Escritório do governo (George Tooker, 1956)

Por Jan Cenek

Leia aqui a 1ª parte e aqui a 3ª parte.

Confesso que tive vontade de chamar este tópico de Miséria da filosofia. Seria uma homenagem a Marx e um deboche com os filósofos. Mas seria também arrogante, pretensioso e falso. A questão não é esboçar uma interpretação para excluir as demais. Trata-se de chamar a atenção para alguns detalhes do texto e para a relação entre trabalho e adoecimento. Então preferi evitar. Optei pela elegância britânica. A propósito, e considerando que Melville e Marx foram contemporâneos, exercício interessante, e por fazer, é pesquisar se um leu o outro. Bartleby pode ser pensado a partir da categoria estranhamento (Entfremdung), que estava sendo trabalhada um pouco antes da criação do escrevente.

Mas voltemos aos filósofos, mais precisamente Deleuze e Agamben. O primeiro discute “a fórmula” de Bartleby (I would prefer not to). O segundo usa Bartleby para discutir a “ambiguidade da potência (que é sempre potência de fazer e de não fazer)”.

Para Deleuze, a fórmula (I would prefer not to/Eu preferiria não) do escrevente “aniquila ‘copiar’, a única referência em relação à qual algo poderia ou não ser preferido”. Mais Deleuze: a fórmula “exclui qualquer alternativa e engole o que pretende conservar assim como descarta qualquer outra coisa; implica que Bartleby para de copiar, isto é, de reproduzir palavras; cava uma zona de indeterminação que faz com que as palavras já não se distingam, produz o vazio da linguagem.” Só que o filósofo não explica por que Bartleby continua copiando, por que só muito depois da fórmula ele decide parar de copiar? Ainda Deleuze: “O próprio Bartleby só tinha como saída calar-se e retirar-se para trás de seu biombo cada vez que pronunciava a fórmula, até seu silêncio final na prisão. Depois da fórmula não há mais nada a dizer.” A questão central, segundo o filósofo, é que a fórmula do escrevente “desarticula os atos de fala” do próprio e dos demais, aumentando a indeterminação da linguagem: “I prefer not to é também um traço de expressão que contamina tudo, fugindo à forma linguística, destituindo o pai da sua palavra exemplar, tanto quanto o filho de sua possibilidade de reproduzir ou de copiar.” Mas por que o escrevente formulou a fórmula? É Deleuze quem responde: “tão logo o advogado pretende fazê-lo abandonar seu biombo, Bartleby emite sua fórmula.” Mas então ele tinha preferências. Preferia se refugiar atrás do biombo. Até o terceiro dia o escrevente havia produzido uma quantidade extraordinária de cópias: “Não conhecia pausa para digestão. Copiava dia e noite, fosse ao sol ou à luz de velas.” É quando o advogado pede-lhe que examine uns poucos papéis e ouve como resposta: “I would prefer not to/Eu preferiria não.” São as primeiras palavras e é a primeira negativa do escrevente. Ou seja, Bartleby estava copiando e é interrompido. O advogado manda que ele pare para ajudar a revisar documentos. Colocada neste contexto, a fórmula (I would prefer not to/Eu preferiria não) indica que Bartleby preferiria continuar copiando, se não porque gostasse da tarefa (o que é difícil de imaginar), pelo menos por outras razões que precisam ser elucidadas. Neste ponto Deleuze escorrega. Para o filósofo, o escrevente “precisava recusar um (examinar documentos) para tornar o outro impossível (copiar documento)”. É uma meia verdade. Bartleby precisava se recusar a revisar documentos para poder copiar documentos, daí a fórmula (I would prefer not to/Eu preferiria não). Se dissesse “preferiria não revisar” ou “preferiria apenas copiar” não haveria mistério. Há um fato, uma miudeza de escritório, que passou batido dos filósofos e demais analistas (as tais coisas que a vã filosofia deixa escapar): Bartleby produzia cópias por quatro centavos a página (com cem palavras). Trabalhadores que ganham por produção, como os cortadores de cana, costumam deixar de ir ao banheiro e até morrem trabalhando. Ora, se o escrevente ganhava por produção (cópia produzida), havia uma forte razão para ele preferir não revisar documentos, nem ir ao correio, nem chamar outro copista na sala vizinha, nem perder tempo respondendo às perguntas do chefe (Onde nasceu? Pode me contar alguma coisa?). Na minha enumeração, é só depois da sexta negativa (I would prefer not to/Eu preferiria não) que o escrevente decide parar de copiar, justamente depois de ser interrompido para conferir documentos, ir ao correio, chamar outro copista na sala vizinha e responder perguntas do chefe. É como se Bartleby suportasse o trabalho repetitivo e braçal, mas não suportasse parar para atender aos pedidos do chefe: ou porque significavam reduções salariais, ou porque aquelas pausas o retiravam de trás do biombo, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Deleuze percebe esta possibilidade, como se houvesse um “pacto” estabelecido entre o patrão e o escrevente: “no momento em que o advogado pretende (sem querer fazê-lo de propósito) tirar Bartleby de seu biombo para cotejar as cópias com os outros, quebra o pacto.” Mas o filósofo se concentra na “fórmula” e não desenvolve o raciocínio sobre o “pacto”. Por isso não percebe que Bartleby era remunerado por produção de cópias (quatro centavos a página com cem palavras). Mas, registre-se, a ideia deleuzeana de que a “fórmula” de Bartleby “exclui qualquer alternativa e contamina tudo” teve exatamente o efeito que descreve, contaminou tudo e excluiu qualquer alternativa: da filosofia à psicanálise passando pela crítica literária, não há quem discuta o conto de Melville sem reproduzir a ideia de Deleuze. Curioso notar que, por mais excêntrica e poética que seja a “fórmula” de Bartleby, as capacidades de trabalho do mensageiro e dos outros escreventes não foram nem “aniquiladas” nem “excluídas”. Apesar de incorporarem o verbo preferir nas falas cotidianas, nenhum dos personagens disse “eu preferiria não” ao trabalho. Muito mais longe estiveram de dizer “nós preferiríamos não”, na primeira pessoa do plural. É o limite da ideia deleuzeana e da “fórmula” do escrevente.

O burocrata mediano (Salvador Dalí, 1930)

Para Agamben, Bartleby pertence à “constelação literária” dos escreventes (Akaki Akakievitch, os kafkianos anônimos, Bouvard e Pécuchet), mas também pertence a uma “constelação filosófica”, e, talvez, “apenas esta contenha a cifra da figura que a outra se limita a traçar.” O filósofo vai de Aristóteles a Nietzsche em busca da “cifra” de Bartleby, discute vontade e potência a partir da “fórmula” (I would prefer not to/Eu preferiria não) do escrevente. Segundo Agamben, a “fórmula” de Bartleby “abre uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não, o preferível e o não preferido. Mas também […] entre a potência de ser (ou de fazer) e a potência de não ser (ou de não fazer).” Mais Agamben: “A infinita repetição daquilo que aconteceu abandona totalmente a potência de não ser. No seu obstinado copiar, como no contingente de Aristóteles, ‘nada existe de potente não ser’. A vontade de potência é, na verdade, vontade de vontade, ato eternamente repetido, e só deste modo potenciado. Por isto o escrivão deve deixar de copiar, renunciar à cópia.” Ainda Agamben: “Bartleby não consente, nem sequer simplesmente recusa, e nada lhe é mais estranho do que o páthos heroico da negação.” Para fazer filosofia a partir do conto de Melville, Agamben precisa ignorar as miudezas de escritório, e do próprio texto. Esquece que o escrevente produziu “quantidades extraordinárias de cópias” nas primeiras semanas. Ignora que o escrevente prefere não revisar os documentos que produz, provavelmente porque ganha por cópia produzida e não por cópia revisada. Agamben passa batido também pela ideia deleuzeana de rompimento do “pacto”, apesar de ter lido o texto do francês. O filósofo italiano prefere discutir vontade e potência a partir da “fórmula” (I would prefer not to/Eu preferiria não). Para Agamben, a infinita repetição do copiar aparece como abandono da potência de não ser, e não como consequência do pagamento por produção (quatro centavos a página com cem palavras). Isso quando já se sabia que o pagamento por produção mata muitos Bartlebies no mundo real.

Ao constatar que era impossível obrigar Bartleby a executar tarefas, especialmente revisar documentos, o advogado-patrão toma uma atitude drástica: muda de escritório deixando o escrevente para trás (como o capital muda de país quando suas exigências não são atendidas). Ali ocorreu uma concordância que depõe contra Deleuze e Agamben. Durante a mudança o advogado ordenou que o escrevente ficasse atrás do biombo. Bartleby obedece, e é como se dissesse que preferiria ficar ali. Algumas ordens ele cumpria (passou os primeiros dias copiando sem parar). Então há algo que podia ser preferido e conservado. Não há uma zona de indeterminação que faz com que as palavras não se distingam (Deleuze). Então não há uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não (Agamben).

Remuneração por produção + captura da subjetividade = doença do trabalho

Não é Bartleby que se retira para trás do biombo. São as solicitações do chefe que retiram Bartleby de trás do biombo: este é o limite, a possibilidade e a desgraça do escrevente. Pode ser chocante para os filósofos consagrados (acostumados com as universidades, as conferências e as entrevistas); mas não espanta quem conhece a realidade dos escritórios (os despachos, os contratos e os escaninhos): Bartleby poderia passar a vida copiando calado, atrás do biombo; poderia morrer copiando, inauguraria o que ficou conhecido como Karoshi (morte por excesso de trabalho). O “pacto” firmado talvez lhe permitisse viajar para longe dali nos pensamentos. É essa subjetividade que as solicitações do chefe ameaçavam capturar, e talvez por isso a obstinada resistência do escrevente. Revisar cópias em voz alta violaria sua subjetividade. Um homem pode executar uma tarefa mecânica, como copiar contratos, “pensando numa mulher ou num time”,[1] ou imaginando versos; não conseguirá fazer o mesmo revisando documentos coletivamente. É uma possibilidade para explicar por que o escrevente se refugiava atrás do biombo. Seus problemas começavam sempre que lhe tiravam de lá. Há uma indicação do patrão-narrador que vai nessa linha. Diz ele que não conseguiria imaginar o poeta Byron revisando documentos legais. Também este é um caminho interpretativo que escapou dos filósofos e demais analistas: e se Bartleby fosse poeta, e se imaginava poemas enquanto trabalhava, e se escolhia palavras entre as que copiava? Pelo menos um verso ele deixou: “I would prefer not to/Eu preferiria não”.

Esqueletos num escritório (Paul Delvaux, 1944)

É a ruptura do acordado entre Bartleby e o patrão que faz o escrevente recusar tarefas e, na sequência, se recusar inclusive a copiar. Como o advogado-narrador praticamente não detalha o acordo de contratação (o que é estranho para um homem da lei), surge a ambiguidade que permite infinitas interpretações. Sabe-se, apenas, que o escrevente recebia por cópia produzida (quatro centavos por página com cem palavras). Nunca saberemos se o acordado seria pagar apenas após a revisão das cópias produzidas, porque somente a versão do patrão é conhecida, mas, se fosse assim, o trabalho não pago seria ainda maior. Para o patrão, revisar as cópias produzidas fazia parte do trabalho do escrevente. As recusas deste eram vistas por aquele como “privilégios e concessões”. Nunca saberemos qual é a versão de Bartleby. O advogado jamais perguntou se o escrevente preferiria apenas copiar, sem revisar as cópias. Por mais indulgente que tenha sido, o patrão jamais cogitou tolerar que Bartleby se recusasse a revisar os documentos que o próprio ou os demais produziam. É a fórmula (I would prefer not to) que o narrador-patrão não pronuncia, mas emprega: Eu preferiria não pagar pela revisão das cópias. “Apenas como personificação do capital, o capitalista é respeitável. Como tal, ele partilha com o entesourador o instinto absoluto do enriquecimento.”[2] Interessante notar que o advogado não contesta as primeiras recusas do escrevente porque estava muito atarefado, ou seja, estava submetido ao tal “instinto absoluto de enriquecimento”. Perto do fim, quando Bartleby está prestes a ser preso, o patrão se propõe a levar o escrevente para casa, mas não cogita levá-lo para o novo escritório. Age exatamente como uma personificação do capital. Poderiam as recusas de Bartleby paralisar os demais trabalhadores e, consequentemente, os lucros? A “fórmula” do escrevente produzir um “vazio da linguagem” seria tolerável. A “fórmula” do escrevente inviabilizar o processo de trabalho seria intolerável. É o que explica por que o patrão convidou o escrevente para dividir o mesmo teto do seu lar, mas não do seu novo escritório.

Há uma questão laboral que é chave para compreender o caso Bartleby. A ruptura do acordado fulminou o sistema imunológico que protegia o escrevente do trabalho. Mas, como a história é contada na perspectiva do patrão, as informações são camufladas ou até omitidas, produzindo ambiguidade e infinitas interpretações. Restam apenas indícios. Nippers sofria com questões ergonômicas e de má digestão. Tinha sua capacidade de trabalho seriamente reduzida de manhã. Turkey sofria de uma vermelhidão indeterminada que lhe prejudicava a capacidade de trabalho à tarde. Seriam males relacionados ao trabalho? Bartleby foi contratado com a expectativa de estabilizar as oscilações de Nippers e Turkey, mas teve sua capacidade de trabalho completamente liquidada (de manhã e à tarde). Esperava-se que Bartleby herdasse as capacidades laborais dos outros escreventes (Turkey pela manhã e Nippers à tarde); mas ocorreu o inesperado, ele herdou a incapacidade laboral dos outros (Nippers pela manhã e Turkey à tarde). Bartleby é a síntese, pela negativa, de Turkey e Nippers, uma possibilidade que estava presente nas incapacidades de ambos.

Sabe-se, apenas, que Bartleby ganhava por produção: quatro centavos por página com cem palavras. Não sabemos qual era a forma de pagamento dos outros escreventes, mas há um indício pouco notado. Ginger Nuts não era escrevente, apenas entregava mensagens e limpava o escritório por um salário semanal de um dólar. Ou seja, ganhava por tempo de trabalho e não por produção, como Bartleby. Para receber um dólar por semana, como Ginger Nuts, Bartleby precisava copiar vinte e cinco páginas (duas mil e quinhentas palavras). Se os outros escreventes recebiam por tempo de trabalho e não por produção de cópias, seria fácil entender por que Bartleby se recusava a revisar documentos produzidos, enquanto os demais não reclamavam: o que para os outros seria um relaxamento, para ele seria uma redução salarial. A influência nefasta da remuneração por produção sobre a saúde dos trabalhadores é conhecida de longa data. É espantoso que esta chave não tenha sido utilizada para analisar o caso Bartleby. Mostra que a forma de pagamento está camuflada no conto, que os analistas não costumam revisar os textos que comentam e, sobretudo, que os adoecimentos relacionados ao trabalho são pouco conhecidos.

Os pagamentos por produção causam insegurança aos trabalhadores, que não sabem ao certo quanto receberão; e intensificam o trabalho, provocando acidentes e adoecimentos. Além disso, é comum os patrões se utilizarem de artimanhas para reduzirem os pagamentos. Por exemplo: a cana de açúcar é cortada e medida em metros, mas os pagamentos aos trabalhadores costumam ser realizados com base no peso, possibilitando fraudes e extorsões. O resultado é que os cortadores são forçados a trabalhar cada vez mais, às vezes mais do que suportam. Pagar por cópia produzida e exigir que o escrevente revise os documentos é não remunerar uma parte do trabalho. Sabemos que Bartleby não bebia cerveja e não fazia refeições em restaurante. Ele guardava suas economias na gaveta e se alimentava com bolinhos de gengibre. Estaria juntando dinheiro para publicar um livro, casar, ajudar parentes, voltar para sua terra, trazer a família para a cidade grande? Se sim, não é estranho que o escrevente tentasse produzir cada vez mais (cópias). É o que fazem os cortadores de cana e outros trabalhadores remunerados por produção.

Antes de parar de copiar, Bartleby se recusa, essencialmente, a revisar cópias. Por duas vezes o futuro do pretérito (preferiria) havia avançado para o presente do indicativo (prefiro). As recusas (I prefer not/Eu prefiro) a ir ao correio e a chamar Nippers na sala ao lado ocorrem depois da recusa a revisar cópias. O tempo que separa a primeira recusa (revisar) da completa paralisação da capacidade de trabalho (copiar) mostra que ocorreu um processo, a capacidade laboral foi se esgotando aos poucos, o que sugere a ocorrência de adoecimento relacionado ao trabalho. Além disso, sabe-se que “o psicótico, em situação de absoluta recusa, pode adotar uma posição irônica, pontuando a inconsistência das referências que lhe são apresentadas, ou pode mesmo se isolar em seu mutismo.”[3] Outros indícios: os males de que padeciam os demais escreventes; a sugestão do narrador de que o mal de Bartleby tivesse relação com sua ocupação anterior. Estaria tentando se resguardar?

Seja como for, se pelo texto é impossível estabelecer o nexo causal entre o colapso da capacidade de laboral de Bartleby e o trabalho, no mundo real não é diferente. O capital esconde os adoecimentos relacionados ao trabalho com o mesmo vigor com que esconde dinheiro em paraísos fiscais.

A mulher do sótão

A palavra mulher aparece uma única vez no conto de Melville. Talvez por isso passe despercebida. Os homens não têm mães, irmãs, esposas ou amantes. Da mulher do sótão sabe-se apenas que residia no edifício que abrigava o escritório, que ela varria diariamente, esfregava semanalmente e tinha uma cópia da chave. Por que Melville colocou a mulher no conto? Ela ficar com uma cópia da chave é irrelevante. Nem os funcionários nem o patrão precisaram daquela cópia. Ela varrer e esfregar são tarefas duplicadas, um possível escorregão de Melville. Basta lembrar que o mensageiro, Ginger Nuts, também era responsável por limpar o escritório. Além disso, ela jamais cruza com qualquer um dos personagens, apesar de frequentar o mesmo espaço diariamente. Se é assim, qual a função dela?

A mulher do sótão é uma possibilidade que Bartleby não conseguiu realizar: um ser invisível, sem nome, sem rosto e que dominava a nobre arte de desaparecer, como um bicho do mato. A mulher do sótão se escondia atrás das vassouras. Bartleby não conseguiu se esconder atrás do biombo.

Escritório do governo (George Tooker, 1956)

Mas não é só. A mulher do sótão é uma prova que Melville faz o narrador produzir contra si próprio, mas como ela aparece uma única vez, é praticamente invisível, o caso quase não é notado, como a remuneração por produção de Bartleby. O advogado diz sentir um irresistível desalento pela pobreza e pela solidão do escrevente, que morava no escritório: “Aos domingos, Wall Street é tão deserta quanto Petra; e todas as noites de todos os dias é um só vazio. Este edifício também, que nos dias da semana se enche de vida e trabalho, tão logo a noite cai torna-se pura ausência, e durante o domingo resta-lhe apenas o abandono.” A questão é: por que o narrador não sente a mesma compaixão pela mulher do sótão? Ela também é sua contratada e mora no edifício, além de, provavelmente, habitar um cômodo sem iluminação; e “a felicidade flerta com a luz”, segundo ele. Se é assim, ou o advogado não se compadece verdadeiramente por Bartleby, ou sua moral é seletiva, porque ele não demonstra nenhuma compaixão pela mulher do sótão.

O narrador suspeito

Narrativas em primeira pessoa, como Bartleby, podem gerar conflitos de interesse, porque quem conta a história tem interesse no desfecho. Ocorre no Grande Sertão: Veredas. O narrador, Riobaldo, tem interesse na história, especialmente em relação a uma das personagens, Diadorim.

Por que o advogado-narrador não esclarece as formas de remuneração dos escreventes Turkey e Nippers? Por que ele não se espanta quando o escrevente ocupa o escritório dia e noite, inclusive copiando “à luz de velas”? Por que ele se espanta apenas quando encontra Bartleby no escritório num domingo de manhã, justamente quando imagina que o escrevente não estivesse copiando? “Havia algo em Bartleby que não permitia supor que pudesse conspurcar a solenidade do dia com alguma ocupação secular.” Teria se espantado se encontrasse Bartleby copiando naquele domingo de manhã? Por que o advogado-narrador tem necessidade de contar que o escrevente, anteriormente, havia trabalhado como assistente da Seção de Cartas Extraviadas? Ele mesmo afirmou que não havia necessidade de dar sequência à história. Preferiria associar a morte de Bartleby a problemas adquiridos na ocupação anterior, camuflando problemas ocorridos no seu escritório?

Deleuze também coloca o narrador sob suspeição: “Talvez Bartleby seja o louco, o demente, o psicótico (‘uma desordem inata e incurável’ da alma). Mas como sabê-lo, se não se levam em conta as anomalias do advogado, que se comporta o tempo todo de modo muito esquisito?” A esquisitice do advogado não tem a ver com loucura, demência ou psicose. A esquisitice dele tem a ver com sua habilidade para contar a história camuflando fatos, ou até omitindo-os, de forma a não se comprometer, evitando produzir provas contra si próprio, afinal, era, sobretudo: “prevenido”, além de ser um homem das leis.[4]

Bartleby e Emma Bovary

Intimado a dizer em quem se baseou ao criar sua personagem mais famosa, Gustave Flaubert teria respondido “Emma Bovary sou eu”. Intimado pela consciência a explicar a morte de Bartleby, o narrador teria escrito o conto? É uma possibilidade, mas não é uma solução, apesar da culpa que o sujeito carregava.

Madame Bovary e Bartleby: os opostos que se completam, os contemporâneos extemporâneos. No romance de Flaubert a exuberância dos detalhes: as coisas, os homens e até as igrejas se curvando à adultera. No conto de Melville os detalhes cuidadosamente escondidos, ou até omitidos: a precária verdade dos escaninhos.

Ela, uma provinciana, na Normandia. Ele, um escrevente, em Wall Street. Tão longe e tão perto, tão diferentes e tão apaixonantes, tão absurdos e tão humanos. Ambos continuarem absolutamente atuais depõe a favor da literatura e contra o tempo presente. Quantos Bartlebies e quantas Emmas morrerão no mundo real até que os personagens se tornem apenas uma lembrança incômoda? Ah, Emma! “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!”

Escritório e aposento (Kazimir Malevich, 1913)

Notas

[1] BLANC, A.; BOSCO, J. De frente pro crime. Acesso em: 20 abr. 2019.
[2] MARX, K. O capital. São Paulo: Nova Cultural, 1986. liv. I. t. II.
[3] NETO, O. F. A exclusão do Bartleby de Melville e a “inclusão” do doente mental na sociedade. Acesso em: 24 abr. 2019.
[4] Tradutores… Na edição que utilizei principalmente, no parágrafo que coloca o advogado-narrador sob suspeita, há um trecho sublime: “um saboroso acepipe moral para minha consciência”. Acepipe moral? O tradutor certamente é poeta. Só não sei se é fiel ao texto. Na outra edição está registrado “doce consolo para minha consciência”. O original registra “sweet morsel for my conscience.”.

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