Por Isadora de Andrade Guerreiro
Neste momento eleitoral, ter que escrever um texto pra coluna me deixou angustiada. Minha angústia vem da necessidade dos textos que estão saindo de ter que demonstrar certezas e apontar caminhos. Tenho dificuldade de apontar caminhos em meio ao desespero pois não quero ser heroína ou, como diz Tom Zé, para os olhos “de lá de dentro da escuridão” que esperam e querem que ele seja herói, saiba de tudo ou seja um Deus vingador: “eu sou inocente!”. No mesmo álbum, ele fala dos professores universitários como “aquela tal classe que ou passa a aprender com as ruas ou não vai sobreviver”. Então, esse texto é sobre o que estamos vivendo, e sobre um desejo de futuro.
Também porque sei que a posição do “eu já sabia”, que Douglas Barros descreveu como a maldição de Cassandra (profetiza em quem ninguém acreditava), não só não tem serventia, como ele disse, mas acho que tem que ser profundamente questionada por quem acha que sabe. Passado esse momento no qual cada pessoa tem feito o que pode para evitar o mal maior do retorno do período autoritário ao país, teremos que lidar com a situação de frente, seja qual for o resultado das eleições. Sem de fato entender o que se passa – e não aprenderemos isso nos livros – será muito difícil não entrarmos no jogo de guerra que está armado. Não há monstros do “lado de lá”, há pessoas vivendo outras experiências de vida, que muitas vezes não estamos dispostos a compartilhar.
Meu pai, falecido há dois anos em 20 de outubro, me disse há uns 15 anos que eu, intelectual da USP e cheia de certezas, não estava entendendo nada do país. Ele falava a partir do centro-oeste brasileiro, onde morava já fazia alguns anos, e de onde vinha, segundo ele, “a revolução”. Tal palavra, na boca do meu pai, tinha força – o que me fazia estremecer frente ao que aquilo de fato podia significar. Seria ele, e não eu, a Cassandra que Douglas Barros descreveu, me dizendo o futuro e eu não querendo acreditar?
Muitas vezes, contar a trajetória das pessoas é também contar – e pensar sobre – a história do país. Vou então contar a história do meu pai, buscando mostrar o tamanho do desafio que temos adiante.
Quando nasci, meus pais eram trotskistas da Libelu (Liberdade e Luta), do movimento estudantil da USP, no final da ditadura. Meu pai entrou na Politécnica tendo vivido a maior parte da vida no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. O choque cultural foi imenso, como ele me contava, o que fez com que sua relação com a política sempre fosse meio que atravessada pelo trauma. Ele se tornou uma pessoa estranha, pois ao mesmo tempo em que se envolvia profundamente nas mobilizações e na organização política – de forma obsessiva – carregava uma crítica constante e mal formulada, que o deixava numa espécie de não-lugar frente aos colegas paulistas da elite intelectual, cheios de certezas. Em meio à obsessão, não se formou na universidade, diferente dos colegas, que depois viraram empresários e “gente grande” do PT – o que sempre o ressentiu. Virou estudante profissional. Foi pra Unesp, pra Fatec, nunca teve diploma.
Participou do governo Erundina, num cargo comissionado na área de processamento de dados. Ao mesmo tempo que participou da construção de muita coisa interessante, a experiência de estar próximo ao poder e tudo o que isso significa o fez se desencantar pela política e pelo PT neste momento. A depressão foi profunda e sua vida se desmanchou em São Paulo. Ele não só não votava mais no PT, ele simplesmente deixou de votar: não ia e não justificava, por muitos anos. Para alguém que lutou contra a ditadura, era grave.
Foi morar na casa dos pais, que moravam em Goiânia – seu pai trabalhava na Petróleo Ipiranga, que sempre o enviava para fronteiras de desenvolvimento do país. O centro-oeste crescia na década de 1990. Foi lá que entrou para a igreja Batista e se casou novamente, com uma moça que vinha do interior do Tocantins. Os pais dela moravam na área rural, um lugar que só foi ter luz com o Programa Luz Para Todos, muitos anos depois. Um lugar impressionante, uma família enorme, forte e unida.
Foi quando eu, adolescente, conheci o centro-oeste. Quem acha que conhece o país e nunca viu as plantações de soja entre o Tocantins e a Bahia, de fato, não entendeu nada. De carro, você anda horas numa planície de linha do horizonte reta, com a estrada – maravilhosa, asfalto perfeito – fazendo o ponto de fuga. Máquinas gigantes são pontinhos que trabalham 24hs por dia. Os donos chegam de avião ou helicóptero. A cidade que era só um posto de gasolina no meio do deserto virou um polo regional. O nome dela? Luiz Eduardo Magalhães.
Tudo mudou quando o PT ganhou o governo federal. Neste momento, meu pai já morava em Brasília, deslocado pela empresa de informática na qual trabalhava. Seus antigos amigos paulistas aportaram, e agora era ele quem conhecia o terreno. Meu pai mudou de vida. Andava de Corolla, recebia whisky em caixa de madeira com a estrela do PT. Sentia-se finalmente reconhecido. Não durou muito – Mensalão etc… em meio à queda, ele botou um processo contra a empresa pelo fato de ser PJ e ganhou. Arranjou inimigos por todos os lados e se refugiou no Tocantins.
O retorno dele para Goiânia, alguns anos depois, marcou um enésimo recomeço de vida, agora marcado pelo empreendedorismo e pelo mergulho na igreja evangélica. Dizia que nunca mais queria ter patrão, pois foram os patrões que sempre o colocaram em maus lençóis. Fez casas do Minha Casa Minha Vida em Luiz Eduardo Magalhães, abriu uma lanchonete em Goiânia que não teve condições de tocar. Nunca conseguiu ganhar dinheiro com nada disso.
Mas a comunidade da igreja e as dinâmicas desse meio davam sentido a tudo o que ele tinha passado na vida, e o reconheciam como alguém sábio, que “mostrava os caminhos”. Só não virou pastor porque era separado. A igreja que ele frequentava era organizada em células, e ele era responsável por uma delas, na sua casa. Dizia que aquilo funcionava como os soviets. E que era, portanto, “a revolução”. A estrutura e os números da igreja são de fato impressionantes. Ele acreditava que finalmente estava colocando em andamento uma transformação estrutural no país, e que a esquerda precisava fazer parte disso. Revirava com polêmicas e esperanças populares os grupos de whatsapp dos amigos paulistas esclarecidos. Não havia dúvidas, do nosso ponto de vista, ele tinha enlouquecido. Ninguém acreditou.
A ascensão bolsonarista mudou muito toda essa história, mais uma vez. Ele lutava contra a extrema-direita e tudo o que aquilo significava como retorno da ditadura que ele tinha vivido na pele. Em Goiânia e na sua igreja, as pessoas também tinham dificuldade de entender sua postura. Voltou a ficar escanteado, se afastou sem nunca romper os vínculos, e depois voltou a receber a célula em casa até o último dia da vida que pôde. No final da vida, estava numa profunda depressão. Me telefonou um dia só para dizer que continuava de esquerda. Como se eu fosse um porto seguro que pudesse salvá-lo, me perguntou se eu acreditava. Eu disse que nunca duvidei disso, mas adianta a alcunha quando o que se vive é muito maior do que as classificações, prenhes de certezas?
Meu pai não teve condições de lidar com as contradições que viveu. Será que nós temos tido condições? É bom duvidar quando achamos que estamos entendendo o que está acontecendo, sabemos o que vai acontecer e podemos dar caminhos certeiros para evitar o pior. A história é muito mais complexa do que isso. Mas as experiências de vida das pessoas são expressões concretas das contradições em que estamos imersos. Dar voz a tais experiências, dando sentido coletivo ao sofrimento individual, parece ser um caminho potente. O lado de lá tem sido muito eficaz em fazer isso, enquanto nós permanecemos presos às nossas certezas.
Desejo, esta semana, que o virar-voto não seja de esclarecimento, mas de escuta; que a escuta possa criar boas questões que coloquem a semente da dúvida no outro. Que possamos dar sentido coletivo transformador na germinação dessas dúvidas, florescendo um projeto comum. Os desafios não terminam domingo, eles apenas começam – ou continuam, se aprofundando. Talvez o maior deles seja não produzir inimigos a partir das nossas certezas, para não terminarmos no apocalipse da guerra infinita, essa sim profetizada por todos aqueles que sempre quiseram subordinar a humanidade.




![Hora de “desbigtechtizar” a vida [3]](https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/07/coluna_3.jpg)
