Quem pensa que Beppe Grillo lidera um movimento com características idênticas às de outros movimentos anti-austeridade do sul da Europa deveria informar-se melhor. Por Wu Ming Foundation

«O casamento é um laço entre um homem e uma mulher. Como é que se pode instituir o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo? Então, porque não haver casamento entre três pessoas? Porque não o casamento entre um ser humano e um animal? Há pessoas que têm uma forte relação com o seu animal, dever-se-ia permitir-lhe casar com ele?» (Francesco Perra, candidato do Movimento das 5 Estrelas nas recentes eleições italianas, 8 de Junho de 2012).

Fora da Itália existe muita confusão acerca do que está a acontecer naquele país nos últimos cinco anos – a era do ex-berlusconismo – e do que está a acontecer depois das recentes eleições nacionais. Na altura em que escrevemos, ninguém sabe o que será o governo italiano. Não é possível formar um governo estável sem o voto de confiança do Movimento das 5 Estrelas [M5E], a organização política liderada pelo ex-comediante Beppe Grillo e pelo guru do marketing online Gianroberto Casaleggio. O M5E, que se apresentou a eleições nacionais pela primeira vez, ganhou 25,5% dos votos para a Câmara [de Deputados] e 23,8% para o Senado.

Dario Fo
Dario Fo

Vários comentadores progressistas e de esquerda tendem a olhar para o M5E com certa simpatia. Sabem que até Dario Fo, intelectual de esquerda Prémio Nobel, apoiou Grillo durante a campanha. Acham que os discursos inflamados e enfeitiçantes de Grillo são teatrais – aliás ele foi outrora um actor cómico. Claro que as notícias vindas da Itália costumam ser sempre desconcertantes, mas muitos ficam com a impressão de que o M5E é um movimento populista que oscila os quadrantes progressista e radical do espectro político. Um movimento com características idênticas às de outros movimentos anti-austeridade e outras mobilizações do sul da Europa (Portugal, Grécia, Espanha, Eslovénia). Quem assim pensa deveria – literalmente – informar-se melhor.

O problema é que muitos italianos também deveriam informar-se melhor.

Simone Di Stefano: «Você é antifascista?»

Beppe Grillo: «Essa questão não me diz respeito. o M5E é um movimento ecuménico.»

(Conversa entre Grillo e um dos principais dirigentes do partido neofascista CasaPound, 11 de Janeiro de 2013).

Alguns leitores terão amigos italianos que costumavam situar-se à esquerda e que recentemente votaram no M5E, ou até se tornaram activistas do M5E. Aposto que nenhum deles lhes terá falado dos aspectos mais direitistas do movimento, porque certamente teriam perguntado: «Como assim? Andas a fazer trabalho político lado a lado com fascistas? Aderiste a um movimento que rejeita a própria noção de antifascismo? Um movimento que quer suprimir os sindicatos?! Votaste num tipo que admira Ron Paul e o conservadorismo libertário ao estilo dos EUA? Meu caro, o que se passa contigo?», e eles encetariam um emaranhado de autojustificações.

«Antes de degenerar, o fascismo tinha um sentido de comunidade nacional (que foi buscar directamente ao socialismo), o maior respeito pelo Estado e a vontade de proteger [a instituição de] a família.» (Roberta Lombardi, deputada do M5E, 21 de Janeiro de 2013).

Talvez esses amigos estejam a par desses aspectos mas ou os subestimam ou os afastam prontamente, porque são demasiado inquietantes. É tal a repulsa contra “o velho sistema político” que a crítica de um “novo” movimento é desclassificada como manifestação de pedanteria e de luxo intelectual. «Primeiro que tudo é preciso correr com este sistema político podre, e então poderemos falar dos erros do Grillo. Agora não podemos permitir-nos isso!» Ora nós pensamos que essa é uma abordagem perigosa.

1. Como o rancor para com “A Casta” ajudou a prevenir o conflito social

Há muitos factores que explicam o êxito de Grillo. Os anos zero foram uma década de devastação social, durante a qual os movimentos sociais sofreram derrotas gigantescas, enquanto o ex-berlusconismo avançava com a sua bancarrota cultural e moral com a cumplicidade do há muito desacreditado “centro-esquerda”. Então, no início da nova década, a crise do euro atingiu-nos em cheio.

Durante o verão de 2011, a classe capitalista e o Banco Central Europeu decidiram que o governo de Berlusconi era completamente disfuncional e inadequado para pôr em prática as “necessárias” medidas de austeridade. Malgrado uma vasta maioria em ambas as câmaras do parlamento, por meio de uma espécie de golpe de Estado legal, o governo do “centro-direita” foi substituído por um governo “técnico” chefiado por Mario Monti, um economista neoliberal há muito associado à Goldman Sachs e à Comissão Trilateral.

Mesmo que de má vontade, o governo de Monti foi apoiado tanto pelo centro-direita como pelo centro-esquerda. Em boa verdade o centro-esquerda deu a impressão de apoiar Monti com menos má vontade do que o centro-direita. No fim de contas, o Partido Democrático revelou-se mais responsável do que Berlusconi pelas agressivas medidas de austeridade que agravaram a situação da classe trabalhadora e da classe média baixa em 2012.

Algo semelhante aconteceu na Grécia, onde o Partido Socialista de Papandreou ficou mais directamente associado aos cortes do que o partido de direita Nova Democracia.

A diferença é que na Grécia houve manifestações de massas e greves gerais contra a austeridade, o FMI, o Banco Central Europeu e por aí fora, enquanto que, na Itália, o descontentamento social foi canalizado contra um alvo diferente: a chamada “Casta”.

“A Casta vs. As Pessoas Honestas” é o enquadramento conceptual mais poderoso na Itália de hoje. A Casta: Como os políticos italianos se tornaram intocáveis é o título de um best-seller escrito por dois jornalistas, Gian Antonio Stella e Sergio Rizzo. Foi publicado em 2007 e descrevia os processos com que os políticos nacionais e locais usavam o dinheiro dos contribuintes para se tornarem oligarcas parasitas. O título do livro forneceu a metáfora perfeita para enquadrar o debate político numa nova versão da dicotomia clássica da direita: “as pessoas normais” são “limpas”, enquanto os “políticos” são “sujos”. Claro que eles não são apenas sujos, são mesmo o maior problema do país. Livremo-nos dos políticos, e tudo se resolverá!

O facto de os políticos estarem no poder precisamente porque as pessoas normais votaram neles raramente é mencionado.

Flavio Briatore

“A Casta vs. As Pessoas Honestas” confirmou-se como a perfeita narrativa de diversão. A raiva e a frustração foram canalizadas contra membros do parlamento, os seus salários, o financiamento público dos partidos políticos, etc., os quais, sendo reais, são problemas menores do sistema. Entretanto, as medidas de austeridade e as políticas neoliberais eurocráticas devastavam a sociedade, sem encontrarem oposição. Diferentemente da Grécia, da Espanha e de Portugal, não houve a resposta de lutas de massas.

Escusado será dizer que a verdadeira “casta” – a casta dos milionários, dos presidentes de administrações, dos especuladores e outros que tais – não pagou qualquer preço pela situação que havia criado. Até se ouviram magnatas como Flavio Briatore fazendo declarações anti-Casta, maldizendo os políticos, etc.

Para referir apenas uma consequência concreta do enquadramento “A Casta vs. O Povo”, esta narrativa despolitizada criou a ideia da aceitabilidade de um governo “técnico”, tornando-o portanto desejável. A opinião pública foi levada a acreditar que um governo sem políticos seria melhor do que qualquer governo tradicional. Por isso Mario Monti teve direito a uma prolongada “lua de mel” e teve a possibilidade de fazer passar leis draconianas que empobreceram a maioria da população.

O enquadramento “A Casta vs. O Povo” foi activado no debate público ainda antes de ser criado o M5E, e abriu o caminho para ele.

O que foi trazido por Grillo e Casaleggio foi a extensão do conceito de “Casta” a quase todos os funcionários públicos, que na retórica do M5E se tornaram meros parasitas. Num dos mais abomináveis posts do seu blogue, Grillo exigia que «dezenas de milhares de funcionários públicos [fossem] despedidos». Como bem referiu Rossana Dettori – dirigente da central sindical CGIL -, por trás das expressões que Grillo usa de forma abstracta (e.g. “funcionários públicos”) há hospitais e serviços de urgência, bombeiros, escolas e infantários, serviços sociais para os idosos e os doentes graves, «assim como insituições democráticas que tratam de manter esses serviços em funcionamento».

A verdade é que, na Itália, é o sector público que apresenta a mais elevada taxa de sindicalização e de activismo sindical. 78,79% dos funcionários públicos participam na eleição dos seus delegados sindicais. Por isso, o verdadeiro alvo da invectiva de Grillo contra os funcionários públicos são os sindicatos. Ele defendeu mais do que uma vez a total «eliminação» dos sindicatos.

2. Falsa “anti-austeridade”, falso “radicalismo”

É certo que Grillo menciona o capitalismo, as culpas dos banqueiros, etc. Ele faz isso. No entanto essa parte do discurso dele nada tem de peculiar, limita-se a recuperar todos os clichés dos populismos europeus de direita. A questão é posta de uma forma simplista neonacionalista: o capitalismo “real” (i.e. o capitalismo produtivo) é apresentado como sendo bom porque está enraizado no território, enquanto que a economia financiarizada é degenerada porque está nas mãos de cliques e lóbis transnacionais preversos. Uma vez que o euro é a causa principal da presente crise, se a Itália deixar a eurozona e se livrar dos políticos e chutar “dezenas de milhares” de empregados (sindicalizados) para fora do sector público, então haverá condições para entrar numa nova idade do ouro.

Gad Lerner

Todos sabemos que muitas vezes existe uma tendência anti-semítica subjacente a este tipo de conversa sobre os inimigos “sem pátria”. Será uma coincidência haver frequentes tiradas e insultos anti-semíticos na secção aberta do blogue de Grillo? Em Novembro de 2012 um bloguista convidado do beppegrillo.it atacou Gad Lerner, um jornalista judeu que ousou criticar Grillo, chamando-lhe “Gad Vermer”. Verme em italiano significa “verme”, um insulto clássico do reportório anti-semítico.

O mais importante que há a dizer sobre a atitude “anti-austeridade” e antifinanceira de Grillo é que isso não passa de uma fachada. É uma piada. Afinal: Grillo é um multimilionário, raios! Sempre que um movimento populista conservador é eleito e toma o poder, a sua retórica “anticapitalista” e antifinanceira evapora-se depressa e acaba a administrar o status quo, capital financeiro incluído.

Foi talvez por isso que Jim O’Neill, o recatado presidente da Goldman Sachs, escreveu recentemente:

«Acho que o resultado [das eleições italianas] é muito interessante pois parece-me que, num país cujo PIB basicamente não mudou desde que a União Monetária começou em 1999, terá de haver grandes mudanças. Talvez o resultado destas eleições e o notável apoio de massas do Movimento 5 Estrelas sejam o sinal de arranque de algo de novo?»

Será mesmo, Goldman Sachs? Há poucos dias Grillo declarou que os grupos parlamentares do M5E estavam a inclinar-se para votar a favor de um novo governo “técnico” sem políticos, uma vez que nunca votariam a confiança num governo político. Estavam mesmo com vontade de viabilizar um “Monti Bis”, um segundo governo de Monti, mesmo que com um mandato limitado e controlado de perto pelo novo parlamento. Depois de passar meses a chamar-lhe “Rigor Montis”, Grillo afirmou implicitamente que o ex-conselheiro internacional da Goldman Sachs é um “mal menor”, se comparado com os partidos políticos.

Após um efémero vislumbre de verdade nua e crua, o ex-comediante mudou de posição uma vez mais. Agora diz que quer conquistar «100% do parlamento» de forma que «os cidadãos se tornem o próprio Estado» e que o movimento «possa deixar de existir», o que evidentemente não quer dizer nada mas é bom causar sensação.

[N.B. O último líder político a conseguir 100% do parlamento italiano e a fazer coincidir o seu movimento com o Estado acabou pendurado de cabeça para baixo numa praça de Milão. O que aconteceu com vinte e seis anos de atraso, mas hoje em dia as coisas acontecem mais depressa, não é? Há a internet e tudo o resto. Piadas à parte, Grillo deveria estudar a história do seu país antes de fazer essas declarações provocatórias que não auguram nada de bom para ninguém.]

Caso ainda queiram agarrar-se à primeira impressão de que o movimento de Grillo é anti-austeridade e é radical, ou pelo menos uma força para mudanças concretas, porque não darmos uma olhada ao que o M5E tem andado a fazer nas cidades e vilas que administra? Por exemplo, vejamos o que o presidente da Câmara Federico Pizzarotti fez em Parma.

A questão nuclear da campanha de Pizzarotti foi a oposição à construção de uma grande incineradora cujo impacto no ambiente e na saúde dos cidadãos era considerado catastrófico. Em Junho de 2012 o próprio Grillo declarou: «Eles nunca irão construir essa incineradora, e se o quiserem terão de passar por cima do cadáver do presidente da Câmara!». Quando o jornalista Marco Travaglio perguntou a Grillo que indemnizações a cidade teria de pagar aos contratantes e subcontratantes, ele deu-lhe esta resposta: «Não sejamos palermas: se pagar as indemnizações for obrigatório, arranjaremos maneira de as pagar». Pois bem, a incineradora foi posta a funcionar no dia 3 de Março de 2013. A cidade não tinha dinheiro para pagar as indemnizações. Ninguém teve de passar por cima do cadáver de Pizzarotti.

Durante a campanha, Pizzarotti prometeu também que não subiria o imposto sobre a habitação nem a taxa de admissão nas creches. Depois de eleito, aumentou-os a ambos e explicou: «Não podia fazer outra coisa». Como qualquer outro político. Agora está a pensar cortar nos salários dos empregados municipais.

3. Influências direitistas no Movimento 5 Estrelas

Guglielmo Giannini

A retórica de Grillo está repleta de elementos que podem ser referenciados a diferentes tradições da direita, que ele e Casaleggio vão misturando numa trapalhada tóxica.

A mais reconhecível dessas tradições é a do populismo conservador europeu. Na França essa abordagem é conhecido por poujadismo, do nome do seu principal promotor no séc. XX Pierre Poujade. Na Itália normalmente chamamos-lhe qualunquismo [que poderíamos traduzir por “qualquerpessoismo”], nome que vem de um movimento de massas pequeno-burguês fundado pelo dramaturgo Guglielmo Giannini em 1946.

Outra tradição é o “conservadorismo libertário” / “anarco-capitalismo” dos EUA: Ayn Rand, Ron Paul, esse tipo de coisas. Esta influência é detectável em várias partes do programa do M5E. Um dos mais conhecidos representantes do movimento, Vittorio Bertola, disse explicitamente «Gosto do Ron Paul».

Claro que também podemos encontrar na linguagem bombástica de Grillo tropos e clichés que se tornaram comuns em todo o mundo ocidental. Todas essas tradições partilham certas características básicas, uma das quais é o ódio aos sindicatos e, em geral, às organizações e conquistas dos trabalhadores, como contratações colectivas nacionais, etc. Esta hostilidade perpassa em todos os discursos de Grillo.

Se é uma tarefa tão desagradável mostrar as características de direita da retórica de Grillo é porque o confusionismo é uma estratégia deliberada. Grillo está sempre a gritar que «já não há esquerda nem direita!». Enquanto faz isso, ele e Casaleggio vai entremeando habilidosamente os elementos de direita com os de esquerda, repropondo palavras-chave, conceitos e exigências que foram sequestrar aos movimentos sociais anteriores. Estes conceitos são reprocessados, é-lhes aplicado um tratamento que lhes retira toda a estrutura óssea e os deixa vazios de conteúdo.

4. Democracia directa, Führerprinzip e linchamento mediático

Não obstante tudo o que se diz sobre democracia directa ou democracia interactiva online, o M5E é uma organização de cima para baixo sem organismos intermédios entre Grillo e Casaleggio e a malta dos fãs-activistas. Todas as decisões importantes são tomadas por esses dois sexagenários abastados, e a “democracia directa” só é importante para apelar às bases para concordarem de forma tele-plebiscitária.

No período 2011-2012, o M5E da Elimia-Romagna (a região cuja capital é Bolonha, cidade onde nós vivemos) foi abalada por uma vaga de expulsões. “Dissidentes” como Giovanni Favia, Valentino Tavolazzi, Federica Salsi e muitos outros ousaram levantar a questão da democracia interna. A consequência foi serem corridos e denunciados aos raivosos esbirros internéticos. As expulsões foram decididas por Grillo e Casaleggio e comunicadas ao mundo com breves posts no beppegrillo.it.

Os activistas locais expressaram a sua solidariedade para com os expulsos e organizaram assembleias em que a maioria votou a favor da readmissão, mas esse voto foi completamente ignorado pelo dois chefes. O passo final foi a utilização da internet para caluniar os expulsos de todos os modos possíveis. Os grillini leais empenharam tempo e esforços para sabotar todas as conversas online onde alguém estivesse a defender os “traidores” e a criticar Grillo e Casaleggio pela sua conduta claramente autocrática.

Federica Salsi

Os dirigentes locais do M5E não mostraram qualquer hesitação em usar “linchamento” como conceito positivo. Em 2 de Março de 2013, Andrea Defranceschi, representante do M5E no Conselho [regional] da Emilia-Romagna, declarou: «Se alguém entre nós trair o movimento, a Internet o linchará.»

É claro que por “linchamento” Defranceschi significa o linchamento mediático dos dissidentes. Se alguém se atrever a discordar de Grillo e Casaleggio, a sua reputação tem de ser destruída, e essa destruição deverá prosseguir bem para além da expulsão. Essas pessoas não podem simplesmente ser deixadas em paz, os seus blogues ou páginas de Facebook têm de ser bombardeadas com comentários insultuosos. Em poucos meses, o conselheiro local Giovanni Favia passou de pessoa reverenciada como verdadeira incarnação dos valores do M5E a traidor vil. E se o dissidente for uma mulher, cairão sobre ela os insultos sexistas: “puta”, “cabra” e o resto do reportório. Foi o que aconteceu a Federica Salsi.

Isto é uma clara manifestação de mentalidade de culto e, de facto, o M5E é muitas vezes descrito como um culto. Muitas vezes é comparado com a Cientologia. A Cientologia rechaçou a comparação.

Perguntar-se-á: como podem o Grillo e o Casaleggio sair-se bem de tudo isso? Pois bem, está tudo escrito nos “Não-Estatutos” do movimento. Os “Não-Estatutos” são um texto muito curto e durante anos foi o único documento escrito regulador da vida interna do movimento. No essencial ele diz que o nome e o logotipo do M5E são propriedade exclusiva de Beppe Grillo e que a “sede” do movimento se situa no blogue de Grillo, beppegrillo.it.

Se estão a pensar que a noção de “democracia directa online” é no mínimo estranha, bem, esperem porque ainda não viram nada! Sugerimos que vejam uma espécie de vídeo-manifesto da autoria de Casaleggio e por ele produzido em 2007. O título é Gaia: O futuro da política. “Assustadora” e “repulsiva” são os adjectívos próprios para esta entusiástica visão anarco-capitalista do futuro que apresenta Casaleggio.

Como é que os esquerdistas ou ex-esquerdistas que apoiam Grillo reagem quando alguém lhes põe estes graves problemas?

5. Os fascistas na Pátria de Grillo (e de Berlusconi)

Antes de responder a essa pergunta, é preciso esclarecer que a grande maioria dos activistas e simpatizantes do M5E não vem da esquerda radical. Na sua maior parte são relativamente jovens e sem experiência política anterior (ou sequer opção política); outros vêm da direita e até da direita radical.

Em várias zonas do país, a espinha dorsal da simpatia pelo M5E é formada por gente que antes apoiou Berlusconi, a xenófoba Liga Norte, e nalguns casos partidos totalmente fascistas como a Nova Força e a Chama Tricolor. Em 2012, quando o M5E ganhou as eleições em Parma e tratou de eleger Federico Pizzarotti como presidente do município, a maior fatia de votos (25,9%) veio de gente que antes tinha votado na Liga Norte.

Afinal, a posição de Grillo e do M5E quanto à imigração e às minorias é muito próxima da da LN. Transcrevemos de um dos seus blogues, sob o título “As Fronteiras Des-sacralizadas” e publicado no beppegrillo.it em Outubro de 2007, o seguinte:

«Um país não pode FUGIR À RESPONSABILIDADE PARA COM OS SEUS CIDADÃOS na forma como lida com os problemas causados pelos milhares de ciganos da Roménia que vêm para a Itália. O objecção de Prodi é sempre a mesma: a Roménia pertence à Europa. Mas que significa “Europa”? MIGRAÇÕES SELVAGENS de pessoas sem trabalho de um país para outro? Sem saberem a língua, sem lugar onde ficarem? Todos os dias recebo centenas de cartas acerca dos ciganos, é um vulcão, UMA BOMBA-RELÓGIO, e tem de ser desactivada… Para que serve um governo que não garante a segurança dos seus cidadãos?… As fronteiras da pátria costumavam ser sagradas, foram des-sacralizadas pelos políticos.»

Por fim, e não menos importante, o próprio Casaleggio é um ex-simpatizante da Liga Norte. Segundo o procurador Vincenzo Forte, ex-dirigente do Movimento Social Italiano (neofascista), três dos novos deputados do M5E e dos dos seus novos senadores (todos estes eleitos na Lombardia) têm um passado fascista radical. Forte não revelou os seus nomes, mas acrescentou:

«Estes não são casos isolados, é um fenómeno muito mais vasto e enraizado, uma estratégia cuidadosamente organizada para penetrar no movimento de Grillo. Esta estratégia está sendo levada a cabo com a máxima discrição por grupos neofascistas locais.»

O M5E não tem qualquer defesa ética ou teórica contra isto, porque Grillo e Casaleggio se recusaram categoricamente a adoptar o antifascismo como seu valor de diferenciação. Grillo quer que o movimento seja “ecuménico” e que o antifascismo “não lhe diz respeito”.

Berlusconi, depois de demasiadas operações plásticas

Nada tem de incompreensível o facto de tantos fascistas, berlusconistas e liguistas estarem agora a virar-se para Grillo. Não só gostam de muito do que ele diz, mas também ele personifica o tipo ideal do Homem Forte que entusiasma as multidões como um curandeiro hipnotizador. Para essa gente, Berlusconi e Bossi já não são suficientemente fortes e fascinantes porque se comprometeram demais com as “velhas políticas” e com “a Casta”. Daí o investimento emocional desses pequeno-burgueses enraivecidos em alguém que veem como um novo líder.

Além disso, há profundas semelhanças entre Berlusconi e Grillo. Ambos são testemunhos vivos de como a indústria de televisão e entretenimento dos anos 1980 reformatou a vida na Itália. O jornalista Giuliano Santoro escreveu um livro bem interessante acerca disto, intitulado Un Grillo qualunque: Il populismo digitale nella crisi dei partiti italiani [Um Grillo qualquer: O populismo digital na crise dos partidos italianos].

De facto não se pode compreender devidamente o Grillo se não se compreender o Berlusconi. Há três anos atrás, num texto para a London Review of Books, nós prevíamos que após a queda de Berlusconi surgiria um berlusconismo-sem-Berlusconi. Agora os factos são ainda piores, porque Berlusconi, tendo embora “caído”, ainda está por aí e 29,1% dos votantes escolheram-no pela enésima vez. Resultado: temos agora os dois berlusconismos, o velho e clássico berlusconismo-com-Berlusconi e um novo berlusconismo sem ele. Giuliano Santoro escreveu que “Grillo é a continuação de Berlusconi por outros meios”.

6. SA, CA e o “nem-um-nem-outrismo” do M5E

Centremo-nos agora nesses esquerdistas ou ex-esquerdistas que – crítica ou acriticamente – estão a dar a sua confiança do M5E. Fazêmo-lo por duas razões:

Primeiro, é importante compreender que consequências terá a ausência ou a bancarrota da esquerda numa crise como a actual. Segundo, nós reparámos que a representação do movimento de Grillo entre radicais e progressistas fora da Itália é mais ou menos uma síntese dos dois discursos típicos produzidos pelos radicais italianos pró-Grillo – só que dispondo de muito menos informação. A esses discursos nós chamamos “M5E SA” e “M5E CA”.

Presentemente, cada vez que falamos com veteranos das lutas de outrora que agora votaram no M5E, e tentamos argumentar com eles, o mais certo é tirarmos o seguinte das suas palavras:

«Sim, eu sei que é um movimento ambíguo. Não me sinto bem com tudo o que eles dizem e fazem. Siiim, sim, eles têm uma agenda em parte neoliberal. As declarações que fazem sobre os imigrantes são inaceitáveis. Não gosto da tendência populista nem do jargão empresarial que usam. Desconfio do culto da personalidade que envolve Grillo, e o papel representado por Casaleggio não é claro. Concordo consigo em que existe um inegável fanatismo no movimento. Vi como actuam as criaturas pró-M5E na internet. Concordo consigo: essas expulsões em massa fazem-me pensar nas purgas estalinistas de 1937. Acha que sou cego? Claro que vejo que também há fascistas que aderem… Mas, apesar disso, algumas das exigências e propostas do M5E são exactamente as mesmas que nós temos feito durante anos e anos! Os seus programas incluem o “rendimento dos cidadãos”, a defesa do bem comum, a ecologia… Sei de muitas pessoas de bem que se tornaram activistas do M5E. Talvez possamos usar tacticamente o M5E para derrotar o velho sistema político, é o que eles estão a fazer, não é? Ninguém tratou disso antes deles. Porque não tentar e ver o que acontece depois de se correr com isto? Seja como for, Não Há Alternativa. A esquerda morreu.»

Isto é o que nós chamamos o Discurso dos Esquerdistas Cinco Estrelas “Sem Alternativa” [SA]. Baseia-se no conhecido utensílio do Sim/Mas: as pessoas dizem que concordam com todas as críticas, que são muitas, e então dizem algo do tipo “mas” ou “e no entanto”, e mesmo se a adversativa é sustentada apenas por cândidos desejos, varrem para o lado tudo aquilo com que acabam de concordar.

Resumindo: eles compreendem que o M5E é um movimento confusionista com uma abordagem dominante de direita em muitas questões, mas o êxito do movimento e o facto de algumas das propostas terem origem de esquerda fá-los esperar que aí reside uma boa oportunidade de “fazer alguma coisa”.

Para nós, “fazer alguma coisa” não é necessariamente uma boa linha de conduta. Depende do que se fizer. Por vezes é melhor não fazer nada a fazer algo tendencialmente estúpido. Engolir um movimento de direita tomando-o por um movimento com tendência para a esquerda e mesmo estúpido de todo.

Outros ex-esquerdistas estão a “comprar” qualquer história que o Grillo e o M5E lhes contem. Estes exibem um outro discurso, o Discurso dos Ex-Esquerdistas Cinco Estrelas “Com Alternativa” [CA]:

«O que você está dizendo é falso. Você acreditou nas mentiras maldosas que a Casta anda a espalhar. Claro que haverá alguns racistas, porque o movimento é aberto a toda a gente, mas isso são minorias. A maioria são pessoas como você e eu que querem lutar contra o sistema. Nós vamos manter esses racistas à rédea curta. Os que foram corridos do movimento eram oportunistas e infiltrados enviados pelos velhos partidos. Violaram os Não-Estatutos. Grillo não é um líder, não passa de um megafone. O facto de ele ser o proprietário legal do movimento e do logotipo é apenas uma garantia de que as secções locais respeitam os Não-Estatutos. Eu confio nele. Quando o movimento for suficientemente forte, Grillo pôr-se-á de lado. Casaleggio limita-se a propor estratégias de comunicação, não há nada de obscuro ou ambíguo nisso. Esta é A Alternativa, finalmente! Há anos que estou à espera de algo como isto, não estraguem tudo com o vosso criticismo habitual!»

Reparem na crença clássica num processo “em duas fases”: na situação presente Grillo tem de representar um papel importante; mais tarde, ele irá seguramente pôr-se de lado.

Na história dos movimentos comunistas, todos os cultos de personalidade foram invariavelmente descritos como sendo meramente “transitórios”. Em 1958 Mao Zedong apresentou o famoso argumento de que não há nada de errado no culto da personalidade em si mesmo. Depende de essa personalidade representar, ou não, a verdade revolucionária. Dario Fo, com 87 anos, para só referirmos um nome, andou próximo do maoismo nos anos 1970. Esta atitude mental facilitou a conversão de ex-comunistas ao grillismo. É assim que, a nosso ver, eles acabam por aterrar no lado oposto do espectro político. Quando é que um fenómeno destes ocorreu pela última vez? Aconteceu no início dos anos 1920.

Exactamente.

O programa “toca-a-todos” do M5E não pode deixar de nos trazer à memória o fascismo primitivo do Programa de San Sepolcro (1919). Nessa altura, o fascismo era ainda um movimento “nem-nem” (“nem esquerda nem direita”) que lançava palavras de ordem revolucionárias em todas as direcções.

Em 2011, quando nós começámos a falar desse precedente histórico, muitos nos olharam com escárnio. Então, em 5 de Março de 2013, Roberta Lombardi – recém-eleita presidente do grupo do M5E na Câmara dos Deputados – fez uma referência explícitamente positiva ao Programa de San Sepolcro, com o intuito de explicar que a expressão que nós usámos como uma das epígrafes deste nosso artigo era inaceitável.

Estaremos nós a defender que o M5E é um movimento fascista? A resposta é: não. É certo que há fascistas no seu meio, e que os elementos direitistas do seu programa são mais relevantes do que os de esquerda. No entanto o M5E está agarrado a diversas tradições da direita, uma parte dos seus integrantes ainda estão na esquerda, e etiquetar o movimento como simplesmente fascista seria obviamente simplista.

O que pretendemos dizer é que, sobretudo na Itália, o “nem-nem-ismo” confusionista sempre prosperou em situações de crise económica e política, e uma parte da esquerda se deixa tentar por esse canto das sereias. Os que não resistem à tentação acabam invariavelmente na direita, com ou sem consciência disso.

7. E agora?

Porque é que os correspondentes estrangeiros na Itália nunca falam disto? Todos os dias escrevem sobre o Grillo mas raramente propõem uma percepção das contradições internas do movimento. Será que essas contradições se tornam menos visíveis para quem não possui um conhecimento profundo da história do nosso país? Mas a verdade é que as declarações racistas, homofóbicas ou arianescas deveriam ser reconhecíveis em quaisquer contextos. Não temos uma resposta clara para estas questões.

Gianroberto Casaleggio, co-líder e guru mediático do M5E.

O que é que vai acontecer agora? No que diz respeito à “mudança”, essa palavra vazia, provavelmente acontecerá muito menos do que todos esperam. Como tentámos demonstrar acima, o M5E está longe de ser uma força radical e o seu programa está cheio de “soluções” que são, de facto, parte do problema. No próprio dia das eleições, quando muitos comentadores estavam a saltar para o combóio de Grillo em andamento, nós escrevemos que, malgrado os slogans incendiários, o M5E actua como movimento de diversão e evita a eclosão de conflitos sociais. O próprio Grillo declarou, sendo para ele conflito igual a “violência”, que «se a violência não começa aqui, isso deve-se ao movimento».

Como muitas vezes acontece com os movimentos populistas, o movimento de Grillo vai aparentemente desestabilizar a política nacional, mas só provocará uma ligeira agitação à superfície das águas do sistema. Daí que o entusiasmo pró-Grillo possa ser encontrado onde não se esperaria, como na Goldman Sachs.

Esperamos que os progressistas e os radicais que aderiram ao M5E, ou com ele simpatizam, ou pelo menos nele votaram, compreendam que a enfadonha atitude “nem esquerda nem direita” já não pode esconder todas as contradições que realçámos.

Escrevemos recentemente que «estaremos ao lado da rebelião dentro do M5E». O que significa isso? Significa que esperamos que essas contradições se agudizem cada vez mais e que se intensifiquem até explodirem. A “esquerda” do movimento tem de derrotar os SA e os CA, tem de se manifestar de forma clara e de rejeitar a agenda da “direita” e a retórica vazia e confusionista de Grillo. O conflito interno não é um resultado improvável desta fase. Temos de seguir muito atentamente o processo, e temos de estar presentes quando algumas das energias que Grillo e Casaleggio capturaram tratarem de se libertar dessa captura. Essas energias podem ser investidas num movimento mais consistente, sem ambiguidade, radical. Por isso tifiamo rivolta, “torcemos pela revolta” no interior do M5E.

Bolonha, 4 a 8 de Março de 2013.

Nota sobre a autoria do artigo

A Wu Ming Foundation é um colectivo de escritores que partilham a mesma identidade (Luther Blissett), baseado na Itália, um país que vive os seus dias mais negros desde os velhos tempos da ditadura fascista (1922-1945). São autores de vários romances. Nos finais de 2012, três deles estavam disponíveis em inglês: Q, 54 e Manituana. Um quarto, Altai, está a ser traduzido e será publicado pela Verso Books. O blogue de onde foi traduzido este artigo, wumingfoundation.com é o seu blogue em inglês (com artigos ocasionais em castelhano e outras línguas). O blogue principal do grupo chama-se Giap e é em italiano. Mais informação sobre o grupo aqui e aqui.

Artigo original (em inglês) em Wu Ming Foundation. Tradução do Passa Palavra.

3 COMENTÁRIOS

  1. De facto o artigo é esclarecedor. Pra quem não vive na Itália o que resta é acompanhar o que ocorre pela televisão e jornais(oligopólios da comunicação) ou pelos militantes e mídias partidárias…
    Até agora não sabia das tendências fascistas (homofobia, xenofobia, racista, etc…) deste movimento. A leitura do “não-estatuto” me lembrou muito o livro “tirania das organizações sem estrutura”. O movimento se passa por “autônomo” e sem burocracia mas na verdade é o oposto disso, como mostram os exemplos!

  2. Here, There and Everywhere
    Lá, como cá, aí & alhures: esquerda e direita se revezam na empulhação. E o rebanho continua votando, para trocar (ou não…) de pastor.

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