Nas ruas, nas praças, ninguém nunca mais viu, onde é que foi parar o movimento estudantil? (parte IV)

Nas ruas, nas praças, ninguém nunca mais viu, onde é que foi parar o movimento estudantil? (parte IV)

em 30 ago

Sem a estrutura hierarquizada do capitalismo fordista, passamos para uma época em que a retórica triunfante anti-hierárquica e igualitária de 1968 adentrou as organizações empresariais. Por Douglas Rodrigues Barros

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Acabe com o capitalismo ou morra tentando: à guisa de conclusão

Só me restava, na realidade, tempo para pensar em desalento enquanto observava nossas sombras se esticarem ligeiras sobre os nossos sonhos miúdos
(Cesare Battisti, “Ao pé do muro”)

Se há um sentido possível na miserável existência que temos ante o modo de sociabilidade do capital – e essa miséria é independente de se ter ou não dinheiro – é a luta constante por um modo de vida no qual a exploração, a desigualdade, a destruição do ambiente e a redução da vida ao trabalho não existam mais. A possibilidade de se implicar genericamente, que desde pelo menos Feuerbach foi motivo de discussão, é aquilo que guia a práxis daqueles que veem no capital a condição de cerceamento para o desenvolvimento livre das potencialidades humanas. A condição de exploração, de realização vital na ordem do consumo, da desigualdade como pressuposto de existência do sistema e vida entregue a um trabalho detestável são os motivos que movimentam a ação antagônica ao capital. Não tem arrego.

Os oportunistas e traidores nunca foram uma surpresa e de modo algum são uma novidade no meio das lutas anticapitalistas. Desde o século XIX se espalham neutralizando a potencialidade da revolução social. Claro está, porém, que desde 1968 eles desempenhariam um papel mais subliminar no interior das lutas e se, antes, ficava clara a traição, agora usam jargões da esquerda e posam de revolucionários. Papel este que faz jus a mudança da estrutura, fordista-hierárquica, do processo de produção para uma forma de organização em rede baseada na iniciativa dos próprios explorados e na autonomia destes. Contrariando ao que Ivan Karamázov disse uma vez: “Se Deus morreu, nada é mais possível!”. Sem a estrutura hierarquizada do capitalismo fordista, passamos para uma época em que a retórica triunfante anti-hierárquica e igualitária de 1968 adentrou as organizações empresariais. E o patrão tornou-se o próprio Eu.

Desde 1977 devido aos quentes acontecimentos oriundos das faculdades italianas, as universidades entraram na tutela oficial dos órgãos de repressão do Império, fundando aquilo que aqui no Brasil, numa leitura sagaz, formaria a classe dos burocratas cuja “expertise básica refere-se ao domínio dos jogos de poder concernentes ao interior da máquina burocrático-acadêmica e às relações dessa máquina com o seu entorno (governos, agências de fomento, etc.). A linguagem dos “burocratas” é a do poder, e sua especialidade é conquistar, manter, traficar e barganhar influência”[47]. Tentei demonstrar como a transformação da universidade seria influenciada, sobretudo, pelo poder político-econômico em suas suscetíveis mudanças em prol da dominação capitalista. Naturalmente, a influência do poder político-econômico se daria também sob as formas de organização do Movimento Estudantil numa estrutura que visaria neutralizar qualquer potencialidade ameaçadora.

Se, nas décadas de 1980 e 1990 predominava uma espécie de referência direta à qualidade pessoal, meritocrática, cuja experiência seria valorizada, desde 2008 quando fora aberto um novo processo de crise aguda que determinou de fato os limites da teologia neoliberal, notamos uma mobilização cada vez maior por parte da vulgata capitalista a fim de exprimir motivos ideológico-sociais. Uma construção que, sem o chão sólido do crescimento econômico, precisa induzir a crença vazia nas benesses da vida sob a lógica do capital e sua possibilidade de se tornar ético. Cada vez mais o consumo foi atrelado a alguma causa social; desde o fechamento do minhocão aos domingos vendendo coxinha vegana de péssima qualidade a 50 reais até a possibilidade de comprar um hambúrguer cancerígeno, ao mesmo tempo em que se doa 50% do valor para o hospital do câncer. Há espaços para todas as tendências e tribos.

Nesse exemplo resta claro como alguns dos aspectos do maio de 1968 se integraram harmoniosamente à ideologia capitalista e como são mobilizados pelos liberais e pela direita contemporânea na luta contra qualquer forma de “socialismo”[48]. Naturalmente, maio de 1968 não se limitou a isso, mas fora sua derrota e a reavaliação retrospectiva de seus pressupostos à luz da nova configuração do capital mundial que tornou possível desvirtuar suas pautas e utilizá-las em benefício do modo de vida capitalista.

Se pouco ou nada sabemos do que houve em 1977 na Itália, a não ser alguma coisinha sobre um exilado escritor italiano sempre ameaçado pelo ódio da direita de seu próprio pais e do nosso, deve-se a inépcia do próprio tratamento e leituras medíocres tecidas principalmente por Guy Debord. Enquanto os franceses tiveram um maio orgulhoso, público, de Estado[49] e se mantiveram como símbolo de antagonismo político mundial constituindo-se em monumento – o que por si só deveria ser no mínimo questionável se seguíssemos o velho Benjamim –, o PAC (Proletários Armados pelo Comunismo) e as Brigadas Vermelhas, pelo perigo a ordem e pelo caráter perturbador, foram varridos da nossa história recente. “Houve a Autonomia e o movimento dos squats, mas nada que fosse vigorosamente armado para perfurar a muralha de mentiras do espírito francês”[50]. Nosso “departamento francês de ultramar” seguindo a metrópole passava longe de qualquer debate profundo a respeito. E é claro que a verdade do Maio Francês se expressará desvirtuadamente 1989 e o processo de finalização da modernização com a extinção do “socialismo real”.

Ficamos numa posição de desalento e o Movimento Estudantil circundado por inimigos preocupantes: falsos amigos, estratégias fictícias de ação e, principalmente, a perda do tempo de formação, uma das únicas (e ameaçadoras ao capital) riquezas ainda possíveis enquanto categoria (estudante). Com a institucionalização da “esquerda brasileira”[51] a partir de 2002 perdemos a superposição entre uma democracia direta e uma democracia desconfiada. E assim perdemos o papel de antagonismo que perturba a própria noção universal de sociedade reduzindo o espaço da ação cada vez mais as regras do jogo postas pela estrutura de funcionamento do capital.

Não preciso ilustrar como se definiu esses limites e no ME dizimou sua capacidade de ação antagônica ao modo de produção e reprodução social. Basta, portanto, apontar que o problema da política radical é como reintroduzir nesse campo democrático – dominado por liberais, sociais-democratas e utópicos do mercado – o antagonismo radical. Tal antagonismo radical é aquilo que atravessa o social em sua universalidade.

E sob esse aspecto torna-se crucial o debate sobre o que estrutura a noção de classe. Ora, o estudante que se reconhece como membro de uma classe se coloca como membro social cujas características estão englobadas na totalidade do modo de exploração, a saber: o proletariado. O proletariado não é uma identidade estanque e frouxa cujas características sejam aquém da sua determinação social. Sua fundamentação social se dá no reconhecimento do Outro como momento determinante de si mesmo, isto é, numa não-identidade fundante. Portanto, o proletário se dá como momento negado de seu Si individual e, sendo assim, de sua própria identidade. O proletariado é um momento do negativo no qual sua plena realização já é seu evanescer. Nesse sentido, o proletariado existe enquanto uma abstração que expressa uma relação real de divisão do trabalho estruturado pelo trabalho abstrato, industrializado e desenvolvido. A condição de exploração é o que mantém a igualdade entre os proletários. Não se trata nisso de fazer uma exaltação ao proletário. Pelo contrário, a condição de proletário é uma condição sub-humana.

A classe aparece, pois, para o indivíduo como um reconhecimento histórico-social universal e não como afirmação de uma diferença singular. O reconhecimento de classe é o reconhecimento daquilo que aprisiona as relações humanas à estrutura produtiva e reprodutiva do capital. Somente afirmando a negação que a classe efetiva ao indivíduo é possível negá-la enquanto submissão da subjetividade ao modo de produção e, assim, superá-la na transformação desses meios de produção. A classe é, sobretudo, uma imposição histórico-social do capital e o sujeito que atua nela é um sujeito negativo.

Esse reconhecer-se como membro de uma classe não significa em hipótese nenhuma deixar de observar as distorções existentes no interior do processo de produção e reprodução do capital. Pelo contrário, o fato de se reconhecer como membro de uma classe torna tais processos factíveis. Mesmo porque a única forma de efetivamente entender o fosso entre os salários de negros e mulheres é a crítica ao processo de subjetivação que o atual modo de sociabilidade impõe[52].

Enfim, racismo e desigualdade de gênero fazem parte da condição imperante na forma de administração capitalista. Enquanto houver capitalismo o processo de hierarquização se consumará e o apelo identitário será utilizado como atributo da exclusão. Isto porque como disse Žižek: luta de classes não significa que a sociedade é composta de classes que lutam entre si, mas que, sob o disfarce de luta de classes, a sociedade enfrenta suas limitações[53]. Nos últimos escritos a própria Butler[54]parece ter se dado conta disso quando chega à conclusão de que o status da diferença sexual não parte de uma formação sociossimbólica contingente, senão indica o domínio enigmático num vazio que não se dá nem na biologia nem no espaço de construção sociossimbólica. O que isso significa é que esse domínio é o próprio vazio da experiência no interior de uma estrutura sociossimbólica em que impera a negação do próprio sujeito, isto é, sob o domínio das classes. Esse vazio é constitutivo do nosso próprio Eu.

Por fim, a inversão lógica da frase de Fifty Cent (“Get rich or die tryin”), que abre essa conclusão, tem o intuito de demonstrar que, a despeito da vida guiada pelo consumo e da lógica desejo/carência perpétua que o modo de vida capitalista impõe, há zonas e possibilidade de transgressão real e subversão da ordem instituída. O Movimento Estudantil que sucumbiu aos processos atuais de dominação político-ideológica só voltará a ser uma ameaça ao status quo, quando um novo corpo político, longe da lógica de disputa interna de aparatos ou microfone, for criado. Para tanto, é necessário que este movimento se reconheça em sua negação e na negação das identidades estanques que o constitui.

O artigo foi ilustrado com reproduções da foto de Mao Tsé-Tung alteradas por Andy Warhol

Notas:

[47] Essa ideia é de Marcelo Lopes de Souza no artigo: Universidades: burocratização, mercantilização e mediocridade.

[48] Žižek , op. cit. p. 249.

[49] TIQQUN, Ibidem, p. 23.

[50] Ibidem.

[51] Se levarmos em conta a formação do país.

[52] Como já havia acrescentado noutro artigo: “As raízes da exclusão social parecem repousar na própria dinâmica interna ao nosso sistema econômico cujo modo de sociabilidade cria zonas de exclusão para sua própria manutenção e domínio. Na composição de trabalho instaurado pela república, os negros foram aqueles subjugados e submetidos a pauperização forçada por meio do corte racial”.

[53] Žižek, Ibidem, p.280.

[54] Judith Butler, The Psychic Life of Power. 2014.


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