Por Raquel Azevedo

Há um problema de escala na pandemia. O que significa o luto por dezenas de milhares de pessoas? Esconder um corpo é atividade de milícia; maquiar o número de mortos pela Covid-19 é política de Estado – política que ninguém definiu melhor que o ditador argentino Jorge Rafael Videla ao dizer que os desaparecidos políticos não têm entidade e, portanto, tampouco são responsabilidade estatal. Em um artigo recente, a matemática Matilde Marcolli procura refazer a pergunta sobre o problema de escala em um contexto diferente. Trata-se de algo como a contraparte do problema de escala tétrico da pandemia. Em O problema de escala do anarquismo e o caso do comunismo cibernético, Marcolli argumenta que a variação de escala de organizações comunistas e anarquistas, isto é, a possibilidade de que cooperativas e coletivos operem em estruturas de larga escala, exigiria a elaboração de um processo de otimização distinto do mercado. Em outras palavras, a determinação de preços no mercado seria uma estrutura entre outras de maximização da eficiência. Seria possível construir outro sistema de otimização que permitisse uma mudança de escala sem deixar de incorporar um aumento de complexidade informacional.

Sabemos que o comunismo em grande escala figurou, historicamente, em economias planificadas e centralizadas e são igualmente bem conhecidos os efeitos de má alocação de recursos e de autoritarismo dessas estruturas, mas Marcolli quer que prestemos atenção nas tentativas, no caso soviético, de lidar com o problema de escala através de métodos computacionais. O mais conhecido é a programação linear de Leonid Kantorovich, censurada durante o regime de Stalin por sua similaridade com a forma de otimização obtida pelo mercado. Somente no final da década de 1950 a ferramenta de Kantorovich passou a ser amplamente utilizada. Menos conhecido era o projeto cibernético de Victor Glushkov, que, autorizado por Khrushchov em 1962, consistia em uma rede descentralizada e autônoma de feedback. A operação desse sistema acabava por deslocar o Estado das tarefas de planejamento e distribuição, razão pela qual o entusiasmo em torno do projeto teve vida curta. No entanto, o que Marcolli busca ressaltar na história da cibernética na URSS é a possibilidade de que uma economia comunista de larga escala seja ordenada a partir de uma rede computacional autônoma. O planejamento central é um desdobramento não necessário.

Dado que o mercado é um modo de otimização entre outros e que a planificação da economia é uma forma não necessária de organização de uma economia comunista, a variação de escala de uma organização anarquista ou comunista dependeria apenas, nas palavras de Marcolli, de capacidade de complexidade informacional. O que isso significa? Um crescimento de escala que não é acompanhado por um crescimento de capacidade de informação logo atinge o que se chama de limite de escala. Um segundo limite – o limite de informação – indica que um progressivo aumento de escala só é possível para os casos que atingiram um nível suficiente de capacidade de processamento de informação. Quando a escala cresce restrita por uma baixa capacidade de processamento de informação, há uma tendência de que a organização se desdobre numa forma estatal autoritária. Um comunismo não autoritário exigiria um aumento da complexidade informacional. Já o fascismo poderia ser pensado como uma tentativa de aumento de escala sem uma elevação correspondente de complexidade.

Marcolli propõe uma definição de medida da complexidade em que padrões completamente aleatórios tenham uma complexidade efetiva pequena, ou seja, objetos com grande complexidade devem ser causados por uma complexidade estruturada e não por aleatoriedade. Temos um instrumento de medida – uma forma matemática para uma infraestrutura computacional que possa ser tão eficiente quanto o mercado –, mas ainda falta entender de que maneira a relação entre sociabilidade e agência individual se diferencia daquela tipicamente capitalista. Marcolli procura algumas respostas nas estruturas da neurociência, especialmente no conceito de informação integrada. A medida da informação integrada é a quantidade de complexidade informacional de um sistema que não pode ser separadamente reduzida às suas partes. Esse saber que excede a soma das partes é o saber que pertence à organização em si. Segundo Marcolli, o que permite diferenciar essa estrutura da própria capacidade do capital de se apropriar dos efeitos da divisão do trabalho é que a maximização da informação integrada corresponde ao mais alto grau de interconexão causal entre os subsistemas. O saber da organização não depende da redução dos indivíduos a autômatos que só se engajam na produção através da repetição de uma tarefa parcial, mas do grau de conexão dos subsistemas. Marcolli sugere que a informação integrada pode ser aumentada através dos mais variados instrumentos de conexão: transporte público, redes P2P, conexão de internet sem fio, iniciativas de código aberto ou de acesso livre etc. A variação de escala depende, na verdade, desse grau de conectividade.

Ainda há muito o que se discutir sobre o papel do mercado como instrumento de otimização, mas o que interessa aqui é entendê-lo como um caso particular e não geral de ordenação da sociabilidade. É verdade que uma estrutura computacional de planejamento econômico é igualmente uma forma particular, mas ela nos ajuda a pensar nas condições de produção de solidariedade objetiva, em que o excesso de saber de uma organização em relação ao saber individual de seus membros não se oponha a eles como um poder estranho, mas como uma variação de escala.

7 COMENTÁRIOS

  1. Penso que este artigo é um dos mais importantes que o Passa Palavra publicou. Serve — ou deveria servir — para projectar neste século a problemática do anticapitalismo, tirando-a do século passado, onde continua a ser situada pelos amantes de comemorações e centenários.

  2. MERCADO ou ESTADO? NÃO, OBRIGADO…
    Oximorosornitorrinconceitual abominável: economia comunista.
    Defendo-me da ótimaximizada complexidade tecnocrática com a incompletude de Gödel.

  3. Te agradeço imensamente pelo comentário, João Bernardo. A ideia é justamente essa: tentar pensar a solidariedade que precisamos construir sem nostalgia.

  4. O artigo citado (o segundo anexo) que a autora resenha e que é atribuído à autoria de Matilde Marcolli está assinado por Aurora Apolito…E o título original refere-se a comunismo cibernético e não a comunismo soviético. O artigo de Aurora Apolito bem que poderia ser traduzido pelo Passa Palavra.

  5. Em resposta ao comentador precedente, trata-se de um pseudônimo e o texto está sendo traduzido, para publicação.
    Corrigimos o apontamento sobre o título do artigo.

  6. Obs.: no texto, a tradução do título do artigo (ao menos no momento de minha leitura) original está errada.

    E deixem o mercado morrer, bem como o indivíduo.

  7. a questão dos feed-backs, ou o sistema que viabiliza um fluxo de dois sentidos nas linhas de transmissão, me remete ao que se tem chamado de crowdsourcing. Isto é, a função que se cumpre na posição do “usuario”. A questão é que como “usuarios” os proletarios terminam fornecendo um numero em vertiginoso aumento de feed-backs, que auxiliam e dão novos fundamentos para a gestão capitalista da sociedade.
    Se trata de uma nova modalidade de trabalho? Ou uma forma de exploração já descaracterizada? Tudo se tornou trabalho abstrato, de instalar uma nova aplicação no celular à pagar o transporte público com um cartão? Como se luta contra isso?

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