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Por União Terra e Trabalho (UTT)*

A Blaze nasceu em 2019, tem matriz no exterior e virou uma das marcas mais conhecidas das apostas no Brasil. Patrocina Neymar e usou influenciadores com dezenas de milhões de seguidores. Pelo balancete obtido pela Folha de S.Paulo, entre janeiro e novembro de 2025 a operação brasileira recebeu R$ 11 bilhões em depósitos de jogadores, teve receita bruta de R$ 1,9 bilhão e lucro de R$ 361 milhões, uma margem de 33%. No mesmo período, gastou R$ 330 milhões com publicidade e mandou R$ 350 milhões em dividendos para a sede fora do país.

Conversamos com um trabalhador do setor de atendimento ao “usuário” da empresa. Ele entrou antes da regulamentação do setor e acompanhou, de dentro, a passagem da clandestinidade para a licença federal e, agora, da licença para a proibição. É que em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória 1.394 vetou as apostas de quota fixa no país. As notas e os dados em destaque são da UTT.

O vício em apostas causa prejuízos às comunidades tal qual o álcool e o cigarro. A fala de um operador deste sistema pode ajudar a educar a classe trabalhadora sobre a verdade escondida por debaxo dos panos.

Entrar, ficar, ver de perto

Como você chegou na Blaze?

Entrei antes da regulamentação. Já tinha gente lá havia dois, três anos. Meu contrato era com uma empresa de Curaçao (uma pequena ilha holandesa na Venezuela) chamada Prolific. Ela pagava direto no Pix. Não tinha sistema que declarasse imposto: o dinheiro caía e eu que me virasse com a Receita.

E o que mudou com a regulamentação?

O curioso é que a regulamentação foi mais mal vista pela galera de dentro do que o contrário. Teve gente que pediu para sair naquela época. E eles não regularizaram todo mundo. O que se dizia no corredor, e é boato, é que a Blaze tinha uns 10 mil trabalhadores antes. Quando se regulamentaram, fecharam a operação praticamente só para o Brasil e cortaram muita gente, acho que entre 500 e 600 pessoas do time externo. Era tudo contrato com gente de fora, nada assegurado. Foi muito fácil desligar.

Como é o trabalho no dia a dia? Tem pressão, controle do tempo?

Prefiro não entrar muito no lado trabalhista. Eu ganho acima do mercado e já trabalhei em lugar pior. Mas a empresa é desorganizada, parece startup: nenhum processo definido, tudo no boca a boca. Um decide uma coisa, daqui a pouco muda.

Desde a regulamentação, começaram a pressionar a gente a se mudar para São Paulo. Dizem que é híbrido, mas são quatro dias no escritório e um em casa. Ofereceram uma ajuda de custo de uns R$ 500 para a mudança, com o mesmo salário, para morar numa cidade muito mais cara. Quase ninguém que eu conheço foi. O ápice foi quando tiraram nosso vale-alimentação, por uns três meses este ano. Do nada, voltaram com ele, depois da canetada do Lula. Disseram que “ouviram os funcionários”. Ficam as teorias.

Como o trabalho está dividido?

Tem suporte ao cliente, tinha um time de qualidade que avaliava a gente, um pessoal para problemas técnicos da plataforma e uma equipe só de pagamentos. Depois isso se misturou e todo mundo passou a processar pagamento também. É muita gente, atendendo duas marcas: a Blaze e a Jonbet. A Jonbet era para ser a bet do Jon Vlogs, mas é a mesma empresa. Os contratos com fornecedores são iguais. Só se separa na tela.

As engrenagens

O que vocês são orientados a fazer quando alguém tenta sacar um valor alto ou tem a conta zerada?

Sempre tem alguma explicação, mas sucinta e mal explicada. A mais comum é a tal da referral fraud, a fraude de indicação. A pessoa entra no programa de indicação e o sistema pode simplesmente banir a conta. Tem quem abuse, que espalha o link em vários grupos para gente criar conta, e eu já vi isso. Mas tem caso sem explicação nenhuma: gente com milhares de reais na conta, ou que já gastou milhares jogando, banida porque uma indicação foi classificada como fraude.

E nós também não temos a explicação. A orientação é mandar a pessoa para o e-mail. Lá, a equipe de tickets responde mais ou menos assim: “fizemos a verificação, você fraudou, conforme os termos de serviço que você aceitou ao criar a conta”. E acabou. Não diz por quê, não manda nada específico. Raramente se cita lei. Aí a pessoa que se vire na Justiça.

E quando é algo que dá para verificar na hora?

Um exemplo é o cashback semanal. Dependendo do nível de aposta, a pessoa recebe de volta parte do prejuízo. Muita gente reclama que o valor veio errado, e o cálculo está lá, bonitinho. Só que ele é feito para pegar rato. A pessoa acha que vai recuperar parte de tudo o que perdeu, mas se teve algum ganho no período, esse ganho é descontado. Tudo é montado para enganar.

E quando o cliente chega com provas de erro da plataforma, uma aposta que ele não fez, saldo sumindo?

A ordem é culpar o usuário. Fraude de cashback, fraude de indicação, fraude de tudo. O dispositivo dele não funcionou, a conexão deve ter caído. Quase 100% das justificativas são essas. Se ele tem um print ou uma gravação de tela, aí o papo é “vamos entrar em contato com o provedor do jogo”, manda para o e-mail, e eu nunca soube o que acontece depois. Se não tem print, não tem choro nem vela. Está nos termos de serviço, e eles se escoram nos termos como se fossem lei, uma Constituição.

Como é a divisão entre o cliente comum e o grande apostador?

Existem os VIPs, e alguns poucos VIPs têm gerente VIP. Não sei como é feita a classificação. Com eles, quase tudo é resolvido direto com o gerente, pelo WhatsApp. Para nós sobra pouca coisa, tipo um saque que demora. Mesmo aí tem diferença: se um cliente comum está esperando um saque de R$ 10, a gente manda um texto pronto. Para o VIP, tem que escrever na mão, personalizado.

E as travas de segurança, como o reconhecimento facial? São retiradas para quem movimenta milhões?

Essa parte eu não sei. Já é com o gerente, e eu não trabalho lá. Mas é tudo direto pelo WhatsApp, tanto que vazaram recentemente umas conversas daquele cara (Willer Tomaz).

Quem manda e onde fica a informação

De onde vêm as ordens? Fica evidente para vocês que existe uma fachada jurídica?

Fica, e por um motivo simples: a gente não conhece os nossos chefes. Conhecemos um dos administradores que está no CNPJ, que na prática é o nosso chefe, e uma pessoa abaixo dele. Acabou. Os outros administradores, ninguém sabe quem são. Quem pesquisa um pouco acha a razão social, Foggo Entertainment Ltda., e uma sócia chamada Purple & Green, que por sua vez é de outra empresa. Está tudo no Google, é só procurar o CNPJ.

Onde ficam os sistemas que vocês usam? Há orientação sobre o que fazer se a polícia ou a Justiça intervierem?

As orientações sobre informação são rasas e quase sempre jogam a responsabilidade em nós. Tentaram instalar aqueles programas de monitoramento remoto de computador corporativo, mas não passou, porque eu uso meu computador pessoal e eles não podem botar isso nele.

Fora isso, é tudo em serviço conhecido: Google Drive, Gmail, Zendesk para o atendimento, Slack para a comunicação interna. Nada em servidor próprio, nada num lugar físico. Tudo na nuvem, fácil de se livrar. Depois que saiu a notícia daquele advogado que teria lavado dinheiro pela Blaze, eles apagaram tudo o que havia de antigo no Slack. Tudo. Eu só tenho alguns prints.

A proibição e o que vem depois

“Sou totalmente a favor da proibição. Completa”

Como a empresa reagiu à MP que proibiu as bets?

Saiu um discurso, inclusive em textos que eles espalharam, de insegurança jurídica, de que é pior para a população o negócio ficar clandestino. Classe trabalhadora eles não falam, é “população”. A empresa age como se a MP fosse cair logo.

Primeiro disseram que não iam demitir ninguém. Esta semana demitiram metade dos trabalhadores. Eu fiquei na parte que não foi demitida. E, por mais estranho que pareça, a maioria recebeu a demissão com felicidade. Depois de tanta tentativa de expulsar a galera do home office, ser demitido com todos os direitos, e ainda poder processar a empresa depois, virou alívio. Agora está tudo parado. Eu bato o ponto e fico, basicamente de férias, recebendo salário.

E qual é a sua posição sobre a proibição?

Trabalhando nesse setor, vendo os processos por dentro, a pilantragem e as empresas de fachada, sou totalmente a favor da proibição. Completa. Não só do cassino: da aposta esportiva online também. O acesso é fácil demais e o controle, muito difícil. Se alguém disser que precisa de algo para a galera se divertir, acho menos pior liberar cassino físico do que manter isso.

As pessoas acham que pagar R$ 30 milhões de outorga e regularizar funcionário é um custo pesado para essas empresas. Não é. Elas movimentam bilhões e bilhões. Vi uma notícia de que o custo para o SUS com ludopatia é várias vezes maior do que o imposto que elas pagam. E esse dinheiro vai embora. Pega uma Betano: aparece como coisa brasileira, patrocina Brasileirão, Flamengo, mas é empresa gringa. Pelo que conversei com gente de lá, quase tudo o que entra aqui sai do país. Não fica no nosso povo.

* Informação de autoria: A União Terra e Trabalho (UTT) é uma articulação nacional criada em 2026 por organizadores de base que propõe a reconstrução do sindicalismo revolucionário no Brasil através dos locais de trabalho e comunidades. Tem como método a investigação junto ao povo e a ação coletiva por meio da autonomia política e da soberania econômica. Está presente no Ceará e no Rio de Janeiro. https://uniaoterraetrabalho.org

 Ilustramos esta entrevista com a reprodução de uma obra de Lee Ufan.

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