Charge de Charb
Charge de Charb

Por Leo Vinicius

Um bar que não assina a carteira de trabalho de funcionários, mantendo-os na informalidade, o que, em tese, configuraria fraude trabalhista e previdenciária. Certamente isso não surpreenderia ninguém, apesar da ilegalidade, dada a realidade do capitalismo, ainda mais em fase de supressão de direitos trabalhistas.

Mas quando se trata de um bar que se apresenta também como Centro Cultural ou Casa de Cultura, que recebe verba pública e que mantém atrações para manter um nicho de consumidores de esquerda ou progressistas para suas cervejas e bebidas, então essas práticas podem começar a surpreender um pouco.

Charge de Charb
Charge de Charb

O objetivo aqui não é causar surpresa a ninguém, mas sim trazer informação a eventuais frequentadores do bar, da mesma forma que eu gostaria de ser informado sobre sistemáticas violações de direitos dos trabalhadores em comércios que eu frequentasse ou consumisse. No capitalismo, a realidade do trabalho tende necessariamente a ser apagada assim como o próprio trabalhador. Apesar de ser através do trabalho humano que se gera riqueza e o lucro dos patrões, para os capitalistas tanto melhor quanto mais o trabalhador é tornado invisível.

Bugio é uma cervejaria da região de Florianópolis, com dois bares de mesmo nome. O bar localizado no Centro da cidade é o que concentra mais público e atrações. Ele fica exatamente na mesma rua do prédio do Ministério do Trabalho, a apenas 85 metros de distância dele, ou seja, apenas 1 minuto a pé.

Imagem do Google Maps da fachada do Bugio Centro, em março de 2026.

Quando o Bugio do Centro foi aberto em 2021, essa região do centro-leste da cidade já tinha um histórico, desde a década anterior, de ter alguns bares frequentados por um perfil de público que, para facilitar, eu chamaria de progressista ou de esquerda. O tipo de atrações musicais e até mesmo debates co-promovidos pelo Bugio consolidaram um perfil de público, para consumir sua cerveja e suas bebidas, que tende a ser de esquerda. É um espaço frequentado até por políticos de esquerda da cidade quando certos eventos ocorrem lá.

Uma parte dos funcionários do bar e “Casa de Cultura” tem carteira assinada, mas a maior parte é mantida sem carteira assinada. Pessoas que exercem a mesma função, algumas estão formalizadas e outras não. Aqui temos que nos reportar à “reforma trabalhista” do governo de Michel Temer, que criou legalmente a categoria de trabalho intermitente. Isto é, uma categoria em que o trabalhador é chamado a trabalhar pelo patrão quando lhe convém e recebe apenas por aquelas horas trabalhadas. Assim, por exemplo, os trabalhadores e as trabalhadoras que atendem o público do Bugio trabalham no regime intermitente, seja com carteira assinada ou ilegalmente sem carteira assinada. O patronato nunca está satisfeito. Não basta a crueldade do trabalho intermitente ter sido legalizada. Para essa classe, a qual inclui a pequena-burguesia cujos donos do Bugio são bons representantes, é preciso negar qualquer direito vigente aos trabalhadores.

Para o regime de trabalho intermitente o patrão cria um reservatório de força de trabalho. No Bugio esse reservatório tem a forma de um grupo de Whatsapp. Nele são postas dezenas de pessoas dispostas a vender sua força de trabalho para o Bugio, e que o Bugio esteja disposto a eventualmente comprá-la. O trabalho intermitente dá um poder enorme ao patrão. Isso porque o trabalhador, mesmo aquele com carteira assinada, pode ser posto na “geladeira”, isto é, ficar sem ser chamado para trabalhar por tempo indefinido como “castigo”. Ou seja, é um mecanismo que impõe uma subordinação ainda maior ao trabalhador e que, além disso, permite na prática que o patrão demita sem justa causa sem que tenha que pagar por isso.

Mas para os donos do Bugio não é suficiente a legalização do trabalho intermitente e nem a prática ilegal de ter empregados sem carteira assinada. Para eles também é necessário que os trabalhadores e trabalhadoras intermitentes com e sem carteira assinada vistam a camisa, abram o sorriso e vendam mais cerveja. A força de trabalho foi convocada a assistir a um “curso” dado pelos gestores sobre como os trabalhadores e trabalhadoras devem acrescentar trabalho afetivo no serviço, de modo a venderem mais cerveja. Questionados durante o “curso” se o tempo à disposição para assisti-lo seria remunerado, a impressão que ficou pela reação de incerteza dos gestores é de que a intenção era não remunerar. Não remunerar seria mais uma ilegalidade (eles acabaram remunerando essas horas), mas a insegurança do que responder e a falta de resposta dos gestores na ocasião é um indício da cultura de desrespeito dos direitos trabalhistas nessa empresa. A não resposta foi mais uma explicitação da normalização da negação de direitos básicos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Slide do “curso” dado a trabalhadoras do Bugio

Imagine o trabalhador ou a trabalhadora que está em regime de trabalho intermitente, que possui seus direitos trabalhistas e previdenciários negados (não tem carteira assinada), assistindo a um “curso” com os gestores falando bordões para que acrescentem o ainda mais desgastante trabalho afetivo ao trabalho que já realizam. E imagine então que o trabalhador ou trabalhadora questione que, se eles querem o trabalhador motivado, não deveriam deixá-lo em regime de trabalho intermitente, deveriam valorizá-lo etc. etc.? Esse trabalhador ou trabalhadora será chamado novamente para vender sua força de trabalho? Será excluído do grupo de Whatsapp?

A forma de “demissão” do intermitente informal no Bugio é ser excluído do grupo de Whatsapp que funciona como reservatório de força de trabalho. O trabalhador reduzido a puro objeto, como puro número, como um número de telefone. Eu não me surpreenderia se o gerente que realiza essa exclusão/demissão for pejotizado – em tese uma outra modalidade de fraude trabalhista – uma vez que possui MEI em seu nome com atividade principal de organização de festas. A coisa toda ainda fica pior, uma vez que o Bugio recebe verba pública através de edital federal da Cultura. O edital da Funarte através do qual o Bugio foi agraciado exige certidão negativa de débitos trabalhistas. Quem não possui dívida trabalhista transitada em julgado e não quitada, consegue essa certidão negativa. Deve ter sido esse o caso. Porém, se os donos do Bugio estavam realizando fraude trabalhista quando se inscreveram no edital da Funarte e enquanto gastam a verba pública do edital, pode caracterizar, a meu ver, ação de má fé contra a Administração Pública. Ora, a certidão negativa é um documento exigido para que verba pública não vá para pessoas jurídicas que não cumprem obrigações trabalhistas! Simplesmente não era para o Bugio ter recebido verba pública nessa situação, tanto do ponto de vista moral quanto provavelmente também do ponto de vista legal.

Para quem não é de Florianópolis, segue abaixo um exemplo de programação do Bugio Centro, que é a da semana em que estou escrevendo.

 

Através do título de algumas das atrações dessa semana não é difícil perceber uma ideia de protagonismo feminino, ou de valorização das mulheres. Mas por trás dos coloridos cartazes, por trás da elevação feminina como espetáculo, por quem e como a mercadoria é servida? Ela é servida por mulheres que têm seus direitos negados. Por mulheres que no carnaval têm que “se acostumar” ao assédio sexual de potenciais clientes enquanto vendem sua força de trabalho para sobreviver. Há que vender cerveja no meio da multidão aglomerada na rua do bar e suportar o assédio sexual dos foliões, sem direitos trabalhistas, sem direitos previdenciários, sem certeza de ter trabalho amanhã. O tom de preta que nunca aparecerá no espetáculo é o da preta trabalhadora, sem férias, sem direitos, que trabalha sem certeza de trabalho. Esse tom é invisível. E que o grupo de Whatsapp de reservatório de força de trabalho do Bugio se chame “colaboradores atives”, torna mais odiosa e repugnante a exclusão de todas as mulheres e todes os seres humanos dos direitos trabalhistas e previdenciários que o Bugio realiza. Por trás da inclusão espetacular na linguagem, mal se esconde a realidade da exclusão material dessas trabalhadoras e trabalhadores. Atualizando Bakunin, a linguagem inclusiva quando não humaniza deprava, refina o crime e torna mais degradante a covardia. Sim, crime. É bom lembrar que fraude trabalhista é crime, cabendo também processo penal.

A forma de “demissão” de intermitentes sem registro em carteira

A diferença entre cultura e alienação depende em parte da nossa atitude, da nossa prática. Não chamemos de cultura o entretenimento cujo objetivo é realizar a mais-valia da produção de cerveja, nem que seja de cerveja afetiva. O que os donos e gestores do Bugio chamam de cultura é mera atração (de consumidores), entretenimento. É uma engrenagem, aí sim, de uma verdadeira cultura. Uma cultura de regressão de direitos trabalhistas e da dignidade das trabalhadoras e trabalhadores. Uma cultura de classe, mas da classe dos capitalistas. O neofascismo em ascensão tem base material, e uma parte fundamental dessa base material é a precarização do trabalho e a insegurança econômica e laboral. Lugar de resistência ao neofascismo é onde os trabalhadores e trabalhadoras lutam ou onde eles e elas têm seus direitos respeitados. O resto é alienação e espetáculo.

* Este texto é baseado em relatos de ex-funcionários e em documentos obtidos pelo autor. Sobre o autor: em 1997 e 1998 foi membro da banda punk anarquista Guerra de Classes e nas décadas seguintes participou de movimentos sociais também em Florianópolis.

6 COMENTÁRIOS

  1. por isso é melhor sempre ficar em casa.

    pior que um bar predatório com seus funcionários, só um bar esquerdista predatório com seus funcionários.

  2. “Para manter seu poder de mobilização, o capitalismo, portanto, deve obter recursos fora de si mesmo, nas crenças que, em determinado momento, têm
    importante poder de persuasão, nas ideologias marcantes, inclusive nas que lhe são hostis, inseridas no contexto cultural em que ele evolui. O espírito que sustenta o processo de acumulação, em dado momento da história, está assim impregnado pelas produções culturais que lhe são contemporâneas e foram desenvolvidas para fins que, na maioria das vezes, diferem completamente dos que visam a justificar o capitalismo.”

    “Podemos comparar o processo pelo qual se incorporam ao capitalismo ideias que lhe eram inicialmente estranhas, e até hostis, ao processo de aculturação descrito por Dumont (1991) quando este mostra como a ideologia moderna dominante do individualismo se difunde, forjando composições com as culturas preexistentes. Do encontro e do conflito dos dois conjuntos de ideias-valores nascem representações novas que são “uma espécie de síntese, [… ] radical em maior ou menor grau, algo como uma liga de duas espécies de ideias e de valores, das quais umas, de inspiração holista, são autóctones e outras são tomadas de empréstimo à configuração individualista predominante” (Dumont, 1991, p. 29). Um efeito notável dessa aculturação é então que “não só as representações individualistas não se diluem nem se desvanecem nas combinações em que entram, mas, ao contrário, extraem, nessas associações com seus contrários, por um lado uma adaptabilidade superior e, por outro, uma força aumentada” (id. p. 30). Se transpusermos essa análise para o estudo do capitalismo (cujo princípio de acumulação, aliás, está aliado à modernidade individualista), veremos que o espírito que o anima possui duas faces: uma “voltada para dentro”, como diz Dumont, ou seja, aqui o processo de acumulação legitimado, e outra orientada para as ideologias com que ele se impregnou, ideologias que lhe dão precisamente aquilo que o capitalismo não pode oferecer: razões para participar do processo de acumulação ancoradas na realidade cotidiana e diretamente relacionadas com os valores e as preocupações daqueles que convém engajar.

    Na análise de Louis Dumont, os membros de uma cultura holista, confrontados à cultura individualista, veem-se em xeque e sentem necessidade de defender-se, justificar-se, perante aquilo que se lhes mostra como uma crítica e um questionamento de sua identidade. Mas, sob outros aspectos,
    eles podem mostrar-se atraídos pelos novos valores e pelas perspectivas de libertação individual e de igualdade, oferecidas por tais valores. É desse
    processo de sedução-resistência-busca de autojustificação que nascem a novas representações de composição.

    Podem ser feitas as mesmas observações a propósito do espírito do ca pitalismo. Este último transforma-se para atender à necessidade de justificação das pessoas comprometidas em dado momento no processo de acumu1ação capitalista, mas cujos valores e representações, recebidos como herança cultural, ainda estão associados a formas anteriores de acumulação, à sociedade tradicional no caso do nascimento do “primeiro espírito” ou a um espírito precedente, no caso da passagem para os espíritos seguintes do capitalismo. O alvo será tornar sedutoras para tais pessoas as novas formas de acumulação (a dimensão estimulante de todo espírito), ao mesmo tempo que são levadas em conta as necessidades que tais pessoas têm de autojustificar-se (tomando como apoio a referência a um bem comum) e são construídas defesas contra aquilo que, nos novos dispositivos capitalistas, elas percebem como coisas capazes de ameaçar a sobrevivência de sua identidade social (a dimensão “garantias”).

    Por vários motivos, o “segundo espírito” do capitalismo, edificado simultaneamente ao estabelecimento da supremacia da grande empresa industrial, contém em si características que não teriam sido renegadas nem pelo comunismo nem pelo fascismo, embora estes fossem os movimentos críticos ao capitalismo mais poderosos na época em que esse “segundo espírito” começou a instaurar-se (Polanyi, 1983). O dirigismo econômico, aspiração comum, será implementado pelo Estado-providência e por seus órgãos de planificação. Dispositivos de controle regular de distribuição do valor agregado entre o capital e o trabalho são implantados com a contabilidade nacional (Desrosieres, 1993, p. 383), o que é coerente com as análises marxistas. O funcionamento hierárquico em vigor nas grandes empresas planificadas, por sua vez, conservará durante muito tempo a marca de uma composição com os valores domésticos tradicionais, o que só podia tranquilizar a reação tradicionalista: respeito e deferência contra proteção e ajuda fazem parte do contrato hierárquico em suas formas tradicionais, bem mais do que a troca entre salário e trabalho, que expressa o modelo liberal anglo-saxão de pensar a relação de emprego. Assim, o princípio de acumulação ilimitada encontrou pontos de convergência com os inimigos, e a composição daí resultante garantiu sobrevivência ao capitalismo, ao oferecer a populações reticentes oportunidade de engajar-se nele com mais entusiasmo.”
    (O Novo Espirito do Capitalismo – Luc Boltanski e Ève Chiapello, p. 53 a 55)

    Ume nove espírite delu capitalisme está a despertar, reinventando-e!

  3. Que texto difícil.. ainda mais pra eu que sou um clt da Bugio.
    Parece ter sido escrito por alguém que não faz ideia do que a Bugio é para os seus trabalhadores. Compartilhar esse tipo de conteúdo é um tiro no pé.

  4. A pessoa que escreveu o texto sabe os direitos dos trabalhadores. O que cada pessoa sente em relação ao seu dia a dia, a convivência, o valor recebido por taxa é pessoal mesmo.

    Mas o que será que sente a trabalhadora da segurança que precisou fazer turno dobrado, no dia seguinte a extração dos quatro dentes do ciso? Sente que seu atestado médico não vale de nada, pois se ela não for ao trabalho, não terá o que receber, assim portanto, sua filha de 2-3 anos terá o que comer?

    O que sente a trabalhadora mãe que precisa pagar aluguel e que ainda assim, pode ou não ser chamada , pode ou não alcançar o valor necessário pra uma coisa tão básica como moradia?

    Veremos esse tiro no pé!

  5. O que pensa a o trabalhador que é CLT, convivendo com a maioria que não são?
    Empatia? Não.
    Luta de classes? Não.
    Vamos criticar a luta por direitos trabalhistas para TODES? Aí sim né !

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