Por Daniel Caribé

Com a aproximação das eleições, a cada dia fica mais frágil a tese – defendida por muitos setores à esquerda e à direita – de que a candidatura de Bolsonaro se desidrataria naturalmente até outubro. Por mais que as pesquisas eleitorais sejam pouco confiáveis nesse momento, o candidato em questão vem mostrando força e, hoje, indiscutivelmente é uma alternativa para boa parte dos eleitores, muitos entre eles oriundos da classe trabalhadora.

Uma parte dentre aqueles que apostaram na tese da desidratação acreditava que três principais elementos ajudariam a devolver a Bolsonaro o papel insignificante que sempre teve: 1) o pouco tempo de TV e os escassos recursos para a campanha, ambos oriundos da sua pequena capacidade de aliança com outros partidos; 2) outros candidatos capturariam facilmente o eleitorado dele e; 3) o candidato não suportaria os debates e entrevistas, devido ao seu pouco preparo intelectual.

Se pouco podemos avaliar da validade do primeiro ponto, pois os candidatos ainda não começaram a campanha na TV aberta, já sabemos de antemão que – e a exemplo do que se passou nos EUA e outros países – as redes sociais e, principalmente, as plataformas de compartilhamento de conteúdos (a exemplo do Youtube) exercerão um papel inédito na escolha do futuro presidente. Isso significa que inevitavelmente o horário eleitoral terá um peso menor do que outrora. E, por mais que tenha sido inaugurada uma campanha contra as fake news e demais práticas criminosas nas redes sociais, pouco podemos fazer contra as ações do exército de aficionados que retroalimentam as bolhas de afinidade criadas pelos algoritmos nos espaços virtuais privados. O isolamento de Bolsonaro frente aos demais partidos políticos e a sua distância das maiores fontes de financiamentos para as campanhas eleitorais não são condições desprezíveis, porém não são suficientes para colocar o candidato na lona. Ao contrário, tal situação pode ser astutamente usada a favor do próprio candidato ao se colocar “contra o sistema”, o candidato “contra tudo e contra todos”.

Agora há uma grande expectativa de que Ciro Gomes capture os votos de Bolsonaro, pois parece ser a muitos setores ainda mais macho e mostraria nos debates não apenas estar mais tecnicamente preparado para governar o país, mas também o faria de forma mais autoritária e severa contra os corruptos e demais perturbadores da ordem e do crescimento econômico. E, no mais, nos debates eleitorais televisionados, Ciro Gomes comeria o fígado de Bolsonaro, uma espécie de luta do século, um MMA de paletó e bravatas. Essa posição não deixa de ser fundada em um certo cinismo, pois entre os males, o menor, ou antes um autoritarismo democrático do que um protofascista. Mas a verdade é que muitos – mesmo entre os de esquerda – anseiam por uma resposta autoritária à crise político-econômica do país, nem que para isso seja preciso pintar Ciro Gomes de centro-esquerda ou de gestor eficiente. A existência de Bolsonaro, para boa parte dos defensores de Ciro Gomes, só afaga a consciência dos que migraram de posição, algo tão comum nos últimos anos e, pasmem!, nos períodos de ascensão dos fascismos.
Sobre o ponto 3 que sustenta a tese de desidratação de Bolsonaro, a esquerda (mas não só ela) acompanhou com um certo desespero o primeiro teste: a entrevista no programa Roda Viva exibida na última segunda-feira (30/07/2018). Para muitos seria ali o início da derrocada do candidato, a sua desmoralização perante todo o país e a evidenciação do seu descontrole e despreparo para assumir a função que deseja. Mas o tiro saiu pela culatra e não me será estranho que nos próximos dias surja alguma pesquisa comprovando mais um crescimento do candidato. Bolsonaro sobreviveu à desastrosa sabatina.

O programa Roda Viva montou uma bancada recheada de jornalistas representantes dos grandes jornais e revistas do país, os mesmos que sustentaram o impeachment de Dilma e as demais ações contrárias ao PT. Ficou evidente que a direita representada pelo PSDB tinha interesse de comer o fígado de Bolsonaro tanto quanto a esquerda. Foi, sem dúvida, a bancada mais qualificada a entrevistar um dos candidatos a próximo presidente, entre eles Manuela (PCdoB), Boulos (PSOL) e Alckmin (PSDB). Bolsonaro teve pela frente questões embaraçosas, mas que já são exaustivamente respondidas por ele em suas redes sociais e que ajudaram assim a formar em torno de si um exército de aficionados. A direita representada na bancada – ou o PSDB, pois no momento eleitoral faz pouca diferença – estranhamente apostou nas questões identitárias – que tomaram conta da esquerda – para atacar o candidato e, tal como os seus rivais eleitorais, falhou.

O Roda Viva deu a Bolsonaro um novo palanque e foi lá que ele fez o mesmo de sempre sem ter que responder por aquilo que não pode ou não sabe. Se a intenção dos gestores do programa era destruir o candidato, erraram o alvo em muito. E se nos debates que se aproximam e nas demais entrevistas o candidato terá que enfrentar o mesmo tipo de abordagem ou se uma abordagem mais “macro” (com questões sobre economia, finanças, reformas etc.) reverterá o quadro, em breve saberemos, porém hoje aguardamos de forma ainda menos confiante. O que importa agora é que para os temas “micro”, Bolsonaro conseguiu se fincar na trincheira oposta à da esquerda identitária (gênero e raça, principalmente), e é o único a defender uma “proposta” de combate à violência urbana sem meias palavras. Começou a entrar água na tese da desidratação.

Mas a verdade é que essa torcida pela desidratação de Bolsonaro demonstra também a incapacidade da esquerda de entender e disputar a onda conservadora que toma o país desde quando as mobilizações por mais direitos sociais, contra a falta de perspectivas e contra a precarização da vida de boa parte dos trabalhadores foram varridas das ruas pela repressão e retomadas logo a seguir por pautas conservadoras e moralistas. Por isso pouco sabemos sobre os motivos que levam as pessoas a apostarem cada vez mais em soluções do tipo Bolsonaro, muito menos quem são elas.

Um dos grandes erros cometidos atualmente é a redução de todo esse público aos garotos da masculinidade atacada pela “onda feminista” ou sendo eles representantes da “branquitude” preterida pelas conquistas dos movimentos negros. Se é verdade que são eles a sustentarem o debate nas redes sociais causando histeria, por outro lado esses garotos e suas ações servem para esconder uma adesão a Bolsonaro muito mais ampla. Ora, esses garotos são a resposta conservadora ao movimento identitário, mostram uma imensa e ambígua revolta, pois o seu fundamento é a manutenção da ordem. No que pesem todas as críticas aos movimentos identitários, muitos deles não tão distantes assim das práticas autoritárias e lacradoras também em moda entre os apoiadores de Bolsonaro, o embate contra esses garotos se dá por outro eixo e pouco passa pela conversão deles em movimentos classistas, como sonhamos fazer um dia com os identitários. A não ser, é claro, que se leve a sério a aposta de apresentar novas lideranças com comportamentos idênticos, porém com propostas diferentes, a exemplo das esperanças depositadas na captura dos votos de Bolsonaro por Ciro Gomes. Mas cabe aqui perguntar o motivo que faz cada dia mais jovens aderirem suas revoltas a pessoas, organizações e instituições conservadoras, alimentando um profundo desprezo pela esquerda, ao invés de aderirem aos projetos realmente revolucionários e emancipatórios, inclusive aqueles que no lugar de isolá-los em sua masculinidade ameaçada, convoque-os para superá-la em definitivo.

Mas esses garotos estão muito longe de formarem o grosso dos prováveis eleitores do candidato, que para alcançarem a tamanho destaque vêm contando com trabalhadores das mais diversas origens, o que ficou muito evidente nas manifestações de apoio que recebeu de inúmeros caminhoneiros grevistas em 2018. São esses e outros tantos que formam um contingente quase sempre silencioso de apoiadores, porém bastante atento. Eles não são necessariamente fascistas, como precipitadamente muitos acusam ao descartá-los dos debates políticos, em um impulso de superioridade moral e sectarismo. Vivem esses trabalhadores, como todos nós afinal, em alguma esquina de encontro entre as diversas práticas e ideologias possíveis, contraditórias entre si, mas em constante tensão e à espera daquelas que, com mais clareza, apontem para uma vida melhor, isso quando não são eles próprios a elaborarem as novas soluções.

Os ataques de Bolsonaro às conquistas dos movimentos identitários, mesmo a falsificação histórica (ou desconhecimento mesmo) que ele não se envergonha de bravejar, nada disso me parece ter uma repercussão tão grande quanto a sua defesa da implementação de um Estado de (ainda mais) Exceção no país em resposta à crise urbana – que aparece na forma de violência generalizada. Bolsonaro é o único candidato a apresentar “soluções” ao problema, sejam elas viáveis ou não, sejam eficientes ou não. Castração química, encarceramento em massa, pena de morte, extermínios promovidos pelo exército e pela polícia, armamento da população, transformação das favelas em verdadeiros guetos etc. são propostas que ganham a adesão entre os trabalhadores mais pobres, mas principalmente entre a classe média, sem que seja oferecido um contraponto.

Parece-me que passa por aí o embate contra o crescimento do fascismo no país: pela elaboração de propostas concretas de superação das crises urbana e política, ao invés de um convencimento tête-à-tête dos garotos (e garotas) que encontraram em Bolsonaro a voz em defesa do direito de serem cretinos. Porém esse conjunto de propostas deve levar em consideração que estamos em um momento no qual a revolta (pela ordem ou contra a ordem, a depender dos vencedores do jogo) está no ar, abrindo espaço para a elaboração de propostas tão radicais quanto as de Bolsonaro, porém ideologicamente opostas. A tese da desidratação pode ou não estar certa e em breve saberemos. Mas a derrota eleitoral de Bolsonaro só atrasa em alguns meses o crescimento dessa onda conservadora. Ou, pior: abre espaço para o surgimento de alguém realmente preparado para conduzir os trabalhadores à extrema-direita.

2 COMENTÁRIOS

  1. Não é necessário entender muito de política para saber a tática do eleitor julgado por fascista pela extrema esquerda. O ódio e memes nas redes sociais não faz mais do que popularizar ainda mais o candidato, e abrir passagem para novos discursos em televisão onde o mesmo terá o privilégio de se esquivar e acentuar que o seu mandado será de tiro, porrada e bomba.

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