Por Marxista Liberal

A discussão atual sobre reforma da previdência no Brasil, em pauta desde o governo Dilma,[1] quando se tornou evidente a escalada do déficit previdenciário, conseguiu estabelecer consensos mínimos em torno do assunto entre aqueles que gerem o Estado. Com efeito, das tentativas sem sucesso de alteração por medida provisória da presidente deposta, passando pela reforma apresentada durante o governo Temer, até chegar à proposta agora em discussão no Senado é possível perceber um fio de continuidade no diagnóstico do problema e no que se foi proposto para resolvê-lo.

Quanto ao diagnóstico, consideremos os dados oficiais: a projeção atuarial do regime geral da previdência social (RGPS) para o período 2019-2060 do orçamento federal de 2019.[2] Enquanto a receita previdenciária oscila de 5,57% do PIB 2019 para 5,35% do PIB em 2060, a despesa praticamente dobra, passando de 8,42% para 16,75% do PIB no mesmo período. O déficit da previdência do RGPS salta assim de 2,85% para 11,4% do PIB.

Cabe ressaltar que a projeção atuarial do governo leva em conta as projeções demográficas do IBGE, que indicam um rápido envelhecimento da população brasileira, ocasionado pelo aumento da expectativa de vida e pela queda acentuada na taxa de fecundidade. Essa situação leva à redução da base de contribuição da previdência — a população em idade produtiva — e ao aumento da base que recebe o benefício previdenciário. Entretanto na projeção atuarial a redução da arrecadação decorrente da queda da população em idade produtiva é praticamente compensada pelos ganhos salariais oriundos dos aumentos de produtividade. É por isso que a receita permanece constante em relação ao PIB enquanto a despesa dispara.

No atual sistema não há idade mínima estabelecida para aposentadoria para quem contribuiu por 30 ou 35 anos, se mulher ou homem. Quem não atinge esse tempo de contribuição só se aposenta aos 60 ou 65 anos, com a comprovação de 15 anos de contribuição. Ora, somente trabalhadores mais qualificados conseguem manter ao longo de sua vida laboral um nível de formalização que lhes permita contribuir por 30 ou 35 anos. A camada mais precária dos trabalhadores, que opera na informalidade por muito tempo de sua vida, acaba tendo que se aposentar por idade.

Em valores de dezembro de 2018, eram 6,3 milhões o número de aposentados por tempo de contribuição, 10,8 milhões o de aposentados por idade e 2 milhões o de beneficiários assistenciais do BPC. O valor médio do benefício também reflete essa situação: R$1.985 para os aposentados por tempo de contribuição; R$969 para os aposentados por idade; e R$953 para os beneficiários assistenciais. Tem-se assim uma alta concentração de aposentados por idade recebendo 1 salário mínimo de benefício. De fato, o Anuário Estatístico da Previdência Social de 2017 apontava que 62,6% dos aposentados recebia o valor do salário mínimo como benefício.

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Diante desse cenário os governos têm proposto alterações no sistema previdenciário para frear a aceleração do déficit. E invariavelmente, de Dilma a Bolsonaro, a medida principal tem sido o estabelecimento de uma idade mínima de aposentadoria para todos os trabalhadores no RGPS. São portanto os trabalhadores que podem se aposentar por tempo de contribuição, aqueles mais qualificados, o foco dessas reformas.

É esse também o eixo principal da atual reforma da previdência, agora em discussão no Senado. Mas há outra medida além do estabelecimento da idade mínima que tem nos trabalhadores formalizados o seu alvo: a alteração da regra de cálculo do benefício. No sistema atual considera-se para a apuração do valor do benefício o valor médio das 80% maiores contribuições do trabalhador. Na reforma proposta a apuração do benefício toma o valor médio de todas as contribuições realizadas. Na prática tal alteração provoca o achatamento do benefício para quem tiver direito a mais de um salário mínimo. Assim, o atraso da aposentadoria e o achatamento do valor do benefício dos trabalhadores mais qualificados são o eixo dessa reforma da previdência.[3]

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Que tem proposto a esquerda que pretende gerir o Estado e se diz radicalmente contra a reforma da previdência?

Há pressões parlamentares para atenuar certas medidas, amenizar regras de transição, proteger da reforma grupos desassistidos (BPC e aposentadoria rural) e manter privilégios de grupos corporativistas, como servidores públicos, professores e policiais (!).[4] Mas os partidos de esquerda também têm pretendido resolver a questão da previdência propondo medidas alternativas à reforma do governo. Essas medidas pouco atenuam — quando atenuam — e por vezes pioram o problema.

O caso mais curioso certamente é o do PDT. O partido enviou uma proposta de emenda substitutiva à reforma que estabelecia critérios ainda mais duros para o trabalhador qualificado se aposentar. Enquanto na proposta do governo o trabalhador pode se aposentar aos 65 anos se comprovar 20 anos de contribuição, na proposta do PDT o trabalhador precisaria comprovar no mínimo 35 anos de contribuição para ter direito a receber um benefício superior ao salário mínimo. E a soma de idade e tempo de contribuição deveria chegar a 100 para tal. Quem não atingisse tal situação ficaria com o salário mínimo aos 65 anos, se comprovado 20 anos de contribuição. Na emenda substitutiva ainda constava a criação de um regime de capitalização em parte similar àquele que foi retirado da proposta do governo.

O PSOL propõe de forma modelar o sistema da vaca leiteira. Pretende resolver o problema da previdência através da taxação de lucros e dividendos, da criação de um imposto sobre grandes fortunas, do aumento do imposto de heranças e da taxação de aviões e embarcações de passeio. O partido avalia um potencial arrecadatório de R$142,2 bilhões com essas quatro medidas. Entretanto uma arrecadação de tal monta não cobriria o déficit previdenciário do ano passado, de R$195,2 bilhões, e muito menos o previsto para este ano, de R$314,9 bilhões. A grande questão para o governo, contudo, não é cobrir o déficit, mas reduzir-lhe a aceleração. Nenhuma das medidas propostas pelo PSOL tem potencial de aumento arrecadatório que atenue pela receita o crescimento da despesa previdenciária.

O PT pretende resolver o problema atuarial previdenciário com o ensinamento de seu líder. “‘Se quiserem consertar a Previdência, que dêem emprego e aumentem o salário para o povo e façam o país voltar a crescer’, ensinou Lula” — é o que diz o site do partido, que apresenta 5 medidas para solucionar a questão. Elas consistem na criação de novos empregos, no aumento do investimento e do salário mínimo, na cobrança de empresas devedoras da previdência e na formalização de micro e pequena empresas. Tais medidas possivelmente resolveriam a questão previdenciária se o problema atual fosse exclusivamente decorrente da crise econômica que atinge o país desde 2014. Mas como já se viu, o problema previdenciário é atuarial e não conjuntural. Se é certo que houve um aumento significativo da formalização e da redução do desemprego, levando a um aumento da arrecadação previdenciária urbana durante o período 2003-2014, não é menos certo que esse tipo de situação ocorreu numa conjuntura específica, de janela demográfica[5] e boom de commodities. Nada garante que o modelo lulista de crescimento possa ser repetido. Ao contrário, as evidências apontam que a janela demográfica está fechando; e o ambiente externo atual, com temores de recessão global, não parece favorável a uma reprise daquela época.

*

Nenhuma dessas propostas aparece como alternativa factível à reforma proposta pelo governo. Talvez sejam apenas fumaça para esconderem de suas bases um desejo oculto pela aprovação da reforma. Com as contas equilibradas e o ônus da austeridade colado aos partidos de direita, a vida futura desses partidos ficaria muito facilitada.

Notas

[1] Veja aqui. A discussão sobre reforma da previdência remonta a 1995, quando o então governo FHC apresentou a proposta do fator previdenciário, implantado apenas em 1999. O governo Lula aprovou uma reforma em 2003 direcionada ao funcionalismo público.
[2] Disponível aqui. Para esse texto considerei apenas o RGPS, que é o sistema com problemas atuariais mais evidentes.
[3] Há outras medidas, obviamente. Mudanças nas regras de abono salarial e pensão por morte, alteração do regime de previdência dos servidores públicos. Mas o grosso da reforma, a grande economia que se pretende para tentar frear a escalada do déficit, vem daquele eixo.
[4] Os partidos de esquerda fecharam um acordo com o restante do Congresso para garantir regras mais brandas para professores e policiais na reforma da previdência. Especificamente sobre os policiais, a votação ficou em 467 a 20. Todos os deputados de esquerda, com exceção de 2 deputados do PT, votaram por regras mais brandas para policiais. Ver aqui.
[5] Janela demográfica é o termo utilizado para classificar países que possuem um percentual de população economicamente ativa maior do que a soma do número de crianças e idosos.

12 COMENTÁRIOS

  1. E o relatório da CPI da Previdência? http://v2.metiscms.com.br/images/downloads/relatorio-final_cpi-previdenciapdf.pdf

    E a palavra de especialistas no setor de que não há déficit? https://dinheirama.com/teses-falsas-reforma-previdencia/

    Não entendi a crítica ao PSOL de redistribuição da riqueza (a vaca leiteira). Havia expectativa de que um partido institucional, surgido de parlamentares propusesse a expropriação dos meios de produção?

    Ora, daqui a pouco quando propuserem reforma tributária progressiva, que proponha alíquotas de 40 a 90% aos ricos demais, vão chamar de ‘vaca leiteira’.

  2. Parece – indiretamente – apologia aos gestores de direita do capital. Como o PSOL (uma fração da esquerda) se atreve a propor alternativas para que essa fatia da mais-valia passe/fique nas mãos desses improdutivos trabalhadores? Absurdo… deixem que os bons gestores (de direita) resolvam quem, quando e o quanto fica para a classe explorada (aposentada).

  3. Leo Vinicius,

    O negacionismo do déficit da previdência talvez seja a maior das mistificações sobre o assunto. Trata-se de um terraplanismo contábil. O mecanismo utilizado pelos “especialistas” para negar o déficit consiste em incluir na apuração do resultado todas as receitas da Seguridade Social (que também inclui a Saúde e a Assistência Social) e em retirar da conta da seguridade a seguridade dos servidores públicos (algo muito conveniente aos lobbies do alto funcionalismo público como a Anfip). O diabo é que essa manobra contábil não muda o fato de que há um déficit entre arrecadação e despesa com previdência e que esse déficit é crescente. E como o diabo mora nos detalhes, se há um déficit crescente na previdência, eventualmente as receitas da Seguridade Social terão de deixar de abastecer parte da saúde (SUS) e da assistência (Bolsa Família) para cobrir esse rombo.

    Mas isso, assim como o segundo link que você enviou, era assunto de 2 anos atrás. De lá pra cá esse argumento perdeu força porque a própria Seguridade Social está deficitária (é deficitária desde 2016). A própria Anfip deixou de negar a existência do déficit(https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2017/09/06/internas_economia,623931/anfip-reconhece-deficit-da-seguridade-socia.shtml) e passou a falar que ele existe, mas é conjuntural, fruto da crise econômica.

    Quanto ao PSOL, o partido parece querer resolver a previdência com outro tipo de mistificação: a tributária. Escrevi que “nenhuma das medidas propostas pelo PSOL tem potencial de aumento arrecadatório que atenue pela receita o crescimento da despesa previdenciária”. Mas a questão é mais grave. Tome o caso do imposto sobre grandes fortunas. Ele é reconhecidamente um imposto de baixíssima eficácia. Os grandes capitalistas sabem muito bem como movimentar suas fortunas pelo globo para escapar desse tipo de taxação. Sendo inócuo, é sobretudo um imposto moral. Que pretende o PSOL ao utilizar como bandeira um imposto moral?

  4. É isso Marxista Liberal,

    Não dá pra ter direito à aposentadoria em vida. É o realismo econômico. A lei da natureza. E esse realismo se fortalece com a reforma trabalhista, com a crise econômica, que reduz a arrecadação.

    O que a esquerda deve propor é: não toque a mão na minha aposentadoria! nem na minha saúde! nem na minha educação!

    Ou vc quer transformar a extrema-esquerda em bom gestor do capitalismo? Que a burguesia se vire, afinal, é a pressão dos trabalhadores que fazem eles andarem.

    Quando um partido de esquerda diz ‘não’ a essa reforma da previdência (seja com conta erra, certa, ou mais ou menos certa), ele está pelo menos ajudando a isso. Já os ‘marxistas liberais’ que clamam pelo realismo econômico ajudam a manter a baixa pressão sobre a burguesia.

    A lógica do seu argumento leva a que, numa conjuntura em que a revolução é apenas um sonho ou um delírio, a aceitação de que o trabalhador não irá se aposentar e sua vida será roubada mais e mais toma-se uma virtude. Virtude de realismo. Adequação ao princípio da realidade. Aceitação e passividade.

  5. Achei o texto bastante sóbrio, mas creio que ele leva a uma conclusão conformista. Parece até errado fazer greve para barrar a reforma. Creio que esse conformismo poderia ser mitigado se se analisasse o impacto da reforma na desigualdade. Porque no geral as análises liberais se prendem ao fato de que a reforma diminui a desigualdade entre os aposentados, mas omite que ela o faz ao custo de um aumento da desigualdade entre os rendimentos do trabalho e os rendimentos do capital. Se aprovada (e ela será aprovada, não alimento nenhuma ilusão em contrário) a reforma irá acelerar a concentração de renda no país. E se ser de esquerda ainda significa alguma coisa, isso bastaria para sermos contra essa reforma.

  6. Opiniao Pessoal!

    Se a Aposentadoria do RGPS e’ vitalicia, os aposentados estao aumentando e os
    trabalhadores, da Ativa diminuindo, por que nao saldar a divida previdenciaria, retirando
    Fundos de Receitas do Tesouro Nacional, (Banco Central). Se a coisa so’ tende a piorar, com a Recessao e Robotiza¢ao. Assim nenhum trabalhador ou aposentados seriam sacrificados, nem as Empresas, pois, isso e’ o que tende a acontecer,futuramente, em Todo Mundo. Sem contar, os desfalques, no Cofins e na CSSL (Impostos destinados ao Fim Social)? A Previdencia privada, jamais, sera’ vitalicia. Exceto, para os muito Ricos.

  7. “Radicalismo”, agora que a reforma já foi aprovada na Câmara dos Deputados, é marcar posição com propostas pseudo-radicais para que a proposta da burguesia seja aprovada — com modificações pontuais, mas aprovada. “Radicalismo”, agora que a reforma já foi aprovada na Câmara dos Deputados, é reclamar de uma análise das propostas da esquerda como se elas houvessem mobilizado multidões antes de sua derrota.

    Nem uma palavra dos comentaristas (e também do autor, mas não parece ter sido este seu objetivo) sobre a correlação de forças desfavorável no Congresso.

    Nem uma palavra dos comentaristas (e também do autor, mas não parece ter sido este seu objetivo) sobre o baixíssimo poder de mobilização dos sindicatos depois da reforma trabalhista e sindical de 2017, nem tampouco sobre o que têm feito para contornar a queda na arrecadação (que impacta diretamente o poder de mobilização).

    Nem uma palavra dos comentaristas (e também do autor, mas não parece ter sido este seu objetivo) sobre como o terraplanismo contábil e a mistificação tributária facilitaram o uso, pelos capitalistas, do argumento mais plausível ao senso comum (o inevitável fechamento da janela demográfica) e tornaram impalatáveis para a população qualquer proposta que o negasse.

    Além de errar, persistem no erro, mesmo quando os fatos o demonstram sem sombra de dúvidas. E aí de quem os aponte! Com uma esquerda pré-galilaica destas, nem pressão sobre os capitalistas serão capazes de exercer. Apesar desta esquerda, a terra se move.

  8. Laura Carvalho está certa: “Alguns dirão que a esquerda não teve nenhum papel no que foi aprovado, pois se posicionou contrária à reforma. Mas, se for assim, aqueles que se colocaram a favor de forma acrítica também não têm nenhum mérito sobre o texto final, que está a anos-luz do proposto por Guedes no que tange ao impacto sobre os mais pobres. A verdade é que foram mais de três anos de debate dentro e fora do Congresso, que já haviam culminado na retirada de injustiças semelhantes da reforma proposta por Temer: alterações no BPC, na aposentadoria rural e no tempo mínimo de contribuição já não constavam da segunda versão, apresentada ao final de 2017. É difícil imaginar o mesmo resultado se todos os partidos tivessem adotado uma estratégia tecnocrata de apoio qualificado à necessidade da reforma. Se alguém ganhou nessa história, foi a política, com suas estratégias mais ou menos evidentes.” (http://www.bresserpereira.org.br/terceiros/2019/julho/19.07.Previdencia-publica.pdf) Só tenho uma dúvida: essas mudanças aconteceram porque a esquerda não usou “estratégia tecnocrata de apoio qualificado à necessidade da reforma”, ou porque nem os parlamentares da direita tiveram coragem de mexer no que ia criar uma imagem muito negativa deles com os eleitores? Na verdade a dúvida é mais profunda: isso que Laura Carvalho descreveu foi por causa de pressão dos partidos de oposição e dos sindicatos, ou porque a massa de trabalhadores que não participaram da mobilização funcionou como “pressão silenciosa” sobre os deputados? Acho que foram as duas coisas, mas essa “pressão silenciosa” foi muito mais forte que as mobilizações. Agora discordem.

  9. Um ponto que eu havia esquecido, ja que mencionado no comentário do Marxista Liberal.

    Infelizmente a Dilma criou o Funpresp, fundo de pensão dos servidores públicos federais. Isso, além de prejudicar a aposentadoria dos servidores, faz aumentar o “déficit” em médio prazo, já que menos gente vai contribuir no sistema antigo enquanto há ainda muitos aposentados no sistema antigo. Era óbvio que esse aumento calculado do “déficit” ia ser usado pela direita como justificativa para retirar mais direitos dos servidores públicos, sem contextualizar de onde ele vem.

    Qualquer menção a regime deificitário no serviço público sem mencionar a implantação do Funpresp soa como típica ideologia burguesa, que apresenta números sem história e contexto.

  10. Leo Vinicius,

    Toda a sua argumentação parte de um lugar-comum da esquerda hoje, um entre tantos. A esquerda se reduziu a movimentos de “luta por direitos” e, na verdade, aqui ela – a esquerda – acompanha uma tendência que a ultrapassa, que é a da judicialização da política e dos conflitos sociais e de fortalecimento do sistema judicial (que, diga-se de passagem, é composto por pessoas não eleitas, concursadas ou indicadas); outra tendência é a de incorporação legislativa de demandas da sociedade civil surgidas a partir de escândalos ou polêmicas de grande repercussão.

    Todas as lutas hoje são lutas por direitos, seja pressionando o Poder Judiciário, seja pressionando o Poder Legislativo. São lutas para que o Estado incorpore, geralmente através do ativismo judicial, mas também através da atividade parlamentar, interesses. Aí o Poder Judiciário profere sentenças que obrigam as administrações municipais, estaduais e federal a custearem algum direito, sem que haja necessariamente dotação orçamentária ou possibilidade de realocação de recursos para isso. Ou então o Poder Legislativo cria um novo – inócuo – direito, sem que as pessoas tenham condições concretas de exercê-lo. É o completo enquadramento da esquerda pelos canais oficiais de pressão e participação da sociedade civil, e é um faz de conta que não leva – ou pelo menos não leva a maior parte das pessoas – a lugar algum.

    O problema é que a elasticidade que o mundo jurídico possui para absorver demandas e enquadrá-las é muito maior que a do mundo econômico: para o mundo jurídico, basta alterar um determinado entendimento jurisprudencial ou mudar a legislação vigente (pronto, está adquirido um direito); para o mundo econômico, o mecanismo que permite incorporar demandas e enquadrá-las é principalmente o da produtividade, e a produtividade não aumenta por um simples ato de vontade. E o que você e muitas pessoas defendem é, na verdade, um voluntarismo extremo, supostamente porque isso seria o contrário do conformismo. Mas, por outro lado, é óbvio que “lutar por direitos” é muito mais fácil e muito menos eficaz do que lutar por mudanças nas relações econômicas, ainda mais no momento em que vivemos, em que essas relações mudam rapidamente e em que as referências de luta mais tradicionais – e até algumas mais recentes (partidos, sindicatos, movimentos sociais, coletivos, etc.) – vivem uma profunda crise, da qual nem sequer conseguimos vislumbrar uma saída ou um recomeço.

    Seja como for, as lutas por direitos não só levam ao enquadramento dos trabalhadores pelos canais oficiais do Estado; levam também à desilusão, porque quem aposta tudo o que tem em mobilizações fundamentalmente voluntaristas é muito mais vulnerável a decepções, e as decepções levam necessariamente à desmobilização. Outro fator é a renovação da classe dos gestores e a ascensão de novas elites, porque aqueles que assumem a interlocução nesses canais assumem também – e imediatamente – a função de gestores. E estes dois últimos elementos levam a uma perda de credibilidade da esquerda perante os trabalhadores, perda esta que leva as pessoas diretamente ao ressentimento e à revolta que alimentam o fascismo.

    Para você, no entanto, dizer “não” – mesmo fazendo contas erradas, certas ou mais ou menos certas – equivale a mobilizar e pressionar a burguesia, enquanto ser realista e estudar primeiro a realidade para depois nela tentar intervir – e precisamos aprender a intervir na realidade de formas absolutamente novas, porque as formas hoje disponíveis mostram-se completamente ineficazes – é “manter a baixa pressão sobre a burguesia”. Eu, particularmente, prefiro aqueles que estão dispostos a estudar a realidade para nela intervir – aliás, para os marxistas isso é um dever – , e prefiro apostar em lutas capazes de transformar as relações econômicas sem levar a uma renovação da classe dos gestores e a uma completa desilusão e perda de credibilidade.

  11. Fagner Henrique,

    Luta por redução da jornada de trabalho é a luta provavelmente mais marcante da história da classe trabalhadora. O trabalhador na sua incessante fuga do trabalho. Isso é lutar pro direitos ou por mudança nas relações econômicas?

    A jornada de 8 horas se estabeleceu como direito. Aí quando os capitalistas querem retirar vc não vai lutar contra por que isso seria ficar restrito a luta por “direitos”? Não entendi.

    O que vocês está dizendo no último parágrafo é que lutar para trabalhar menos (pois a reforma da previdência na melhor das hipóteses faz o trabalhar mais) é irrealista pois as contas dos cabeças de planilha dizem que o trabalhador tem que trabalhar mais. Nas contas do trabalhador a vida dele vai pelo ralo com a reforma da previdência. Dizer não a essa reforma parte da conta certa, só que da conta certa proletária. O resto é mistificação burguesa, enquadramento do horizonte de expectativa no princípio de realidade da economia burguesa. Agora, pelo jeito, há uma tecnocracia de extrema-esquerda que também defende isso.

    O tal “estudo da realidade” de muitos marxistas também levou a deixar o desenvolvimento dos meios de produção substituírem a organização dos trabalhadores. Falta agora justificar a redução do salário mínimo pelas planilhas e criticar os programas de esquerda que se colocam contra, dizendo que não estão fazendo as contas. Isso me lembra Bakunin fazendo a crítica do marxismo do Marx, do governo da ciência… o que seria.

    “Uma das lições que a Era Hitler nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente.” Adorno e Horkheimer

  12. Leo Vinicius,

    1) A luta por redução da jornada de trabalho não se reduzia, e em muitos casos não se reduz, a uma mera luta por direitos. Além do mais, essa luta não era um fim: por vezes era um meio, e em muitos casos nem sequer um meio, mas um paliativo temporário.

    2) A luta, pelo menos para mim, não deve ser para trabalhar menos tempo e aposentar mais cedo, com uma aposentadoria paga pelo Estado, acumulando ainda salário e outros rendimentos com aposentadoria, como muitos fazem. Deve ser para que os trabalhadores trabalhem e o seu trabalho contribua para a sua autorrealização mútua, para que eu me realize no meu trabalho e no trabalho do outro, e o outro se realize no seu trabalho e no meu, e para que deixemos de realizar juntos a mais-valia apropriada pela burguesia e os gestores. E se formos derrotados no processo, que pelo menos nossa luta suscite o desenvolvimento da produtividade e tenhamos por isso um nível de vida melhor, mas que isso seja um resultado da nossa luta autônoma, e uma luta radical, e ela sirva como uma referência para os mais jovens, para que eles lutem outra vez, tendo na memória a luta autônoma do passado e desenvolvendo-a de novas formas. Tudo o que não passe por aí, e que vá mesmo na contramão, não me interessa.

    3) Ainda que a luta deva se processar nos termos que você coloca – esqueça o que coloquei em 2 – , deparamos com os seguintes problemas:
    a) o voluntarismo, e um voluntarismo irracional, pois como já apontei num comentário aqui: https://passapalavra.info/2019/06/127050/, ele se baseia num evidente paradoxo, que consiste em querer que os capitalistas apoiem política e economicamente uma forma de capitalismo que não lhes interessa.
    b) por outro lado, para que os capitalistas sejam coagidos, como apontei em outro comentário no mesmo lugar: https://passapalavra.info/2019/06/127050/, são necessários movimentos proletários de massa e radicais, mas quando o enfrentamento ao capitalismo se confunde com palavras de ordem estranhas aos interesses dos trabalhadores – desde o enfrentamento ao “golpe” até o “Lula livre”, ou pela ascensão social de fatias de trabalhadores – isso é impossível: não se trata de uma luta proletária radical, mas de trabalhadores que tomam o partido desta ou daquela fração das classes dominantes, e o partido de quem sente vocação para ser classe dominante. E também é impossível quando as greves e manifestações se sucedem, reproduzindo um mesmo ritual, sem que haja para os participantes qualquer conquista: deparo com isso, vejo greves começarem e terminarem sem qualquer conquista, simplesmente para que umas e outras caras – sempre as mesmas, claro – possam aparecer na rua ou dar sinal de vida nos locais de trabalho.
    c) isso também é impossível quando as lutas se reduzem a lutas por direitos, onde os trabalhadores são enquadrados pelos canais oficiais de participação e pressão da sociedade civil, e onde há um afunilamento produtor de novos gestores. Quando a luta já aponta desde o início para um horizonte de burocratização, instrumentalização, manipulação ou aparelhamento, significa que tudo começou errado.

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