Por Zé Antônio

Leia a 2ª parte deste artigo

Dado o diagnóstico do limite da tática, houve tentativas de solucionar a questão que aparentemente foi o que gerou a contradição e seu ruído: a força da revolta de junho de 2013 foi a cúpula do MPL (ou seu campo militante), enquanto era sua força que gerava o limite. A incapacidade de superação foi traduzida com uma resposta: descentralização e trabalho de base. No entanto, essa mesma base a quem se voltou não só o MPL, mas tal campo autônomo, rejeitou o seu chamado. Não foi somente a crise desse movimento, que não conseguiu ir além de suas limitações típicas de sua dinâmica interna a seu nicho social, impedindo-o de ter uma visão clara sobre sua estagnação e seu anunciado “fim” como o elemento inovador e provocador de táticas autônomas na luta de classes. Foi também toda uma esquerda que não soube lidar com a movimentação própria da classe trabalhadora. Se a coisa virou, não foi somente aos nossos olhos. Foi por trás de nosso campo de visão que, enquanto tocávamos certas formas de mobilização, uma gama de sucessivos conflitos e a resolução destes superaram a própria forma autônoma que aprimoraram as revoltas e lutas que presenciamos. Além da provável impossibilidade de reconstruir algo que se aproximasse, em termos de organização e solidariedade, das lutas nos anos 70 e 80, como uma referência histórica mais recente em termos de lutas duradouras e combativas. Há um provável caminho inverso do que seria uma superação do projeto “democrático-popular” na nossa imaginação.

Se há um abandono do PT perante o trabalho de base nas periferias e nas relações de trabalho, ele se dá pela relação com posições do poder executivo e legislativo, que desenvolveu a instrumentalização dos organismos da classe trabalhadora, como elemento fundador e que abortou a geração de lutas no final dos anos 70. Esse aborto teve sua origem há 40 anos atrás, enquanto hoje o aparelhamento das associações e entidades é tão orgânico que se confunde com a organização das lutas em si.[1] Em vez da busca por alternativas de esquerda, a aglutinação em torno de igrejas evangélicas foi a tendência mais forte em muitos espaços.[2] Mas o fato é que o PT cresce enquanto a “base” fica presa num modelo eleitoral e reduzida ao clientelismo de apoio a parlamentares.[3] A insatisfação com os rumos da esquerda tomou forma numa inesperada (para alguns) mobilização conservadora que rompe com a ordem dessa estrutura, para reforçar as relações capitalistas.

1943 (Eric Ruiz Lugo, 2015)

Se, em anos anteriores a 2013, foi possível detectar uma onda ascendente de greves e paralisações que deram o tom da jornadas de junho (aqui e aqui), é possível detectar como as mobilizações recentes de trabalhadores deram o tom da atual onda conservadora. Houve também posteriores ascensões de greves que bateram recorde em 2016. Nisso, é comum ver análises que tendem a tornar absolutas as táticas tanto da classe dominante quanto da classe trabalhadora. Como se o aumento de resistências coletivas dos explorados fosse gerar o resultado dentro do que boa parte da esquerda entende como organização e consciência de classe. O fato é que a natureza do capitalismo coloca ele em oscilações que também fazem parte da dinâmica de disputa interna das classes capitalistas, traduzidas na competição do mercado e nas crises econômicas. Enquanto oscila dentro das tentativas de previsão nos ciclos da economia, táticas preventivas de contra insurgência são estudadas e praticadas.

Dividindo entre incorporar lutas pra incrementar produtividade e entre reduzir a porosidade do tempo de trabalho, extraindo o máximo de mais-valia no tempo mais curto através de intensidade e ampliação de carga horária. Ou simplesmente reduzindo custos cortando benefícios e salários. Diante da crise financeira recente que passou o Brasil, a solução foi a recessão produtiva. Ao contrário do que é dito normalmente, ela não é um fenômeno “natural” das crises. Ela é uma política que os gestores fazem para repor as perdas. Assim, um primeiro desafio seria cortar postos de trabalho, fazer demissões, reduzir benefícios e todo gasto de tempo com a remuneração da interrupção da carga horária (tempo de almoço ou demais intervalos durante o “expediente”). Esse mecanismo conhecido por Marx como “mais-valia absoluta”, tem hoje que esbarrar em alguns detalhes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criando meios para priorizar a negociação direta entre patrões/gestores e empregados. Indo pela redução e parcelamento do tempo e adicional de férias, permissão de trabalho insalubre médio para grávidas, entre outros que a Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) proporcionou.[4]

Notas

[1] “Tal limitação ‘que estava colocada’ à luta é a própria limitação do contexto histórico no qual surgem as revoltas. Ora, o chamado trabalho de base há anos desapareceu da prática política da esquerda brasileira. A organização popular que era a base da esquerda foi o custo do projeto de governar gestado por esta no fim dos anos 70 – foi um preço pago à medida que esse projeto se realizava. Ao subir rumo ao governo, o PT alça consigo a direção dos movimentos populares e a insere plenamente nos mecanismos da gestão dos conflitos sociais (dos canais governamentais de ‘participação’ ao ‘Terceiro Setor’ em expansão). Não à toa, a tônica do discurso é a da inclusão. Marcadas por uma crescente distância entre a cúpula e a base, enquadradas pelas ditas ‘políticas públicas’ (desenvolvidas a partir do conhecimento acumulado pelos próprios militantes), as organizações populares sofrem um esvaziamento que as atrela a uma enorme máquina burocrático-eleitoral . As ‘bases’, agora, só podem existir como contingentes coisificados, devidamente domesticados e representados, de trabalhadores – tratadas como moeda de troca das burocracias” (Caio Martins e Leonardo Cordeiro, Revolta popular: o limite da tática, Passa Palavra, 27 de maio de 2014).

[2] “Em lugar de se empoderarem como sujeitos históricos, receberam dos governos petistas um cartão de crédito. Quando os empregos acabaram ou se tornaram piores, precários, mal pagos e incertos, ficaram as dívidas impagáveis, e quem organizou essa população foram as igrejas neopentecostais. A solidariedade espontânea e os laços de coletividade foram capturados pelo discurso meritocrático e empreendedorista das igrejas para se transformar no seu oposto: competitividade e indiferença” (Anônimo, O ESCÂNDALO DO ZAP E O CRETINISMO DA ESQUERDA (sic), Passa Palavra, 06 de dezembro de 2018).

[3] “Num dado assentamento, que passava por dificuldades estruturais, na época das campanhas eleitorais de 2005 a maioria dos militantes ausentou-se do local para trabalhar na candidatura de políticos de partidos de esquerda, sobretudo do PT. Ora, como não existe vácuo na política, a falta de trabalho de base no assentamento fez com que crescesse a força de um grupo de assentados evangélicos, que não compartilhavam da ideologia do movimento, o que ocasionou uma forte divisão do assentamento. Quatro anos depois a fratura no assentamento ainda era presente e, num novo ciclo eleitoral, a situação se repetiu, agora com a agravante de dividir o pequeno grupo de militantes entre trabalhar para o PT ou o PSOL. Quando as lições não se tiram, isto significa que o mal vem da raiz” (Passa Palavra, Estado e movimentos sociais, 05 de fevereiro de 2012).

[4] “Aproveitando as brechas abertas pela Reforma Trabalhista, a empresa contrata os empregados para jornadas de 6h diárias (30h/semana) para não pagar uma série de benefícios. Assim, em vez de uma hora de almoço, eles tem direito a apenas 15 minutos de intervalo e recebem menos que um salário mínimo por mês (o salário base de um bilheteiro terceirizado está em R$ 906,00 atualmente). Por outro lado, esse tipo de jornada não permite que o funcionário faça horas extras, mas isso não tem sido respeitado pela empresa. É comum os terceirizados trabalharem 7h, 8h por dia, sem que recebam um centavo a mais por isso. Como não há controle de ponto, a Liderança deita e rola em cima dos empregados” (Dois Funcionários do Metrô, Metrô SP: Terceirizados da bilheteria denunciam descontos abusivos, Passa Palavra, 03 de março de 2019).

Ilustram o texto pinturas do mexicano Erick Ruiz Lugo

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