Por Passa Palavra

Não é, nem nunca será papel do Passa Palavra “orientar voto”. Há diversas posições políticas e mesmo eleitorais dentro do coletivo, e entendemos que não cabe sequer tentar “unificar” uma posição interna, a bem da diversidade que nos tem sido tão salutar desde sempre.

Como em outras vezes, decidimos pautar um debate público acerca das eleições presidenciais em meio à extrema-esquerda, levantar hipóteses e relacionar os movimentos das candidaturas com movimentos mais profundos que vemos à nossa volta.

O cenário eleitoral, ao tempo que esconde as lutas por trás dos pretensos salvadores da pátria de última hora, se bem analisado pode desvelar para qual lado os descontentamentos dos trabalhadores e dos capitalistas com a atual situação econômica e política do país tendem a levar.

São exaustivas as análises sobre as eleições presidenciais que se aproximam, mas são raras aquelas que saem do plano das siglas e descem para o emaranhado dos conflitos sociais, das aproximações entre classes e das fragmentações dentro de cada uma delas.

Como as cartas ainda não foram postas sobre a mesa – em especial a mais poderosa de todas: a viabilização ou desistência da candidatura de Lula – os candidatos, eleitores e analistas políticos especulam mais do que afirmam. Constroem e reconstroem suas hipóteses ao sabor das sondagens eleitorais, das falas dos candidatos, das costuras e das alianças, tentam prever o futuro em cima de tendências estatísticas históricas.

Nesse jogo de cartas [que em breve serão] marcadas, nos interessa em especial os extremos: o crescimento dos movimentos, organizações e práticas conservadores, portanto protofascistas, de um lado; do outro, a falência da extrema-esquerda, em especial da anticapitalista, e os caminhos que ela agora segue ou deixa de seguir. Mas, dessas duas pontas, o que o crescimento ou esvaziamento desses campos representam das reais escolhas políticas das diversas frações dos trabalhadores?

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?O “caminho civil” para a “intervenção militar”

Candidato fanfarrão que no início contava apenas com a mobilização nas redes sociais, Jair Bolsonaro (PSL) teve na greve dos caminhoneiros uma comprovação de sua capilaridade: entre as muitas práticas e consignas que pulularam desse movimento contraditório e confuso, as que mais chocaram foram aquelas que clamavam por “intervenção militar” – e Bolsonaro, entre outras coisas, é o “caminho civil” para a “intervenção militar”.

Assim, diversos setores populares percebem no candidato uma possibilidade real de afronta aos velhos partidos “corruptos” e de combate à “bandidagem”. Bolsonaro desponta como candidato contra “a política”, contra a crescente violência urbana nas cidades brasileiras, mas também captura aqueles que veem no candidato um resgate da masculinidade questionada pelo crescimento do feminismo.

Pesquisam eleitorais comprovam: há uma desproporção de intenções de votos no candidato quando o recorte é por gênero, pendendo fortemente para um número muito maior de homens, além de atravessar todas as classes de renda, com uma força significativa entre os escolarizados e também entre os jovens. Seus eleitores têm se mostrado combatentes diários contra as pautas identitárias, contra o suposto comunismo brasileiro, contra os direitos das minorias, e clamam por uma polícia ainda mais violenta, quando não fazem dele o candidato da “intervenção militar” (mesmo que ele queira se dissociar desta pauta).

Bolsonaro, portanto, aparece como candidato capaz de “varrer” a sujeira na política nacional e das cidades brasileiras, resgata valores conservadores e conta com uma rede de militantes não desprezível, ainda de difícil compreensão.

Mas seus eleitores não são apenas os que se colocam “contra todos”, os antissistema: parte significativa deseja apenas um “homem forte” que governe e acabe com a “bagunça política” do país.

Isso explica certa circulação de votos entre Lula e Bolsonaro, e provavelmente também para Ciro Gomes quando as campanhas saírem das redes sociais e ganharem a televisão.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?A centro-direita entra em campo

A centro-direita também se movimenta: desde abril articula um “pacto de não-agressão” entre seus candidatos, e em maio iniciou uma “guerra” contra Bolsonaro, mostrando que para os dois – a extrema-direita de Bolsonaro e a direita e centro-direita de Alckmin & cia – é preciso diferenciar-se um do outro.

Esse movimento do PSDB tira Bolsonaro do campo de opções do grande empresariado brasileiro e internacional? Há quem diga que sim e há quem diga que não. O fato é: Bolsonaro, além de ter votos distribuídos entre todos os estratos da classe trabalhadora, ainda parece ser a opção preferencial dos pequenos empresários.

Nessa toada, Bolsonaro segue sendo o candidato que mais cresce nas pesquisas eleitorais ocupando o campo antissistema, ou seja, contra a direita e a esquerda, contra o establishment.

Esta “rejeição à política”, para horror dos anarquistas que a defendem como elemento positivo desde um ponto de vista revolucionário, anticapitalista e coletivista, foi um dos elementos mais fortes do fascismo. É sobre ela que se constroem os “salvadores da pátria” e as soluções de força empregues pelos capitalistas.

A “rejeição à política” pode, claro, ser entendida como um momento de um aprendizado coletivo por parte dos trabalhadores. Dizer primeiro “o que não querem” enquanto constroem “o que querem”.

Mas e quando os trabalhadores não constroem, não sentem segurança e nem apoiam quaisquer outras alternativas capazes de construir uma sociedade pautada pelo coletivismo, pela igualdade e pela solidariedade?

E quando os revolucionários, as “minorias ativas”, as “vanguardas” não se mostram capazes de apresentar eles próprios aos trabalhadores tais alternativas – não daqui a cinco ou dez anos, mas hoje, amanhã, agora?

É esta a lição a que deveríamos estar atentos. Porque pelo lado da esquerda e da extrema-esquerda o contexto não é nem um pouco favorável.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?Do PT a Ciro Gomes

Se da jornada de protestos de 2013 não emergiu nenhuma nova proposta político-partidária que se promovesse enquanto alternativa à “velha política”, a exemplo do que se passou na Espanha com o Podemos ou na Grécia com o Syriza, a “velha esquerda”, aquela que se constituiu enquanto alternativa eleitoral como resultado das lutas pela redemocratização – PT, PCdoB, PDT, PSB, PCB e outros do “campo democrático e popular” – busca pelos mesmos mecanismos de sempre reocupar seu lugar no “mercado eleitoral” diante de um recente cenário de crise política e econômica.

Com a deposição do governo Dilma, ou o famigerado “golpe”, este campo lançou-se numa cruzada em defesa da democracia brasileira com repercussão internacional. Sob o discurso de que a democracia estaria ameaçada e que um fechamento de regime estaria em curso, costuram-se desde há alguns meses iniciativas para uma “união” da esquerda, sendo a mais visível a que clama pela candidatura do ex-presidente Lula.

Se os áudios de Jucá eram “pra valer”, pode-se dizer que algo saiu errado – ou mais certo do que se esperava, pois ao contrário do que vaticinava a gravação, Lula foi condenado e sua força eleitoral agora se tornou um fardo que a esquerda mal consegue carregar.

A postura inicial do PT, de boicote às eleições caso Lula não pudesse candidatar-se, foi substituída pelo pragmatismo – afinal, além dos projetos de poder, há carreiras políticas em jogo.

Sem possibilidade de disputar o rumo das mobilizações populares massificadas que desde 2013 eclodem no país, e desesperados ao ver crescerem as possibilidades de vitória de Bolsonaro ou da volta do PSDB ao governo federal, setores do “campo democrático e popular” e do próprio PT começaram a pintar Ciro Gomes de vermelho, ainda que as relações entre Ciro e setores do PT não sejam as melhores.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?“Personalidades fortes” à esquerda?

Isto é revelador. Os setores da esquerda seduzidos por Ciro Gomes mostram como, quando sob pressão das crises econômica e política e também dos setores conservadores e reacionários da sociedade brasileira, ao invés de reinventarem-se para acolher novas demandas e reconstruírem suas agendas políticas em consonância com o novo contexto, a opção que lhes parece mais viável é simplesmente migrar de um “homem forte” para outro.

É este o perfil em que apostam para resolver os problemas do país através da conciliação e do autoritarismo – e o fato de o próprio Ciro ver em Bolsonaro “mais integridade” que no campo da centro-direita indica as afinidades de estilo.

Um autoritarismo de centro, afinal, seria melhor que um de direita, ou mesmo a catástrofe social que representa a possível vitória de Bolsonaro?

Essa descrença na capacidade política dos trabalhadores, e em especial nas suas mais recentes mobilizações, abre para este campo apenas a alternativa da retomada das políticas neodesenvolvimentistas do governo deposto, que Ciro Gomes promete realizar “pra valer” e com maior eficiência.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?O significado da candidatura Boulos

Chegamos assim numa situação inusitada: o candidato da esquerda socialista, Guilherme Boulos, da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), nem era filiado ao PSOL meses atrás e foi empurrado goela abaixo do partido em meio a polêmicas internas.

A situação fica ainda mais inusitada: a candidatura surgiu a partir de reuniões construídas “por cima” e “por fora” do partido por Marcelo Freixo (PSOL/RJ), algumas delas no apartamento de um liberal, Caetano Veloso, e uma empresária cultural, Paula Lavigne. Confirmada sua candidatura, Boulos segue estreitando seus laços com Lula, tanto pela mais justa solidariedade militante quanto na expectativa de herdar algo ou alguns votos.

A aproximação entre MTST e PSOL pode ter sido costurada bem antes da oficialização da candidatura Boulos, e representa as reiteradas tentativas da esquerda de trazer para a disputa eleitoral o capital simbólico e a estrutura de movimentos sociais com algum nível de enraizamento e organicidade.

Polêmicas à parte no que diz respeito a esta dragagem de forças para um campo de atuação secundarizado pela atuação das empresas transnacionais e demais empresas integrantes de suas cadeias produtivas, é o que levou à formação do PT e à sua estruturação.

O momento político, entretanto, é outro. Tal candidatura – as sondagens eleitorais o demonstram – não tem o respaldo do grosso das organizações populares e vive à margem dos trabalhadores cuja exploração diária não deixa tempo para politização mais elaborada.

Se Lula despontou durante a redemocratização como símbolo da conciliação entre uma intelectualidade pujante, uma esquerda clandestina fragmentada mas atuante e um operariado combativo, a candidatura Boulos é o verniz proletário com que se pintam o empresariado cultural e certa esquerda que, infelizmente, vive de marcar posição em torno do espólio petista.

Se o que se pretende com isto é alguma transferência de votos, talvez não dê certo.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?O tradicional pragmatismo do PCdoB

Em outro canto, e como de praxe, o PCdoB segue em sua tática de acumular votos lançando pré-candidatos com bastante antecedência frente ao calendário eleitoral para mais à frente negociar em melhores condições sua inserção em chapas encabeçadas por partidos ou candidatos com maior “carteira de votos”.

Estes votos representam tempo de horário eleitoral, moeda importantíssima no esquema de “campanhas-relâmpago” imposto pela legislação eleitoral mais recente.

Daí o lançamento bastante prematuro da pré-candidatura da deputada gaúcha Manuela D’Ávila (PCdoB), que tenta construir sua imagem atrelada aos movimentos identitários, em especial ao feminismo.

Caso se confirme a inviabilidade da candidatura de Lula, o PCdoB já acenou para Ciro Gomes com a possibilidade de uma aliança, que por seu lado já aceitou o gracejo; já acenou também para Guilherme Boulos, mas o PSOL mantém a candidatura própria.

Assim, o PCdoB tenta costurar uma “aliança das esquerdas”, levando o que sobrou do PT sem Lula, o neolulista Boulos, o seu próprio partido e os demais da esquerda brasileira, para colocar a todos sob as asas de Ciro Gomes.

Ciro Gomes tem a esquerda institucional por refém, já que é a única candidatura viável e com chances reais de vencer as eleições, porém precisa que se consolide logo a rendição para que ele possa apontar suas fichas e assim acalmar o “mercado”.

Mas será este o caso? Seria apenas ele o beneficiário de tais movimentos? E Marina Silva?

A volta de Marina Silva, a eterna incógnita

Havíamos descartado a pré-candidatura de Marina Silva (REDE) de nossa análise porque quando começamos nosso debate interno ela não despontava nem enquanto candidata antissistema, nem enquanto “personalidade forte”.

Acontece que a realidade tem esta saudável mania de contradizer hipóteses seguras: as pesquisas eleitorais de junho apontam que, num cenário sem Lula no páreo, Marina empata com Bolsonaro e tira Ciro Gomes da disputa. Num hipotético segundo turno sob as mesmas condições, Marina ganha de todos os candidatos. Outra pesquisa do mesmo período dá resultado contrário e confirma a “hipótese Ciro Gomes”, mas em todo caso a candidatura de Marina Silva saiu do status de azarona para o de concorrente séria.

Parece haver um movimento no sentido de alavancar a candidatura de Marina Silva como alternativa de “diálogo democrático e republicano” frente a outras candidaturas com discurso mais “beligerante”.

A pré-candidata costuma defender ora pautas progressistas, ora pautas conservadoras, e é precisamente esta fluidez discursiva que lhe permite “agradar” a vários públicos; entretanto, a baixa capacidade de costurar alianças, o posicionamento francamente conservador no campo dos costumes, a pequena estrutura de seu partido e seu pouco tempo de horário eleitoral, tudo isto e outras coisas somam-se contra a sua candidatura.

As ambiguidades de Marina Silva, entretanto, já a colocaram fora do campo da esquerda, e mesmo seus antigos aliados não parecem empolgados com sua candidatura. Há mesmo correligionários dentro da REDE que não se entusiasmam nem com as tendências de crescimento nas pesquisas, e apontam um cenário difícil para a candidatura de Marina quando o calendário eleitoral começar e a campanha televisiva engatar.

As esperanças de Marina Silva se depositam na falência da candidatura de Alckmin, tornando-se assim não a candidata de uma esquerda órfã, mas da conciliação entre os grandes capitalistas e a nação.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?A extrema-esquerda nas eleições presidenciais

Sob qualquer hipótese a extrema-esquerda é eleitoralmente irrelevante. Nem seria de se esperar algo diferente, pois as eleições aparecem para os partidos deste campo como oportunidade tática de debate programático junto às “massas”. As eleições deste ano apresentam, entretanto, movimentos curiosos.

Diferentemente de eleições anteriores, o Partido da Causa Operária (PCO) não lançará candidatura própria. Defende a palavra-de-ordem “É Lula ou nulo!” – e com isto segue no papel de “ala mais radical” do campo petista assumido desde há alguns anos, postura cujas contradições já tivemos oportunidade de comentar.

Já o Partido Comunista Brasileiro (PCB) apresentou desde cedo sua adesão à campanha de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara pelo PSOL, seguindo sua prática de formar blocos e alianças de esquerda no primeiro turno das eleições presidenciais.

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) é a novidade neste campo – diga-se, entretanto, que somente porque José Maria abriu mão de sua recorrente candidatura em favor da sapateira e militante sindical Vera Lúcia, e do professor Hertz Dias como vice. Com tais candidaturas o PSTU acena para o diálogo com as demandas ascendentes dos movimentos negro e de mulheres dos últimos anos, abrindo mão do classismo “puro-sangue” das eleições passadas; o gesto, entretanto, não significou qualquer alteração em seu discurso, como se pode ver em seu programa eleitoral deste ano.

Cada qual a seu modo, os três partidos reforçam um campo eleitoral de esquerda. Seus movimentos interessam pelo fato de que os três, via de regra, lançavam candidaturas próprias ou compunham frentes eleitorais. Neste ano dois cederam às tendências da conjuntura, ora “dissolvendo-se” no campo petista, ora compondo fração minoritária de uma candidatura socialista “puro-sangue”; o terceiro, talvez tentando estabelecer um contraponto, aposta em mudar de roupa para manter o mesmo discurso. Não estariam, deste modo, passando atestado de falência política?

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?O campo da extrema-esquerda extraparlamentar

Se as manifestações de 2013 não oportunizaram a renovação da esquerda e da extrema-esquerda eleitorais, podem ter deixado algum saldo organizativo para a extrema-esquerda extraparlamentar – mas pouco se aproveitou dele de lá para cá.

A recomposição política deste campo jamais obedeceria ao ritmo acelerado exigido por nossos desejos e aspirações; sua própria heterogeneidade exige outro ritmo. No médio e longo prazos, sem perspectivas imediatas.

Este campo pode decerto apresentar resultados com sua participação nas ocupações de escolas, na retomada da luta sindical de base entre os professores de escolas particulares, nas lutas por transporte e moradia, com vários movimentos de expressão local, com conquistas pontuais.

Entretanto, os desafios a superar neste campo são justamente o localismo, o paroquialismo e a baixa articulação além de umas poucas cidades Brasil afora.

Eis porque dizemos que “pouco se aproveitou”: quando as experiências de luta são compartilhadas o repertório de formas de ação se enriquece pela crítica, pela autocrítica e pela reiteração.

Não está tudo isto em contradição com os problemas que apontamos desde bem antes de 2013 – o identitarismo fratricida, a formação de hierarquias informais, o baixo sentimento de pertença à classe trabalhadora (apesar de a realidade insistir em mostrar o contrário), o amiguismo, o hedonismo?

Se apostamos neste campo, insistimos em analisar suas contradições e debatemo-las em público, é por considerar que qualquer novidade política surgirá daqui, e não da esquerda e extrema-esquerda eleitorais.

O momento eleitoral é a hora em que a extrema-esquerda extraparlamentar assume ora uma postura sectária e isolacionista, ora uma capitulação mascarada de pragmatismo desarrazoado. Isto quando sua militância não está aquém da reflexão e pactuação coletiva de uma posição comum e segue preferências individuais.

Qualquer lição a se tirar destes problemas, estejamos ou não de acordo com as conclusões emanadas do debate, é urgente tocar nestas feridas.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?Os capitalistas reclamam

Quem ganhar as eleições de outubro de 2018 enfrentará, do ponto de vista estritamente capitalista, problemas sérios.

Os limites orçamentários impostos pela Emenda Constitucional 95 (a “PEC do Teto”) estão sendo questionados mesmo por think tanks ortodoxos como a Fundação Getúlio Vargas. Vilma Pinto, pesquisadora ligada à instituição, diz que “as despesas federais discricionárias […] e os investimentos, terão de ser reduzidas para R$ 46 bilhões em 2020, o que é muito abaixo do mínimo necessário para evitar a paralisação do governo”, estimado em torno de R$ 100 bilhões.

Maiores ainda são os constrangimentos causados pela disparidade programática das candidaturas. Quem vencer levará consigo ao governo federal aliados instáveis, reunidos pelo pragmatismo do acesso ao poder, com poucas afinidades de projeto político. E a isto se soma um Congresso fragmentado pelos mecanismos do “presidencialismo de coalizão”. As “personalidades fortes” podem encontrar aí um severo constrangimento a seu “pragmatismo” autoritário.

Outra forma de as classes capitalistas contornarem a crise de legitimidade do sistema seria a renovação de quadros em meio às classes dominantes. Ocorre que a reforma eleitoral recente estabeleceu o financiamento público de campanha pari passu com a exclusividade decisória das cúpulas partidárias acerca destes recursos, e a tradicional rejeição do meio político brasileiro às chamadas “listas cívicas” e candidaturas avulsas/independentes foi reiterada.

O quadro, assim, é de contenção das novas “ondas” políticas pelo establishment, que devem portanto ou adequar-se a máquinas partidárias solidamente estabelecidas (caso de Dória no PSDB), formar novas máquinas partidárias desde o início (caso da REDE de Marina Silva), “tomar de assalto” máquinas partidárias frágeis (caso de Bolsonaro com o PSL) ou instáveis (caso de Boulos com o PSOL), ou desaparecer com a espuma.

A militância anticapitalista deverá ter atenção a estes constrangimentos, pois é daí que surgirão novas crises políticas no futuro próximo, e a relação entre estas crises e a frágil recuperação econômica no Brasil poderá ser explosiva.

Eleições 2018: a esquerda aposta no conservadorismo?Algumas conclusões e provocações

Se a esquerda institucional tornar-se refém de Ciro Gomes, ele terá carta branca para implementar uma política direcionada para a estabilidade econômica e retomada do crescimento. Se os outros candidatos e partidos tiverem alguma relevância nesta provável composição, talvez consigam retomar as políticas sociais do lulismo.

Mas seria possível esta retomada?

Se o programa do PT para estas eleições reedita o modelo desenvolvimentista favorecedor de certos setores industriais como indutores do desenvolvimento, o programa econômico do PSOL nestas eleições, coordenado pela economista e professora da USP Laura Carvalho, prevê reaquecer a economia por meio de investimentos em saúde, educação, moradia, saneamento etc., pois todos os chamados “investimentos sociais” têm uma cadeia econômica própria cuja reverberação no mercado interno seria muito positiva para a economia.

Nada garante, entretanto, um retorno dos elementos que sustentaram tais investimentos, como o ciclo positivo dos preços internacionais de commodities (soja, ferro/aço, frango, petróleo/derivados etc.) e o avassalador ritmo do crescimento econômico chinês a demandar as matérias-primas que a economia brasileira estava em boas condições de fornecer.

A esquerda eleitoral, portanto, aposta em um caminho perigoso.

Num período de explosão social, ela se retrai por medo das mobilizações em curso e adere ao sentimento desses trabalhadores naquilo que há de mais conservador: a aposta em um “homem forte”.

Apresenta enquanto solução às crises econômica e política, senão a volta de Lula, pelo menos a escolha de Ciro Gomes.

A instabilidade política e econômica se resolveriam com “mais governo” e a manutenção da democracia se resolveria com… menos democracia, pois as soluções passariam pela centralização política.

E, ao decretar “de cima” o caráter exclusivamente conservador das mobilizações que ocupam as ruas e estradas desde 2013, aposta por apaziguá-las com a promessa da retomada do crescimento econômico.

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