O futuro (ainda) está em aberto

O futuro (ainda) está em aberto

em 15 dez

Será preciso mais esforço coletivo para entender a política e economia atual do que o refúgio cômodo das frases feitas dos clássicos. Por Passa Palavra

1.

Política e economia mantém entre si relações complexas de reciprocidade.

Cai em erro quem queira analisar a política sem entendê-la como uma das esferas onde são criadas as condições para o funcionamento da economia, e erra ainda mais quem pretenda ver na economia a pura e única determinante da política, sem qualquer influência de outras esferas. As duas têm de ser compreendidas em conjunto, em especial quando se considera que o aparelho tradicional do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) é a esfera por excelência de relações intracapitalistas, e as empresas (nacionais ou transnacionais, micro ou gigantes, pouco importa) são uma forma ampliada de Estado, e são, por excelência, a esfera de relações entre capitalistas e trabalhadores.

conjuntura4Na política, especialmente na política palaciana, encontramos sintomas dos movimentos tectônicos das frações das classes capitalistas, de sua composição e recomposição constantes; na economia, encontramos as formas como os capitalistas agem em bloco contra os trabalhadores, de um lado, e contra outros capitalistas seus concorrentes, de outro. Vejamos o que é possível encontrar no momento.

2.

No caso brasileiro, que nos é mais próximo, o noticiário das últimas semanas parece indicar uma decomposição do governo Temer, abalado pelas denúncias que resultaram na renúncia de um de seus principais articuladores políticos, Geddel Vieira Lima, e pelas indicações de que o PSDB estaria abandonando o barco do governo em favor de eleições indiretas em 2017, visando um novo mandato presidencial para Fernando Henrique Cardoso até a realização das próximas eleições presidenciais diretas (ver aqui). Além disso, setores importantes do capitalismo nacional não estariam encontrando no governo temerário a criação de condições favoráveis para a retomada do crescimento econômico (ver aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Por outro lado, as manobras articuladas no Congresso Nacional em favor de uma anistia ao caixa dois das campanhas eleitorais ou de pressão no Poder Judiciário, a desconfiguração das “10 medidas contra a corrupção” e a Lei do Abuso de Autoridade indicam um medo dos políticos de novas prisões decorrentes da Lava Jato e outras operações correlatas, numa tentativa de salvarem a própria pele; a coletiva de imprensa concedida pelos chefes do Executivo e do Legislativo, em que afirmaram um compromisso público de barrar a anistia ao caixa dois, deu mostra do quão encurralados se encontram estes dois poderes.

As crises econômica e política que marcaram o segundo mandato de Dilma Rousseff, e que a fizeram cair, estariam ainda presentes e ameaçando o novo governo. Parte da esquerda está perdida com a questão de que Dilma faria o mesmo que Temer em diversos campos, variando apenas a forma como implementaria determinadas medidas. Mas então por que Dilma caiu? Teríamos duas conjunturas, uma política e outra econômica, que poderiam explicar essa situação? Ou teríamos o permanente entrecruzamento dos vetores políticos e econômicos dentro de uma mesma conjuntura?

conjuntura2A segunda vertente de análise é a mais plausível para entender o cenário atual. O vetor econômico se relaciona à inserção da economia brasileira na economia global, e o vetor político se relaciona ao modo pelo qual as classes capitalistas locais, ou suas frações de classe, planejam esta inserção, tendo como objetivo prático os mecanismos de repartição da mais-valia entre as empresas transnacionais, sejam elas de capital majoritariamente brasileiro ou estrangeiro (a origem de determinado capital é secundária para a análise que se faz aqui).

Os governos do PT, em pouco mais de uma década e com todas as suas contradições, executaram um projeto de inserção na economia transnacional — controle dos conflitos sociais por meio da sua canalização institucional “participativa”, inserção pesada no mercado internacional de commodities, parceria comercial com a China e estímulo ao consumo interno via facilitação ao crédito e isenções fiscais seletivas — que mostrou seus limites quando mudanças na conjuntura econômica global — principalmente as quedas nos preços de commodities e inviabilização temporária da extração do pré-sal — interferiram pesadamente na dinâmica econômica brasileira e o PT não soube, ou não quis, corrigir os rumos de outro modo que não o capitalista clássico: atacar os salários diretos e indiretos dos trabalhadores (via inflação e negociações salariais rebaixadas no primeiro caso, e via redução de recursos destinados a serviços públicos, no segundo caso) para garantir recursos para o prosseguimento da acumulação de capital.

Um dos pilares desse projeto, o afluxo de capitais provenientes da exploração do pré-sal pela Petrobras, foi minado tanto pelas ações judiciais que prejudicaram a forma de repartição da mais-valia na empresa adotada desde a década de 1990, quanto pelas grandes empresas petrolíferas internacionais, principalmente as de origem saudita, que forçaram o rebaixamento do preço do barril de petróleo para patamares inferiores a US$ 40,00, inviabilizando a rentabilidade da produção de petróleo em águas profundas, indicando, por um lado, o poder das empresas petrolíferas interessadas nessa inviabilização e, por outro, uma jogada política temporária que pode tornar no futuro o pré-sal viável novamente.

Outro pilar do projeto petista de inserção internacional que foi atacado diz respeito à viabilização das empresas transnacionais brasileiras na África e na América Latina, principalmente através da internacionalização do BNDES, que garantia os créditos necessários aos investimentos empresariais nos dois continentes. Tais medidas refletem a acirrada disputa entre empresas transnacionais, privadas ou públicas (pouco importa), na disputa por mercados emergentes: se provar o envolvimento direto de empresas transnacionais nas operações judiciais e policiais que resultam na prisão de membros do alto escalão de empresas como Petrobras e Odebrecht é matéria para as teorias da conspiração, é inegável, entretanto, que os efeitos destas operações afetaram enormemente o desempenho destas empresas (basta ver as últimas movimentações internacionais de empresas como Odebrecht, Petrobras, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e outras investigadas para comprová-lo) e, por conseguinte, deixaram aberto o campo para a atuação de suas concorrentes. Isto num momento em que ocorrem fusões, compras e aquisições hostis em diversos níveis (basta ver a compra da Monsanto pela Bayer), indicando um patamar de concentração de capital poucas vezes visto na história. O capitalismo continua funcionando; as crises políticas vistas no Brasil, nos EUA, na Europa e na Ásia, entre outros fatores, podem ser reflexos de uma reorganização global dos polos mais dinâmicos de extração de mais-valia.

No campo dos partidos políticos que disputam o controle do Estado brasileiro, o PMDB, dentre os grandes partidos, seria o único que não teria um projeto próprio neste processo de inserção internacional. Tem sido historicamente caudatário dos projetos alheios do PSDB, primeiro, e do PT depois; o “Programa Ponte para o Futuro”, muito próximo ao projeto do PSDB, demonstra nova guinada de orientação do partido. O PMDB seria muito mais o garantidor da mediação nas esferas estadual e municipal dos projetos alheios de inserção da economia brasileira internacional do que, necessariamente, um ator político com projeto próprio — confirmam-no tanto a desorientação generalizada do governo temerário (que, não esqueçamos, herdou quantidade significativa de ministros e projetos do governo Dilma) quanto a presença de tucanos em postos-chave da gestão econômica e das relações internacionais.

Já o PSDB tem projeto próprio para esta inserção, e quer implementá-lo a qualquer custo. Ao que parece, aliás, do ponto de vista capitalista, o projeto do PSDB é o melhor para o momento. Esse projeto se manifesta principalmente no papel cada vez maior das empresas transnacionais de capital estrangeiro nas tomadas de decisão dentro do que podemos chamar de Estado Restrito (ou seja, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário). Tal proposta pode ser verificada no campo da produção da força de trabalho, com as reformas educacionais que estão em curso e analisadas aqui e aqui. Ou mesmo no campo da manutenção da saúde da força de trabalho, como analisado nesta série de artigos. Em uma situação de déficit fiscal do Estado e da possível alteração da constituição de 1988, restringindo o investimento estatal nos serviços que garantem a reprodução da força de trabalho (educação, saúde, previdência, assistência social), são esses capitais privados que preencherão o vácuo na tentativa de reativação e crescimento da economia nacional.

conjuntura3O que também está em jogo em meio a este turbilhão não é a presença de tal ou qual agrupamento político nos postos centrais do Estado, mas sim como os diversos ramos econômicos do país serão reativados ou mantidos nessa integração econômica mundial — e como isto afeta a vida dos trabalhadores. Devemos pensar quais empresas exploram determinadas jazidas de determinados minérios, desde os mais comuns aos mais raros, e que mudanças no regime de trabalho isto implica; como se constituirão as condições para o aumento da produção industrial do país e o enfrentamento da concorrência internacional (maior exploração dos trabalhadores? maior investimento em tecnologias?); como, e se, a produção agrícola continuará a garantir uma balança comercial superavitária; de que forma serão feitos os investimentos em infraestrutura, principalmente em logística e transporte, num momento de fortalecimento dos setores de logística que funcionam principalmente através de aplicativos, seja no transporte individual de passageiros ou no transporte de cargas.

3.

Parece haver no Brasil e no mundo uma nova configuração da classe trabalhadora. Na questão da migração, central nesta reconfiguração, a tão propalada xenofobia de frações da classe trabalhadora europeia e norte-americana resulta das conquistas (distorcidas) obtidas por estes trabalhadores durante a vigência do welfare state, da demolição paulatina destas conquistas nas três últimas décadas e do fato de estes trabalhadores, estimulados pela concorrência no mercado de trabalho a que são forçados pelos capitalistas, não quererem dividir com ninguém o pouco que ainda lhe resta. É um comportamento defensivo, não um ódio puro e simples. Não que o racismo esteja ausente deste comportamento defensivo, mas ele se integra a este “medo da queda” como um componente extra; o racismo certamente não teria tanta ressonância se estas frações da classe trabalhadora não acreditassem piamente que sua sobrevivência está ameaçada pelos migrantes.

As recentes votações a favor do Brexit (analisadas aqui e aqui) e de Donald Trump para a presidência dos EUA expressam reações dos trabalhadores a isto que lhes parece mais imediato, e representam a vitória de um programa que pressupõe um fechamento das fronteiras econômicas em relação ao movimento de globalização fortalecido principalmente a partir da década de 1990. Trump ganhou por causa dos votos maciços de trabalhadores agrícolas e blue collar, ao que dizem analistas (ver aqui, aqui e aqui). Pode-se dizer que o Brexit aconteceu por causa de certa tradição isolacionista dos trabalhadores ingleses (como, por exemplo, no caso da não adoção do euro, lastreada por Tony Blair num referendo que nunca foi realizado), mas os efeitos devastadores da globalização capitalista sobre a classe trabalhadora inglesa não devem ser negligenciados. A recente eleição de Alexander van der Bellen na Áustria demonstra que a tendência de vitórias da extrema-direita não é irreversível; e, no caso do Brexit, a disputa ainda está em aberto, como mostram as tentativas diversas de revogar a decisão plebiscitária por via judicial e parlamentar. Mas serão certamente as eleições francesas e alemãs do ano que vem que darão o tom ao resto da eurozona. Se recordarmos que o padrão de vida de um trabalhador qualificado europeu ou estadunidense é parecido com o da classe média tradicional no Brasil, temos aí um paralelo interessante. Não uma igualdade, mas um paralelo, que poderia indicar os motivos de uma reação mais conservadora aos cenários de crise econômica e política que atravessam diversas regiões do mundo.

conjuntura1Vale para todos eles a mesma questão que propusemos no início do texto: como pretendem se integrar à economia internacional? O protecionismo é uma forma de inserção, tanto quanto o livre-comércio. Resta ver, em cada caso, que setores sairão protegidos e quais setores não serão. Em cada caso, quem ganha com isso? Afinal, ninguém que esteja integrado aos altos círculos da economia e da política mundiais faz nada sozinho, nem tampouco é economicamente suicida. O que fazem é apostar num ou noutro cenário, e que o cenário em que apostam favorecerá os interesses dos setores que representam.

4.

Algo, entretanto, parece ser estranhamente comum a esta onda da extrema-direita: a imprensa internacional tem qualificado indistintamente como “Populistas” figuras tão díspares quanto Marine Le Pen e Nicolás Maduro, Norbert Hofer e Evo Morales, Nigel Farage e Pablo Iglesias, Frauke Petry e Cristina Kirchner. Há quem diga, sem falar explicitamente em “populismo”, que as medidas protecionistas de Trump são muito próximas do programa de Dilma Rousseff (ver aqui, aqui e aqui e aqui). “Populista”, portanto, parece ser quem busque esta inserção protecionista na economia internacional, pouco importa se tem origem na esquerda ou na direita; pode ser, também, por outro lado, quem proponha soluções imediatas e cativantes (ver aqui). Em todos os casos, categorias vazias de enraizamento político-social são empregues para tecer um saco de gatos.

Este assim chamado “populismo” parece originar-se numa reação dos trabalhadores contra os chamados “males da globalização”: desemprego em massa, perda de direitos trabalhistas e previdenciários, precarização, proliferação da terceirização como principal forma de contratação etc. Parece reeditar-se, deste modo, um cenário já visto décadas atrás: o travamento das economias nacionais na sequência de uma crise econômica internacional profunda leva a soluções políticas autoritárias, nacionalistas (quando não xenófobas) e conservadoras, e a soluções econômicas protecionistas e autárcicas. Seria muito fácil adjetivar esta direita como fascista, mas o uso de um conceito histórico com um adjetivo serve mais para ocultar a visão do que para explicar algo. A repetição da história é mero artifício retórico, pois ela não se repete nunca, nem como tragédia nem como farsa; é constante invenção de novas práticas com base naquilo de que se dispõe à mão no momento, econjuntura6 é isto que é necessário analisar com calma e precisão em meio ao turbilhão de fatos.

E o que há de novo neste contexto?

Em primeiro lugar, o funcionamento de uma economia capitalista globalizada não está travado; pelo contrário, vivemos sob plena hegemonia das transnacionais e dos órgãos internacionais de governança financeira (FMI, Banco Mundial, OCDE, Fórum Econômico Mundial etc.) e com funcionamento normal de órgãos globais e regionais de governança política (ONU, Parlamento Europeu etc.) e assistência humanitária — o que significa dizer que as classes capitalistas, por mais nacionalista que seja o discurso de alguns de seus representantes, estão mais globalmente integradas do que nunca. Mesmo durante a crise de 2008, cujos resultados retardados ainda se fazem sentir, o que se viu foi uma ação rápida e internacionalmente concertada entre empresas e Estados para conter seus efeitos nos polos mais dinâmicos de extração de mais-valia. Em segundo lugar, não está presente no contexto atual a situação de “terra arrasada” vivida pela Europa nos primeiros anos do entreguerras; pelo contrário, a política de terra arrasada tem sido aplicada em regiões como o Oriente Médio e a África numa disputa acérrima por recursos naturais. Em terceiro lugar, a crise migratória decorrente da guerra na Síria é um problema humanitário sério, mas no contexto europeu não passa de um bode expiatório. A vasta maioria dos migrantes sírios (4,8 milhões) radica-se em campos de refugiados em países vizinhos como Egito, Iraque, Jordânia, Turquia e Líbia, enquanto cerca de 900 mil deles pediram asilo em 37 países da Europa (ver aqui).

Há outros fatores, mas estes chamam de imediato a atenção. Será preciso muito mais esforço analítico coletivo para entender a atual situação política e econômica internacional do que o cômodo refúgio nas frases feitas dos textos clássicos. E é a este esforço coletivo que convidamos você, que terminou de ler este texto, a contribuir na seção de comentários.

Todas as imagens são obras de Gerhard von Graevenitz


Comentários 4

    • João Bernardo

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      dez 16, 2016

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      Já que o Passa Palavra convida a um esforço de reflexão, e como me parece que a reflexão se faz mais por perguntas do que por respostas, ficam três questões:
      Em vez de considerar que o racismo é acrescentado como um extra às reacções anti-imigrantes num mercado de trabalho em retracção, por que não considerar que o racismo actual na Europa e nos Estados Unidos é determinado e definido por essas reacções anti-imigrantes? O Passa Palavra esqueceu talvez um dos primeiros artigos que publicou, em Fevereiro de 2009, e parece-me conveniente relê-lo: http://passapalavra.info/2009/02/772 Se na Alemanha são os turcos e agora os sírios o principal alvo desse racismo e se no Reino Unido o principal alvo são os polacos (em Portugal diz-se polacos, e não poloneses como no Brasil), e se na Polónia são os ucranianos, então não estaremos a assistir ao próprio mecanismo de génese do racismo? E não será que, neste contexto, o identitarismo se revela como plenamente nocivo?
      Em vez de considerar «populista» como uma categoria vazia, por que não reflectir sobre aquilo que há realmente de comum entre essas figuras ou, mais profundamente, entre as correntes políticas que essas figuras representam? Porque é que a extrema-esquerda europeia, a assim chamada extrema-esquerda, saudou o Brexit e deposita tantas esperanças na desagregação da Europa, ao mesmo tempo que incorpora o identitarismo em comum com a nova extrema-direita e com o novo tipo de fascismo? Será que a designação de «populismo» é uma tentativa de dar conta dessa convergência real?
      A política de terra arrasada no Médio Oriente será um resultado de uma acção das grandes companhias transnacionais e dos governos dos países onde elas têm as suas sedes? Ou deverá ser vista no contexto da velha luta entre sunitas e xiitas, em que agora os xiitas estão a predominar? Não será conveniente passarmos neste caso para a perspectiva do islamismo, que é afinal onde essa terra é arrasada? E não será conveniente lembrar que o jihadismo se tem dirigido muito mais contra os muçulmanos de outras persuasões do que contra os não muçulmanos?

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      dez 16, 2016

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      NÃO AINDA
      Sem tirar as castanhas do fogo, mas puxando uma brasa para minhas sardinhas – quase tão lusíadas quanto o JB… – derivo:
      “Como todo estado presente de uma substância simples é naturalmente uma continuação de seu estado anterior, o presente está carregado de passado e grávido de futuro.” Gottfried Wilhelm von LEIBNIZ

    • Primo Jonas

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      dez 17, 2016

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      Quanto ao populismo, parece ser a forma como a mídia corporativa alinhada com o “stablishment” estadunidense+União Europeia estão se referindo aos projetos econômicos dissidentes que estão ganhando espaço — em geral essa alcunha de populista vem com análises que tentam demonstrar como algumas promessas destas dissidências são “irrealizáveis” e atc, como um último grito desesperado do paradigma “Não há alternativa”, que inaugurava o último período que parece estar se encerrando.

      Além disso, como outro exemplo prático do que disse João Bernardo acima, Cristina Kirchner faz uma análise da vitória do Trump que por um lado se aproxima muito do diagnóstico feito por este site, dizendo que os eleitores estadunidenses votaram contra os efeitos das políticas neoliberais. Mas o tom do discurso é o que mais importa, pois diz que “o maravilhoso do povo dos Estados Unidos é que votaram pelo que está sentindo economicamente”, diz também que “acaba de ganhar alguém que em suas empresas faz do protecionismo uma de suas principais bandeiras”, e fecha dizendo que “ninguém pode pensar que o povo estadunidense é uma sociedade racista, porque há oito anos atrás votou pelo primeiro presidente afroamericano”.
      http://www.telam.com.ar/notas/201611/170037-crsitina-fernandez-de-kirchner-elecciones-estados-unidos-donald-trump.html
      Mais opiniões da esquerda “nac & pop” argentina são analisadas aqui:
      https://rolandoastarita.wordpress.com/2016/11/11/trump-y-el-nac-pop-criollo/

      Para somar um pouco mais ao terceiro ponto levantado pelo João Bernado, conversando com companheiros sobre os recentes atentados na Europa, vejo que alguns companheiros sustentam uma versão um pouco rígida de que os que mais se beneficiariam dos atentados seriam os Estados europeus, que assim teriam as desculpas perfeitas para aprofundar as medidas de controle e militarização. Inclusive esta seria uma explicação para o atentado à AMIA aqui em Buenos Aires no ano de 1994, sob o governo de Menem — segundo esta versão, o alinhamento com os EUA “produz” auto-atentados para fortalecer a repressão. Bem, creio que os atentados às torres gêmeas até que corroboram um pouco essa versão, assim como o fato de que o próprio Menem falou em cadeia nacional dando rapidamente uma versão dos fatos que vinha diretamente da embaixada de Israel, pois foi o primeiro contato do presidente antes de dar um discurso, ele nem sequer havia conversado para saber a versão da polícia federal nacional. Tudo isso para chamar atenção ao fundamentalismo islâmico como uma força autônoma que não está totalmente enquadrada pelo poder imperialista alinhado aos EUA: os atentados na Europa, os locais escolhidos, assim como a realidade de certos bairros e organizações islâmicas civis em diferentes países europeus, parecem buscar uma verdadeira influência cultural e política em territórios, influência que tem origens nas formas culturais e políticas de seus países de origem.
      Mas o caso AMIA também nos leva diretamente ao episódio de suicídio (provável) do promotor Nisman, em janeiro de 2015, que estava justamente preparando uma acusação ao governo da Cristina por encobrimento das investigações sobre o atentado. Existem diversos fios soltos na história, brigas entre setores dos serviços secretos, relações pouco explicadas com a embaixada de Israel, acusações de relação entre os governos Kirchner e o Irã, acusado de ter responsabilidades sobre o atentado. Mas a grande questão, que até hoje para mim melhor explica o ocorrido, é que a acusação que Nisman apresentaria no dia seguinte à sua morte, aparentemente era bem ruim. Nada que haja impedido o ministério público de avançar pesado contra Lula, mas o caso aqui talvez seja um pouco diferente devido à relação de forças e aos ânimos populares (também a ausência de uma crise tão estrutural como no Brasil neste momento). O fato ao que quero chegar para terminar o comentário, é que não há dúvidas de que nos últimos anos os EUA estabeleceram uma estratégia particular para a região, ao menos para os dois países mais importantes do continente, que foi insuflar o que alguns comentaristas chamam de “partido judicial”, formando e dando todo tipo de apoio para essa parcela do Estado a fim de controlar e se necessário confrontar abertamente outros setores do Estado e da burguesia. Os recentes casos de denúncias de lavagem de dinheiro e de paraísos fiscais (como o Panamá Papers) também revela um poder global sobre as informações de movimentação financeira de indivíduos que garante dados muito importantes, e controlados, para afetar os embates entre diferentes frações dos gestores.
      Bem, essa era a estratégia do “stablishment” do Partido Democrata, da União Europeia, do capitalismo multiculturalista e do “soft power”. Um novo momento parece estar sendo aberto a nível global. Uma coisa é certa. Lula assume em janeiro de 2003, Nestor Kirchner assume em maio de 2003; Macri assume em dezembro de 2015, Temer assume em agosto de 2016. No mundo das particularidades, os processos são muito dissimilares, considerando o 2001 argentino, o impeachment brasileiro. O suicídio de Nisman e o power point do Dallagnol.
      Outro dado assim para deixar no ar, é que o primeiro ano do governo Macri teve um déficit fiscal da mesma magnitude que o do último ano de Cristina. Esse é o governo que todos estão chamando de neoliberal. Eis aqui uma boa pista para entender qual margem realmente existe para qualquer governo da região aplicar algo como um “programa econômico”.

    • |

      jan 2, 2017

      |

      Sugiro acrescentarmos nesta análise as variáveis de “vigilância global” e “operações psicológicas em massa” patrocinadas, certamente, pelas mais poderosas transnacionais que, para além das mídias tradicionais, agora se operam através das redes sociais harmonizadas com as informações obtidas pela vigilância global para ir tecendo pós-verdades e fazendo as massas desejarem e defenderem o que mais favorece aos que concentram renda/poder no mundo contemporâneo.

      Como exemplo cito o caso brasileiro onde parece que para os nossos Hommers Simpsons o Brasil está sendo passado à limpo por uma Operação Lava-Jato(LJ) imparcial e implacável que precisa extrapolar os limites da legalidade criada pelos corruptos para que a justiça os alcance. Daí ser totalmente aceitável que juízes infrinjam as leis e a Constituição em nome de furar as barreiras legais com que os corruptos se protegem.

      Esta é a pós-verdade que tem predominado. Mas observemos à quem a mesma favorece.

      Eles não conseguem entender que as infrações as leis podem estar servindo pra proteger alguns grupos politicos e exterminar outros conforme certos interesses particulares(corporações americanas, rentistas especuladores brasileiros, politicos aportunistas) muito distantes do interesse público e do efetivo combate à corrupção.

      Os Hommers continuam iludidos mesmo com fartas evidências recentes de que quem está ganhando com a bagunça político-juridico-midiática do Brasil são:

      I.As industrias petrolíferas americanas que poderão explorar o pré-sal diretamente já que conseguiram com os herdeiros do butim do Golpe do Impeachment(O PSDB de Serra) o cumprimeto da promessa de favorecer os americanos(Vide provas por Wikileaks):

      Wikileaks: Cartas diplomáticas americanas revelam que desde 2009 o PSDB prometia aos americanos rever lei do pré-sal para beneficiá-los.

      As explicações das cartas diplomáticas acima fazem parte de artigo de Natália Viana disponível em: https://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/2010/12/13/nos-bastidores-o-lobby-pelo-pre-sal/

      II. As empreiteiras americanas que estavam perdendo espaço no mundo pras gigantes brasileiras e agora eliminaram estas concorrentes Odebrecht, OAS, etc;

      III. Os grandes bancos e fundos de investimentos americanos que direcionarão os recursos da previdência brasileira para seus cofres simplesmente forçando que os políticos brasileiros aprovem a REFORMA DA PREVIDÊNCIA que inviabilizará ao trabalhador assinar carteira pra contribuir aos cofres públicos o que certamente nunca lhe será devolvido(aposentar-se no limite de sua expectativa de vida) empurrando-o à contratos diretos em PJ com os patrões e aplicando nos fundos americanos de previdência privada;

      iV. Com a PEC55 do teto dos gastos sociais aprovada foi garantida que mesmo a arrecadação crescendo devido o almento da população brasileira os gastos sociais serão proporcionalmente menores para uma população maior enquanto será cada ves maior a fatia dos impostos destinados ao pagamento de juros de dívidas públicas para rentistas nacionais e internacionais(GANHAM OS JOGADORES DO SISTEMA FINANCEIRO E PERDE O POVO BRASILEIRO).

      Como foi possível isto?

      Penso que o seguinte Xadrez ajuda a explicar:

      A passividade brasileira ante o ataque americano à Petrobras, à previdência, às empreiteiras, etc… se deve aos seguintes fatores:

      Nenhum político brasileiro que tenha/teve significativo poder ousará contrariar os EUA simplesmente porque sabem que a NSA grapeou todo mundo e como na democracia representativa chega-se ao poder somente atraves de toma-lá-dá-cá todo mundo tá refém das chantagens americanas;

      As agências de investigação americanas não precisam infiltrar agentes no Brasil e muito menos perder tempo quebrando senhas de nenhuma rede de dados ou disco rígido de qualquer compurador(mesmo tendo tecnologia pra isto) pois as nossas porteiras para a vigilância global americana já estão todas escancaradas pois geralmente usamos sempre equipamentos e softwares americanos(Windows, Oracle Java, iPhone, Android, WhatsApp, Facebook, Google, etc…) e os mesmos são mantidos sempre com brechas de segurança atualizadas para o livre acesso e indexação das infomações por parte da NSA/CIA/FBI(lembram daquelas mensagens diárias de atualizações de segurança do Java e do Windows? Poize! Ali tanto se atualizam as brechas de segurança quanto se podem enviar pacotes de dados criptografados informando à NSA sobre conteúdos relevantes à espiar: basta um caractere diferente numa mensagem pra sinalizar que existem informações de certo tipo de interesse ali na máquina Windows ou Apple ( E certamente até do Linux Ubuntu já que tá infestado de pedaços obscuros de programas) de um funcionário da Petrobras ou da presidência da república.

      Assim fica muito fácio para os americanos escolherem que politicos ou autoridades ou empresários brasileiros querem derrubar, à pretexto de combate à corrupção, pra favorecer seus próprios negócios.

      Se corruptocracia é a regra da democracia representativa e está tudo grampeado então é só usar parte dos grampos que dê pra derrubar apenas os políticos que atrapalham os negócios americanos!

      Você pode entender melhor isto observando 4 peças fundamentais no atual jogo mundial do poder:

      Peça 1: A Espionagem Global: quem tem na mão a espionagem universal(indexação de dados de qualquer computador/celular e comunicações) sabe onde mover as milhares(até bilhões) de peças/variáveis no tabuleiro mundial de xadrez do poder,

      Peça 2: A Corruptocracia: A Regra básica da “democracia” representativa: Quem fizer mais Toma-lá-dá-cá terá como pagar mais publicidade ou “expontâneo” apoio midiático e quem for mais bem visto será mais eleito.

      Peça 3: As fogueiras das vaidades humanas: aqueles atores(Juizes, promotores, jornalistas, etc…) menos cientes da peça 1 e que não forem seduzidos por vantagens transnacionais podem ser recrutados pela sedução de terem informações poderosas nas mãos para se passarem como sapientes justiceiros do combate à corrupção. Se os interesses políticos forem convergentes então o fator vaidade será irrelevante. Da mesma forma se estes atores forem, em último caso, subornados.

      Peça 4: Efeito HommerBr: a preguiça de pensar das massas e consequente tendência a decidir mais pelas emoções(ódio) que pela razão. Alvos fáceis dos algoritimos de Zukemberg já testados com sucesso em Operações psicologicas em grandes populações simplesmente permitindo ou restringindo mais ou menos compartilhamentos de emoções, de ódio ou de serenidade e razão.

      As peças 1 e 2 permitem que o Poder Global(Peça 1), ciente de que quem estiver no poder eletivo certamente o conquistou por meios corruptos(Peça 2), então simplesmente escolhe, conforme lucre mais, sobre quais políticos deverá revelar as corrupções às autoridades persecutórias locais(Peça 3) e quais politicos deverá poupar com informações obtidas ilegalmente pela espionagem global. Conjuntamente atuam sobre veículos de imprensa e sobre regras de disseminação de postagens em redes sociais e alimentam as emoções preguiçosas das massas(Peça 4) que fazem o resto do trabalho de tornar legítima a estratégia de derrubada de governo que favoreça as massas e fazer chegar no poder os politicos que privilegiem as grandes jogadas financeiras.

      RESUMINDO: Corruptocracia + espionagem = derrubar só os políticos que não interessam aos EUA e ajoelhar os demais!

      Corruptocracia é todo um xadrez à parte e fiz um esboço do mesmo neste pequeno artigo:

      http://denismouradelima.jusbrasil.com.br/artigos/156797790/corruptocracia

      Assim conclui-se que nenhum político brasileiro que esteve ou esteja no poder ousará contrariar os EUA simplesmente porque sabem que a NSA grapeou todo mundo e como na democracia representativa chega-se ao poder somente atraves de toma-lá-dá-cá todo mundo tá refém com medo de alguma prova ilícita virar “pé na porta” lícito e metê-los em cana. Logicamente que sob estas chantagens os políticos brasileiros(maioria corruptocrata) aceitarão prontamente aprovar leis que favorecem os americanos se não quiserem que provas de seus ilicitos oriundos de espionagem caiam nas mãos de algum juiz brasileiro que as esquente e os ferrem de vez.

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