Por Jonas Medeiros

O livro “Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes” (Expressão Popular, 2018), de Andrew Korybko, é um panfleto pró-Putin e demofóbico.

Seu tema são os métodos de “guerra indireta” (a “guerra de quarta geração”) que o autor nomeia como “guerras híbridas”. O que elas são? Elas teriam dois elementos: (1) as revoluções coloridas e (2) as guerras não convencionais. Toda “guerra híbrida” começaria com “revoluções coloridas” (manifestações fabricadas pelos EUA para desestabilizar regimes que não são alinhados aos seus interesses estratégicos) e pode ou não avançar para guerras não-convencionais (travadas por atores não-convencionais para os quais os EUA terceirizam seus interesses, sem precisar arcar com o uso direto de suas tropas). Se o golpe brando para mudar o regime não for bem-sucedido, parte-se então para o golpe duro.

O subtítulo da tradução brasileira é diferente do subtítulo original. Parece-me que a Expressão Popular, uma editora de esquerda, buscou aclimatar o livro para o contexto brasileiro, modulando a recepção do conceito justamente para aqueles potenciais leitores que já acreditam que junho de 2013 foi uma “revolução colorida” que levou mecanicamente ao golpe de 2016 (e à eleição de Bolsonaro em 2018). O subtítulo original é “a abordagem adaptativa indireta à mudança de regime”. Um subtítulo bem menos vistoso e sem a palavra chamariz “golpe” para o contexto brasileiro.

Qual é a importância do subtítulo original? Ele revela o objetivo do livro. Como o autor explica na introdução, o termo “abordagem adaptativa” foi cunhado em 2014 por ninguém menos que o próprio comandante das forças armadas russas para se referir à Primavera Árabe durante a “Conferência de Moscou sobre Segurança Internacional” em maio de 2014. Os protestos de 2011 não teriam passado de fabricação estrangeira dos EUA, manipulação psicológica da população para travar uma guerra híbrida e desestabilizar não apenas alguns regimes do Oriente Médio como a própria Rússia. O objetivo do livro seria, então, aprofundar esta categoria nativa das forças armadas russas (“abordagem adaptativa”) no interior da Teoria Geopolítica para, assim, desenvolver uma “teoria das guerras híbridas”. O ponto de vista da análise é sempre o do Estado russo, trata-se de um esforço teórico submetido aos interesses geopolíticos do governo de Putin e que pretende servir de instrumento para este, o que o autor explicita logo no começo, quando se refere àquela Conferência de Moscou, e no final, quando apresenta não apenas previsões de onde podem eclodir novas “revoluções coloridas”, como também o que chama de uma “estratégia contrarrevolucionária eficiente” que o Estado russo deveria empregar para combatê-las.

Dos pontos de vista teórico, metodológico e empírico, o livro é fraco. O autor diz que se baseia em estudos de caso da Síria (a primavera árabe de 2011 neste país e a guerra civil que se seguiu) e da Ucrânia (o movimento EuroMaidan de 2013-14) para avançar a construção da teoria das “guerras híbridas”. A Ucrânia seria mais um caso de “revolução colorida” (Capítulo 2) e a Síria seria um caso mais de “guerra não-convencional” (Capítulo 3). Contudo, segundo ele, o caso da Síria já seria de “conhecimento público” e, portanto, não seria necessário “repetir os fatos” (p. 87) – então ele basicamente não analisa a Síria a fundo.

Mesmo no caso da Ucrânia, no qual o autor gasta mais tempo, não há tratamento cuidadoso do processo político e nenhuma reconstrução empírica com dados, apenas encadeamento “lógico” de teorias, conceitos e autores. A tese apresentada é a de que os protestos foram fabricados por “operações psicológicas” comandadas do estrangeiro que teriam criado e manipulado divisões artificiais entre a população. O autor chega a apresentar no Anexo 1 um modelo da “mecânica” das “revoluções coloridas”, no qual defende que a ocupação de praças públicas (uma tática utilizada não apenas na Ucrânia mas em vários outros movimentos de protesto durante a década de 2010 – leiam o livro do Paolo Gerbaudo sobre isto) é um elemento central destes protestos “fabricados” pelos EUA; além disso, reduz protestos e manifestações a subterfúgios que são mobilizados por pessoas mal-intencionadas apenas para desestabilizar “regimes legítimos” e usar civis como “massa de manobra” para se proteger (“escudo humano”), se camuflar e “provocar” resposta das forças policiais.

Não há nenhum dado primário de entrevista com manifestantes, observações, reconstrução cuidadosa etc. que aponte para tais conclusões, elas são tidas como dadas e o autor apóia-se apenas em uma teorização superficial do que seriam as “psy ops” ou “operações psicológicas”. Uma das bases teóricas do autor se destacou para mim: o livro “Propaganda” de Edward Bernays, publicado em 1928. O livro defende a partir deste autor que a psicologia das massas é controlada por uma elite invisível. Contudo, não temos acesso a evidências empíricas de como teria sido fabricada a publicidade contra os governos sírio e ucraniano, o leitor deve confiar cegamente no autor. Além disso, no decorrer de quase um século, a Teoria da Comunicação se desenvolveu e se complexificou bastante (a sociologia funcionalista de um Lazarsfeld já é mais complexa do que este controle vertical, sem contar os avanços dos estudos culturais, que demonstram a capacidade ativa dos sujeitos na recepção de mensagens midiáticas), a ponto de ter se tornado insustentável defender uma concepção tão simplista, mecânica e linear dos processos comunicativos como a deste autor…

Outra coisa que chama atenção é que, no Capítulo 2, o autor defende que um único teórico político estadunidense – Gene Sharp – seria o responsável por ter escrito o “manual” das revoluções coloridas, ensinando para os “supostos manifestantes” diversas formas de desobediência civil. Não há no livro evidências empíricas que suportem que os processos políticos na Síria e na Ucrânia tenham sido decisivamente influenciados por este cara, a não ser algumas reportagens da mídia estadunidense e um documentário ufanista do próprio Gene Sharp.

Na verdade, o que há no livro nada mais é do que uma lista de repertórios de ação coletiva… Qualquer estudioso de movimentos sociais sabe que estas táticas viajam, são difundidas, apropriadas, ressignificadas por diferentes atores, em processos de difusão simbólica que dificilmente estão sob “controle” de um só ator. Nenhum manual é capaz de monopolizar a circulação de repertórios de protesto. O livro parece coisa de quem não sabe como os movimentos sociais atuam e funcionam – ou não quer saber, afinal o falseamento desses processos de difusão de repertório de luta e a afirmação de que manifestantes são “manipulados psicologicamente” serve, em última instância, para apoiar a repressão e medidas de controle do Estado que o autor defende.

Tudo isto leva a uma característica central do livro: sua demofobia. Em vários momentos, o autor escreve ironicamente “manifestantes” (exemplo: p. 12) e “repressão” (exemplos: pp. 123 e 130), com aspas (as dezenas e talvez centenas de mortos na Ucrânia provam que a repressão do Estado foi bem real). Qual é a origem e a consequência disto? A origem é o alinhamento com a perspectiva do Estado e a consequência é uma deslegitimação dos movimentos sociais e, em última instância, a sua criminalização. Os atores são tratados como desprovidos de agência (“manipulados”) e, no limite, há menos interesse investigativo nos protestos e mais interesse em deslegitimá-los a partir de uma “teoria” já pronta que os enquadra como manipulados, inimigos dos interesses do Estado (russo ou aliado da Rússia) e, portanto, criminalizáveis.

E isto nos leva a outra característica central do livro, a qual eu já havia apontado no início: ele é abertamente um instrumento de defesa dos interesses do governo de Putin. O autor reproduz a paranoia do Estado russo de que qualquer movimento social que ocorra em sua periferia “só pode” ter sido uma conspiração estrangeira para desestabilizar seus aliados e a si mesmo. Aliás, esta palavra-chave – “desestabilização” – é bastante reveladora do que move o autor: a estabilidade dos regimes políticos alinhados à Russia. Não é à toa que a solução apresentada pelo autor para as “guerras hibridas” é “[A] forte promoção de ideais patriotas […] pelo Estado e por suas ONGs afiliadas pode levar à eventual criação de uma mente de colmeia em favor do governo que participaria de contraenxames contra quaisquer insurgentes anti-Establishment” (p. 98). Além disso, recomenda que “o Estado seja capaz de monitorar a Internet e identificar a origem de certas informações que entram no país” (p. 99). Às vezes isto vai “assumir a forma de censura”; no caso da Rússia, ele recomenda que o Estado se esforce para incentivar a “‘nacionalização’ das mídias sociais e da Internet” para diminuir “a influência direta da campanhas de informação subversivas” com o objetivo de “buscar a autarquia social e informacional” (p. 99).

Do começo ao fim, o autor se alinha com a perspectiva do Estado russo, seja dos seus interesses geopolíticos externos (defende a Hungria de Orban que é “difamada” como uma ditadura – p. 138 – tem também vídeos dele no Youtube defendendo o AfD, partido alemão de extrema-direita, bem como torcendo pro Trump ganhar as eleições de 2016) seja dos seus interesses internos (abafar qualquer dissidência como “subversão”, promover a defesa do Establishment patriótico de Putin, etc.). Há, a todo momento, o medo paranoico de que o povo se expresse, tome as ruas e faça política (a qual deve estar nas mãos de uma elite política e militar). O resultado: a repressão policial é sempre justificada e relativizada (como no caso que ele usa aspas: não seria repressão “de verdade”, seria apenas manipulação de fotos e vídeos por pessoas interessadas com uma agenda oculta).

Olha, eu nem sequer aprofundei neste post a inserção do autor do livro em um circuito de intelectuais, think tanks, sites e revistas da direita cristã russa (deixo este ponto para um próximo texto). E fico me perguntando: como pode um livro tão mal escrito e tão claramente alinhado à Rússia autoritária de Putin estar fazendo tanto sucesso em uma parte significativa da esquerda brasileira? (Guerras Híbridas está entre os mais vendidos da Livraria Leonardo da Vinci em 2019, cada vez mais posts e tweets enxergam guerras híbridas por todo lugar e intelectuais renomados começaram a utilizar o conceito) Tenho minhas hipóteses, mas deixo este outro ponto para a reflexão de quem está me lendo. Mas vamos abrir os olhos para a estatolatria, o autoritarismo e o conservadorismo subjacentes a este livro, que não é de modo algum um instrumento útil para o pensamento crítico e para a prática do campo da esquerda. A quem exatamente interessa este tipo de narrativa conspiracionista? Quem está confortável com a possibilidade de esmagar a dissidência política e naturalizar a repressão estatal?

Para terminar: em quanto tempo será que eu vou ser acusado de ser um instrumento das guerras híbridas e de ter sido pago para ler e escrever sobre este livro durante as minhas férias?

Post Scriptum

PS 1: A perspectiva geopolítica russa estrutura o livro como um todo. É o que estou chamando de atitude pró-Putin. O autor não cita diretamente Alexsandr Dugin, mas é o seu pensamento geopolítico que estrutura o livro como um todo. Quem é Dugin? Alguns o chamam de “Rasputin do século XXI” pelo seu papel de assessoria estratégica ao governo de Putin (e às forças armadas russas desde a década de 1990). Dugin é um intelectual conservador e cristão russo, que fundou o Partido Nacional-Bolchevique depois do fim da URSS, criou uma escola de pensamento geopolítico chamada (Neo)Eurasianismo e que tem até livro publicado debatendo com Olavo de Carvalho. O Capítulo 1 de Guerras Híbridas segue a mesma linha de pensamento de Dugin: concebe as disputas geopolíticas contemporâneas entre a potência unipolar (e liberal) dos EUA contra as potências multipolares (e anti-liberais) da Rússia, China e Irã, além de se apropriar de autores ingleses e estadunidenses da geopolítica (como Mahan, Mackinder, Spykman e Brzezinski) invertendo sua perspectiva para formular de modo mais claro os interesses estratégicos próprios da Rússia. Quem quiser ler esta palestra transcrita de Dugin vai reconhecer a mesma estrutura do Capítulo 1 de Guerras Híbridas: Geopolitics: Theories, Concepts, Schools, and Debates.

PS 2: Korybko a favor de Trump em 2016 para “acabar com o totalitarismo do politicamente correto” (ele chama a Lady Gaga, que estava apoiando Hillary, de “freak” em 2min10s, demonstrando seu conservadorismo): Andrew Korybko – We shouldn’t be surprised about Trump’s victory.

23 COMENTÁRIOS

  1. Excelente essa resenha.
    Tema que poderia ser mais desenvolvido inclusive, na linha que o site Coyote tem feito, mas dessa vez mostrando as ligações conceituais e não pessoais entre os dungianos brasileiros e a esquerda que aqui os acolhe.

    Fico pensando no que esse povo que aegue a lógica desse livro pensa do Occupy Wall Street. Uma “revolução colorida” criada pelo governo americano para tentar desestabilizar ele próprio.

    Esse livro pelo jeito (nao o li), serve de manual de discurso pro prefeito daquela cidadezinha do interior em que, havendo manifestacao popular, o prefeito-coronel logo diz que é coisa de gente de fora.

  2. Prezado Leo, precisamos ler o livro. No início do Século XX, o Historiador Marc Bloch, pai da Escola dos Annales, destacava que a história é mais constituida por processos transcorridos no “tempo longo” que por fatos, decretos ou ações de guerra imediatas.
    Por este viés, faz sentido conectarmos a Primavera Árabe, os Indignados da Espanha, as Jornadas de Junho no Brasil e o Occupy Wall Street com a ascenção de governos conservadores.
    Claro, cada movimento deve ser compreendido em suas especificidades. Provavelmente, alguns movimentos foram criados , sim, como estratégia de Guerra Hibrida, ainda que partam de pautas especificamente regionais. Porém, outros movimentos, absolutamente não tiveram, ou tiveram pouca, influência externa.
    Sobre os Occupys. É preciso estudar os EUA, suas culturas e História, para entendermos que, como qualquer sociedade, há um campo identificado com pautas progressistas (a esquerda) e outro identificado com a pauta conservadora (a direita). Não sabemos, ainda, se os Occupys foram engendrados nos porões da conservadora CIA, como um Golpe na esquerda estadunidense. Contudo, não há dúvidas que os Occupys criaram a real possibilidade da ascenção institucionsl da esquerda socialista com a candidatura de Sanders a presidência, o que dividiu o Partido Democrata, levando a vitória dos conservadores com D. Trump. “Guerra Civil Híbrida” naquele país? Não sei, a história, um dia, responderá.

  3. Hugo,
    Sim, temos que ler esse e muitos outros livros.
    Mas o seu comentário exemplifica o tipo de associação ad hoc, ou de hipótese conservadora sobre tudo que se mexe, que o Jonas Medeiros critica na sua resenha.

    Sua hipótese sobre Occupy: como o Trump foi eleito, alguma culpa pode ser dos movimentos sociais (mesmo os de esquerda). A partir desse pressuposto você aventa a hipótese de que o Occupy seria responsável pela ascendência de Bernie Sanders e a vitória de Trump. Ora, se Bernie Sanders ganhasse as prévias dos Democratas, as pesquisas mostravam que ele, e nao Hillary, ganharia mais facilmente de Trump. Então, mesmo considerando a hipótese improvável de que Occupy implica em Bernie Sanders, a lógica levaria a você achar que os conservadores estiveram por trás da candidatura da Hillary e não do Sanders.

    Só uma coisa explica esse seu desvio da lógica: o puro conservadorismo. Essa ascensão do conservadorismo está dentro de você e em grande parte do que se diz esquerda hoje.

    Anos atrás eu costumava dizer, para definir a linha do jornal O Estado de São Paulo, que ele era contra tudo que se mexe.

    Hoje em dia é grande parte da esquerda (a esquerda burocratica sonhadora em ser gestora) que é contra tudo que se mexe.

    Não é questão de discutir os limites e contradições desses movimentos como Occupy, no caso de vocês, mas simplesmente de se colocarem contra tudo que se mexe.

    Chegamos ao paradoxo que se vê no Brasil vindo da esquerda burocrática desde 2013 (inclusive nos comentários neste site): a ascensão do conservadorismo é culpa dos movimentos mais progressistas e dinâmicos da juventude da classe trabalhadora.

    O paradoxo para esses conservadores de esquerda é que a esquerda estaria bem se não houvesse movimentos sociais.

    Jonas Medeiros definiu isso bem: demofobia. A doença da esquerda-Estadão.

    * * *

    Só para acrescentar, sem negar evidentemente que os atores sociais nas lutas de classe e geopolíticas utilizam agentes provocadores e procuram influenciar movimentos sociais, essa demofobia que o Jonas Medeiros bem apresenta parece ser uma nova versão do que Kenneth Rexroth via nos anos 1960 nas manifestações da juventude contra a guerra do Vietnã: quando grupos políticos tentavam forçar os protestos em seus canais e programas, descobriam que os manifestantes haviam repentinamente sumido, e/ou que os grupos mais “violentos” e “loucos” eram, sem dúvida, aos olhos deles, formados em 75% por agentes provocadores. (Kenneth Rexroth, The Making of the Counterculture http://www.bopsecrets.org/rexroth/essays/counterculture.htm).

    É só a enésima versão de que quando o povo não me segue ou não me apoia, é porque são agentes externos que estão agindo.

  4. Além das questões que o Leo apontou, parece-me especialmente reveladora a noção de que os manifestantes, as «massas», são desprovidos de uma estrutura própria, informes e manipuláveis. Todas as teorias que interpretam os movimentos sociais como se resultassem de conspirações dirigidas através de centros baseiam-se numa dicotomia elites / massas, em que as elites são deslocadas da luz do dia para lugares secretos. É por aqui que esse tipo de interpretações da história se relaciona com os fascismos e com certa extrema-direita.

    Acessoriamente, os modelos interpretativos da «longa duração» devem-se a Fernand Braudel e não a Marc Bloch. Seria um estudo interessante, o que analisasse o motivo e os modos como o pós-modernismo subalternizou e fez esquecer a novidade histórica da obra de Bloch e tomou a obra de Braudel como representação única da École des Annales. Na verdade, fuzilaram Bloch pela segunda vez. Mas isso não me parece tema para o Passa Palavra.

  5. Caro João Bernardo,

    Escrevo apenas por curiosidade.
    Já vi em outros textos/comentários o senhor elogiando o historiador Marc Bloch. Foi a partir dele que o senhor, desenvolveu o interesse pela História Comparada? Pois, foi a partir do senhor (para ser exato, no prefácio do livro Labirintos do Fascismo), que fiquei interessado nesta temática. Se possível, o senhor indicar livros que o influenciaram neste tema.
    Desculpa por fugir do assunto…
    Desde já agradeço,

    Abraços

  6. Caro Pedro Irio,

    Eu recorri à obra de Marc Bloch sobretudo nos três volumes de Poder e Dinheiro, porque ela é indispensável para tratar do regime senhorial. Além de muitas outras descobertas, Marc Bloch usou para a análise de vários aspectos da economia e dos sistemas de poder na área do regime senhorial perspectivas que estavam a ser abertas pela antropologia graças ao estudo de povos e civilizações muito distantes e globalmente diferentes. Estes cruzamentos e influências são especialmente importantes hoje para quem se interessar pela crítica ao pós-modernismo e ao identitarismo, que hegemonizam os estudos históricos. A lição dada por Bloch ao cruzar antropologia e história é um antídoto eficaz contra as correntes pós-modernas e identitárias. Na mesma perspectiva é imprescindível a leitura de The Golden Bough, de Frazer. Compreende-se que, quando se refere à École des Annales, a grande maioria dos universitários actuais se restrinja a Fernand Braudel.

    Já agora, dos historiadores deve interessar-nos a obra e não quem eles foram. Mas o certo é que eles foram pessoas, e só me lembro de dois historiadores que sacrificaram a vida ao serviço daquilo que eles entendiam — e eu entendo — como história: Marc Bloch e Emmanuel Ringelblum.

  7. Caro João Bernardo,

    Obrigado pela resposta…

    Confesso que não conhecia esses dois historiadores: Frazer e Emmanuel Ringelblum. Vou ir atrás destes autores para sanar essa ignorância.
    Gosto de suas indicações bibliográficas. Há algum tempo o senhor indicou o livro Rohini HENSMAN, Indefensible. Democracy, Counterrevolution, and the Rhetoric of Anti-Imperialism. PQP… Ótimo livro!!!

    Abraços

  8. Je vais écrire mon commentaire en français, ma connaissance du portugais étant très perfectible.

    Rien de bien nouveau … L’extrême gauche sait critiquer l’impérialisme occidental ( américain le plus souvent) mais ne semble pas connaître les autres formes d’impérialismes: Russe, Chinois, Turc par exemple. Pourtant ces régimes, sont profondément anti-ouvrier et réprime les opposants de gauche.
    Le concept d’impérialisme pose donc problème, il faut se placer du point de vue du prolétariat et non du point de vue des classes dirigeantes de ces pays. Ces gauchistes “campiste”, ne connaissent pas le concept d’exploitation, et on oublié ce qu’était les mots d’ordre de l’internationalisme.
    Le concept d’impérialisme nous est-il utile ? Il me semble que lorsque Rosa Luxembourg utilise ce concept elle avait en tête l’exploitation des travailleurs, au delà des frontières. Pour poursuivre ces interrogations, un article utile de Loren Goldner, un marxiste américain http://mondialisme.org/spip.php?article1191

    Joao Bernardo,
    Je vais encore m’écarter du sujet et je m’en excuse
    Je n’ai malheureusement pas pu lire vos livres sur le régime seigneuriale. Je me suis intéressé en partie grâce à vos recommandation à l’historiographie médiévale. Par curiosité, connaissez vous le travail d’un grand médiéviste français: Alain Guerreau, qui comme vous s’est énormément intéressé à l’anthropologie ?
    Pour ce qui est de l’école des Annales, j’invite les lecteurs lusophones à étudier les travaux de Jacques Le Goff ou encore de Philippe Ariès, la lecture de leurs ouvrages est stimulante.

    Cordialement.

  9. Elie,

    Je me souviens d’avoir lu Alain Guerreau, mais je suis allé voir dans la bibliographie de Poder e Dinheiro et je ne le cite pas. Par contre, son épouse, Anita Guerreau-Jalabert y est à plusieurs reprises. Et puisque vous citez Le Goff, dans un de ses derniers ouvrages, il a réussi l’exploit de synthétiser en trois lignes ce qu’il m’a fallut deux mille pages pour expliquer. Je n’ai pas ici l’original, je le cite dans la traduction brésilienne: «[…] o historiador brasileiro João Bernardo, em seu estudo monumental, estima que a difusão do dinheiro ao longo do século XIII europeu está sobretudo ligada à passagem das senhorias familiares pessoais a uma família do Estado, artificial e impessoal. O dinheiro seria portanto, segundo ele, um agente determinante das transformações sociais». Le Goff se trompe, pourtant, en m’appelant brésilien, car je ne le suis pas, sauf, peut-être, d’adoption.

  10. Joao Bernardo,

    Merci pour votre réponse j’en prend note, je me souviens également avoir lu ce passage de Le Goff dans Le Moyen Âge et l’argent : essai d’anthropologie historique, livre relativement court et synthétique. Alain Guerreau envisage l’histoire comme un véritable scientifique, c’est un représentant du rationalisme en histoire, en cela il a échappé au mode postmoderne en vogue à l’université. Cependant Guerreau est aride à lire au contraire de Le Goff dont la lecture ne demande pas de prérequis particuliers, si ce n’est le goût d’apprendre. J’espère pouvoir lire votre livre, qui n’est malheureusement pas disponible dans les bibliothèques françaises que je fréquente, c’est dommage.

    On peut retrouver ici la bibliographie d’Alain Guerreau, colossale: https://fr.wikipedia.org/wiki/Bibliographie_chronologique_exhaustive_des_travaux_d%27Alain_Guerreau

    Cordialement

  11. Dois belos e percucientes, posto que sucintos, comentários de Elie e João Bernardo. Este -ironicamente, aliás- escanteia o Le Goff (para os íntimos, Monsieur Hélas).

  12. Elie,
    Il y a une bonne âme, qui, peut-être comme pénitence, a mis sur l’internet le premier et le deuxième volumes de Poder e Dinheiro. Si ses péchés exigent davantage, nous aurons le troisième. Por le moment:
    1er volume: https://archive.org/details/poder-e-dinheiro-vol-1/mode/2up
    2ème volume: https://archive.org/details/poder-e-dinheiro-vol2-pronto/mode/2up

    Ulisses,
    Eu não estava a ser irónico. Acho realmente que Le Goff conseguiu sintetizar o eixo central daquela obra.

  13. Parfait, les âmes charitables sont nombreuses sur internet. Cela va me demander du temps, mais je vais entreprendre cette lecture.
    C’est toujours un plaisirs de consulter Passa Palavra, seul site dans le genre qui produit une information de qualité, des débats. J’y apprend énormément de choses. Cela tranche avec le manque d’esprit critique qui règne dans les milieux libertaires traditionnellement.

    Cordialement

  14. TRADUZINDO O DIÁLOGO

    Elie disse:
    “Vou escrever o meu comentário em francês, sendo os meus conhecimentos de português muito imperfeitos.

    Nada de novo … A extrema esquerda sabe criticar o imperialismo ocidental (principalmente americano) mas parece não conhecer as outras formas de imperialismo: russo, chinês, turco, por exemplo. No entanto, estes regimes são profundamente desfavoráveis aos trabalhadores e reprimem os adversários da esquerda.
    O conceito de imperialismo é, portanto, problemático; é necessário colocar-se do ponto de vista do proletariado, e não do ponto de vista das classes dirigentes desses países. Os “campistas” de esquerda não conhecem o conceito de exploração e esqueceram quais eram as palavras de ordem do internacionalismo.
    O conceito de imperialismo é útil para nós? Parece-me que quando Rosa Luxemburgo utilizou este conceito, ela tinha em mente a exploração dos trabalhadores através das fronteiras. Para responder a estas perguntas, um artigo útil de Loren Goldner, um marxista americano http://mondialisme.org/spip.php?article1191

    João Bernardo,
    Vou divagar novamente, e peço desculpa…
    Infelizmente, não consegui ler os seus livros sobre o regime seigniorial. Eu me interessei em parte por causa de suas recomendações sobre a historiografia medieval. Por curiosidade, você conhece o trabalho de um grande medievalista francês: Alain Guerreau, que, como você, tinha muito interesse em antropologia?
    No que diz respeito à escola dos Annales, convido os leitores de língua portuguesa a estudar a obra de Jacques Le Goff ou Philippe Ariès, a leitura das suas obras é estimulante. ”

    João Bernardo respondeu:
    “Lembro-me de ler Alain Guerreau, mas fui procurar na bibliografia de Poder e Dinheiro e não o cito. Por outro lado, a sua esposa, Anita Guerreau-Jalabert, está lá várias vezes. E como você está citando Le Goff, em uma de suas últimas obras ele conseguiu a proeza de sintetizar em três linhas o que me levou duas mil páginas para explicar. Não tenho aqui o original, cito na tradução brasileira: “[…] o historiador brasileiro João Bernardo, em seu estudo monumental, estima que a difusão do dinheiro ao longo do seculo XIII europeu está sobretudo ligada à passagem das senhorias familiares pessoais a uma família do Estado, artificial e impessoal. O dinheiro seria portanto, segundo ele, um agente determinante das transformações sociais”. Le Goff está enganado, porém, ao me chamar de brasileiro, porque eu não sou, exceto, talvez, por adoção. ”

    Elie respondeu:
    “Obrigado pela sua resposta, tomo nota, lembro-me também de ler esta passagem de Le Goff in The Middle Ages and Money: Essay of Historical Anthropology, um livro relativamente curto e sintético. Alain Guerreau vê a história como um verdadeiro cientista, é um representante do racionalismo na história, na medida em que escapou ao modo pós-moderno em voga na universidade. No entanto, Guerreau é árido para ler, ao contrário de Le Goff, cuja leitura não requer nenhum pré-requisito em particular, exceto o gosto pela aprendizagem. Espero poder ler o seu livro, que infelizmente não está disponível nas bibliotecas francesas que freqüento, é uma pena.

    Você pode encontrar aqui a colossal bibliografia de Alain Guerreau: https://fr.wikipedia.org/wiki/Bibliographie_chronologique_exhaustive_des_travaux_d%27Alain_Guerreau

    João Bernardo respondeu:
    “Elie,
    Há uma boa alma que, talvez como penitência, colocou o primeiro e segundo volumes de Poder e Dinheiro na internet. Se os seus pecados exigirem mais, teremos o terceiro. Por enquanto:
    1º volume: https://archive.org/details/poder-e-dinheiro-vol-1/mode/2up
    2º volume: https://archive.org/details/poder-e-dinheiro-vol2-pronto/mode/2up

    Elie respondeu:
    “Perfeito, há muitas almas caridosas na internet. Vai levar algum tempo, mas vou começar esta leitura.
    É sempre um prazer consultar o Passa Palavra, o único site do gênero que produz informações e debates de qualidade. Eu aprendo muito lá. Isto contrasta com a falta de espírito crítico que reina nos círculos libertários tradicionais.”

  15. É difícil ligar os pontos que o que ocorreu nas manifestações de 2013 é uma semente de guerra Híbrida americana? Putin em pessoa ligou para a Dilma avisando que essas manifestações tinham dedo americano.
    Em qual país os militantes do MBL na época foram treinados para “lutar pela democracia”? Na Rússia que não foi. Hoje eles ganham espaço até na CNN… Que coisa né? Em poucos anos ganharam tanta influência. Só uma coincidência aposto
    E toda a espetacularização da corrupção brasileira na mídia? E o grampo do Moro na Dilma em conversa com o Lula que em apenas DUAS HORAS já foi publicado na Globo.
    E o Bolsonaro batendo continência pra bandeira americana? E o Bolsonaro se reunindo com diretor da CIA? E a colaboração entre Lava Jato e FBI?
    E as redes sociais tomadas pelas teorias de golpe comunista?

    Ora, tudo isso está dentro da lógica de guerra híbrida (supondo que vc conheça os métodos da guerra híbrida,o que não parece ser o caso).

    Engraçado que no final do texto já faz um belo controle de danos que iam te acusar de agente da guerra híbrida kkkk Quem já estudou sobre o assunto sabe que esse texto vale nada, é controle de danos TOTAL.

  16. O Lucas acima mistura Moro e Lava Jato com manifestações de 2013… e pior, fala em MBL em 2013 quando ele nem existia e nem participou naquele ano, surgindo de fato nas eleições de 2014.

    Uma dica Lucas, analise as coisas pelos fatos. Existem fatos que ligam o Departamento de Estado dos EUA à Lava Jato e ao Moro, por exemplo.
    Mas não existe absolutamente nada sobre as manifestações de 2013. Enfim, como diz o texto, falta embasamento e conhecimento sobre os movimentos sociais.

  17. Uma narrativa parecida com a deste Lucas é a que explica a situação na Bolívia como outro golpe de Estado. O fato do atual governo ser extremamente reacionário e ameaçar com verdadeiros golpes, fustigar as disputas regionais e étnicas, etc, etc, não anula o fato de que diversos movimentos sociais estavam nas ruas contra os resultados das eleições, que a COB inclusive recomendou a Evo a sua renúncia para pacificar o país, e que o maior aliado do governo de Evo eram justamente as forças armadas. Por isso foi inclusive um pouco cômico que nos dias seguintes aos acontecimentos houvesse sempre algumas pessoas tristes falando de um “golpe militar” na Bolivia. Nada disso anula que houve no país um referendo no qual se decidiu contra a re-re-re-eleição do presidente. Mas enfim, é mais fácil dizer que a cloroquina cura.

  18. Posicionamento geopolítico fraco, pois desconhece a real conjuntura internacional. Qual é a maior potência global? Os EUA, evidentemente. E na corrida econômica com a China, os EUA se valem de suas mais de 800 bases militares em outros países no mundo para impor sua hegemonia. A China está apostando na economia pela economia, não interferem em assuntos políticos externos. Os EUA desde a década de 1950 constituem um verdadeiro império, com todas as características de qualquer outro império da história humana, acrescido da tecnologia moderna. Quem planejou e financiou as ditaduras na América Latina nos anos 60, 70 e 80, promoveu um massacre no Vietnã, jogou duas bombas atômicas no povo japonês, financiou grupos de extermínio na África e América Central e fomentou guerras em larga escala no Oriente Médio, não foi a ex-União Soviética, mas os EUA. Noam Chomsky pontua com razão que o totalitarismo da União Soviética poderia representar uma ameaça aos dissidentes internos de seu território, mas não aos povos da Ásia, África e América Latina, como foi a atuação genocida dos EUA nesses territórios. E recentemente, como revelou Snowden, atua por meio da espionagem para criar operações de desestabilizações de governos nacionalistas e neodesenvolvimentistas. A Rússia de Putin não derrubou nenhum governo, direta ou indiretamente, na América Latina, Ásia, África ou Europa. A correta leitura da geopolítica, portanto, conduz inevitavelmente ao que todos os analistas progressistas sérios e embasados corroboram em suas análises: a nova guerra fria é a disputa entre o imperialismo (representado pela OTAN, EUA e seus aliados da União Europeia) e a proposta de um mundo multipolar, que representa uma alternativa à lógica imperialista e cujos guardiões são Rússia e China. Por que não se pode falar de imperialismo Russo e Chinês? Porque esses países respeitam a soberania dos Estados Nações, não têm bases militares espalhadas pelo mundo e apostam em relações econômicas soberanas, e não impostas pela força, como representam os esforços de mecanismos multilaterais como os BRICS. Já os EUA são incapazes de tratar os outros Estados-Nações de forma igualitária como as inúmeras relações bilaterais que Rússia e China, com todos os seus defeitos políticos e econômicos, o fazem. A China e a Rússia, por exemplo, não têm nada parecido com a proposta de uma ALCA, por exemplo. Desse modo, a afirmação de que as análises das táticas do imperialismo americano analisadas no livro são pro-Putin, desconhece tanto a realidade do imperialismo americano, tônica maior da realidade geopolítica dos últimos 70 anos, quanto do contraponto que a Rússia, que aposta numa geopolítica multilateral, representa. Se nesse enfrentamento, os porta-vozes russos denunciam táticas do imperialismo americano, estão absolutamente corretos na análise. E se qualquer análise geopolítica coincide com a posição da Rússia nesse aspecto, é porque ela se alinha ao multilateralismo e não ao imperialismo. E que, portanto, está correta, porque o multilateralismo é uma proposta racional que pode e deve se apresentar de maneira transparente, já o imperialismo precisa da mentira o tempo todo para disfarçar seus interesses inconfessáveis de um ponto de vista ético.

  19. Tomás Amaral,

    Falta de embasamento é afirmar que a Russia não pode ser chamada de imperialista porque respeita a soberania dos Estados Nação. Em que mundo você vive? Georgia, Chechenia, Ucrânia… Mas a questão não é se é ou não é imperialista, mas que trata-se de um Estado, e um Estado que comete atrocidades contra movimentos populares pelo mundo.

    Falando sério, se informe lendo esse livro muito bem documentado. Conta muito sobre o que o Estado russo faz no Oriente médio e nas redondezas: Indefensible: Democracy, Counterrevolution, and the Rhetoric of Anti-Imperialism, de Rohini Hensman.

    Você pode baixar ele aqui: https://libgen.lc/ads.php?md5=8CAEBDFD64370DA8BA78D00CA36F953E

  20. A definição do Tomás de imperialismo é particularmente ruim porque ignora completamente a exportação de capitais, algo central no debate sobre a questão. Ele consegue se inserir no debate ignorando mesmo base leninista da questão, o mesmo Lênin que outros com posições parecidas com as dele reivindicam…

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