Por Joshua Clover
Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.
para Oakland, para a comuna
A. Uma ordem violenta é desordem; e
B. Uma grande desordem é uma ordem.
Estas duas coisas são uma. (Páginas de ilustrações.)
—“The Connoisseur of Chaos,” Wallace Stevens
Você sabe como conseguir, sem entrada, sem dinheiro nunca, dinheiro não dá em árvore de jeito nenhum, só os brancos têm, fazem com uma máquina, para te controlar, você não pode roubar nada de um homem branco, ele já roubou, ele te deve tudo o que você quiser, até a vida dele. Todas as lojas abrirão se você disser as palavras mágicas. As palavras mágicas são: Contra a parede, filho da puta, isso é um assalto! Ou: Quebre a janela à noite (essas são ações mágicas), quebre as janelas durante o dia, a qualquer hora, juntos, vamos quebrar a janela e tirar a merda de lá. Sem entrada. Sem tempo para pagar. Pegue o que quiser.
—“Black People!”, Amiri Baraka
Agradecimentos
Como muitos outros livros de teoria política, este livro é fruto de mobilizações políticas que, por sua vez, orientaram grupos de leitura, pesquisas e inúmeras discussões. Em todas essas variadas circunstâncias, tenho sido grato pela amizade, discernimento e diligência — literal e figurativa — de Ian Balfour, Ali Bektaş, Lauren Berlant, Sean Bonney, Bruno Bosteels, Shane Boyle, Sarah Brouillette, Lainie Cassel, Maya Gonzalez, Virginia Jackson, Neil Larsen, Laura Martin, Phil Neel, Sianne Ngai, Will O’Connor, Simone Pinet, Nina Power, Louis-Georges Schwartz, Tim Simons, Michael Szalay, Alberto Toscano, Wendy Trevino e Derek Zika. Provavelmente esqueci alguns. As formulações iniciais foram propostas por Beverly Silver, incentivadas por William Sewell, e desenvolvidas posteriormente em visitas ao Centro de Teoria Social e História Comparada de Robert Brenner e ao Centro Arrighi de Estudos Globais. A produção deste livro não teria sido possível sem o apoio de Sebastian Budgen e do pessoal da Verso, de David Theo Goldberg e do Instituto de Pesquisa em Humanidades da Universidade da Califórnia, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Warwick e da assistência editorial de Deborah Young.
Seeta Chaganti e Carol Clover proporcionaram as condições de possibilidade. Sou particularmente grato aos camaradas cujos pensamentos e ações são os nervos e tendões deste livro, incluindo Aaron Benanav, Jasper Bernes, Chris Chen, Tim Kreiner, Colleen Lye, Annie McClanahan, Chris Nealon e Juliana Spahr. E quando tudo estiver terminado, dê-me sua mão para que possamos recomeçar do início.
INTRODUÇÃO
Uma Teoria da Revolta
As revoltas estão chegando, já estão aqui, outros estão a caminho, ninguém duvida disso. Eles merecem uma teoria adequada.
Uma teoria da revolta é uma teoria da crise. Isso é verdade em uma dimensão específica e local, em momentos de vidros quebrados e incêndios, em que a revolta é considerada a irrupção de uma situação desesperadora, a pauperização até o limite, a crise de uma determinada comunidade ou cidade, de algumas horas ou dias. Entretanto, a revolta só pode ser compreendida como tendo uma significação estrutural e imanente, para parafrasear Frantz Fanon, na medida em que pudermos descobrir o movimento histórico que fornece sua forma e substância. Devemos, então, passar para outros níveis, nos quais as instâncias aglutinadoras próprias das revoltas são indissociáveis da crise capitalista contínua e sistêmica. Além disso, a revolta como uma forma particular de luta ilumina o caráter da crise, torna-a novamente pensável e oferece uma perspectiva a partir da qual podemos ver seu desdobramento.
A primeira relação entre a revolta e a crise é a do excedente. Isso já parece um paradoxo, pois tanto a crise quanto a revolta são comumente entendidos como decorrentes de escassez, carência, privação. Ao mesmo tempo, a revolta é a própria experiência do excesso. Excesso de perigo, excesso de informação, excesso de equipamento militar. Excesso de emoção. De fato, as revoltas já foram conhecidas como “emoções”, uma história ainda visível na palavra francesa: émeute. O excesso crucial no momento da revolta é simplesmente o dos participantes, da população. O momento em que os partidários da revolta excedem a capacidade de gerenciamento da polícia, quando os policiais fazem sua primeira retirada, é o momento em que a revolta se torna totalmente ela mesma, se afasta da continuidade sombria da vida cotidiana. A incessante regulação social que parecia ideológica, onipresente e abstrata é, nesse momento de excesso, revelada como uma questão prática, aberta à contestação social.
Todos esses excessos correspondem a transformações sociais mais amplas, das quais essas experiências de excesso afetivo e prático são indissociáveis. Essas transformações são as reestruturações materiais que respondem à crise capitalista e a constituem, e que apresentam excedentes de capital e população como características centrais. E são elas que propõem a revolta como uma forma necessária de luta.

“Qualquer população tem um repertório limitado de ação coletiva”, observa Charles Tilly, grande historiador dessas questões. Escrevendo em 1983, ele mede uma transformação histórica singular, uma mudança oceânica cujas marés se espalharam logo ou tarde pelo mundo industrializado:
Em algum momento do século XIX, as pessoas da maioria dos países ocidentais abandonaram o repertório de ação coletiva que vinham usando há cerca de dois séculos e adotaram o repertório que usam até hoje [1].
A mudança em questão foi da revolta para a greve. Desde a passagem marcada por Tilly, ambas as táticas existem no repertório; a questão é saber qual delas predomina, fornecendo a orientação principal na guerra incessante pela sobrevivência e pela emancipação. A percepção de um recuo da revolta nessa narrativa tem sido um lugar-comum. A frase de abertura do popular volume Rioting in America, de 1996, nos informa: “As revoltas fazem parte do passado americano” [2]. Mas o passado nunca está morto. Ele sequer é passado.
Na verdade, outra transformação já estava em andamento: desde os anos 60 ou 70, a grande mudança histórica se inverteu. À medida que as nações superdesenvolvidas entraram em uma crise contínua, ainda que irregular, a revolta voltou a ser a principal tática no repertório da ação coletiva. Isso é verdade tanto no imaginário popular quanto no domínio dos dados (na medida em que tais questões permitem a comparação estatística). Independentemente da perspectiva, as revoltas alcançaram uma resoluta centralidade social. As lutas trabalhistas foram, em sua maioria, reduzidas a ações defensivas esfarrapadas, enquanto a revolta aparece cada vez mais como a figura central do antagonismo político, um espectro que surge em debates insurrecionais, em estudos governamentais ansiosos e em reluzentes capas de revistas. Os nomes se tornaram pontos cardeais de nosso tempo. A nova era de revoltas tem raízes em Watts, Newark, Detroit; passa pela Praça Tiananmen em 1989 e Los Angeles em 1992, chegando ao presente global de São Paulo, Gezi Park, San Lázaro. A revolta proto-revolucionária da Praça Tahrir, a revolta quase permanente da Exarcheia, a virada reacionária da Euromaidan. No núcleo crepuscular: Clichy-sous-Bois, Tottenham, Oakland, Ferguson, Baltimore. São muitos para contar.
A teoria é imanente à luta; muitas vezes ela precisa se apressar para alcançar uma realidade que se acelera. Uma teoria do presente surgirá de seus confrontos vividos, em vez de chegar à cena carregada de homilias e prescrições retroativas a respeito de como a guerra contra o Estado e o capital deve ser travada, programas que, segundo nos dizem, alguma vez funcionaram e que agora podem ser renovados e impostos mais uma vez em nosso momento bastante distinto. O subjuntivo é um modo adorável, mas não é procedimento do materialismo histórico.
Aqui chegamos a uma espécie de encruzilhada. De forma muito esquemática, a associação da estrutura analítica de Marx com uma descrição leninista da estratégia política — centrada na organização proletária em direção ao partido revolucionário e na tomada do Estado e da produção — está profundamente sedimentada. A revolta não tem lugar nesse cenário conceitual. Com frequência, entende-se que a revolta não tem política alguma, é uma irrupção espasmódica que deve ser lida de forma sintomática e talvez receba uma dose paternalista de simpatia. Aqueles que atribuíram à revolta o potencial de uma abertura insurrecional para uma ruptura social geralmente vêm de tradições intelectuais e políticas indiferentes ou até mesmo antitéticas ao comando do Estado e da economia, mais notoriamente (mas não exclusivamente) as de algumas vertentes do anarquismo [3].
Isso expressa uma ligação subterrânea do comunismo, tanto por céticos quanto por adeptos, com a “organização” como tal, e mais ainda com algum partido de esquerda da ordem, com um senso científico do progresso da história, com a modernidade pela qual devemos passar com toda sua barbárie maquinada. Ao contrário, a revolta, como é amplamente aceito até mesmo entre seus partidários, é uma grande desordem.
Assim, a oposição entre greve e revolta passa a representar, por meio de um silogismo velado, a oposição do marxismo tout court a outras tradições intelectuais e políticas, geralmente aquelas que são antidialéticas, se não diretamente anticomunistas. A maioria, se não todos os lados, compartilharam dessa visão. Não faltaram livros à esquerda e à direita para nos informar, ora em tons melancólicos, ora comemorativos, que o declínio do movimento trabalhista e do binômio classe revolucionária – partido de massa, ou a suposta transcendência de qualquer teoria do valor-trabalho, significam que podemos finalmente deixar a análise de Marx e suas categorias para o século XX, se não para o século XIX. Você já deve estar familiarizado com a narrativa. Os países de origem do capitalismo não apresentam mais uma classe trabalhadora industrial com poder ou magnitude crescentes, que pudesse servir como uma vanguarda para as classes exploradas em geral, muito menos tomar as rédeas da produção. Além disso, o foco original no trabalhador fabril inglês e a contabilização desse trabalho como particularmente produtor de valor e, portanto, mais próximo do coração do capital, representou o sujeito da política inevitavelmente como branco e masculino. Dada a globalização do capital, seu salto para todos os cantos da existência social e os desenvolvimentos vitais da política anticolonial (para abreviar uma série de intervenções cruciais e complexas), será necessário um novo sujeito revolucionário e um novo desdobramento revolucionário.
Decerto isso é uma caricatura. Essas sugestões são, de fato, em muitos aspectos, instrutivas, se não simplesmente verdadeiras. Isso não significa uma refutação do materialismo histórico, mas põe um conjunto de problemas para ele. O enfraquecimento dos movimentos trabalhistas tradicionais no Ocidente e a intensificação de uma desapropriação mais completa não apontam para o fim do antagonismo anticapitalista potencialmente revolucionário nem da força analítica do materialismo histórico. Além disso, ainda precisaremos do último para compreender o primeiro.
Afinal de contas, o materialismo histórico é uma teoria da transformação, se é que é alguma coisa. Isso não quer dizer que toda mudança histórica deva ser apoiada. Mas um marxismo que só consegue entender a tendência da realidade como um erro não é marxismo algum. O significado da revolta mudou radicalmente. Ela não será entendida se não nomearmos as determinações e forças segundo as quais ela assume seu novo papel e pelas quais ela é impelida irresistivelmente para o futuro, mesmo quando olha para trás, para os séculos XVII e XVIII. Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta. A revolta para os comunistas, digamos.
Não está claro se esse livro existe. Talvez a abordagem mais próxima seja The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings, de Alain Badiou: “Eu também sou marxista — na íntegra, completamente e, portanto, naturalmente, não há necessidade de reiterar isso”, insiste ele, reiterando-o em várias ocasiões ao mesmo tempo em que observa que ele é
bem ciente dos problemas que foram resolvidos e que é inútil reexaminá-los; e dos problemas que permanecem pendentes e que exigem de nós uma retificação radical e uma esforço inventivo. Todo conhecimento vivo é composto de problemas que precisam ser construídos ou reconstruídos, e não de descrições repetitivas [4].
Depois de oferecer essa nota promissória, ele não se preocupa muito com a problemática do capital, nem faz muito uso das categorias que nos foram legadas pela crítica da economia política. Ficamos com “a Ideia” desempenhando o papel deixado pelo partido, fornecendo uma coordenação do espírito revolucionário que procede a certa distância dos desenvolvimentos dialéticos das forças sociais.
Badiou organiza seu livro como uma taxonomia de revoltas organizada em torno da Primavera Árabe. Essa é uma das abordagens genéricas que se sobrepõem a esses estudos, dividindo as revoltas de acordo com o status político, a causa disparadora principal ou eventual, a composição dos participantes. Outra é o estudo sociológico dos manifestantes e suas condições imediatas, e seu primo próximo, a fenomenologia (geralmente em primeira pessoa). Há também os estudos de caso de revoltas famosas, além de pesquisas e atlas menos glamourosos. Independentemente de suas lacunas, a biblioteca das revoltas é escura e profunda; apenas uma fração pode ser abordada aqui. Este livro tem outras promessas a cumprir. Ele também se baseia na teoria do valor de Marx e na teoria da crise, da qual a primeira não pode ser desvinculada, em relatos de como os setores urbanos se esvaziam, como setores inteiros da economia se erguem e caem, e como o sistema-mundo se organiza e desorganiza; a tradição da análise dos sistemas mundiais fornece uma estrutura de amplitude global e de longue durée para pensar o evento localizado da revolta.
Há limites para essa extensão, necessariamente. É evidente que as revoltas na Índia e na China, para escolher apenas dois exemplos contemporâneos, têm suas próprias características distintas (e seus próprios estudos em desenvolvimento). Minhas alegações se referem principalmente às nações do Ocidente de desenvolvimento industrial precoce e agora em processo de desindustrialização. Esses lugares não têm um apelo privilegiado para as revoltas; eles são, na verdade, o terreno em que uma lógica específica se torna visível, uma lógica tanto da revolta quanto do capital em seu outono catastrófico. Espero que essas reflexões sejam, de certa forma, adaptáveis, pois estão inseridas em mudanças político-econômicas que, por sua vez, estão fadadas a viajar.
Além disso, assim como a nova era de revoltas expressa as transformações globais do capital e, portanto, carrega suas condições objetivas, ela se torna uma ocasião para examinar mais profundamente essas transformações. Se este livro oferece alguma novidade, elas são as seguintes: primeiro, definições mais claras de revolta e greve, que padecem de mais confusão do que se poderia esperar. Em segundo lugar, uma explicação de por que a revolta voltou e por que ele assume a forma que tem no presente. E, em terceiro lugar, uma vez que a lógica da revolta e sua relação com as transformações do capital tenham sido apreendidas, fornecer algumas previsões sobre o futuro da luta. Uma teoria do presente, portanto. No mínimo, a teoria deve ser capaz de explicar por que, após o fracasso em apresentar uma acusação contra o policial que assassinou Michael Brown em Ferguson, Missouri, houve uma onda nacional de revoltas — e por que, como se por uma telepatia entre os empobrecidos, as revoltas em cidade após cidade assumiram a forma de bloqueio da rodovia disponível mais próxima.
Revolta-Greve-Revolta Linha
Este livro está organizado mais ou menos em ordem cronológica, desde a era de ouro das revoltas até a era das greves e vice-versa, com foco especial nas passagens de transição. No entanto, não se trata de uma crônica. Em vez disso, ele aproveita a oportunidade para desenvolver uma série de conceitos e argumentos sobre revolta e economia política à medida que avança. Ele constrói um modelo explicativo que pode coordenar os principais fatos do presente, de modo que eles possam se manifestar de forma um pouco mais eloquente. Ao se aproximar da era atual, os capítulos inevitavelmente se tornam um pouco mais detalhados. No entanto, o todo será necessariamente uma simplificação das infinitas complexidades da realidade; assim são os modelos heurísticos. Pelo menos, isso faz com que os livros sejam mais curtos.
O Riot Act do Rei George I em 1714, em resposta, em parte, às revoltas da Coroação que acompanharam sua ascensão, se apresentava como “Um ato para prevenir revoltas e assembleias desordeiras, e para punir os desordeiros de forma mais rápida e eficaz”. Isso levanta uma questão sobre o estatuto comunicativo da revolta desde seu início. Trata-se, em grande parte, de uma declaração, de um discurso — ele prescreve a linguagem que deve ser lida para declarar uma reunião ilegal (daí a expressão, “ler o Riot Act”). Com ele, o termo riot muda decisivamente de seu sentido mais antigo de “vida desregrada, solta ou esbanjadora; deboche, dissipação, extravagância” e até mesmo “folia, alegria ou barulho desenfreados” para seu significado contemporâneo de “uma violenta perturbação da paz por uma assembleia ou grupo de pessoas; um surto de ilegalidade ativa ou desordem entre a população”. Chaucer, como tantas vezes, antecipa a modernidade da palavra. “Roubos e revoltas são conversíveis”, escreve ele em The Cook’s Tale, observando que o mestre paga o preço pela folia do aprendiz [5]. Ele associa a palavra à reviravolta das hierarquias sociais.
A transição da revolta para a greve ocorre de forma irregular. A chegada da greve como fato social ocorre entre 1790 e 1842, data da primeira greve em massa na Inglaterra. Assim como muitas mudanças marítimas, é difícil reconhecê-las em sua primeira aparição, mas elas se mostrarão com clareza em um exame posterior. Será útil reconhecer a continuidade, bem como a oposição, a maneira como o novo conteúdo para a luta emerge de formas mais antigas de ação e, portanto, passa por períodos de indefinição. O mesmo pode ser dito sobre o retorno das revoltas; ainda é cedo. Com o declínio do movimento trabalhista no Ocidente, a revolta aumenta, tanto relativa quanto absolutamente. Inevitavelmente, há um intervalo em que as duas táticas coexistem uma ao lado da outra. De uma perspectiva, elas parecem disputar a primazia; de outra, a volatilidade de sua presença dual durante essa segunda transição produz uma situação revolucionária, que é amplamente conhecida com o nome, não totalmente preciso, de “1968”. O ano histórico-mundial de 1973 é o ano da virada, com o colapso dos lucros industriais sinalizando o início do que deveria ser corretamente chamado de Longa Crise, com suas recomposições de classe e divisão global do trabalho que progressivamente minam as possibilidades de organização militante dos trabalhadores no Ocidente. Na década de 80, a transição está praticamente concluída. Se isso aparece inicialmente como parte de um fechamento mais amplo das fronteiras revolucionárias — como o fim da história concomitante com a saída do comunismo do século XX —, o veredicto é mais uma vez aberto ao debate. O debate está intrinsecamente ligado ao retorno da revolta.
Revolta-greve-revolta, portanto. Mas isso não é suficiente. Tal formulação pode sugerir uma simples oscilação, ou pior, uma regressão. Essa narrativa tem seu apelo, dadas as tonalidades afetivas do presente, as insinuações de um colapso civilizacional acelerado por uma catástrofe ecológica. No entanto, isto é apenas um contorno, não uma teoria. Ela não é explicativa nem precisa. A nova era de revoltas, em muitos aspectos não se assemelha à sua antecessora. Antes do século XIX, as dificuldades gerais enfrentadas pelos pobres para administrar a subsistência, incluindo não apenas as revoltas pelo pão, mas também as revoltas contra os cercamentos das terras comuns, proporcionavam a ocasião para o surgimento do antagonismo social. Notavelmente, esses eventos incluíam as “revoltas contra exportações”, revoltas em que o transporte de grãos para fora do condado, especialmente em épocas de fome, era interrompido por esforços combinados e coordenados. De acordo com muitos relatos, essa configuração básica das necessidades é mantida até hoje; estudos empíricos que relacionam os preços dos alimentos a revoltas continuam sendo comuns e, de certa forma, persuasivos, principalmente em países com baixos salários. No entanto, as revoltas começam agora não no celeiro, mas na delegacia de polícia, literal ou figurativamente, incitados pelo assassinato de um jovem de pele escura pela polícia, ou em decorrência do fracasso do aparato legal em responsabilizar adequadamente a polícia por sua violência. A nova era encontra seu paradigma nas revoltas de Los Angeles de 1992, após a absolvição dos policiais que foram gravados espancando brutalmente Rodney King após uma parada de trânsito — revoltas que se espalharam por várias outras cidades e continuaram por cinco dias. Cada vez mais, as revoltas contemporâneas ocorrem dentro de uma lógica de racialização e têm o Estado, e não a economia, como seu antagonista direto. A revolta retorna não apenas a um mundo mudado, mas ela mesma se transformou.
Revolta-greve-revolta linha. Assim fica melhor. Esses termos compõem as três seções do livro. Cada uma delas tem não apenas um período apropriado, mas também um lugar apropriado. Para a primeira era de revoltas, o mercado, mas sobretudo o porto; para a era da greve, o chão de fábrica; e, para a nova era de revoltas, a praça e a rua. Para cumprir essa sequência tripartite, este livro precisará descobrir tanto a continuidade das duas eras de revoltas quanto suas diferenças: a unidade de uma revolta no mercado e os levantes frequentemente racializados dirigidos aparentemente contra o Estado. Aqui está o argumento, em sua forma condensada e abstrata, ao qual o restante do livro acrescentará detalhes e digressões, bem como uma estrutura político-econômica e um olhar para o futuro.
NOTAS
[1] Charles Tilly, “Expressando sua opinião sem eleições, pesquisas ou movimentos sociais”, The Public Opinion Quarterly 47: 4, inverno de 1983, 464.
[2] Paul A. Gilje, Rioting in America, Bloomington: Indiana University Press, 1999, 1.
[3] The Invisible Committee, The Coming Insurrection, Cambridge: Semiotext(e), 2009, e sua continuação To Our Friends, trad. Semiotext(e), Cambridge: Semiotext(e), 2015, são as versões mais incisivas.
[4] Alain Badiou, The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings, trad. Gregory Elliot, Nova York: Verso, 2012, 8.
[5] “For thefte and riot, they been convertible.” Geoffrey Chaucer, The Riverside Chaucer, 3ª ed., Larry D. Benson, ed. geral, Boston: Houghton Mifflin, 1987, 85.
As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de Los Angeles, em 1992
Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:
Introdução: Uma Teoria da Revolta
Introdução (continuação)
REVOLTA
Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?
Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta
Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve
GREVE
Capítulo 4: Greve Contra a Revolta
Capítulo 5: A Greve Geral
Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta
REVOLTA LINHA
Capítulo 7: A Longa Crise
Capítulo 8: Rebeliões Excedentes
Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna
First published by Verso 2016
© Joshua Clover 2016
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