Por Passa Palavra

Após ser adiado por dois anos, o censo demográfico realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) enfim foi a campo oficialmente no início do mês de agosto, contando com cerca de 170 mil trabalhadores temporários; entre estes, cerca de 150 mil recenseadores, 18 mil agentes censitários supervisores (ACS) e 5 mil agentes censitários municipais (ACM). O adiamento do Censo 2020 se deu por conta do início da pandemia do coronavírus, que tornou inviável a sua realização de forma segura. Em 2021, o governo federal retirou a verba prevista para a realização do censo demográfico, mesmo após a realização de concurso público para a contratação de trabalhadores temporários, ato que culminou no pedido de exoneração da presidente do IBGE na época, Susana Cordeiro Guerra. Em 2022, apesar de a previsão orçamentária para sua realização em 2019 ter sido de R$ 3,2 bilhões, o órgão conta com R$ 2,3 bilhões, valor 28% menor do que o previsto originalmente.

Os sucessivos adiamentos impactaram o interesse dos trabalhadores em exercer a função de recenseador. Após se increverem em 2020, pagarem a taxa de inscrição e ver o censo cancelado, os postulantes ao trabalho demoraram quase um ano para serem reembolsados da taxa, situação vivida novamente em 2021. Quando o censo foi confirmado em 2022, a procura pelo cargo foi muito menor, especialmente nos estados de São Paulo, Mato Grosso e Santa Catarina. A baixa procura por um trabalho mal remunerado, intenso e precário, pode também estar relacionada a um aquecimento maior da economia, impulsionado pela alteração temporária do valor do Auxílio Brasil.

Para aqueles que resolveram ainda assim ser recenseadores, o corte orçamentário continuou com seus efeitos já no treinamento, quando se verificou a cifra de 44 mil profissionais com valores de ajuda de custo não pagos até a primeira semana de coleta [1]. Desde então, os problemas no atraso dos pagamentos só aumentaram com o decorrer das atividades, e a expectativa que os recenseadores tinham sobre o que seria seu trabalho se desfez de forma abrupta e traumática. O clima de polarização política fez com que muitos moradores desconfiassem das intenções dos recenseadores; a falta de confiança no Estado também gerou o mesmo efeito. Logo os recenseadores viram que não era uma tarefa simples realizar as entrevistas e completar seus setores censitários, fator necessário para o recebimento de seus pagamentos, e a orientação que recebiam dos superiores era de que, nos domicílios onde registrassem recusa ou indisponibilidade para responder o questionário, retornassem até 4 vezes, em diferentes períodos. A tarefa foi se tornando cada vez mais desgastante, e por conta da falta de recursos, muitos tiveram de continuar trabalhando — mesmo com fome.

A remuneração inicial dos recenseadores era estimada em um simulador disponibilizado pelo IBGE em seu site oficial, que, segundo o instituto, “utiliza como base de cálculo as características de cada município, os tempos médios de duração das entrevistas e os deslocamentos durante o trabalho de coleta”. Viu-se, entretanto, grande discrepância entre a simulação e a realidade quando os recenseadores começaram a ser informados sobre as taxas pelos seus serviços e os valores que os supervisores estimavam que receberiam. Semanas de trabalho geraram remunerações menores que um salário mínimo, para os “sortudos” que conseguiram receber seus pagamentos.

Todo esse cenário gerou protestos diários nos meios virtuais, tais como nos perfis oficiais do IBGE nas redes sociais, onde há semanas chovem centenas de comentários de recenseadores protestando em todas as publicações do instituto. No YouTube, diversos recenseadores deram as caras para dar depoimentos sobre seu desamparo cotidiano. Em Salvador, um grupo mais articulado organizou a União dos Recenseadores [2] e convocou a categoria para se mobilizar e paralisar as atividades, não só em Salvador, mas em todo o Brasil. Iniciativas semelhantes se espalharam por diversas cidades e capitais, fazendo a mobilização ganhar corpo. Foi então decidida uma paralisação nacional no dia 1º de setembro, que, apesar de não ter sido bem-sucedida em seus objetivos organizativos (uma paralisação em massa), gerou repercussão significativa para obrigar o IBGE a declarar publicamente uma reformulação nas taxas concedidas e no sistema de pagamentos [3].

Há vários outros fatos que podem ser comentados sobre os problemas dos recenseadores e trabalhadores temporários neste censo demográfico precarizado. Este artigo também é um convite para que outras pessoas manifestem outros aspectos e pontos de vista. Por ora, os desafios dos recenseadores continuam, e as medidas tomadas pelo instituto ainda são insuficientes. No limite, está dada uma situação que compromete a própria qualidade e viabilidade de uma pesquisa tão importante para o conhecimento científico. Por isso a luta dos recenseadores, que dia a dia revelam o Brasil, não só com sua atividade laboral mas também com sua consciência de justiça e da necessidade de lutar, é uma luta transversal a toda a classe trabalhadora. Se, por um lado, eles expõem a realidade da vida dos trabalhadores, devemos nós também expor sua voz.

Referências

[1] https://horadopovo.com.br/apos-cortes-no-ibge-censo-2022-inicia-com-falta-de-recursos-e-condicoes-precarias/
[2] https://www.instagram.com/uniao_dos_recenseadores/
[3] https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/08/30/ibge-rev-sistema-de-pagamento-faixas-de-remunerao-e-valores-de-locomoo-de-recenseadores.ghtml

2 COMENTÁRIOS

  1. Até no “Profissão Repórter” apareceu. IBGE respondeu “estamos ouvindo”, “vamos resolver”… Quero meu dinheiro!

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