Por Diego Pereira Siqueira

Sua causa imediata foi a ambição do presidente Evo Morales em se eternizar no poder. Morales chegou à presidência em um processo de mobilização indígena, camponesa e operária contra as medidas neoliberais que empobreciam o povo boliviano. O maior símbolo disso foram as “guerras” da água e do gás. Essas mobilizações deram como resultado o processo constituinte, que reconheceu pela primeira vez direitos para os povos indígenas da Bolívia e permitiu uma série de avanços sociais.

Ao mesmo tempo, o núcleo duro em torno de Evo desde o início tinha como estratégia uma conciliação com a elite agroindustrial, vista como parceira na construção do que eles chamavam de “capitalismo andino-amazônico”. Com a derrota dessa elite no processo constituinte, o MAS [Movimiento al Socialismo, partido de Evo Morales], através do controle dos recursos do Estado, pôs em prática um projeto que visava a criação de uma classe média indígena, baseada nas atividades comerciais e extrativistas.

Para isso, o MAS garantiu que as bases do poder econômico da elite derrotada permanecessem intactos. Não impôs limites ao tamanho das propriedades agrárias, permitiu a expansão da fronteira agrícola em detrimento dos povos originários e buscou aumentar o perfil exportador primário de sua economia.

Para garantir o processo de acumulação das velhas e novas elites, o MAS muitas vezes ignorou os próprios direitos de consulta e respeito às comunidades indígenas garantidos pela nova Constituição. Atacou organizações que não aceitavam sua tutela, desrespeitou áreas de proteção ambiental, corrompeu dirigentes, fez alianças com setores da direita.

Mural em memória da Guerra da Água (Cochabamba)

A situação econômica positiva da Bolívia, com crescimento por vários anos, junto com a ascensão dessa nova classe média indígena, permitiu uma estabilidade política inédita nesse país. Morales é o presidente que ficou mais tempo no poder desde a fundação da república [boliviana]. Seu partido tinha a maioria na Assembleia Legislativa Plurinacional, nos órgãos judiciários e dos governos estaduais.

Essa situação positiva alimentou a ambição de Morales de que poderia continuar indefinidamente no poder. Chamou um plebiscito para referendar a chance de poder se candidatar mais uma vez. Ele perdeu esse referendo, mas, com o controle da maioria das instituições de Estado, ele e seu núcleo duro acharam que poderiam fazer com as instituições burguesas o que já faziam há anos com organizações camponesas e indígenas rebeldes: atropelá-las, refazer as regras do jogo e impor sua vontade.

Essa postura de Evo alienou inclusive uma boa parte da sua antiga base social, que percebia que nessa disputa não estava em jogo nenhum interesse fundamental do povo boliviano, mas apenas a ambição do mandatário em se perpetuar.

Isso permitiu à direita boliviana, que há anos estava marginalizada e sem expressão, recuperar-se sob a bandeira da democracia. Com a ajuda externa (a intervenção brasileira está evidente desde o começo), as elites agroindustriais colocaram pessoas na rua, pondo em evidência desde já seu caráter reacionário, racista e violento.

A maioria das organizações de trabalhadores, indígenas e camponesas não estava disposta a sair às ruas para defender o projeto pessoal de Evo. Nem mesmo setores dessa nova classe média indígena. O governo podia contar com algumas organizações de cocaleiros controladas por ele, mas que por razões óbvias não podiam contrapor uma resistência vigorosa. A defecção de setores da polícia e das forças armadas foi a gota d’água que faltava para derrubar a ilusória hegemonia do MAS.

Agora, resta saber como se desenrolará a situação. Os golpistas não terão um caminho fácil, nesse contexto em que a direita latino-americana está acuada. Se tentarem revogar a Constituição, impor um Estado de sítio ou não chamarem novas eleições em breve, despertarão a resistência dos movimentos sociais, que possuem uma capacidade de mobilização única na América Latina.

A chave da situação está na resistência popular que começa a partir de agora.

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