Por O Jardineiro
“Por isso, quanto mais medíocre é um homem, mais prontamente triunfa; ele pode engolir sapos vivos, resignar-se a tudo, adular as pequenas paixões baixas” – Balzac, Ilusões perdidas.
“As mediocracias negaram sempre as virtudes, as belezas, as grandezas; deram o veneno a Sócrates, o madeiro a Cristo, o punhal a César, o desterro a Dante, o cárcere a Galileu, o fogo a Bruno; e, enquanto escarneciam desses homens exemplares, esmagando-os com a sua sanha, ou armando contra eles algum braço enlouquecido, ofereciam o seu servilismo a governantes imbecis, ou davam o seu ombro para sustentar as mais torpes tiranias” – Ingenieros, O Homem Medíocre.
O debate presidencial ocorrido no dia 18 de outubro de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro ofereceu um retrato fiel da mediocridade e superficialidade geradas pela democracia burguesa. Para usar termos de Guy Debord, a política institucional se transformou na expressão máxima da “sociedade do espetáculo”, na qual a vida concreta foi substituída por sua representação contemplativa. Se a democracia burguesa fosse séria, esperaríamos um embate de propostas e discursos de como resolver problemas que enfrentamos concretamente; o que se assistiu, contudo, foi um “espetáculo” marcado pela extrema superficialidade, no qual nenhum dos candidatos demonstrou capacidade — ou melhor, interesse — de aprofundar-se nos problemas e as soluções necessárias para enfrentá-los.
A explicação para essa mediocridade e superficialidade do debate não reside simplesmente na incapacidade, mas na própria natureza do processo eleitoral. O objetivo de um debate televisivo contemporâneo entre candidatos das eleições não é expor visões de mundo; seu propósito único é a persuasão imediatista para a conquista de votos, e isso se dá agradando a maioria da população e dos financiadores. “Os candidatos devem satisfazer os interesses de seus financiadores, bem como da direção do partido e simultaneamente devem agradar grande parte da população por meio de discursos. O resultado dessa combinação são bordões repetitivos com novos penteados”[1].
Em uma disputa acirrada, onde cada voto está importando, aprofundar temas reais representa um risco. Ao detalhar como pretende resolver um problema — seja ele qual for —, o candidato inevitavelmente contraria interesses, e cria flancos vulneráveis para os ataques do adversário. Sob essa lógica, o “ser” que foi substituído pelo “ter”, cede ao “parecer”: a imagem suplanta o conteúdo, e a exaltação da mediocridade passa a ser habitual. A estratégia para a vitória eleitoral torna-se a adesão a propostas genéricas, a discursos retóricos e a ataques pessoais ad hominem, cujo intuito é apenas produzir uma imagem de superioridade ética perante o seu competidor. Os candidatos no debate fazem um verdadeiro teatro, mas um teatro ruim, com bordões repetitivos e não têm conteúdo significativo. Um exemplo disso são as mudanças de propostas dos candidatos: Flávio se tornou defensor do fim da escala 6×1, Lula se tornou defensor da redução da maioridade penal para 16 anos. Nenhuma de suas propostas parece ser convicção frente a necessidade de conseguir votos, e cada um se parece mais com o outro discursivamente. Enganar é o objetivo final.
Esse teatro eleitoral nos faz questionar algo que ouvimos bastante: a de que a presença de uma autoridade governamental é indispensável para evitar o caos e manter a ordem na sociedade. Costuma-se argumentar que, sem a figura do governante e a do Estado, a convivência humana se tornaria inviável e desorganizada.
Entretanto, esse “palco espetacular” do debate expõe uma forma de organização profundamente irracional. A alienação generalizada e a democracia burguesa legitimam que indivíduos frequentemente desqualificados, movidos por interesses pessoais e mesquinhos, concentrem em suas mãos o poder de decisão sobre a vida e o futuro da maioria da população. Longe de representar a racionalidade ou o bem comum, o Estado atua como uma forma de regular a vida das pessoas através da reprodução do capitalismo e de suas irracionalidades. E isso gera consequências para as pessoas, como o desejo fetichizado no qual as pessoas votam desejando alguma transformação, mas, posteriormente, se conformam com a manutenção da realidade.
“O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, […] votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada”[2].
Superar essa dinâmica exige questionar a premissa de que precisamos ser governados. Uma forma genuinamente racional de organização encontra-se na autogestão social.
Diferentemente da sociedade atual, em que a população entrega seu poder de decisão a uma burocracia estatal a cada quatro anos, a autogestão social seria uma sociedade na qual as próprias pessoas deliberam diretamente sobre as questões e problemas que afetam suas vidas. Esse processo ocorre por meio de discussões coletivas, fundamentadas em problemas concretos e reais da vida cotidiana — da produção à distribuição. Para isso, claro, as classes sociais e a relação entre elas devem ser abolidas, pois apenas seria possível a deliberação coletiva quando os interesses pessoais correspondessem aos interesses coletivos.
“A revolução significa necessariamente a aniquilação da democracia. A autogestão social como conteúdo do modo de produção comunista necessariamente exclui a democracia. Democracia e autogestão são, portanto, antípodas. Uma é inversamente proporcional à outra. À medida que avança a democracia, a autogestão recua. À medida que avançam as lutas autogestionárias, recua a democracia, visto que esta é uma função direta do estado e aquelas são a negação deste. Só teremos comprovado o fim das relações de classe, portanto da exploração, quando o estado capitalista e suas formas de regime político (democracia e/ou ditadura) tiverem sido eliminados”[3].
Neste segundo turno, portanto, os revolucionários, aqueles interessados em contribuir com este processo de abolição das classes sociais e, por conseguinte, do Estado, devem assumir a posição de não ser iludido pelo processo eleitoral — deve-se negá-lo —, mas isso seria insuficiente se não ressaltarmos a necessidade de lutar contra a sociedade capitalista. O voto nulo autogestionário parece ser uma resposta coerente.
“A luta pelo voto nulo autogestionário (luta, pois se vincula ao objetivo final, que é a autogestão social, e não uma simples campanha) difere das demais formas de voto nulo, pois: a) não visa anular as eleições e sim criticar a democracia burguesa, o processo eleitoral e a sociedade capitalista como um todo; b) não se dirige como oposição aos candidatos e aos partidos do momento e sim faz a denúncia da burocracia partidária em geral, explicita seus vínculos com a reprodução do capitalismo e propõe a constituição de novas formas de organização, antagônicas aos partidos políticos; c) faz parte do processo mais amplo de luta pela superação do capitalismo, do qual a democracia burguesa, os partidos e o sistema eleitoral são partes integrantes. Dessa maneira, não se trata de uma atitude individual isolada, mas antes de um momento constitutivo do processo de luta mais amplo: a luta pelo voto nulo autogestionário faz parte da luta pela autogestão social, pois está articulada ao projeto revolucionário e à classe revolucionária de nossa época, o proletariado”[4].
Enquanto a política institucional reduz os indivíduos a “cidadãos”, a meros espectadores passivos de debates vazios e doadores de votos, a autogestão social devolve a ele a responsabilidade e o poder sobre a própria realidade. A verdadeira organização racionalmente determinada pelo humanismo concreto não virá da escolha de novos governantes no topo de uma estrutura hierárquica do aparato estatal, mas da capacidade da sociedade de se organizar por si mesma, fundamentalmente a partir da produção e da vida cotidiana. Não se vinculem à mediocridade e superficialidade dos candidatos: votem nulo e lutem pela autogestão social!
Notas
[1] Texto de Mateus Alexandre Alves intitulado “Para Além das Eleições” disponível aqui: https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html.
[2] Texto de Nildo Viana intitulado “Psicanálise Da Ilusão Eleitoral”, disponível aqui: https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html.
[3] Texto de Lucas Maia intitulado “Teses Sobre Democracia, Eleições, Voto e Voto Nulo”, disponível aqui: https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718.a
[4] Texto de Rubens Vinícius intitulado “Voto Nulo Autogestionário e Coerência Revolucionária”, disponível aqui: https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954.





