A resposta curta é “não”. Uma resposta comprida vem a seguir. O que aconteceu no Egito entre 30 de junho e 3 de julho não foi um golpe contra um governo eleito. Por Philip Rizk

Autor: Philip Rizk (Veja o original)
Tradução: Sara Santedicola

A resposta curta é “não”. Uma resposta comprida vem a seguir. O que aconteceu no Egito entre 30 de junho e 3 de julho não foi um golpe contra um governo eleito. Foi outra tentativa por parte dos generais para cooptar a Revolução de 25 de janeiro do Egito. A complexidade da situação e sua natureza global e ideologicamente carregada faz com que seja difícil ter uma perspectiva abrangente, e esta é a minha visão sobre porquê a revolução está longe de acabar.

No espaço de poucos dias, Mohamed Morsi deixou de ser um governante que implementou leis e alienou a oposição de maneira a monopolizar o poder, e passou a ser um governante sem nenhum poder porque o povo foi às ruas. Dizer que a Irmandade Muçulmana cometeu erros no último ano é pôr panos quentes. Eles não apenas replicaram o regime de Hosni Mubarak que nós expulsamos do poder. Eles levaram as coisas mais adiante. Eles permitiram que a polícia mantivesse o uso da violência contra cidadãos comuns e revolucionários, prendendo-nos, mutilando-nos, torturando-nos e matando-nos. Em resposta aos protestos contra a monopolização de poder da Irmandade, tanto seus membros quanto as forças de segurança para as quais eles fizeram vistas grossas reagiram com incrível brutalidade. Tudo isto aconteceu sem nenhuma responsabilização legal dos membros da polícia ou do exército. O promotor geral da Irmandade se recusou a reabrir o caso contra a polícia que matou ou foi cúmplice na matança de protestantes durante a revolução apesar de ter prometido fazer isso em nome da revolução. A brutalidade policial nem uma vez diminuiu sob o governo da Irmandade. Ao invés disso, a polícia manteve sua impunidade para infligir destruição em uma sociedade ainda em momentum revolucionário.

No fronte econômico, a Irmandade ganhou popularidade durante a era Mubarak, ao prover educação gratuita e distribuir esmolas em vizinhanças pobres. Estes tipos de atividade ajudaram a solidificar a base de suporte deles em uma área com preços em ascensão e oportunidades decrescendo para a obtenção de padrões de vida decentes. Entretanto, uma vez no poder, o comprometimento deles com a caridade não se traduziu em políticas que beneficiariam os pobres em longo termo. Pelo contrário, os Irmãos aprofundaram a neoliberalização da era Mubarak. A fim de satisfazer as condições das infinitas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), eles já haviam começado a remover subsídios de bens básicos de consumo como combustível. Eles também anunciaram aumentos de impostos sobre bens básicos de consumo, os quais eles rescindiram devido à oposição nas ruas.

Durante o período que passou no poder, a Irmandade tomou incontáveis empréstimos tanto de governos quanto de bancos regionais. Eles fizeram isso na ausência de um Parlamento. Eles fizeram isso sem publicizar as condições que os egípcios terão que suportar nos anos que virão. Uma dessas condições estava ligada a um empréstimo pendente junto ao FMI que exigia a desvalorização regimental da libra egípcia, fadada a causar um aumento insuportável nos preços da comida no Egito, a qual em grande parte é importada e adquirida em moeda estrangeira. O governo da Irmandade também manteve a oposição da era Mubarak à sindicalização independente dos trabalhadores, ao permitir que a elite dos negócios despedisse membros de sindicato sem consequências. Eles não tentaram identificar ou recuperar patrimônios roubados de Mubarak e seus coleguinhas. Ao invés disso, eles tentaram processos de reconciliação com membros de antigos regimes citando a necessidade de impulsionar a economia do Egito.

A principal chamada da revolução era “pão, liberadade e justiça social”. Em termos de responsabilização judicial, violência policial e redistribuição financeira, a Irmandade Muçulmana não apenas falhou. Eles levaram o Egito à beira do abismo, onde as condições era ainda piores do que quando estavam sob o reinado de Mubarak. E tudo isto eles fizeram com completa arrogância, alienando toda a paisagem dos movimentos e partidos políticos no processo.

Esta realidade levou as pessoas de volta às ruas.

Esta realidade descredita aquela coisa chamada democracia.

No contexto do regime autoritário da Irmandade, o qual os parceiros comerciais ocidentais apoiavam com seus próprios interesses políticos e econômicos em mente, as necessidades diárias do povo não são uma prioridade no processo político de tomada de decisão. Isto significa que aqueles que chegam ao poder no Egito por meio do processo eleitoral devem receber primeiro a aprovação das elites locais como os generais militares e seus apoiadores estrangeiros. Então, um processo eleitoral cheio de falhas permite a emergência deles ao poder. É simples assim. No Egito nós nunca tivemos eleições “justas” e nunca teremos enquanto esta constelação de poder persistir.

Esta realidade neo-colonial torna a própria ideia de democracia redundante.

O povo foi às ruas expressar a sua rejeição a tudo isto. Mas há um lado mais feio desta mobilização de massa. A raiva crescente nas ruas contra a Irmandade Muçulmana fez com que os seus parceiros locais – os generais – recuassem das suas relações de compartilhamento de poder e fizessem pressão pela expulsão da Irmandade. Entra o exército egípcio. Nos dias que levaram ao 30 de junho, as estações de televisão liberais espalharam quantidades colossais de propaganda anti-Irmandade. Ao passo que muitas das informações eram verdadeiras, a sincronia e o envio de mensagens diretas revelaram que se tratava de parte de uma campanha maior contra o governo da Irmandade. Junto a isto ocorreu uma falta de combustível que a polícia secreta e militar acentuaram. Ao fazer isto, eles permitiram que a campanha de Tamarod ganhasse um suporte que ela não teria de outra maneira, se as mesmas forças de estado houvessem intervindo a fim de impedi-los como eles sempre fazem uma vez que o poder estatal é ameaçado. Em uma declaração anterior a 30 de junho, a liderança do Tamarod convenceu protestantes a unificar a rebelião deles contra um alvo: a Irmandade Muçulmana. Todas as outras batalhas deveriam ser deixadas para uma fase posterior. Esta lógica de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” significou que, apesar do papel deles na supressão da revolução, os militares e de maneira ainda mais alarmante a polícia foram celebrados em palco público na última semana como heróis absolutos deste momento revolucionário.

A esta altura, precisamos avaliar o papel dos militares.

O exército, que agora desfila por nossas ruas como heroico, é controlado pelos mesmos generais que ordenaram que nossos protestantes fossem esmagados durante um protesto no edifício Maspero. Eles são os mesmos generais que fizeram vista grossa ao assassinato de setenta e dois fãs de futebol porque eles participaram na revolução. Eles são os mesmos generais que conduziram tribunais militares contra mais de doze mil civis egípcios a fim de reinstalar o medo. Eles são os mesmos generais que tomaram gananciosamente uma grande parte da nossa economia para os seus próprios interesses. Eles são os mesmos generais que ordenaram os ataques aos nossos protestos que mataram Mina Danial, Emad Effat, Alaa Abd El Hady e centenas mais, além de ferir, torturar e prender dezenas de milhares. Eles são os mesmos generais que incitaram o sectarismo, e conduziram testes de virgindade a fim de dividir a sociedade e esmagar qualquer forma de protesto público.

Nesta atmosfera política polarizada, os egípcios esquecem o passado rápido demais. Nós sofremos de amnésia coletiva a fim de suprimir nossos medos e pôr nossa fé na fada madrinha das promessas de mudança. O discurso da democracia e a ilusão de uma vida melhor, mais livre e mais rica são as fantasias que tentam muitos egípcios a colocar uma fé cega naqueles que dizem que trarão isto para nós.

Vamos dar uma olhada no papel dos generais nos principais momentos da revolução de 25 de janeiro.

28 de janeiro de 2011: Embora os protestos estivessem crescendo, o dia 28 de janeiro, sexta-feira, o Dia da Raiva, pegou todo mundo de surpresa. Entretanto, a constelação neo-colonial dos generais militares e seus apoiadores internacionais, que tinham sido parceiros vitalícios de Mubarak, jogaram com esperteza. Eles removeram Mubarak do poder duas semanas depois, alegando estar realizando demandas da revolução. A maioria do povo egípcio celebrou-os como heróis; eles viram os fracassos da era Mubarak como concentrados em um homem ao invés de no sistema que ele simbolizava. Seguindo um período de governo direto, a junta militar entregou a maior parte do poder a um governo “civil, democraticamente eleito” após acordar os termos da soberania dividida. Eles decididamente se removeram da responsabilidade direta por quaisquer falhas do governo, ao mesmo tempo mantendo o pedaço deles na torta da economia. O seu vasto império econômico não podia ser ameaçado.

3 de julho de 2013: Os militares repetem uma tática similar àquela adotada após a expulsão de Mubarak. Dessa vez eles estavam mais preparados. Eles alegaram implementar a vontade do povo. Eles ficaram com todos os créditos por uma “Revolução de 30 de junho”. Estes foram passos para conter a ira da revolução: o verdadeiro golpe é a não deposição de Morsi e outros oficiais eleitos. É a tentativa de abolir uma mobilização revolucionária de massa. A nossa revolução derrubou Morsi, mas o golpe do exército quer receber o crédito pela sua expulsão e consequente absorção do poder do povo que fez com que isso acontecesse. Dessa vez foi diferente, dessa vez os generais viram que o navio estava afundando e quiseram sair. A governança da Irmandade não apenas falhou miseravelmente, eles também começaram a acreditar que podiam impor a sua autoridade ao Ministério do Interior e até mesmo às patentes militares. Estes passos ameaçaram diminuir o pedaço que os generais tinham da torta do poder. No dia 3 de julho, os líderes militares foram bem sucedidos em se livrar de uma parceria que tinha dado errado e ao mesmo tempo receberam louvores sem precedentes da população como um todo. Para os seus apoiadores internacionais o jogo não tem sido tão fácil. As nações do primeiro mundo, especialmente os americanos que se consideram os guardiões da democracia legítima, fizeram tudo que podiam para defender a legitimidade da manutenção do poder pela Irmandade Muçulmana. O que está em risco é o que eles consideram ser um discurso atemporal: democracia. Este discurso facilita o papel das nações da hegemonia global pela qual eles podem alternadamente condenar, suprimir e financiar líderes do terceiro mundo. A democracia é a chave de ouro para brincar de juiz global do bem e do mal.

Para resumir, vamos dar um passo atrás.

Não existe nada parecido com uma democracia dentro de um contexto neo-colonial. Este é o caso do Egito.

Além disso, a lógica de um golpe contra o governo se desmonta completamente sem a possibilidade de uma ordem democrática.

O poder de milhões de egípcios indo às ruas no dia 30 de junho estilhaça a ilusão da necessidade de uma representação eleita e tem o potencial de revelar esta realidade neo-colonial.

O medo é que as forças que mantêm a hegemonia sobre nossa sociedade estejam usando todos os meios possíveis para impedir qualquer fruição adicional da nossa revolução. Isto inclui um jogo sujo de explorar estes eventos recentes aprofundando propositadamente divisões dentro da sociedade egípcia para tornar o seu controle inevitável, mais violento e ainda menos justificável para a população como um todo. Desde 30 de junho isto tem significado um fluxo sem fim de derramamento de sangue entre os apoiadores da Irmandade e civis protestando contra eles ou pegos no fogo cruzado ou ainda dentro de batalhas sectárias. Nós estamos presos em uma situação onde a população está sendo mantida como refém e sua morte está sendo incitada e capitalizada por quase todas as elites políticas rivalizando pelo poder: os generais militares, a Irmandade e os liberais.

Hoje nós ainda estamos no meio da Revolução de 25 de Janeiro. Nós enfrentamos sérias ameaças de cooptação mas até agora o poder ainda está com o povo. A fim de seguir lutando, nós devemos tanto lembrar do passado quanto enxergar nossa imediata situação à luz da constelação de poder global.

Nós não estamos sozinhos.

Apesar dos diferentes contextos no Brasil, Turquia e Chile, assim como na Grécia, Espanha, Portugal e Estados Unidos, as pessoas estão indo às ruas para se colocar no caminho do controle das elites locais pela lógica da longevidade de seu poder e do aumento da riqueza de uma minoria. Enxergar todos esses momentos revolucionários dentro de uma moldura significa que com ou sem democracia, com ou sem eleições, o poder popular está se movendo para as ruas e saindo dos escritórios das instituições e dos governos. Como Max Weber escreveu, representação é uma “estrutura de dominação”, e assim nós mantemos o grito da revolução, “o povo quer a queda do sistema”.

Estamos em um ponto de inflexão global.

Nós devemos continuar lutando.

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