“O nome gueto na nossa perspectiva representa todos os irmãos e irmãs oprimidos, segregados, discriminados por esse sistema capitalista/racista. O gueto simboliza qualquer vítima da injustiça desse sistema sanguessuga.”

Grupos de jovens africanos, ou de origem africana, dos bairros periféricos de Lisboa vêm fazendo um importante trabalho de consciencialização e de intercâmbio com as outras comunidades, nomeadamente as ciganas e as de portugueses pobres. São várias associações e grupos musicais que se estão unindo na Plataforma Gueto. Saíu há poucos dias, depois de uma interrupção relativamente longa, o nº 2 do seu jornal Gueto – olhos ouvidos e vozes. Por ser um jornal de circulação militante e muito circunscrita aos referidos bairros, reproduzimos aqui, com autorização da sua redacção, o Editorial deste novo número do Gueto. Passa Palavra

Porquê Gueto – olhos ouvidos e vozes?

Em primeiro gostaríamos de dizer que o nome gueto no jornal não visa agir apenas dentro do espaço geográfico de um determinado gueto, ou seja do de um bairro “social”. O nome gueto na nossa perspectiva representa todos os irmãos e irmãs oprimidos, segregados, discriminados por esse sistema capitalista/racista. O gueto simboliza qualquer vítima da injustiça desse sistema sanguessuga.

O jornal Gueto – olhos, ouvidos e vozes pretende ser a voz da comunidade negra neste país, voz daqueles ou daquelas os quais o sistema viola, pisa os direitos e lucra com a sua desgraça. @s que não têm voz, e cujo futuro é decidido sem @s consultar, uma vez que na sociedade capialista racista, vampírica e abutre aqueles ou aquelas que não possuem poder económico também não têm voz política. Por isso é preciso criarmos, nós os negros e negras [email protected], alternativas para que se oiça a nossa voz. Gueto é qualquer elemento do nosso povo vítima da opressão.

O Gueto pretende promover a descolonização mental, promovendo a auto-estima dos nossos irmãos e irmãs, exumando a nossa história enterrada, distorcida pelo racismo cego e doentio do colonialismo e neocolonialismo ocidental. Ensinando aos nossos irmãos e irmãs mais [email protected] a nossa história antes durante e “depois” da escravatura. Para além disso pretendemos quebrar estigmas, calúnias e estereótipos lançados sobre nós.

Como sabemos gueto é, ou quase é, sinónimo de prisão e como disse o Sábio MUMIA ABUJAMAL no seu livro A Morte em Flor: “As prisões têm olhos e ouvidos mas não têm vozes”. Sendo assim, nós o povo negro em Portugal, vivendo a maioria em guetos, sem direitos, vítimas de racismo institucional, indiferença governamental, alvo fácil de usurpadores e aproveitadores políticos que usurpam de acontecimentos na nossa comunidade para promoverem a sua campanha política. Concretamente, falamos da direita conspiratória, racista e exploradora sem esquecer de falar de certos partidos da esquerda hipócrita e retrógrada que nem sequer põem a questão negra na sua agenda politica.

Gueto – Olhos, Ouvidos e Vozes vai ser a voz do gueto, falando por nós mesmos e para nós mesmos a todos e todas. Já é hora da comunidade negra em Portugal falar por si mesma, dar voz a esses guetos, a essas prisões, porque os nossos olhos já estão cansados de sofrer ataques bárbaros do sistema português e saturados das explorações capitalistas deste sistema. Os nossos ouvidos já estão cansados de ouvir a voz do evangelho do racismo, da xenofobia dos médias, estigmatizando e criminalizando o nosso povo e culpando-nos pela recessão económica deste país, que nunca fala do contributo que os imigrantes e seus descendentes deram para este país ingrato. Os nossos ouvidos já estão mortos de tanto sensacionalismo, racismo e da exploração mediática do quarto poder (Média) do sistema. Os nossos olhos já estão cansados de ver a brutalidade policial, escravidão laboral, machismo e racismo institucional, indiferença governamental, por isso é hora de deixar de ter só olhos e ouvidos e ter voz neste país.

Por estas razões, mais que suficientes, demorámos o tempo necessário a remodelar o gueto de forma a aproximá-lo mais daquilo que é a sua missão. Uma demora justificada para produzir um jornal que pensamos poder agora começar a dar voz aos irmãos e irmãs e que melhorará muito com o vosso contributo.

Vamos nesta luta, irmãos e irmãs, nesta luta pela nossa vida, pelo futuro dos nossos frutos. 0 futuro nos pertence se o prepararmos desde agora. Por um futuro sem cheiro de pólvora no nariz das nossas crianças, nossos futuros líderes.

Blogue do Gueto: http://olhos-ouvidos-vozes.blogspot.com

1 COMENTÁRIO

  1. No Brasil há uma corrente que procura, pela cultura, agitar os jovens da periferia contra as variadas formas de exploração e opressão que os atinge. Existe toda uma rede de pessoas politizadas ligadas ao Rap e à cultura periférica.

    No entanto, nos últimos anos tem crescido aquela vertente que faz a pura apologia à criminalidade e que se felicita por ser defensora de grupos criminosos responsáveis por tornarem mais horríveis a vida das pessoas excluidas, oprimidas e exploradas também pelo bandido local.

    Há, ainda, uma terceira vertente que pretende cooptar toda essa cultura de periferia para um caminho mercadológico e de apoio às instituições oficiais.

    o cotidiano das periferias tem sido um local, no Brasil, onde se tem travado uma silenciosa, mas não menos dura e por vezes sangrenta, batalha para as lutas sociais.

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