Por Nicolas Lorca

Não é esdrúxulo imaginar que um líder negro ou mesmo que a maior organização negra na história do Brasil pudesse ser fascista?[1]

Não seria estranho pensar que um negro, ou uma organização no movimento negro, seja fascista? Pense no quanto pode nos parecer equivocado relacionar o movimento negro ou os negros ao fascismo. Claro, essa assimilação traz demasiado incômodo ao Movimento Negro contemporâneo, sobretudo nas análises a respeito dessa relação. Por causa disso, nota-se, por exemplo, uma tentativa de justificar a relação da Frente Negra Brasileira (FNB) com o fascismo. Essas análises circulam, majoritariamente, na tentativa de justificar a existência do fascismo na FNB como produto do contexto político e social na qual estava inserida.

Em certa medida, essa perspectiva faz sentido, mas o fascismo ou os fascismos na FNB não se limitam apenas ao contexto social truncado e generalizado. Por outro lado, as polêmicas suscitadas pela FNB e as relações que ela travava dentro e fora da organização expõem esse caráter de forma límpida.

Para além disso, a relação da FNB com os movimentos patrianovistas e, posteriormente, com o movimento integralista, apresenta de forma relacionada o nacionalismo, o combate ao racismo e uma “revolta” contra a burguesia nacional dentro dos limites do Estado. Ou seja, uma “revolta dentro da ordem”[2].

No entanto, torna-se necessário observar “quem é a gente negra” e, contrariamente, quem são os “inimigos da gente negra”. Nesse sentido, buscou-se mergulhar nas polêmicas da FNB, trazendo para fora aquilo que ela produz enquanto prática política e ideologia.

Arlindo Veiga dos Santos – o cavaleiro negro

Compreender a Frente Negra Brasileira traria, por sua vez, enormes impasses se não compreendêssemos concomitantemente Arlindo Veiga dos Santos: sua construção social, suas relações, suas influências e seu “potencial político”. Arlindo Veiga dos Santos faz parte da segunda geração de negros que alcançaram escolaridade e iniciaram os estudos universitários. Num contexto onde as teorias racialistas e de branqueamento social estavam a pleno vapor, e a democracia liberal já começava a ter demasiada força.

Nesse contexto, surgem as primeiras organizações patrianovistas. A “sua proposta antiliberal defendia a instalação de uma monarquia corporativista, como única saída para a “desordem” republicana. Compartilharam o profundo descrédito em relação à República juntamente com a dissidência oligárquica reunida no Partido Democrático, com as lideranças tenentistas e com setores das classes médias, porém ao contrário da maioria dos descontentes, consideravam falido o próprio liberalismo. Em consequência recusavam as propostas de reforma política que pretendiam sanear a ordem liberal mediante a instituição do voto secreto, da independência dos poderes e da moralização das práticas eleitorais. Buscavam através de uma proposta autoritária uma saída para o que consideravam uma degeneração nacional, inserindo-se no debate político ao lado dos que, desde o início dos anos 1920, defendiam formas antidemocráticas de governo e condicionavam a solução dos problemas políticos à implantação de um Estado antiliberal”[3].

Arlindo Veiga cresce inserido nessas perspectivas. “Matriculou-se em 1922, aos vinte anos de idade, na Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo e obteve quatro anos depois o grau de bacharel. Ali ocorreu a adesão a valores e projetos do catolicismo antiliberal, ultramontano, combativo, além da constituição de sociabilidades decisivas para a atuação política que se seguiria. Nesta Faculdade, que atuou de modo destacado na formação da intelectualidade católica durante a Primeira República, teve início um movimento de recuperação e atualização da filosofia de São Tomás de Aquino, iniciada por Leão XIII com a encíclica Aeterni Patris (1879), como resposta ao “mundo moderno”. A ele o neotomismo opunha uma visão do mundo considerada satisfatória para fundamentar uma proposta política alternativa ao liberalismo, ao anarquismo, ao socialismo e ao comunismo”[4].

Por causa disso, em 1920 Arlindo Veiga dos Santos ajuda na construção do movimento Pátria-Nova, imbuído de perspectivas autoritárias e com uma direta relação com o catolicismo. Nesse sentido, surge em 1928 o Centro Monarquista de Cultura Social e Política Pátria-Nova, com uma proposta nacionalista e antidemocrática.

Nos círculos da elite negra paulista, Arlindo Veiga ganha notoriedade. Dentro disso, Veiga começa a discutir as condições nas quais o negro estava inserido, aproximando-se dos clubes da “Gente Negra” e introduzindo o debate racial. Aprofundando-se no debate político, Veiga começa a publicar textos em diversos periódicos e a se aproximar dos clubes com uma proposta mais radical do que o movimento assistencialista.

Neste momento, a imprensa negra começava a se estabelecer e surgia nos círculos de debates o ímpeto de construir uma organização que buscasse representar a “Gente Negra”. Desse modo, a FNB nasce em 1931, com um programa político bem definido e uma estrutura demasiadamente hierarquizada. Desde 1920, uma elite negra toma consciência da questão racial no Brasil e dentro dos clubes, das associações e, sobretudo dos jornais, buscava desenvolver esse debate a nível organizacional[5].

Arlindo Veiga permanece como dirigente da FNB até 1934, mas sua influência e suas perspectivas não foram minimizadas, pelo contrário, continuavam a se expandir até 1937, quando a FNB é dissolvida em virtude do Estado Novo. A FNB criou diversas polêmicas em seu período de existência (ponto que discutiremos a seguir), mas, para além disso, exerceu enorme influência nas lutas sociais e nas instituições políticas. Esse fato torna-se observável, por exemplo, no que tange à barganha política que a FNB possuía e o número expressivo de membros. Arlindo Veiga dos Santos se tornou um membro emblemático da FNB e, por causa disso, autores como Domingues e Malatian o chamam de “O cavaleiro negro”[6].

Quem é a “Gente Negra” e quem são os inimigos?

“AOS FRENTE NEGRINOS”

“Neste gravíssimo momento da NACIONALIDADE BRASILEIRA, dois grandes deveres incubem os negros briosos e esforçados, unidos num só bloco na FRENTE NEGRA BRASILEIRA: a defesa da Gente Negra e a defesa da Pátria, porque uma e outra coisa andam juntas, para todos aqueles que não querem trair a Pátria por alguma forma de internacionalismo. A Nação acima de tudo” [7].

A FNB surge com o objetivo de representar a “Gente Negra Brasileira”, de modo a integrar os negros na sociedade de classes, empreender uma luta contra o racismo e combater os inimigos do povo negro e da nação. Destarte, é preciso observar quem é a “Gente Negra” e, por outro lado, quem são seus inimigos.

“PATRICIO NEGRO”

“Amas o Brasil? Estás disposto a lutar pelo levantamento físico, moral e intelectual dos negros brasileiros? Queres aprender a conhecer e a combater os inimigos da Pátria? Procura já a Frente Negra Brasileira. S. Paulo – rua Liberdade, 196” [8].

Desse modo, como foi brevemente discutido em um texto anterior (ver aqui), a FNB possuía uma vasta gama daquilo que ela considerava como inimigos do povo negro e, concomitantemente, da nação. O nacionalismo é uma característica fundamental, tanto de organizações como o Movimento Pátria-Nova, da Aliança Integralista Brasileira (AIB) e igualmente a FNB.

A perspectiva da FNB, por sua vez, representa drasticamente o contexto político-ideológico de seu surgimento. Por causa disso, o programa da FNB nasce justamente próximo ao nacionalismo e à perspectiva patrianovista. Para além disso, observa-se ainda um rechaço aos movimento sociais que estavam inseridos na esquerda e existia uma proximidade, por parte da FNB, com a direita nacional e internacional.

O nacionalismo era uma forte bandeira dentro da FNB, que propunha e convidava os negros a lutarem contra os inimigos da “Gente Negra”. Essa questão está diretamente ligada a outras duas questões: quem são os inimigos da “Gente Negra”?; como lutar contra eles?

De acordo com André Côrtez de Oliveira, “A “Gente Negra Nacional” foi uma construção erguida sobre ideias muito bem definidas de pertencimento racial e nacional. Fazia parte de um sonho de fim do preconceito racial e de elevação da “raça” negra ao seu espaço de direito no edifício nacional”[9].

De forma destacada, a FNB observava que os inimigos da “Gente Negra” e, concomitantemente, da nação, eram os imigrantes, pois estes retiraram empregos dos trabalhadores negros e representavam as políticas de branqueamento social. Destarte, tal como os grandes capitalistas, os imigrantes eram responsáveis pela miserável condição do negro. Para além disso, os imigrantes traziam consigo perspectivas comunistas e anarquistas, compreendidas como subversões que visavam destruir moralmente e economicamente a nação.

Nesse sentido, os negros que não estavam inseridos na perspectiva política da FNB, ou estavam alinhados às tendências comunistas e anarquistas, à democracia – que era compreendida como regime responsável por aflorar um sentimento antipatriota – e às grandes oligarquias, eram declaradamente tomadas como inimigas da “Gente Negra” e consequentemente, da nação.

Destarte, Laiana Lannes observa que “o anticomunismo era uma das maiores lutas, não apenas pelo que representava o regime político em si, mas também porque grande parte dos que defendiam os ideais comunistas eram estrangeiros e internacionalistas. Essa luta anticomunista é um exemplo claro da influência patrianovista de Arlindo Veiga dos Santos na Frente Negra. O presidente afirmava que democracia e comunismo não são antagônicos, ao contrário, “a democracia é o comunismo em potência”. A verdadeira oposição ao comunismo seria a monarquia, defendida por ele”[10].

Com base nessa perspectiva, uma série de artigos é publicada por Arlindo Veiga e Pedro Barbosa em A voz da Raça, como tentativa de criar um sentimento de repulsa por aquelas noções e convocar tanto os negros quanto os não negros para uma luta contra os inimigos da nação, contra os imigrantes e contra a democracia que não era eficiente.

O esforço por se construir uma nação livre dos seus ditos “algozes”, aliado ao forte nacionalismo, torna-se perceptível, por exemplo, num texto intitulado Apreciando, em que Pedro Barbosa argumenta:

“Hoje os países que adoram o regime totalitário de vida dentro da orgulhosa Europa, manifestam-se com o maior devotamento à concentração de poderes em torno de um só homem, que, nos parece chegar a força do endeusamento, que o povo e principalmente a sua mocidade colocam-se abaixo de tudo, para o elevamento do conceito de Pátria, eis que o homem nada mais representa que, um ótimo cidadão no comprimento do seus deveres cívicos e melhor soldado na jornada guerreira. (…) A Itália de ontem vivia a vida da desorganização, sofrendo consequência das revoluções continuas dos pequenos estados e a consequente descentralização do que se possa exprimir por pátria. Nos tempos de hoje vive a Itália de Mussolini, a nova organização de vida, o novo conceito de pátria, a nova escola do patriotismo renovador e onde cada cidadão forma uma forte e indestrutível pilastra em que repousa a tranquilidade do país. (…) E a Alemanha vem na mesma ordem, trilhando o mesmo caminho. Educando e preparando o espírito do seu povo” [11].

Com base nisso, torna-se possível observar diversos traços de uma perspectiva fascista na FNB, pois além dessa luta por ascensão econômica, política e social, existia uma crítica à formação do capitalismo brasileiro, identificando a condição do negro na sociedade brasileira como culpa dessa má formação do capitalismo, do fator imigratório e das políticas racistas.

Nesse sentido, a superação das contradições sociais, da condição do negro no capitalismo brasileiro, deveria perpassar o caminho da institucionalidade, da luta dentro da legalidade e dos limites do Estado. Esse aspecto da luta da FNB contra as condições econômicas e sociais do negro consistia sobretudo numa “revolta dentro da ordem”. Destarte, a perspectiva da institucionalidade pode ser observada, por exemplo, no Art. 3º do Estatuto Geral: “A ‘FRENTE NEGRA BRASILEIRA’, como força social, visa a elevação moral, intelectual, artística, técnica, profissional e física; assistência, proteção e defesa social, jurídica, econômica e do trabalho da Gente Negra”. Posteriormente, essa perspectiva fica mais clara, quando observa-se, por sua vez, o artigo 4º “como força política organizada, a ‘FRENTE NEGRA BRASILEIRA’, para mais perfeitamente alcançar os seus fins sociais, pleiteara, dentro da ordem legal instituída ao Brasil, os cargos eletivos de representação da Gente Negra Brasileira, efetivando a sua ação político-social em sentido rigorosamente brasileiro”[12].

 

Por causa disso, os inimigos da “Gente Negra” precisavam ser enfrentados a partir da mobilização racial, ou seja, todos os negros unidos contra seus exploradores – claro, dentro dos limites do Estado e da concepção de luta da FNB. Por outro lado, a FNB compreendia que a luta contra seus inimigos era uma luta de todos os brasileiros. Tentava-se de criar, nesse momento, uma espécie de “unidade nacional” contra os inimigos do povo.

“O Negro Brasileiro sempre foi, é e será nacionalista, estando continuamente na estacada, para defesa da Unidade Nacional, para defesa da boa ordem da nossa vida, para trabalhar pelas reformas sociais dentro de um espírito cristão de colaboração de todos. (…) o interesse é todo dessa troça de estrangeiros imigrantes que a incompetência e cegueira dos nossos governos democráticos do passado, empenhados na negação da nossa Raça, importaram para esmagar os negros, que vão ficando completamente à margem da vida do trabalho, visto que, em quase toda parte, não se aceitam empregados de cor. (…) Mas, quando se trata de lutar contra a que vem de fora, paga pelo ouro judeo-russo para nos aniquilar a nossa Nacionalidade, nada temos mais que fazer senão juntarmos com os outros patrícios para dar uma lição aos piratas que, além de comerem o nosso feijão, deixar-nos sem empregos (porque tudo no Brasil e especialmente em S. Paulo é mais para eles imigrantes que para nós Negros), além de tudo, ainda querem criar no Brasil um regime safado que somente a eles pode convir. Contra as tramas dos inimigos da Pátria, os verdadeiros Brasileiros são SÓ BRASILEIROS, não há negros, não há brancos, não há frentenegrinos, não há chapa-única, não há patrianovista, não fascista, HÁ SÓ BRASILEIROS” [13].

Nesse sentido, é preciso frisar novamente quem a FNB compreendia como “Gente Negra” e inimigos da “Gente Negra”, para além dos comunistas, dos capitalistas e dos imigrantes. Essa “Gente Negra” não é geral, ou seja, não se aplicava a todos os negros brasileiros. Pelo contrário, ela limitava-se aos negros que estavam inseridos na perspectiva da FNB ou estavam próximos a ela. Por causa disso, a FNB acumulou diversas polêmicas e inimigos, pois os “verdadeiros negros” eram aqueles que reconheciam a FNB como organização legítima de representação do negro brasileiro.

Em artigo publicado em A voz da Raça, intitulado Falsos negros, João do Campo argumenta que:

“Falsos Negros são aqueles que por nada saberem e nada compreenderem vivem fazendo mexericos contra a Frente Negra e contra a raça. Falsos Negros são aqueles que querem saber muito e nada sabem. Nós negros que já estamos identificados com a nossa causa não devemos tolerar com os Falsos Negros. Devemos dar-lhes o mais breve possível o golpe de misericórdia para que eles conheçam a pujança dos negros que só querem o progresso da raça” [14].

Esse artigo de João do Campo deixa clara a forma com que a FNB concebia o negro. Destarte, o negro que estivesse próximo a ela era o verdadeiro negro, patriota e moralmente consciente. Por outro lado, aqueles que se opunham à perspectiva hegemônica dos irmãos Santos ou que estivessem contrários ao programa da FNB eram considerados traidores, os “judas” da Raça.

A voz da Raça

Na medida em que a FNB avança, no sentido de alcançar parte significativa dos clubes dos “Homens de Cor”, encontra-se igualmente o surgimento da imprensa negra brasileira e, através dela, a promoção de um debate racial no Brasil. Diversos periódicos têm importância nesse momento, sendo impossível não destacar o Clarim da Alvorada (1924), A voz da Raça (1931-1937) e O Chibata (1932), que se tornam referências da imprensa negra e do debate racial no Brasil.

A importância da imprensa negra pode ser observada na medida em que se buscou construir um debate acerca das relações raciais no Brasil. Nesse sentido, a imprensa negra foi demasiadamente importante, pois serviu ainda como modo de divulgação das perspectivas políticas da FNB – caso dos periódicos que estavam vinculados a ela. Por causa disso, nota-se, por sua vez, o aumento significativo no número de membros e a difusão da FNB para além de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

O jornal A Voz da Raça era o periódico oficial da FNB. Nesse jornal eram divulgadas reflexões, eventos, campanhas etc. Fundamentalmente, A Voz da Raça serviu com maior importância na divulgação da perspectiva política da FNB e daqueles que orbitavam os irmãos Santos. Destarte, o debate racial estava centrado neste periódico.

Por outro lado, o Clarim da Alvorada surge demasiadamente próximo à FNB, mas essa relação de proximidade não se sustentou por muito tempo. Fundamentalmente, José Correia Leite estava mais próximo das ideias socialistas do que da perspectiva fascista de Arlindo Veiga dos Santos e da FNB.

Nas páginas de A Voz da Raça e do Clarim da Alvorada essas condições são profundamente observáveis. Arlindo Veiga dos Santos considerava que José Correia Leite era um traidor da Raça, alguém que era antipatriota e que apoiava o depravamento moral do negro e da nação.

Ao longo de 1933, observa-se em A Voz da Raça uma série de textos criticando os falsos negros, os traidores da Raça ou os “negroides”. Nesse sentido, os negros que estivessem associados ao socialismo, ao internacionalismo e os contrários aos valores religiosos eram veementemente escrachados e considerados traidores da “Gente Negra”.

“Decididamente o movimento frentenegrino triunfa, a prova disso está nos ataques que a F.N.B. vem sofrendo deste ou daquele despeitado em cujo número sobressai certos negroides e mestiços dentre os quais há também aqueles que não nos sabe contar quem é ou quem foi o seu pai quanto a mãe procura encobrir do melhor possível e têm vergonha de dar a conhecer a sua raça que é visível aos olhos de todo mundo. Atacam-nos de palanque e até pelas costas, isso porque já somos no Brasil um vulto a fazer-lhes sombra e essa sombra parece que os incomoda visto que ladram a nossa passagem. É interessante (…) como nos difamam quando encontram alguém beócio para ouvi-las, procurando assim provocar escândalos que pela fórmula empregada são os tais que praticam. Insultos (…), chicotes caipiras, ciúmes por não poderem fazer aquilo que o negro faz sorrindo: – Expor o seu peito largo como uma barreira toda vez que algum inimigo da pátria a espreita, pois a gente negra do Brasil tem vivido séculos e continua vivendo para a sua pátria, não como aqueles que tem vivido e continua vivendo a custa da mesma. Sim porque os nossos inimigos são aqueles que fazem grande empenho para que a nossa gente medre sempre na ignorância; raça que assim pensa em uma Nação como a nossa não merece o menor apreço” [15].

André Cortez de Oliveira observa que “A traição desmerece aqueles que discordam da hegemonia dos irmãos Santos. Não devem ser ouvidos, são traidores da raça. O “negróide” seria o negro que escolheu os caminhos contrários à defesa de sua raça, falsos negros a atrapalharem o despertar do Gigante adormecido, o verdadeiro brasileiro adormecido que ecoa da metáfora do Hino Nacional. Suas ações são controladas por outros, preocupados em usá-las para seus próprios interesses. Só a FNB seria capaz de liderar o negro na verdadeira luta pela salvação da Pátria e da Raça. Contra esses “falsos negros”, a única solução seria a ação violenta da disciplina do frentenegrino”[16].

Desse modo, os negros que se contrapunham à hegemonia da FNB, eram tratados como traidores. Na polêmica contra José Correia Leite e o Clarim da Alvorada, essa perspectiva tornou-se mais radicalizada. “Em 1931, ano de fundação da Frente Negra Brasileira, o Clarim da Alvorada publicou um editorial da Frente Negra em que José Correia Leite aparecia como diretor de redação da entidade. Todavia, a união e o apoio não durariam muito. O caráter autoritário e antidemocrático adotado pela instituição, inspirados na ideologia patrianovista de Arlindo Veiga dos Santos, desagradaria ao grupo do jornal Clarim da Alvorada. O clímax do desentendimento ocorreu no dia da aprovação do estatuto”[17].

Fundamentalmente, José Correia Leite e o Clarim da Alvorada se opunham à aprovação do estatuto geral da FNB, pois o consideravam fascista. Nas palavras de José Correia Leite, “Nós do grupo d’O Clarim d’Alvorada, no dia que foram aprovados os estatutos finais, íamos combater porque não concordávamos com as ideias de Veiga dos Santos (Arlindo). Era um estatuto copiado do fascismo italiano. Pior é que tinha um conselho de 40 membros e o presidente desse conselho era absoluto. A direção executiva só podia fazer as coisas com ordem desse conselho. O presidente do conselho era Arlindo Veiga dos Santos, o absoluto”[18].

De acordo com Domingues, “A FNB, então, passou a tratar o grupo [José Corrêa Leite] que se aglutinava em torno do jornal O Clarim D‘Alvorada como inimigos. Acusavam-lhes de traidores, “envenenadores da raça”, inoperantes, de nunca terem feito nada pelos negros e “só saberem falar e criticar”. Um dos dirigentes da FNB vociferava: “Os nossos seguidores não precisam de intelectuais; precisamos de mais ação e menos palavras”. Com efeito, um episódio agravou o clima de tensão que se instaurou no movimento negro. Isaltino Veiga dos Santos, secretário geral da FNB e irmão de Arlindo Veiga dos Santos, incorreu em uma postura considerada imoral na viagem de inauguração, em São Sebastião do Paraíso (MG), de mais uma delegação da FNB. Como nenhuma medida punitiva foi tomada pela entidade, o grupo de O Clarim da Alvorada resolveu fundar um novo jornal, o Chibata, somente para denunciar o caso. Quando estava no terceiro número, a redação do Chibata – que funcionava na casa de José Correia Leite – foi violentamente empastelada por uma milícia a mando do Presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos. Revoltado, o grupo de O Clarim da Alvorada resolveu republicar o jornal com o nome original”[19].

A tensão entre Arlindo Veiga dos Santos e José Correia Leite se intensifica na medida em que a FNB cresce. A divergência se pauta, justamente, na compreensão acerca dos métodos de luta e da perspectiva política adotada pela FNB. Nas páginas dos jornais A Voz da Raça e Clarim da Alvorada (posteriormente no Jornal O Chibata), essas tensões podem ser melhor observadas.

Essa discussões se davam justamente como contraposição aos irmãos Santos (Arlindo Veiga e Isaltino Veiga dos Santos) e ao poder que estes haviam instituído dentro do debate racial e as lutas do movimento negro naquele período. Por estarem mais próximos às ideias socialistas, os editores do Clarim da Alvorada denunciavam a perspectiva fascista e autoritária da FNB e dos irmãos Santos.

Após a dissolução do Clarim da Alvorada, José Correia Leite cria O Chibata. Em suas memórias, José Correia Leite observou que

“Quando eles [Arlindo Veiga e Isaltino] começaram com certas provocações, nós deixamos claro que não íamos manchar o nome do jornal numa luta de bate-boca. Suspendemos as edições d’O Clarim d’Alvorada e fundamos um jornal com o nome de “Chibata”. E aí começamos a atacar frontalmente todos eles. Saiu o primeiro número da Chibata, saiu o segundo, quando ia sair o terceiro eles mandaram uns fanáticos empastelar o jornal. Mas o negócio não era bem empastelar, a intenção era dar uma surra na gente, porque eles vieram armados de paus. Mas acho que eles chegaram lá e não tiveram coragem” [20].

A justificativa era que os negros militantes deveriam dar exemplo aos outros negros, fazendo com que estes engrossassem a luta racial e patriótica. Por causa disso, as polêmicas em torno de Arlindo Veiga acabaram se tornando justificáveis, pois estavam imbuídas de moralidade e de um senso “patriótico”. O certo é que a oposição de José Correia Leite foi demasiadamente fundamental para os movimentos negros que vieram posteriormente, pois trouxe uma perspectiva que buscava discutir as relações raciais e a superação do capitalismo.

Quem sabe um dia faremos o mesmo!

A Frente Negra Brasileira é, sem dúvidas, uma das maiores organizações do movimento negro brasileiro. Em um tempo de ascensão do fascismo e de revoltas cada vez mais radicalizadas, a FNB surge com a proposta de representar a “Gente Negra”. Em seu discurso, encontra-se diversos fragmentos de uma perspectiva fascista.

O projeto de construção de uma organização que representasse efetivamente o negro no Brasil está diretamente ligado às inúmeras polêmicas e alianças que se tornaram verdadeiros fantasmas para o movimento negro contemporâneo. Para além da relação com o nazifascismo internacional, nota-se, por sua vez, a hostilidade a que aqueles que promoviam uma oposição aos irmãos Santos e à perspectiva da FNB eram condicionados.

Por causa disso, o que se torna demasiadamente emblemático é a tentativa de construção de uma Raça pura, não necessariamente nos moldes de Hitler na Alemanha, mas próximos daquilo que era compreendido enquanto brasileiro. Isto não quer dizer que a FNB mostrava-se a favor das relações inter-raciais, mas que defendia declaradamente a não relação com povos de outras culturas (tal como os imigrantes).

Em texto publicado em A Voz da Raça, Arlindo Veiga dos Santos observa:

“Que nos importa que Hitler não queira, na sua terra, o sangue negro? Isso mostra unicamente que a Nova Alemanha se orgulha de sua raça. Não queremos saber de arianos. Queremos o Brasil negro e mestiço, que nunca traiu nem trairá a Nação. Nós somos contra a importação do sangue estrangeiro que vem atrapalhar a vida do Brasil, a unidade da Nossa Pátria, da nossa Raça, da nossa língua. Hitler afirma a raça alemã. Nós queremos a raça brasileira, sobretudo o seu elemento mais forte: o Negro Brasileiro” [21].

Pensar o fascismo aliado à institucionalização e à contestação promovida pela FNB traz diversos problemas. Dentre eles, pode observar-se, por exemplo, a recusa crítica dos movimentos negros contemporâneos em construir uma análise que vá além da mera representação que a FNB projeta sobre si mesma. Por isso, pensar a perspectiva fascista e autoritária da FNB gera demasiado incômodo nos militantes e nas organizações do movimento negro. Talvez por isso essa temática seja escassa de uma análise crítica.

O caráter conservador e fascista da FNB torna-se um fantasma que assombra o movimento negro contemporâneo. Seja por suas relações ou a reprodução de diversas práticas conservadoras por parte desses movimentos. Os artigos publicados por Arlindo Veiga dos Santos e Pedro Barbosa, no jornal A Voz da Raça demonstraram admiração e engajamento com as políticas e ideologias de Hitler e Mussolini.

Noutro lado, encontram-se, por sua vez, as lutas contestatórias. A FNB pautava a luta contra o racismo tendo como solução a integração do negro na sociedade de classe. Para efetivar seu programa, a FNB compreendia que era necessário combater os inimigos da “Gente Negra” e da nação. Só a partir disso as contradições raciais seriam superadas.

Portanto, torna-se importante observar que o debate racial promovido pela FNB concebia a luta racial apenas inserida na dinâmica da institucionalidade. Por causa disso, a FNB pretendia torna-se um partido político, com o objetivo de representar a “Gente Negra Brasileira”. É desse modo, fundamentalmente, que a institucionalização e a contestação nas quais a FNB estava inserida não podem ser compreendidas de forma alheia à conjuntura e às modas ideológicas do início do século.

Nesse sentido, as práticas fascistas da FNB tornam-se claras, para além dos contatos e dos elogios a Hitler e Mussolini. Pelo contrário, eles tornam-se visíveis na medida em que se observa as relações que estabelecem com indivíduos e organizações da “Gente Negra”, o impulso de forte hierarquização, o rechaço ao Estado e às oligarquias. Fundamentalmente, a FNB tinha como objetivo a ascensão do negro à classe dominante.

Por dentro e por fora, é possível observar uma dinâmica fascista na FNB, que pode ser representada pelo seu programa sindical, por suas milícias, pelas polêmicas e as perspectivas expressas no A voz da Raça e fundamentalmente, pela sua prática política.

As imagens que compõem a ilustração deste artigo fazem parte do acervo digital da Frente Negra Brasileira, disponível aqui

Notas:

[1] DOMINGUES, 2005 apud OLIVEIRA, 2006 p. 26.

[2] Para uma melhor compreensão do fascismo enquanto uma “revolta dentro de ordem”, recomenda-se o livro. BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta. 3ª Versão revista e aumentada, 2018. Disponível aqui.

[3] MALATIAN, Teresa. Memória e contra-memória da frente negra brasileira. In. XXIX Simpósio Nacional de História. Anais… Brasília: UNB, 2017. Pgs. 2-3

[4] MALATIAN, Teresa. O cavaleiro negro: Arlindo Veiga dos Santos e a Frente Negra Brasileira (1931-1934). Revista brasileira de história das religiões, v. 5, n. 15, 2013. p. 5

[5] De acordo com Lannes, a Frente Negra Brasileira surge no seio de uma elite negra, não no sentido econômico, mas no sentido de um sobressalto educacional, político e, no melhor dos casos, econômico. Ver: LANNES, Laiana. A Frente Negra Brasileira: Política e Questão Racial nos anos 1930. 2002. 109 f. Dissertação (Mestrado em História Política). Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: UERJ, 2002. – p. 57

[6] Ver: MALATIAN, 2013; DOMINGUES, 2004.

[7] A voz da Raça, n.1, 18/03/1933 p. 1.

[8] A Voz da Raça, n.11, 03/06/1933, p.2.

[9] OLIVEIRA. André. Quem é a “Gente Negra Nacional”? Frente Negra Brasileira e A voz da Raça (1933-1937). 2006. 129 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: UNICAMP, 2006. – p. 113

[10] LANNES, Laiana. A Frente Negra Brasileira: Política e Questão Racial nos anos 1930. 2002. 109 f. Dissertação (Mestrado em História Política). Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: UERJ, 2002. – p. 74

[11] A voz da Raça, n. 58, 1936.

[12] Estatuto Geral da Frente Negra Brasileira. In. OLIVEIRA. André. Quem é a “Gente Negra Nacional”? Frente Negra Brasileira e A voz da Raça (1933-1937). 2006. 129 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas: UNICAMP, 2006. – p. 121-122

[13] Resposta a um boletim, Arlindo Veiga dos Santos, A Voz da Raça, n.27, 09/12/1933, p.1.

[14] Castelo Alves, “Flores do Campo III”, in A Voz da Raça, n. 13, 17/06/1933, p.1.

[15] OLIVEIRA, 2006 p. 78

[16] LANNES, 2002 p. 85

[17] LEITE, [s.d] p. 94 apud LANNES, 2002 p. 86.

[18] DOMINGUES, Petrônio. “Paladinos da liberdade: A experiência do Clube Negro de Cultura Social em São Paulo (1932-1938)”. Revista de História, v. 1, n. 150, 2004, p. 62.

[19] LEITE, [s.d], p. 60 apud LANNES, 2002 p. 88.

[20] A Voz da Raça. Nº 29

[21] A voz da Raça. Nº 29

1 COMENTÁRIO

  1. muito interessante o artigo. Me faz pensar sobre o significado que se pode dar à luta antirracista quando a mesma organização racializa imigrantes que chegavam da Europa (do sul, ou seja, povos mediterrâneos com milênios de misturas étnicas, incluindo povos africanos do norte). Não é a toa que o corporativismo responde bem aos interesses destes setores fascistas “minoritarios”: mantêm-se os trabalhadores separados por raça para que cada raça tenha seus líderes em igualdade de status político. A entrada de trabalhadores que não se encaixam em nenhuma corporação pré-existente (ou em vias de ser inventada) representa a necessidade de uma renegociação de poder no âmbito corporativo geral, na distribuição de poder dentro do Estado.

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