as pautas femininas serão resolvidas com aplicativos de celular e capacitações para o emprego.
O terceiro eixo, “Brasil sem Fila”, busca ampliar a digitalização dos serviços públicos, com clara intenção de entregar os dados dos cidadãos às Big Techs.
O quarto eixo, “Brasil Mais Barato”, prevê reduzir custos e prevenir o endividamento e traz como principais motivos a falta de dinheiro das famílias, a cobrança de impostos e falta de educação financeira e não as condições precarizadas de renda e consumo.
O quinto eixo, “Brasil que Prepara”, reúne propostas para educação, saúde, idosos, esporte e cultura com objetivo de entregar a grandes grupos privados e big techs as ações nessas áreas.
O sexto eixo, “Brasil que Prospera”, apresenta incentivos à auto responsabilidade individual por emprego e renda. Defende o negociado sobre o legislado. Passa a ser tarefa do indivíduo procurar, encontrar e executar soluções para problemas sociais produzidos pela sociedade capitalista como falta de trabalho, renda, alimentação, saúde, educação e moradia.
O sétimo eixo, “Brasil que Cresce”, busca priorizar a iniciativa privada na infraestrutura e exploração dos recursos naturais e inovação tecnológica com a entrega e dependência do capital e tecnologias estrangeiras em mineração e inteligência artificial.
O oitavo eixo, “Brasil que Cumpre a Constituição”, busca reformar o STF e o mandato de presidente, com pretensões vagas de mudanças no modelo dos três poderes da república brasileira.

O nono eixo, “Brasil que Não Volta Atrás”, estabelece um “Tesouraço” para reduzir a “máquina pública” com a retomada do Programa Nacional de Desestatização e uma entrega generalizada das empresas públicas à iniciativa privada. O candidato já tem feito acenos ao mercado e estabelecido reuniões com empresários que envolvem debates sobre previdência, reforma administrativa e revisão da recém aprovada fim da 6×1.
Observando a retrospectiva dos governos Temer/Jair e o plano atual, fica a impossibilidade de manter as políticas sociais atuais, como diz o plano de governo, e o objetivo claro e manifesto de fazer um “Tesouraço”. Para o conjunto dos trabalhadores, um novo governo Bolsonaro pretende intensificar a exploração da força de trabalho e dificultar ainda mais as condições de vida. Suas propostas se mostram alinhadas aos interesses das big techs e ao “Escudo das Américas” de Donald Trump, que busca ampliar a presença militar dos EUA na América Latina sob o pretexto de combater o “terrorismo” do narcotráfico. Flávio Bolsonaro é a nova face do velho entreguismo.
O que fazer? Como fazer?
O próximo governo de quem for eleito será de mais “ajuste fiscal”, que implica redução dos gastos sociais. Ambos lados já prometeram. Apesar de tentadora, afirmar ao colega de trabalho com voto diferente do seu, “eu avisei”, não é uma solução, tampouco aceitar a resignação melancólica de quem “perdeu” a eleição. A sabedoria popular é fértil em criar provérbios para explicar as relações da vida cotidiana. Em dias de jogos de futebol é comum ouvir: não importa o time que ganhe o jogo, amanhã terei que levantar para ir trabalhar. Essa frase serve também para pensarmos sobre as eleições e qual a sua importância na nossa vida cotidiana. Não importa o candidato que ganhe as eleições, as condições de vida e trabalho não serão resolvidas a favor dos assalariados e MEI’s (muitas vezes também assalariados, mas juridicamente “empresários”, o que lhes retira direitos tradicionais, como férias, 13º e seguridade social, como licença saúde, aposentadoria, etc.).
Por isso, são os trabalhadores que devem se auto-organizar para reivindicar e pressionar os políticos, seus administradores e os patrões para melhorar as condições de vida e trabalho, sendo quem quer que esteja no poder. Sendo assim, algumas atitudes podem auxiliar nossas lutas. Sabemos que as demandas necessárias para melhorar as condições de vida são várias e temos que ter o pé no
chão, saber medir a nossa capacidade de mobilização. Com isso pensar em reivindicações máximas como aumento de salário para toda a categoria, demanda essa que necessita de uma ampla mobilização e luta de todas categorias, mas também em reivindicações mais imediatas e que melhoram o dia a dia do seu ambiente de trabalho.
O processo da reivindicação mínima e máxima é uma dinâmica pedagógica para os trabalhadores, na qual deve-se ter claro quais os desafios para se organizar com o objetivo de reivindicar e pressionar por um refeitório, por exemplo, e os desafios para lutar por aumentos salariais e jornadas de trabalho dignas. Faça uma reflexão de qual é o nível de consciência do conjunto dos seus colegas e imaginem atividades e tarefas para cada nível, disposição para enfrentamento e a capacidade de organização em seu local de trabalho. Todo mundo deve participar da luta de classes, não somente “esclarecidos” ou mais experientes.

Atualmente, é comum que a organização, mobilização e disposição para o enfrentamento por melhores condições de trabalho seja reduzida. Por isso, é necessário partir de reivindicações que sejam condizentes com os níveis de consciência e da força de mobilização, partindo sempre do menor para o maior. Busque elencar problemas no seu local de trabalho que precisam ser melhorados e que incomodam outros colegas. Sejam condições de alimentação, transporte, conforto ou até mesmo banheiros adequados para as necessidades dos trabalhadores. Tente conversar com colegas que também sofrem com os mesmos problemas, estabeleça um grupo em que seja possível confiar.
Atentem que os patrões e gestores diretos e indiretos (sindicalistas e políticos profissionais) sempre tentarão evitar ao máximo que qualquer tipo de união real e efetiva aconteça entre os trabalhadores. Por isso, é necessário confiança entre os colegas que estejam dispostos a lutar, para que nenhuma informação indevida chegue antes do planejado ao conhecimento das chefias. Não se deve ter nenhuma confiança em ideias abstratas de democracia e liberdade de imprensa e organização. Os patrões desejam saber quem está disposto a se mobilizar para o mais rápido possível reprimir e que essa repressão sirva de exemplo para intimidar qualquer outra iniciativa dos trabalhadores.
Junto com esses colegas estabeleça um espaço seguro para conversas. Elas podem ser tanto de forma virtual/remota ou presencial. Tente despertar nos seus colegas a consciência e a prática de que é através da sua auto-organização queresolver demandas pode ser mais efetivo, bem como acumular experiências e aprendizado. A organização própria é mais efetiva pois não depende de desvios carreiristas e/ou eleitorais. Além disso, é necessário buscar graus mais amplos e mais complexos de organização, também forjados nas batalhas dos trabalhadores.
Por isso, entre os colegas que estão dispostos a lutar, não entre em discussões sobre se é melhor Lula ou a família Bolsonaro. Você encontrará nos dois lados, petistas e bolsonaristas, ou em nenhum dos dois, pessoas que estão dispostas a lutar para melhorar as condições de trabalho. Porém, mantenha no grupo de comunicação apenas aqueles que se provem confiáveis. Com esse grupo estabelecido e com as demandas mapeadas, busquem formas para reivindicar essas demandas. Uma carta aberta, para começar, é possível enviá-la aos colegas, chefes e gestores, assim como enviar para jornais e organizações da sua região. Porém, tomem todos cuidados necessários diante das possibilidades de repressão, evitando personalizar as ações. Nenhuma ação necessita de nomes próprios, mas sim da força coletiva. É importante destacar que a carta aberta é só um exemplo. Dependendo do local de trabalho, outras maneiras podem ser desenvolvidas para demonstrar descontentamento e apresentar as reivindicações de forma direta, sem necessidade de contatos com políticos profissionais ou apelos para o sindicato.

A auto-organização, além de possibilitar uma efetiva busca por melhores condições de vida e trabalho, permite que criemos força e acúmulo de experiências de luta para trilharmos um caminho de superação do sistema de exploração como um todo. Somente assim nós tomamos em nossas mãos as pautas e reivindicações, desconsiderando políticos e instituições que simulam representar nossos interesses. Somente nós, trabalhadores unidos nas organizações criadas na luta e para a luta, sem desvios partidários-sindicais, podemos buscar por uma transformação radical da sociedade. Aqueles que ganham com o sistema, sempre lutarão para deixar como está, seja uma ou outra fração partidária. Na polarização eleitoral, há sempre um ganha-ganha para os de cima.
Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Anne Truitt (1921-2004).





