Por Embiras
O Embiras nasceu de mais uma experiência frustrada, resultado de burocratização, formação de personalidade e pressão por visualizações nas redes sociais. As pessoas que viriam a fundar o grupo participaram brevemente de uma outra equipe [1], focada nas “cobranças” em relação aos problemas enfrentados pelos entregadores de aplicativo. “Cobranças” aqui é definido como as formas que os trabalhadores de app encontraram para se contrapor aos esculachos de clientes e donos de estabelecimento, fazendo buzinaços em suas portas e divulgando os ocorridos nas redes sociais.
Esse grupo em questão, essa equipe, destoava por se apresentar como um grupo organizado dessas cobranças, embora nas redes sociais a página do grupo tenha tentado se apresentar como uma página de notícias, uma estratégia para compartilhar os vídeos das cobranças. E esses vídeos viralizaram. Nada como a treta para garantir visualização e repercussão nas redes sociais. Junte-se isso ao fato da equipe em questão se posicionar firme em oposição a outra equipe, nascida da luta da categoria em Goiânia contra os aplicativos, mas que havia se degenerado em instrumento de gestão e de defesa das empresas de aplicativo — com alguns dos seus líderes inclusive recebendo dinheiro de uma dessas empresas [2].
Com o tempo as contradições foram se mostrando. O dono do grupo, que se apresentava como mais um, mas era quem controlava a página no instagram, não tardou a deixar claro seus interesses de influencer. Na realidade, o dono da página nem mesmo era um trabalhador de aplicativo — embora afirmasse que já havia sido um — e sim um empresário dono de empresa de aluguel de moto.
Assim como na burocratização daquela equipe que se tornou instrumento das empresas, essa também viu o processo coletivo ser cada vez mais direcionado para o personalismo. Os vídeos que até então focavam na categoria em luta cederam lugar cada vez mais a vídeos do dono posando como influencer da categoria. E a sanha por likes transformou a página cada vez mais em página de fofocas sobre qualquer coisa que gerava engajamento. Aqueles trabalhadores que se opunham à linha empurrada foram queimados e difamados, muitas vezes em vídeos públicos, num reforço ao espírito de seita.
Foi após a saída de alguns — e expulsão de outros — dessa experiência que o Embiras foi formado. Ao contrário da forma organizativa surgida e adotada de forma espontânea pela categoria, que cria suas equipes à partir de grupos de afinidade dos trabalhadores de aplicativo, o Embiras nasce com uma perspectiva de ser uma minoria com posições políticas claras em defesa da auto-organização, contra a institucionalização e burocratização das lutas. O grupo não foi formado apenas por trabalhadores de aplicativo, mas também por trabalhadores de outras categorias apoiadores da luta desses trabalhadores — nenhum patrão, é importante frisar.
Como primeira iniciativa do grupo, foi lançado o “Avalie os Estabelecimentos”, uma plataforma que servia como repositório de relatos sobre os estabelecimentos em que os trabalhadores coletam para posteriormente entregar. A aplicação recebeu dezenas de relatos sobre práticas abusivas, tratamentos desumanos, e mapeou aqueles lugares que ofereciam condições básicas para os trabalhadores (como água, banheiro e local para carregar o celular) com o objetivo de auxiliar os trabalhadores na sua labuta diária. Tivemos vários relatos interessantes e vimos em grupos tentativas de organização de breques em estabelecimentos que estavam sendo mal avaliados na plataforma. Mas o fato dessa plataforma rodar em um site mostrou uma dificuldade em sua adoção. O grupo construído em torno dessa plataforma, via whatsapp, de certa forma era mais dinâmico e acabava por centralizar mais os desabafos e os relatos do que a plataforma em si. A iniciativa da forma como foi concebida a princípio foi abandonada, deixando para depois repensá-la em outros moldes (como ferramenta interna no whatsapp parece ser a alternativa mais condizente com a “cultura cibernética” da categoria).
Eis que uma das empresas lança uma atualização forçando a adoção de rotas curtas. Junta-se esse fato de atualização do app ao debate em torno da PLP 152/25, rejeitada amplamente pela categoria. Essas questões dão impulso a um processo de descontentamento crescente na categoria, e um trabalhador de aplicativo, resolve jogar a ideia de uma paralisação em grupos de whatsapp. Essa ideia viraliza por grupos, e o apoio se torna massivo. Uma outra equipe pega para si a chamada do movimento e cria um grupo chamando a paralisação. Esse trabalhador que deu o pontapé no processo é firme em criticar esse movimento (que contava com a equipe em questão utilizar os materiais criados por esse colega mas colocar o emblema de sua equipe). A crítica foi acatada, e os grupos de whatsapp criados para a paralisação removeram o emblema da equipe e passaram a defender a união das equipes em torno da luta, sem personalismos e sem ênfase em grupos particulares. Representantes do grupo de cobrança e do grupo burocratizado (inimigos mortais, é importante frisar) foram procurados para compor a luta. O primeiro aceitou, para logo em seguida abandonar inventando mentiras em suas redes. O segundo se absteve, e também partiu para o ataque contra o movimento, que não se encontrava em sua direção e seu controle.
O ataque de ambos os grupos foi lamacento, com mentiras, manipulações e, enfim, a aliança entre os nossos heróis para acabar com a mobilização. As equipes, inimigas mortais, se uniram e fizeram uso de suas grandes páginas para criação de conteúdo unificado com objetivo de acabar com a luta, usando videos fora de contexto, informações velhas, e um monte de fake news. Apesar do dano sofrido, a piada se fez presente — o movimento foi tão inovador que conseguiu unir arqui-inimigos. As grandes páginas se uniram para acabar com o movimento descentralizado surgido da união de diversas equipes que não contavam com seus grandes números de curtidas.
Apesar dos ataques constantes a luta ocorreu. É verdade que o clima nada amistoso e cheio de assédios de todo tipo, com direito a denúncias à polícia e ameaças de morte, enfraqueceu a demonstração de rua. Mas a adesão foi enorme, com grande quantidade de trabalhadores ficando em casa e pedidos acumulando em estabelecimentos por falta de trabalhadores na rua. Apesar da falta do breque, os fura-greves conseguiram produzir cenas espetaculares: Por conta das denúncias que fizeram à policia de que os grevistas pretendiam partir para a violência, a polícia atuou abordando aqueles entregadores que trabalhavam durante a paralisação, aplicando multas, recolhendo motos com documentos atrasados e, inclusive, segundo relatos, detendo trabalhadores que furavam a greve e portavam facas para se defender da ameaça dos vândalos inexistentes. Na falta do breque pela categoria, os fura-greve conseguiram fazer com que a polícia realizasse os breques, afetando diretamente quem trabalhava naquele dia de paralisação.
A paralisação de Goiânia também teve sucesso em alcançar outros estados, gerar conteúdo para incentivo de outras cidades a aderirem à luta, fortalecendo a luta geral tanto contra a nova modalidade de trabalho (que já se colocava em outros aplicativos e se expandia territorialmente) quanto contra a PLP. O posicionamento da equipe burocrática também trouxe contradições internas que se tornaram impossíveis de conciliação. Muitos do grupo defendiam a paralisação e vendo os líderes adotando a campanha difamatória entraram em confronto direto, o que acabou gerando brigas e rachas.
No entanto, o fim do processo e o recuo trouxeram novamente a separação. Aquele grupo que unificou equipes e possibilitou uma construção mais coletiva daquele processo não durou. Os embates entre equipes se fortificaram, reforçando a divisão já existente na categoria.
Apesar de tudo o que foi vivido até aqui, essa trajetória não deve ser vista apenas como um relato de confusões, derrotas ou disputas internas. Pelo contrário. Cada experiência, inclusive as mais frustrantes, serviu para demonstrar na prática quais caminhos tendem a fortalecer a auto-organização e quais caminhos tendem a enfraquecê-la. Os ataques sofridos, as tentativas de cooptação, os personalismos, as campanhas de difamação e as disputas por protagonismo não fizeram desaparecer os problemas enfrentados diariamente pelos entregadores. As taxas continuam baixas, os bloqueios arbitrários continuam acontecendo, as mudanças unilaterais das plataformas seguem impactando a vida de milhares de trabalhadores e a ausência de qualquer controle real sobre as condições de trabalho permanece sendo uma realidade.
Da parte do Embiras, a proposta segue sendo a mesma: fortalecer a auto-organização e combater a burocratização e a pessoalização das lutas.
Notas
[1] – Equipe é uma forma organizativa presente na categoria em Goiânia, onde os entregadores se organizam em grupos, criam suas camisas personalizadas e se auxiliam
[2] – Uma trajetória dessa outra equipe pode ser encontrada aqui, aqui e aqui.
As obras que ilustram este artigo são de Filippo Tommaso Marinetti (1876 – 1944)





