Foto: Felipe Pelaquim
Foto: Felipe Pelaquim

Por Chuang

2 de março de 2022

Como afirmado em nosso post anterior, o Estado chinês e as plataformas de mídia social têm censurado parte do conteúdo crítico à invasão russa da Ucrânia (embora isso seja inconsistente, já que o próprio Estado ainda não assumiu uma posição clara sobre o assunto). Enquanto isso, recebemos a seguinte carta de um grupo anônimo que se identifica como internacionalistas da China continental. Ela fornece uma boa perspectiva sobre como o recente conflito foi percebido pela esquerda chinesa. Assim como acontece com outros relatórios e traduções que publicamos, a posição apresentada aqui pertence aos autores. Embora sejamos simpáticos ao seu ponto de vista, deve ficar claro pela linguagem e enquadramento usados na carta que esta não é uma declaração do Chuang e não deve ser entendida como tal. Um de nossos objetivos tem sido ajudar a aumentar a visibilidade de outros grupos e indivíduos na China que enfrentam preocupações semelhantes, por isso estamos felizes em poder divulgar a seguinte carta.

1.

Como internacionalistas, somos firmemente contra a invasão russa, na mesma medida em que somos contra a expansão imprudente da OTAN. O que apoiamos não é o governo ucraniano, mas o direito do povo ucraniano de ser livre de qualquer interferência imperialista.

Putin apoiou a independência das duas repúblicas do Donbass, alegando dar proteção às pessoas de lá contra o governo ucraniano. Inegavelmente, nos últimos oito anos, os moradores de Donbass vivenciam guerras sem fim. As pessoas lá anseiam pela paz, e não pelo que Putin tem feito, ou seja, expandir infinitamente a guerra. Não vamos negar a perseguição da população local pelo governo ucraniano, nem a presença de neonazistas na Ucrânia (assim como na Rússia), nem a existência de esforços progressistas e antifascistas na luta armada do povo da região de Donbass. No entanto, se o regime de Putin realmente quer proteger o povo de Donbass, como ele tem afirmado, temos de esclarecer: como muitos representantes do povo de Donbass morreram nas mãos dos chauvinistas da Grande Rússia e do exército traidor de Putin?

A “desnazificação” da Ucrânia soa mais como uma piada, dado que Putin e seus seguidores são os mais fortes apoiadores da extrema-direita europeia na última década. A invasão russa na Ucrânia só impulsionará e reforçará o nacionalismo radical no interior do país. Putin quer popularizar a ideia de que a Ucrânia é um país construído por Lenin e pela União Soviética. No entanto, como outros grupos progressistas apontaram, qual Estado-nação existente não é fruto de uma construção? Em nome da “descomunização”, o que Putin realmente deseja é apagar a soberania da Ucrânia e até mesmo sua identidade nacional, ocultando sua ambição de reconstruir um Império Russo monoétnico. É verdade que a Ucrânia não teria formado suas fronteiras atuais sem o princípio leninista de autodeterminação nacional — incluindo a igualdade entre as nacionalidades e a liberdade de secessão política. Entretanto, o que Putin não se atreve a admitir é que, sem tal princípio, a União Soviética não teria ganho a confiança de suas repúblicas constituintes desde o início, e a união de 70 anos das Repúblicas Socialistas poderia não ter existido.

A retórica é hipócrita e frágil diante de forças geopolíticas reais. Nas últimas décadas, as preocupações com “direitos humanos” e “genocídio” são frequentemente usadas para justificar as guerras iniciadas pelo Ocidente. A Rússia, aparentemente do lado oposto, não usou exatamente a mesma retórica no caso de Donbass? Da mesma forma, para os Estados Unidos, rápidos em impor sanções baseadas em considerações sobre os direitos humanos, onde estão as sanções contra Israel, em um momento em que está ocupando a Palestina e impondo um verdadeiro apartheid? Onde estão as sanções contra a Arábia Saudita, que ainda está invadindo o Iêmen e causando um enorme desastre humanitário? Sem mencionar que muitas análises apontam que as sanções econômicas, embora possam de fato enfraquecer a capacidade do regime russo de financiar sua máquina de guerra, terão um impacto maior nas pessoas comuns do que na poderosa elite russa. O que está claro é que o ditador nunca se importa se seu povo sofre.

2.

Esta não é uma guerra entre os russos e os ucranianos. É uma guerra entre Putin e Biden e as superpotências por trás deles. É uma guerra que não terá vencedor, mas que criará inúmeras vítimas.

É uma guerra entre o povo com sua justiça simples e um Estado que adora o poder. Na Rússia, vemos inúmeras vozes antiguerra em pessoas comuns. Elas não são destemidas. Todos são profundamente conscientes de que estão arriscando serem presos por segurarem alto cartazes de “Não à Guerra”, que qualquer expressão de opiniões dissidentes pode levá-los para a prisão, que o regime está tirando vantagem da situação de emergência para aprofundar a repressão de dissidentes, e que mais de 1.700 pessoas foram levadas pela polícia por protestar no primeiro dia que Putin lançou a invasão. Dito isto, vergonha e fúria levaram repetidamente incontáveis russos às ruas. Os protestos contra o regime de Putin não se limitam a essa guerra específica, se percebermos que o povo russo já estava envolvido em uma guerra invisível contra seu governo por muitos anos em relação à corrupção generalizada de Moscou, ao conluio com oligarcas do setor energético, à manipulação da democracia e ao uso de gangsters para atacar a oposição. Quão absurdo é um regime afirmar que pode resgatar outra nação e, ao mesmo tempo, reprimir seu próprio povo?

Esta não é apenas uma guerra no campo de batalha, mas também uma guerra de informação online. As pessoas acabam sendo representadas por seus Estados, e a mesma informação ou conceito pode ter significados completamente opostos para diferentes campos, ou ser mantida refém por diferentes preconceitos. Então, em frenesi e ansiedade, essas ideias distorcidas flutuam através das fronteiras nos ventos da guerra. Vivendo na China, nós nos encontramos em uma situação absurda que a mídia estatal ironicamente chama “guerra cognitiva”. O governo chinês foi condenado pela comunidade internacional por sua atitude ambígua: por um lado defende a paz, enquanto pelo outro fortalece seus laços com a Rússia. Enquanto isso, sob a propaganda da grande mídia e uma censura cada vez mais forte ao longo de muitos anos, os internautas chineses são, infelizmente, vistos agora pelo mundo como os maiores e mais barulhentos apoiadores da guerra e de Putin. Vozes progressistas antiguerra são silenciadas e os manifestantes são punidos. Envergonhados como estamos, condenamos veementemente a máquina de propaganda que, mais uma vez, “aponta para um cervo e o chama de cavalo.” Na época em que a invasão russa havia acabado de começar, nosso governo estava ocupado perseguindo sua própria população em uma das maiores crises de opinião pública que a China viu nos últimos anos. Toda a nação ficou chocada com as revelações de inúmeros casos de mulheres traficadas, torturadas e tratadas como escravas sexuais por décadas. Esses crimes evoluíram para uma norma social com o conluio dos governos locais.

Viveremos na era da pós-verdade por muito tempo, na qual as divisões emocionais assumirão o papel de “senso comum” na vida pública. Portanto, defendemos o direito do povo ucraniano de determinar seu próprio destino, e o direito do povo russo e de outros que vivem sob regimes autoritários de expressarem desentendimentos com seus governos, bem como de demonstrar solidariedade com aqueles que foram invadidos. “Vergonha” é um sentimento que vem sendo expresso na Rússia em meio aos recentes protestos antiguerra nas ruas e na internet. E nós, os internacionalistas chineses, compartilhamos a vergonha.

Foto: Yawer Waani
Foto: Yawer Waani

3.

O povo ucraniano tem suas próprias vontades e o direito de decidir seu próprio destino sem a interferência do imperialismo ocidental ou oriental. Eles devem ser livres de qualquer dano causado em nome da “proteção” ou “resgate”. No entanto, ao mesmo tempo, devemos entender a complexidade e a crueldade da política internacional, especialmente quando o povo ucraniano está preso entre dois impérios, enfrentando a guerra contra a humanidade, a invasão e até mesmo a ameaça de armas nucleares.

A neutralidade é hipócrita sob as condições prementes de hoje. A guerra de agressão russa não pode ser parada, de modo que se opor à guerra de autodefesa da Ucrânia seria contradizer a reivindicação dos ativistas antiguerra de ficar do lado das vítimas. Temos de estar com o povo ucraniano que defende o seu país, com o povo russo e bielorrusso que arrisca as suas vidas para protestar contra os seus respectivos Estados, e com pessoas de todo o mundo que têm sede de paz e condenam a guerra. A comunidade internacional deve respeitar e responder às exigências do povo ucraniano e oferecer ajuda prática, e isso nos inclui. Acreditamos que as tropas da OTAN não mudarão a situação e apenas aumentarão a chance de uma guerra mundial — a última coisa que queremos ver. Partilhamos a opinião dos nossos predecessores, os anti-imperialistas responsáveis, que, nos movimentos antiguerra durante a guerra do Vietnã, não apelaram à interferência da União Soviética para combater a força dos EUA, mas apoiaram a sua ajuda na entrega de armas à resistência vietnamita. Hoje, também existem armas cibernéticas. Grupos de hackers interrompem sites do governo e da grande mídia russos, sites de mapeamento online interferem no avanço das tropas terrestres russas e existem arenas de opinião pública de solidariedade com os invadidos. Esses esforços estão moldando o terreno cibernético do progressismo nesta guerra. Os internacionalistas têm o dever básico de apoiar aqueles que são arrastados para guerras justas de resistência contra os invasores.

Você não pode destruir magia com magia. O que estamos pedindo não é uma paixão antiguerra fugaz ou uma espécie de cessar-fogo que esconde conflitos mais profundos e invisíveis, mas o abandono das lógicas da Guerra Fria e atuações retóricas. Esforços práticos devem ser feitos para reconstruir a paz na Ucrânia e além, para rejeitar toda a política de homem forte e hegemonia do Estado e erradicar quaisquer ilusões sobre a guerra.

Um grupo de internacionalistas da China continental, 1º de março de 2022.

Destaques das notícias e mídias sociais chinesas, fevereiro de 2022

Alguns protestos contra a invasão russa da Ucrânia escapam dos censores

No momento em que escrevemos, o governo chinês ainda não assumiu uma posição formal sobre o conflito. O Ministério das Relações Exteriores acaba de anunciar que a China e a Rússia não são “aliados”, mas apenas “parceiros estratégicos”, e a televisão estatal exibiu uma longa entrevista com uma estudante chinesa em Kiev, autorizada a expressar apoio a seus amigos ucranianos. Enquanto isso, as plataformas de mídia social têm tomado precauções mais ativas, censurando vários artigos críticos à invasão ou que simpatizam com as vítimas na Ucrânia. Abaixo está um fio do Twitter arquivando essas peças à medida em que elas são censuradas:

E outro com fotos de um manifestante solitário em uma cidade do continente:

No momento em que nos preparamos para publicar, recebemos uma carta de um grupo de leitores na China, que desejam expressar sua solidariedade com o povo da Ucrânia e os protestos contra a guerra na Rússia, assim como sua inimizade para com as classes dominantes de todos os países — uma carta que os autores pensam que não pode ser publicada nas plataformas da China continental. A carta pode agora ser lida aqui.

A imagem de destaque deste artigo pertence a Felipe Pelaquim.

1 COMENTÁRIO

  1. Parei de ler na parte de Donbas, afinal acabou toda coerência ali.

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