Por Edson da Silva Freires*

Na manhã de uma terça-feira de 1985, a plataforma de uma estação ferroviária na franja leste da Região Metropolitana de São Paulo ferve. O som metálico dos trilhos avisa que a composição da antiga Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) se aproxima. O que se vê, porém, não é apenas um meio de transporte lotado, mas uma imagem que chocou o país e virou símbolo de uma era: dezenas de jovens e trabalhadores equilibrando-se no teto dos vagões em movimento, desviando de fios de alta tensão, ou espremidos nos estribos com as portas abertas.

Composição da antiga CBTU Fonte: - Wikipédia / Acervo Histórico.

A grande imprensa da época costumava tratar o fenômeno como “irresponsabilidade juvenil”, apelidando aqueles jovens de “surfistas de trem”. No cotidiano das franjas periféricas, o deboche vinha embalado no jargão popular: aquele sistema sucateado e superlotado era o “trem cata-louco”. No entanto, longe de ser um modismo inconsequente ou uma simples falha técnica de engenharia, o colapso dos trilhos nos anos 1980 funcionava como uma violenta engrenagem oculta de controle social e planejamento urbano. O corpo do trabalhador periférico era o motor indispensável para construir a São Paulo do futuro, mas sua presença residencial nessa mesma cidade era proibida.

Duas Cidades, Duas Realidades: O Chão de Fábrica e os Prédios Espelhados

Durante a década de 1980, a capital paulista vivia uma contradição monumental. Os eixos centrais e o quadrante sudoeste expandiam-se verticalmente com grandes centros corporativos de alto padrão, e o subsolo da cidade era cavado freneticamente para a expansão das linhas do Metrô. Para erguer essa muralha de concreto e modernidade, o capital precisava de um exército de braços.

É aí que o mapa da segregação socioespacial ganha contornos reais. Através de leis de zoneamento excludentes e do preço proibitivo da terra no centro expandido, o Estado empurrava essa mão de obra para loteamentos irregulares, áreas de risco e bairros desprovidos de infraestrutura nas franjas do município vizinho de Guarulhos — como as bordas do Jardim Bananal e o distrito dos Pimentas — e nos extremos da Zona Leste de São Paulo.

O espaço urbano tornava-se o espelho da desigualdade: de um lado, o Centro Expandido concentrava os investimentos estatais, redes de transporte modernas e postos de trabalho de alta renda; do outro, a Periferia Metropolitana confinava as classes populares em bairros-dormitório autoconstruídos, cuja única ligação com o centro econômico era um sistema de transportes deliberadamente precário.

A Produção da Cidade-Dormitório sob a Ótica de Flávio Villaça

Para compreender a transformação de bairros de Guarulhos e dos extremos da Zona Leste em cidades-dormitório, a história social precisa dialogar com a arquitetura urbana de Flávio Villaça. Em sua obra, Villaça demonstra que a segregação do espaço intra-urbano é ditada pelas classes dominantes, que manobram os investimentos estatais de transporte em seu próprio benefício. O transporte de alta velocidade e qualidade (como as linhas subterrâneas do Metrô) é priorizado para conectar as zonas de moradia da elite aos seus centros corporativos.

Em contrapartida, as massas trabalhadoras são segregadas nas franjas periféricas através da especulação imobiliária e da barreira do preço da terra. Áreas como o Jardim Bananal, Guaianazes e os Pimentas tornaram-se repositórios residenciais exclusivos para a reprodução da força de trabalho. Na lógica metropolitana da época, o trabalhador só tinha o direito de acessar o centro como um objeto de trânsito rápido e barato para o patrão, sendo compelido a passar o restante de suas horas em trânsito ou dormindo nas margens esquecidas da cidade.

A Baldeação como Tortura Clandestina e a Voz da Memória

Para o operário da construção civil residente em Guarulhos, por exemplo, a jornada de trabalho começava horas antes do amanhecer. Não existia uma linha direta ou integrada. O trajeto era um circuito penoso de baldeações: ônibus municipais sacolejantes em vias de terra, longas caminhadas e, finalmente, o funil das estações ferroviárias de subúrbio.

Como defendia o historiador Edward P. Thompson, a experiência de classe é forjada no cotidiano, na forma como as pessoas vivem as imposições do sistema econômico. No contexto metropolitano paulista, a baldeação diária não era um detalhe logístico; era um ritual de esgotamento físico. Viajar pendurado ou no teto não era uma escolha ousada, mas o limite físico imposto a quem, se perdesse aquela composição atrasada e lotada, perderia também o emprego e o sustento da família.

A crueza desse sistema não ficou registrada apenas nos relatórios técnicos; ela está gravada na memória viva de quem cruzava essa fronteira metropolitana. Aquele sistema vivia abarrotado de surfistas e de pessoas penduradas nas portas que simplesmente não fechavam, equilibrando marmitas e com um cigarro sem filtro na boca enfrentando a jornada.

Fonte: Revista Trip / Acervo de Imagens Históricas.

Para um jovem da época, que saía da periferia em direção ao centro com o sonho de olhar os instrumentos musicais nas vitrines da rua Santa Ifigênia, a transição entre os sistemas de transporte escancarava a segregação. Ao desembarcar na Estação Penha do Metrô — uma estrutura moderna e funcional —, bastava olhar para a linha paralela para enxergar o descaso: o “bate-lata” da CBTU, uma frota totalmente lascada, passando e estalando os eixos nos trilhos feito uma velha máquina a vapor. Essa fratura exposta era a tradução visual de uma metrópole que escolhia quem viajava com dignidade e quem era empurrado ao limite do risco.

Uma Chaga Nacional: O Espelho das Outras Metrópoles

O cenário vivido nos trilhos que conectavam Guarulhos à capital paulista estava longe de ser uma exclusividade regional. Na verdade, o colapso estrutural da CBTU e da RFFSA era uma chaga nacional; a crise estava escancarada no Brasil todo.

No Rio de Janeiro, a situação nos ramais da Baixada Fluminense e da Zona Oeste (gerenciados pela antiga Flumitrens e RFFSA) empilhava corpos nos tetos e estribos sob o mesmo silêncio estatal. Passageiros eram diariamente expostos a passarelas de ferro baixas e redes aéreas de 3.000 volts, o que resultava em decapitações e eletrocussões frequentes, geralmente omitidas pela grande mídia. Da mesma forma, em Salvador e Recife, os trens que ligavam as periferias urbanas aos centros econômicos operavam no absoluto limite do sucateamento, com frotas obsoletas e portas abertas travadas pelo excesso de passageiros.

O “surfe ferroviário” e o fenômeno dos “pingentes” foram, portanto, a expressão máxima de um modelo de metropolização brasileiro. O que mudava era apenas o sotaque regional; a engrenagem de moer o corpo e o tempo da classe trabalhadora periférica funcionava sob o mesmo roteiro de descaso de norte a sul do país.

A Lente dos Jornais contra o Descaso Planejado

Ao abrirmos as páginas amareladas da grande imprensa paulista e nacional da década de 1980, a contradição do sistema fica escancarada. As manchetes de jornais como O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo costumavam tratar as mortes e os acidentes nos trilhos sob a ótica da falta de educação do passageiro ou da imprudência juvenil. Noticiava-se com frequência os corpos recolhidos nos trilhos como vítimas da “febre do surfe ferroviário”.

O que a imprensa comercial raramente aprofundava eram as páginas dos relatórios técnicos que admitiam intervalos absurdos entre os trens, falta crônica de manutenção nas frotas e a ausência completa de portas automáticas funcionais. A “irresponsabilidade” apontada pelas autoridades era, na verdade, a única alternativa de sobrevivência em um sistema em colapso.

Enquanto os investimentos públicos massivos eram canalizados para erguer os bairros corporativos da elite paulistana e as linhas modernas do Metrô subterrâneo, o transporte de subúrbio que alimentava essa mesma construção civil operava no limite do sucateamento. Conforme as dinâmicas apontadas por Milton Santos sobre os sistemas de objetos e ações, o corpo e o tempo do trabalhador eram tratados pelo planejamento estatal como engrenagens sacrificáveis para a modernização do centro das metrópoles.

Embora os “surfistas de trem” tenham sumido das manchetes com a modernização gradual do sistema nos anos 1990, a cicatriz urbana da década de 1980 continua aberta. A barreira invisível entre as periferias e os eixos centrais ainda se faz sentir nas horas gastas em conduções lotadas e na histórica falta de habitabilidade social nas áreas centrais. Lembrar do “cata-louco” e do colapso ferroviário nacional não é apenas revisitar o passado; é entender os mecanismos políticos e econômicos que desenharam as linhas da desigualdade que dividem as nossas cidades até os dias de hoje.

* Graduado em Engenharia Civil e Pesquisador Independente em História Social Urbana

Referências Teóricas:

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. EdUSP, 2006.
THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum: Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional. Companhia das Letras, 1998.
VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-Urbano no Brasil. Studio Nobel, 2001.

Referências Eletrônicas:

WIKIMEDIA COMMONS. Ficheiro: Estação Engenheiro Sebastião Gualberto (1994). Disponível em: <wikipedia.org>. Acesso em: 10/2026.
REVISTA TRIP. Mar raivoso: A ousadia e o protesto dos surfistas ferroviários no Rio de Janeiro. Disponível em: <uol.com.br>. Acesso em: 10/2026.

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