Por Cristiano Fretta

De repente, um rosto. Por entre incontáveis bolinhas coloridas de plástico, explodindo um largo sorriso, surgiu a cara da minha filha. Ela havia se deitado e jogado bolinhas sobre ela, na expectativa de que eu a procurasse. Naquele feriado, só nós dois estávamos utilizando a piscina de bolinhas, localizada em um shopping da zona sul de Porto Alegre. “Achei”, eu disse assim que me aproximei dela. Ela deu um grito de surpresa e ergueu os braços para que eu pudesse levantá-la do chão. Quando puxei minha filha, seu corpo emergiu de todo aquele colorido. Ela, cheia de vida, pediu: “vou me enterrar de novo, e daí tu me procura, papai”. Então caminhou alguns metros, deitou-se e jogou novamente bolinhas sobre o seu rosto.

A 11.300 quilômetros da zona sul de Porto Alegre, um homem corre por cima dos escombros de um prédio atingido por um míssil. Atrás dele, pessoas sujas de poeira o acompanham. A seguir, param em um ponto específico. Elas gritam em uma língua incompreensível para mim. Ouço coisas como “a la” não sei o quê enquanto, com suas próprias mãos, removem pesadíssimos pedaços de concreto e arame retorcido. De repente, a gritaria se acentua. O homem que passou correndo na frente se ajoelha no chão e chora. Muitos se agacham em volta dele, fazendo força para removerem entulho. Quando a câmera se aproxima é possível ver surgindo, por baixo de uma nuvem de poeira, o rosto de uma criança. É uma menina de uns três anos, mais ou menos da idade da minha filha. Alguns homens, em súplicas, se jogam ao chão. Compreendo, então, que o mais desesperado deve ser o pai da menina. A câmera se aproxima. A criança está morta. O branco de seus olhos semicerrados fita um céu que não mais abrigará suas brincadeiras. Mão apressadas retiram mais um pouco de concreto, e então é possível ver que, logo acima da testa, há um buraco na cabeça da criança, por onde sua massa encefálica pode ser vista.

A utilização da violência como força motriz para geração de audiência não é recente. Desde a Guerra do Golfo o ocidente está acostumado a observar conflitos por meio das lentes da cultura de massa, que invariavelmente costura uma complexa equação entre informação, fomento à audiência e deformação: o caráter referencial dos fatos é neutro somente em sua forma, pois o que o cerca é a mídia como força capitalista e, portanto, altamente ideológica, na medida em que os interesses econômicos sempre são interesses políticos. Os terríveis atentados às Torres Gêmeas são exemplares nesse sentido: a espetacularização do evento, transmitido ao vivo para todo o mundo, concentrou-se mais no colapso das duas megas-estruturas do que em imagens de corpos e feridos, apesar de o cheiro de carne queimada ter pairado durante semanas sobre Manhattan. Evoco aqui um aforismo de Guy Debord em seu magnífico A sociedade do espetáculo: “O espetáculo que inverte o real é efetivamente um produto. Ao mesmo tempo, a realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo e retoma em si a ordem espetacular à qual adere de forma positiva”. Ou seja, a realidade construída a partir da sociedade de massa é um recorte altamente ideológico – e esse recorte fará parte da forma como enxergamos a própria realidade.

No entanto, a massificação do acesso à informação teve suas estruturas amplamente modificadas pelas redes sociais. Os complexos mecanismos de engajamento que norteiam a que tipo de conteúdo temos acesso em ferramentas como Instagram e TikTok são capazes de criar bolhas de informação, cuja manutenção fica a cargo do mapeamento de nossos dados e nossas preferências. Em outras palavras, a era digital foi capaz de entreter e vigiar ao mesmo tempo, sem que os usuários tenham sequer noção de que estão sendo vigiados. A teletela de 1984 é uma complexa engenharia de algoritmos; e o Grande Irmão, as Big Techs.

É nesse sentido que basta algum tipo de engajamento com postagens sobre a guerra entre Israel e Palestina para que ela tome a forma de um rosto de criança. Não quero aqui incorrer no horror de narrar cenas que já visualizei em alguns perfis do Instagram de pessoas que, a partir de Gaza, mostram o dia a dia dos bombardeios. No entanto, me parece claro que os algoritmos estão mais permissivos, uma vez que a mesma tecnologia que consegue identificar um mamilo feminino tem se mostrado incapaz de censurar corpos mutilados.

As crianças representam a ingenuidade e a pureza justamente pelo fato de suas aspirações não serem geopolíticas e econômicas; o mundo da formação das referências afetivas, do brincar e do fabular é o que deveria constituir suas realidades. Aliás, é justamente o mundo dos adultos ditos racionais e maduros que, por meio da cobiça e da tão festejada tecnologia, faz a guerra acontecer e destroça as vidas que estão por vir.

Estamos, cabe salientar, expostos a um paradoxo. Quanto mais as redes sociais impulsionam imagens de crianças mortas, mais vai se construindo socialmente a certeza de que, por detrás de estruturas de concreto que desabam e de fronteiras que não são respeitadas, a guerra é profundamente humana porque fere também a carne. Dados mais recentes apontam que o conflito entre Israel e Palestina já causou a morte de mais ou menos dez mil pessoas, entre as quais quatro mil crianças. Assim, ao visualizarmos as pessoas atingidas como consequência de conflitos geopolíticos, colocamos o caráter humano no centro das disputas e aceitamos a falência de nossa ordem global, uma vez que nenhuma noção de direitos coletivos ou individuais pode ser justificada com base no extermínio da inocência.

Vivemos uma época em que parece impossível que se componham teorias gerais da comunicação, pois os conceitos de crença e verdade não são mais atravessados por dicotomias como cultura erudita versus cultura popular, mas são forjados em ilimitadas bolhas de ideias que se retroalimentam nos meios digitais. Dessa forma, cabe a nós, meros mortais que somos em meio a um mundo cujos mecanismos parecem cada vez mais escapar de nossa compreensão, mantermos a certeza de que o sofrimento humano é inaceitável sob qualquer prisma e, mais do que isso, nunca deve ser naturalizado – sob a pena de não nos deixarmos surpreender com a felicidade de uma criança que brinca em uma piscina de bolinhas, por exemplo.

As obras que ilustram o artigo são da autoria de Georg Baselitz (1938-)

2 COMENTÁRIOS

  1. O texto no geral está correto, mas não se trata de um conflito entre Israel e Palestina, mas de um GENOCÍDIO israelense na Palestina, essa omissão é um erro grave.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here