Por André Antunes

Nas 3 semanas infindas que se passaram, andávamos pelas ruas em grupos, até que éramos interpelados pelas estranhas “coisas de esquerda” que passávamos a sinalizar. Não eram broches, não eram adesivos, não eram bandeiras. Nossa pura existência no mundo, com nossos cabelos, nossas roupas e nossos trejeitos produzia uma estranha reação daqueles que nos viam. Éramos surpreendidos com gritos acalorados de “Lula!”, ou então com confrontações coléricas ao estilo “Bolsonaro!”. Novamente: durante esses dias, não carregamos broches, nem adesivos, nem bandeiras. A identificação instantânea, ora como “dentro” de um grupo, ora como “fora”, também produzia em nós uma reação imediata, a depender do interlocutor: “vai tomar no cu!” para aqueles que gritavam Bolsonaro; “faz o L!” para aqueles que gritavam Lula.

Mas e se, em um exercício hipotético, aqueles dias nunca tivessem realmente passado? E se, de súbito, todos fossem transformados em in-groups e out-groups? Pois não foi justamente isso que aconteceu? Aqueles “de esquerda”, em suas mais diversas formas, passaram a tratar-se a partir de um abstrato “nós”, em uma frente amplíssima sem distinções. Por outro lado, a variedade de visões, percepções e experiências de mundo daqueles “de direita” deu lugar a “eles”.

A bem da verdade, foi a própria população brasileira que se fraturou. A situação eleitoral transformou-se em um 50/50. E assim, todos nós, sem exceção, descobrimos o pior da ideologia petista que tanto criticamos: sua efetividade manifestada como uma falsidade socialmente objetiva. O fato de estarmos reféns do PT, entrando em uma paranoia contra “infiltrados”, empreendendo recuos táticos, tudo isso foi posto como uma condição objetiva para nossa própria sobrevivência. Novamente, fomos todos capturados pelo encanto. Dessa vez, como das outras, para “salvar a democracia”.

Mas e se fôssemos ainda mais longe em nosso esforço imaginativo? E se, de um dia para a noite, estivéssemos envolvidos em uma guerra de todos contra todos, em que, andando pelas ruas, corrêssemos o risco de ser identificados (e de reagir) a qualquer momento? Os vídeos de agressões e confrontos inesperados entre petistas e bolsonaristas são uma síntese dessa situação, de uma guerra sem fim contra o “outro”.

Com isso, trago uma nova anedota. Na véspera das eleições, em 23 de outubro de 2026, eu e alguns amigos nos deslocamos da Praça Cívica da Universidade Federal de Juiz de Fora, dirigidos pelo DCE pelego, rumo à Praça Antônio Carlos. Lá, ao fim do trajeto, após gritarmos nas ruas em apoio a Lula, nos transformamos em um pequeno ponto vermelho em meio à cidade que passava a sinalizar para si mesmo. Na Praça era transmitido o debate presidencial entre Lula e Flávio. Em um espaço povoado apenas por eleitores de Lula, os gritos iniciavam-se em comemoração a cada fala – reitero: cada fala – do presidente Lula (até aquela já bem conhecida do “para o trabalhador proteção, para o bandido prisão”). Ao mesmo tempo, cada fala de Flávio era acompanhada de vaias e xingamentos histéricos, em uma atitude de reação automática, quase como se as pessoas ali estivessem enfrentando diretamente o Flávio Bolsonaro em pessoa. Do outro lado do mundo (ou do “nosso” mundo) estava quase metade dos brasileiros que não votaram em Lula – e que, é sempre bom lembrar, rejeitam fortemente ambos os candidatos. Gritamos, naquele momento, muito mais para dizer que “nós” tínhamos a Verdade (seja lá o que o “nós” signifique).

Como sair desse engodo? Como burlar essa falsidade socialmente objetiva? Como “desalistarmos” (com o perdão do neologismo) de um exército cujo general nem escolhemos e que, não obstante, seguimos as ordens? Como os jovens, que se formaram na brasa desse processo, poderiam transitar da defesa de Lula e do PT para uma crítica ferrenha e fundamentada? A tendência parece ser contrária, ainda que não se deva ignorar o nosso papel em construir contratendências. Mas afinal, essas alternativas realmente estão sendo construídas?

Não almejo conceder respostas às perguntas, mas, antes, fazer-nos pensar. Pensando essas aflições, recordei Pasolini, o cineasta e poeta italiano que, em 1973, publicou no jornal Corriere della Sera o artigo O discurso dos cabelos. Nele, ele relatava: “A primeira vez que vi os cabeludos foi em Praga. No hall do hotel onde estava hospedado entraram dois jovens estrangeiros com os cabelos compridos até os ombros. Atravessaram o hall, dirigiram-se a um canto um pouco apartado e sentaram a uma mesa. Ficaram sentados ali durante uma meia hora, observados pelos clientes, por mim inclusive; depois foram embora. Tanto ao cruzarem com as pessoas apinhadas no hall, quanto durante o tempo em que estiveram sentados em seu canto apartado, os dois não disseram uma só palavra (talvez – embora não me lembre bem – tivessem cochichado alguma coisa entre si; mas, suponho, algo de estritamente prático, inexpressivo).

No relato de Pasolini diante dos enigmáticos cabeludos, transparece o silêncio. Aqueles jovens eram portadores de uma linguagem não verbal. Mas o que dizia essa linguagem proveniente do domínio imediato dos “signos”, da semiologia?

Era a seguinte: “Somos dois cabeludos. Pertencemos a uma nova categoria humana que está neste momento aparecendo no mundo, que tem seu centro nos Estados Unidos e que, na província (como por exemplo – ou melhor, sobretudo – aqui em Praga), é desconhecida. Para vocês, portanto, somos uma Aparição. Exercemos nosso apostolado, já plenos de um saber que nos farta e nos exaure totalmente. Nada temos a acrescentar oral e racionalmente àquilo que física e ontologicamente dizem nossos cabelos. Graças também ao nosso apostolado, o saber de que estamos plenos pertencerá também a vocês um dia. Por enquanto é uma novidade, uma grande novidade, que cria no mundo, junto com o escândalo, uma expectativa: a qual não será traída. Têm razão os burgueses em nos olhar com ódio e terror, porque aquilo em que consiste o comprimento de nossos cabelos contesta-os de forma absoluta. Mas não nos tomem por pessoas mal-educadas e selvagens: estamos conscientes de nossa responsabilidade. Não olhamos para vocês, ficamos na nossa. Façam vocês o mesmo e aguardem os acontecimentos”.

Parece-me que os “jovens cabeludos” de Pasolini, operando uma estranha linguagem não verbal, não só se multiplicaram, mas também passaram a olhar de volta e a reagir. De súbito, viramos todos cabeludos, obrigados a contestar ou validar cada grito vindo do lado contrário ou do abstrato “nós”. Ser “de esquerda” passou a significar transmitir “signos” de esquerda, ou “coisas de esquerda”. Ainda que, lá no fundo, todos nós tenhamos consciência de não sermos pelegos, nem oportunistas, nem performáticos, já estamos bailando nesse compasso. Para os “outros”, somos todos “petistas” e devemos olhar de volta e reagir enquanto tais. A paixão pelo Real que reinou na esquerda do século XX, cujo objetivo se resumia a revelar a Verdade por trás das relações sociais, converteu-se na paixão pela imagem. Não importa o que somos, o que importa é como aparecemos, como somos lidos e codificados. O poder codificou-se e, no limite, nos tornamos todos “petistas” e “bolsonaristas”. Quando a realidade cobra de nós olhar de volta e (re)agir, não somos nós que decidimos os movimentos bruscos que se seguem.

Ilustramos este artigo com reproduções de obras de Sonia Delaunay (1885-1979).

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here