Por João Bernardo
Tenho sido várias vezes classificado como empirista ou, mais frequentemente, como positivista ou adepto do positivismo lógico — e o curioso é que esses termos são empregues como censura e não como elogio. Eu sou um admirador de São Tomé, patrono dos empiristas. «Porque me viste, acreditaste?», repreendeu-o o ressuscitado, e acrescentou: «Felizes os que, sem terem visto, acreditam!» Ora, eu pertenço também ao número dos que querem ver para crer, e só posso estranhar que os meus críticos, que tantas vezes acreditam sem ter visto nada, se considerem materialistas.
Mas ver o quê?
Os factos só começam a aparecer-nos verdadeiramente como factos quando são incómodos. É então que os sentimos, porque tudo aquilo que se limite a prolongar o existente passa-nos de imediato despercebido.
Quem não gosta de deparar com a incomodidade dos factos ou volta os olhos para outro lado ou, se for um pouco mais sofisticado e prefira envolver-se num escudo protector mais espesso, põe em causa o método que estabeleceu aqueles factos ou que os apresenta, sem sequer reflectir que o mesmo método apresentou ou estabeleceu os factos de que ele gosta ou de nem sequer se apercebe. É assim que, por exemplo, as estatísticas inconvenientes são recusadas pela generalidade dos esquerdistas com o argumento de que não resultam de uma perspectiva marxista mas se devem a métodos de pesquisa capitalistas, os mesmos métodos que estabelecem as estatísticas a que essas pessoas recorrem quando acham que elas validam as suas teses. Porém, a questão é hoje mais ampla, porque consideram-se válidos apenas os factos que forem apresentados por uma dada identidade étnica ou cultural ou sexual. Assim, os factos são despojados de qualquer realidade própria e atribui-se aos preconceitos metodológicos ou identitários a garantia exclusiva da realidade. De evidência factual, a realidade converte-se em emanação intelectual.
Ora, a escolha ou aceitação do ponto de vista com que encaramos a realidade não implica uma criação de factos, mas apenas a atenção prioritária prestada a certos factos, porque são mais incómodos ou mais cómodos do que outros, e implica igualmente a metodologia com que alinhamos os factos e os observamos nas suas contradições. Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. Em vez de se argumentar contra os factos dizendo que eles são impossíveis à luz de um certo modelo, deve-se substituir o modelo porque ele se revela incapaz de verificar os factos. Aquela visão selectiva que aceita os factos convenientes e rejeita os indóceis sustenta as múltiplas críticas ao que denominam empirismo.
Mas devemos ir ainda mais longe, porque não basta ver os factos. É necessário procurá-los, e garantir que sejam factos e não simples projecções de um desejo. O desejo, que resulta do ponto de vista adoptado, não substitui os factos nem os invalida.
Não pretendo aqui convencer as pessoas que não precisam de ver para crer, nem isto seria possível, porque se os factos não as convencem, quem sou eu para as persuadir! Não quero dar orientações, apenas esclarecer o método que uso na historiografia e na análise económica.
No meu trabalho começo por considerar os factos isoladamente e, à medida que os vou acumulando, reúno-os pela localização no espaço ou na função ou pela concomitância no tempo. Depois reúno outros factos similares para outros espaços ou outros tempos. A partir daqui estabeleço sistemas de convergências e de oposições, e aquilo que inicialmente era apenas um amontoado de fichas começa a converter-se em estruturas que permitem detectar regras próprias. Com o avanço da pesquisa para novos espaços e outros tempos, as comparações multiplicam-se e a definição dos sistemas vai-se tornando mais precisa. Já não são só regras internas que se estabelecem, mas começa igualmente a definir-se a regra das comparações entre sistemas. É então que posso passar à definição de campos. Um campo delimita um sistema, com a sua estrutura e as suas regras. Se surgirem factos novos e se inserirem nesse campo sem lhe trazerem qualquer alteração, então fica comprovada a definição do sistema. Mas a descoberta de factos que coloquem novos problemas, irresolúveis no sistema tal como ele estava definido, obriga a desenhar um outro perímetro para o campo, a adequar-lhe a estrutura e a modificar-lhe as regras. O confronto com novos factos é, para um campo, o teste decisivo. Esta longa e trabalhosa passagem do enunciado de factos ao estabelecimento de campos constitui para mim a base fundamental da história comparada.
Em seguida, e só em seguida, posso reflectir sobre o método que me permitirá explicar aquelas convergências e oposições e, mais amplamente, o estabelecimento de campos. E explicar significa, para mim, estabelecer a regra de. Ora, essa explicação tem por sua vez de ser testada. Na escolha de um método influi o ponto de vista resultante da situação que se ocupa e das escolhas que se fazem, mas um método é muito mais do que um ponto de vista, porque se desenvolve na sua aplicação aos factos. Para isso verifico se a regra se adequa, ou não, a outros sistemas e aos vários campos e, consoante a conclusão, estabeleço as continuidades ou rupturas entre espaços e entre tempos. O mais importante nesta fase do trabalho são as contradições e as excepções, em suma, tudo o que parece fugir à norma, porque aí se podem encontrar as fissuras por onde o sistema se transformará ou entrará em crise. Passo assim do estático para o dinâmico, e são os pontos de ruptura detectados na sincronia que me tornam perceptíveis os rumos da diacronia.
Para mim, enquanto historiador ou analista da economia, a história comparada e o teste dos factos funcionam como o laboratório para o cientista. As pretensões científicas dos estudos sociais são fortemente limitadas pela impossibilidade de proceder a experiências concebidas previamente, e não se pode ir mais longe do que organizar factos, sistemas e campos, e compará-los. A história comparada é o único laboratório possível. Foi assim que elaborei duas das minhas três obras de historiografia. O leitor desprevenido talvez pense que no Poder e Dinheiro e no Labirintos do Fascismo as inúmeras descrições de variantes tenham como objectivo ilustrar as normas gerais que estabeleci, mas o processo foi o inverso. Primeiro fui comparando séries de factos e casos e reunindo-os por semelhanças e compatibilidades, e pude assim definir campos e delimitá-los. As descrições de variantes, em vez de serem exemplos de normas elaboradas previamente, são o alicerce de toda a obra. Foi por aí que comecei.
E assim, pouco a pouco e desta maneira sempre pedestre, fui elaborando um método teórico. Vocacionados para os factos e construídos a partir dos factos, os modelos teóricos têm para mim uma utilidade estritamente instrumental, operacional. Por isso devem — ou podem — mudar consoante os factos que se destinam a estudar, ou seja, a enquadrar e organizar. Não se trata de dogmas nem de princípios, mas de instrumentos, no sentido literal da palavra, e os instrumentos mudam consoante o material sobre que operam e as funções a que se destinam. É certo que, tal como quaisquer outras pessoas, um historiador ou um economista têm pressupostos que decorrem da situação social que ocupam e das suas opções ideológicas, pontos de vista que apontam um objectivo para as suas análises. Mas se escolhem ou elaboram um instrumento que lhes sirva para esse objectivo, precisamente por isso ele deve então adequar-se ao material empírico em que operam. Para ser eficaz, a razão crítica requer uma concepção instrumental da metodologia, senão transforma-se num mero irracionalismo de desejos ou ambições.
Na minúcia com que os exijo, os exercícios de história comparada deparam com os limites das forças humanas. Vários anos depois de ter terminado o Poder e Dinheiro publiquei um ensaio em duas partes intitulado Economia de Troca de Presentes. Para uma Teoria do Modo de Produção Pré-Capitalista, onde procurei apresentar um panorama que ampliasse no tempo e universalizasse no espaço os problemas que enunciara a propósito do regime senhorial. Mas tratou-se apenas de um roteiro, uma proposta de trabalho, porque para levá-la a cabo precisaria de pelo menos mais uma existência. Seria conveniente, porém, que a história comparada tivesse só este tipo de limites e mais nenhuns. Ora, hoje ela depara com dois obstáculos de muito peso. De um lado, a comparação entre factos, sem restrições de espaço e de tempo, pressupõe uma ambição de universalismo e corrobora-o, o que é contrário a todos os identitarismos, incluída a sua forma arcaica de nacionalismos. O pós-modernismo e os identitarismos que se lhe seguiram dedicam-se a isolar conceptualmente — e tanto quanto possível materialmente — sociedades e civilizações que a história comparada procura organizar em áreas de estudo comuns e cada vez mais amplas. De outro lado, a forma como a estrutura universitária evoluiu, com uma subdivisão crescente dos campos de conhecimento e uma concorrência curricular que transforma cada especialidade em coutada exclusiva, compromete qualquer possibilidade de história comparada no interior da academia.
Para agravar a situação, em algumas capelas marxistas a história comparada depara com o opróbrio da heresia. No dia 26 de Abril de 2024 um leitor escreveu num comentário (aqui): «O método comparativo sob a forma das variações concomitantes foi defendido por Durkheim em seu livro “As Regras do Método Sociológico”. Este método é, por sua vez, a adequação do método de investigação das relações sociais ao método das ciências naturais que é a da experimentação direta (por isso, o método comparativo seria chamado por Durkheim também de “método da experimentação indireta”). Hoje em dia já não me surpreendo com João Bernardo defendendo este método positivista que foi criticado até mesmo pela limitada consciência burguesa, mas continuo, infelizmente, me surpreendendo com o seu contínuo combate ao marxismo ao atacar os supostos “marxistas”». Eis-me assim excluído do paraíso, ou sertão, dos ilustres iluminados.
Com efeito, tal como eu a entendo e pratico a história comparada requer uma concepção instrumental da metodologia, em que esta surge por exigência dos factos e em que, portanto, se vai elaborando progressivamente, em vez de ser tomada como o prévio mecanismo motor. Mas não falta entre os marxistas quem prefira deduzir os factos a partir do método, a tal ponto que os factos se apresentam como simples ilustrações do método. Temos então divagações, mais perto da teologia do que da historiografia. Este tipo de lucubrações recorre à dialéctica, um método lógico que possui no misticismo um curioso pedigree.
O misticismo pretende estabelecer uma relação íntima e directa do indivíduo com a divindade, prescindindo dos intermediadores oficiais, que são os sacerdotes. E assim, sem colocar uma categoria social acima das restantes, o misticismo constituiu um terreno fértil para as heresias, já que cabia ao clero, e só a ele, a definição da ortodoxia. Ora, uma relação directa entre termos sistematicamente contraditórios, entre o finito e o infinito, entre o imperfeito e o perfeito, em suma, entre um indivíduo que padece de todas as limitações e uma divindade que não tem nenhuma, não pode operar-se sem transição e exige um contínuo desdobramento em que os termos contraditórios geram um termo intermédio, que por sua vez se desdobra, sem que esta série de contradições internas tenha qualquer razão intrínseca para se encerrar. É isto a dialéctica, e os problemas inerentes à célebre cláusula filioque são um bom exemplo desta lógica em acção.
Foi essa a dialéctica que os gnósticos se esmeraram a desenvolver e que Mestre Eckhart herdou, assimilando-a a outras heresias, até que Jakob Bœhme a codificou numa doutrina que ultrapassou muito a área da cultura germânica. E como o romantismo se definiu pela recusa do iluminismo e uma idealização do medievalismo, não devemos estranhar que a filosofia romântica tivesse assimilado a lição de Bœhme. Aliás, graças à sua amizade com Franz Xaver von Baader, Hegel remontou mais longe do que Bœhme e interessou-se muito pela obra de Mestre Eckhart. Aqueles marxistas que se espantarem com esta genealogia — e decerto não faltarão entre os leitores do Passa Palavra — deveriam saber que Georges Gurvitch mencionou como uma evidência que «a terminologia hegeliana» «é também a do misticismo alemão tradicional desde Jacob Bœhme». Para me exprimir numa fórmula concisa, a dialéctica, enquanto instrumento lógico do misticismo, tornou-se o eixo do pensamento de Hegel.
A dialéctica só deixa de ser mística quando esbarra com os factos. Se a vetusta expressão materialismo dialéctico conserva algum sentido hoje, numa época em que a concepção de matéria tanto se alterou que acabou por se desmaterializar, é no choque com os factos. Foi esta a operação a que Marx se referiu quando disse que havia virado ao contrário a dialéctica de Hegel. Pretender colocar em primeiro plano a dialéctica, como se os factos se deduzissem dela, e julgar que a dialéctica superou o empírico, é regressar à teologia, e do modo mais absurdo, uma espécie de teologia laica. É o empirismo que transforma a dialéctica, de um infindável exercício teológico de desdobramentos contraditórios, num instrumento lógico, quero dizer, numa lógica que pode ser usada como instrumento na história comparada e na análise macroeconómica comparativa. As contradições internas, em vez de serem o mecanismo do ilimitado desdobramento das séries místicas, passam a ser o instrumento com que definimos os factos por oposição a outros factos e pelas suas rupturas internas, que permitem a passagem do estático ao dinâmico. E assim a superação do enunciado de factos pelo estabelecimento de campos, que há pouco defini como a base fundamental da história comparada, tal como eu a entendo e pratico, tem por instrumento essa dialéctica que Marx virou do avesso.
Se eu sou marxista? Sim, sou. Marxista deste marxismo.
Nota
A censura de Cristo a São Tomé está no Evangelho segundo São João, 20: 29.
A citação de Georges Gurvitch encontra-se na sua obra Déterminismes sociaux et liberté humaine. Vers l’Étude sociologique des cheminements de la liberte, Paris: Presses Universitaires de France, 1963, pág. 22.
As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972).
Pode ler aqui a segunda parte deste ensaio.





