Armadilhas do desarmamento

Por Muhammad Shehada

 

Em um prédio de vários andares bombardeado no bairro de Tal Al-Hawa, na Cidade de Gaza, meu amigo Anas, sua esposa e sua filha de 3 anos estão abrigados em um apartamento no primeiro andar, sem portas nem janelas. A maioria das paredes desabou total ou parcialmente, assim como grande parte do teto da sala de estar. No centro do andar, há um buraco profundo aberto por uma bomba israelense de 900 kg que não explodiu.

O prédio está crivado de balas. Os dois últimos andares foram repetidamente bombardeados e alvejados por tanques e drones israelenses, e o térreo foi quase completamente destruído. A escada não liga mais aos três andares superiores, deixando o prédio em risco de desabar a qualquer momento. Por enquanto, ele permanece de pé em meio a um mar de prédios totalmente arrasados.

Não há eletricidade, água encanada, esgoto ou banheiros em funcionamento. À noite, Anas dorme com um olho aberto para ficar de olho em ratos e camundongos que possam morder sua filha. Moscas, mosquitos e baratas também infestam o prédio, fazendo ninhos nas tubulações de esgoto destruídas e sob a vasta quantidade de entulho. Durante o dia, Anas e sua esposa passam o tempo procurando trabalho ou ajuda humanitária; seus sucessos são dolorosamente raros e mal dão para mantê-los vivos.

O dia todo eles são atormentados pelo zumbido incessante de drones israelenses sobrevoando suas cabeças, prontos para atirar para matar, bem como pelos sons de explosões, metralhadoras e demolições que ocorrem atrás da “Linha Amarela” — a fronteira em expansão que marca a ocupação direta de Israel de mais da metade do território de Gaza, que está sendo sistematicamente arrasado.

Essa é, na verdade, a vida de uma das famílias mais afortunadas de Gaza, pois pelo menos eles têm um teto sobre suas cabeças. Mais de seis meses após a assinatura do chamado “cessar-fogo”, a maioria dos palestinos na Faixa ainda vive em frágeis barracas de plástico que alagam quando chove, retêm o calor sufocante quando o sol brilha forte demais e correm o risco de serem levadas por ventos moderados.

Armadilha do desarmamento

Meus amigos, familiares e colegas no terreno têm se mostrado dispostos a suportar essa situação, contanto que acreditem que seja um sofrimento temporário no caminho para um futuro melhor. No entanto, eles estão cada vez mais internalizando a triste realidade de que não há fim à vista para as condições deliberadamente insuportáveis ​​que Israel impôs a Gaza.

Com a guerra entre EUA e Israel contra o Irã consumindo a atenção da mídia global e a energia diplomática, e efetivamente paralisando o “plano de paz para Gaza” do presidente Trump, o enclave sitiado foi praticamente removido da agenda mundial — despriorizado por governos ocidentais e regionais e raramente mencionado na grande mídia. Mas, nos bastidores, as negociações sobre o desarmamento do Hamas continuaram.

Tanto o governo israelense quanto o governo Trump têm apresentado consistentemente essa questão como o principal obstáculo para qualquer retirada israelense, obscurecendo o fato de que Israel mesmo não cumpriu seus principais compromissos sob o acordo. E, nas últimas semanas, o homem encarregado de supervisionar o processo de desarmamento fez novas exigências ao Hamas, alinhadas a Israel, que parecem ter sido elaboradas para serem impossíveis de serem aceitas, sabotando deliberadamente o cessar-fogo e permitindo que Israel continue seu genocídio sem impedimentos.

 

De promessas quebradas ao desarmamento total

Na primeira fase do cessar-fogo, o Hamas concordou em libertar todos os reféns israelenses restantes em troca da libertação dos prisioneiros palestinos, da retirada das forças israelenses para a Linha Amarela e do fim imediato de “todas as operações militares”.

Após isso, Israel deveria facilitar a entrada em Gaza de uma Força Internacional de Estabilização (FIE) e do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG), um mínimo de 600 caminhões de ajuda humanitária por dia e 200.000 tendas, juntamente com 60.000 moradias temporárias. A partir daí, as negociações para a segunda fase do cessar-fogo — que inclui novas retiradas israelenses e o desarmamento do Hamas — deveriam começar.

No entanto, seis meses depois, Israel ainda não cumpriu sua parte do acordo.

Desde o início do cessar-fogo, o exército israelense matou mais de 750 palestinos; continuou a restringir o fluxo de ajuda humanitária; bombardeou Gaza por terra, ar e mar; impediu a entrada do CNAG; e recusou-se a permitir a entrada de moradias temporárias. E limitou até mesmo a entrada de tendas sob o pretexto ridículo de que o Hamas poderia reciclar a pequena quantidade de alumínio para produzir armas, apesar da própria inteligência israelense demonstrar que o Hamas não está se rearmando. (Israel também tem permitido a entrada de alimentos enlatados em Gaza, que o Hamas poderia igualmente reciclar para produzir armas, se quisesse).

No entanto, em meio à fumaça da guerra com o Irã, Israel está propondo um truque simples: uma proposta maximalista para o desarmamento total e unilateral do Hamas e de todos os outros grupos armados em Gaza — sem garantias ou prazo para a retirada israelense, e sem a qual não haveria reconstrução no enclave. Agora, essa se tornou a exigência oficial do homem encarregado das negociações.

A proposta foi entregue ao Hamas no Cairo, em meados de março, por Nickolay Mladenov, diretor-geral do Conselho de Paz do presidente Donald Trump e seu Alto Representante para Gaza. O Hamas conhece Mladenov há mais de uma década, desde sua atuação como Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio entre 2015 e 2020, e se encontrava com ele regularmente durante suas visitas a Gaza para tentar reduzir as tensões com Israel. Desta vez, porém, os líderes do Hamas ficaram chocados com sua conduta.

O Hamas e outras facções palestinas (incluindo a Jihad Islâmica Palestina, a Frente Democrática para a Libertação da Palestina e a Frente Popular para a Libertação da Palestina) foram convidados para uma reunião em 14 de março com mediadores egípcios e catarianos sem serem informados da presença de Mladenov. Segundo um líder do Hamas presente na reunião, que falou sob condição de anonimato, eles só foram informados após chegarem à sala de reuniões.

Armadilha do desarmamento

 

O líder do Hamas afirmou que Mladenov não se comportou da maneira que o grupo esperava, como diplomata da ONU. Falando com um tom condescendente, disse a fonte, ele apresentou um ultimato para que todas as facções palestinas em Gaza aceitassem o desarmamento total, tanto de armas pesadas quanto leves, sob pena de uma retomada da ofensiva israelense.

Ele fez a proposta oralmente, em vez de por escrito, e exigiu uma resposta imediata. As facções palestinas pediram mais tempo para consultas internas, e ele concedeu uma semana. Mladenov, que preside o Conselho Nacional de Segurança da Faixa de Gaza (NCAG), deixou claro que não permitiria a entrada do órgão administrativo em Gaza até que as facções armadas palestinas concordassem com sua iniciativa.

A proposta de Mladenov, cuja cópia (anotada por mediadores) foi analisada pela revista +972, reescreve completamente o plano de Trump. O cronograma da proposta condiciona a suspensão dos ataques israelenses a Gaza à aceitação, pelo Hamas e outras facções palestinas, do princípio do desarmamento total. Da mesma forma, Mladenov tornou a aceitação do desarmamento total um pré-requisito para a entrada em Gaza tanto das Forças Internacionais de Estabilização (FIE) quanto do NCAG, bem como de quaisquer instalações temporárias.

O plano também estipula o desarmamento total de armas pesadas e leves, e o desmantelamento completo de túneis ou outras infraestruturas militantes nos 58% de Gaza atualmente controlados pelos militares israelenses, dentro de 60 dias. Exige que o Hamas e outras facções forneçam todas as informações sobre a localização de sua infraestrutura nessas áreas, tudo isso sem qualquer retirada israelense ou mobilização das FIE. Durante esses 60 dias, as facções palestinas também são obrigadas a cessar todas as atividades militares, incluindo desfiles.

Do 30º ao 90º dia, a Faixa de Gaza Ocidental, atualmente controlada pelo Hamas, também seria “limpa” de todas as armas “pesadas”. As facções palestinas teriam que entregar todos os seus foguetes, fuzis e dispositivos explosivos ao NCAG e permitir a destruição completa de todos os túneis e infraestrutura militares — novamente, sem qualquer retirada israelense.

Durante as negociações que antecederam o cessar-fogo de outubro, mediadores americanos e árabes distinguiram entre “armas ofensivas”, que representam uma ameaça a Israel, como foguetes ou túneis que cruzam para o território israelense, e “armas defensivas”, como armas de fogo que poderiam ser usadas para repelir uma invasão israelense, mas não para atacar Israel de dentro da Faixa de Gaza.

A proposta de Mladenov introduziu os termos “armas pesadas” e “armas pessoais”. Todas as armas “pesadas” — incluindo até mesmo AK-47 e Kalashnikovs — teriam que ser entregues até o 90º dia, enquanto o exército israelense ainda controla 58% de Gaza e poderia invadir grande parte do restante em minutos.

Do dia 91 ao 250, as forças de segurança do NCAG registrariam e recolheriam todas as “armas pessoais”, e somente após uma comissão de investigação verificar que Gaza está completamente livre de quaisquer armas — um processo bastante complexo — Israel faria uma retirada limitada e “gradual” ao longo de um período indefinido até a “Linha Vermelha”, que ainda lhe manteria o controle de cerca de 38% de Gaza.

A remoção de escombros e a reconstrução, segundo a proposta de Mladenov, só começariam no dia 251. A partir desse dia, Israel começaria a se retirar em direção a um “perímetro de segurança” que lhe manteria o controle de 20% de Gaza, incluindo grande parte das terras agrícolas do enclave. Israel permaneceria lá indefinidamente até que “Gaza esteja devidamente segura contra qualquer ressurgimento da ameaça terrorista”, uma frase indefinida que poderia incluir a “desradicalização” como pré-requisito.

 

Uma fórmula para o controle permanente

As facções palestinas ficaram indignadas com a proposta de Mladenov. Algumas disseram aos mediadores que preferiam não negociar com ele em futuras conversas, argumentando que ele estava “ultrapassando os limites” de seu papel como coordenador entre o NCAG e o Conselho de Paz, segundo uma fonte do Hamas. Em uma publicação no X, o alto funcionário do Hamas, Basem Naim, descreveu Mladenov como “mais realista que o rei” (referindo-se ao fato de ele ter adotado completamente a posição de Israel) e o acusou de “querer atingir seus próprios objetivos às custas do nosso povo e de seus direitos legítimos, para agradar aos americanos e israelenses”.

 

 

 

Armadilhas do desarmamento

 

Dois líderes do Hamas, que falaram sob condição de anonimato, me disseram que consideram essa proposta “catastrófica” e uma manobra de Netanyahu para retomar a guerra ou manter Gaza sob impasse. Assim, após receber uma prorrogação do ultimato inicial de uma semana, o Hamas apresentou sua resposta a Mladenov em meados de abril: antes de qualquer passo em direção ao desarmamento, Israel deve primeiro cumprir todas as suas obrigações da primeira fase do acordo de cessar-fogo.

O Hamas e outras facções palestinas alegam que, se concordassem com o plano de Mladenov, simplesmente facilitariam o plano de Israel de completar seu genocídio. Incluir fuzis na primeira fase do desarmamento significa que as facções palestinas seriam incapazes de organizar qualquer insurgência ou resistência; como um líder do Hamas me disse: “Se Netanyahu mudar de ideia amanhã por causa das eleições [próximas] e decidir expulsar as Forças Internacionais de Estabilização e retomar Gaza, ele poderá fazê-lo em menos de 10 minutos”.

As facções palestinas também acreditam que desarmar Gaza enquanto as forças israelenses ainda ocupam grandes partes da Faixa incentivaria ainda mais o movimento de colonos israelenses e o governo de extrema-direita a começar a construir assentamentos nas áreas controladas pelos militares. Colonos armados poderiam então invadir qualquer parte de Gaza e lançar pogroms, como fazem quase diariamente na Cisjordânia.

Igualmente preocupante para as facções palestinas é o fato de o plano de Mladenov conceder o monopólio da violência em Gaza ao NCAG, em vez da Autoridade Palestina (AP) ou da Organização pela Libertação da Palestina (OLP). Isso significa que as forças de segurança no terreno responderiam a Mladenov e Trump, e não a qualquer órgão palestino.

O Reino Unido, o Egito e a Arábia Saudita têm pressionado para que o modelo da Irlanda do Norte seja a base para o descomissionamento — em vez do desarmamento propriamente dito — em Gaza. Lá, o descomissionamento significava que o Exército Republicano Irlandês (IRA) e a Força Voluntária do Ulster (UVF) não precisavam se render ou se desarmar como pré-requisito para a paz; em vez disso, eles guardavam suas armas em depósitos, seguindo uma política rigorosa de não usá-las ou exibi-las. As armas, então, serviam como garantia de que o Acordo da Sexta-Feira Santa de 1998 seria cumprido.

Por exemplo, em 2001, o IRA suspendeu seu processo de desarmamento, alegando que o governo britânico havia descumprido a promessa de retirar as tropas da Irlanda do Norte. O IRA só se desarmou em 2005 e a UVF em 2009.

Essa sequência foi, na verdade, fundamental para o sucesso do processo. Como enfatizou posteriormente o ex-presidente irlandês Bertie Ahern, que supervisionou o desarmamento do IRA, “o descomissionamento acabou sendo encarado não como uma condição prévia para a participação nas negociações, mas como um resultado necessário”.

O Hamas, assim como o IRA, considera seu armamento a única garantia da retirada israelense de Gaza. O grupo já concordou em guardar essas armas em depósitos e afirmou que as forças de segurança do NCAG podem atirar ou deter qualquer membro que use ou mesmo mostre uma arma em público. As armas permaneceriam guardadas por cinco a dez anos, ou mesmo indefinidamente, e seriam totalmente destruídas como resultado da paz, e não como condição prévia.

O Hamas provavelmente tentaria reter o máximo possível de seu arsenal para preservar sua influência, coesão interna e posição regional. Contudo, sob crescente pressão dos estados árabes e em meio à profunda impopularidade em Gaza, o governo local quase certamente aceitaria um modelo de descomissionamento semelhante ao da Irlanda do Norte como forma de contornar as exigências maximalistas de Israel por rendição total.

Netanyahu, porém, insiste que o desarmamento significa a entrega e destruição imediatas de 60.000 armas de fogo leves em Gaza.

Armadilhas do desarmamento

Os Emirados Árabes Unidos também têm pressionado pelo desarmamento total e completo de Gaza para garantir que o Hamas — que consideram um braço da Irmandade Muçulmana — não tenha chance de retomar ou permanecer no poder e para transformar o grupo em um exemplo de advertência para os defensores da resistência na região. Os emiratis também acreditam que isso representaria um golpe para o Eixo da Resistência do Irã.

Mas essa exigência é cínica. Se o Hamas a rejeitar, terá que assumir a culpa pelo destino sombrio de Gaza. Mesmo que o grupo a aceite, o processo de recolhimento de todas as armas leves em Gaza é complexo e quase impossível de verificar.

Diversas tribos e clãs estão armados, juntamente com várias facções menores e mais radicais que o Hamas. Além disso, durante o genocídio israelense, armas leves caíram nas mãos de criminosos, gangues ou indivíduos aleatórios em meio ao caos. Israel sempre pode alegar ter informações sobre uma célula armada remanescente ou sobre alguns AK-47 ainda não recolhidos, e usar isso como desculpa para manter sua ocupação de Gaza.

Nessa situação, Mladenov desempenha três funções. Além de seu cargo como Alto Representante, ele é pesquisador visitante no Washington Institute for Near East Policy, um think tank pró-Israel apoiado pelo AIPAC [organização de lobby israelense nos EUA]. Ele também é o diretor-geral da Academia Diplomática Anwar Gargash, nos Emirados Árabes Unidos.

Falando anonimamente, duas fontes próximas ao NCAG disseram ao +972 que Mladenov nomeou os comissários do NCAG como “contratados” da Academia Anwar Gargash, o que significa que eles recebem seus salários diretamente da instituição. Outra fonte próxima ao chefe do NCAG, Ali Shaath, afirmou que cada comissário recebe cerca de US$ 18.000 por mês como salário.

Apesar desse salário generoso, esses comissários são essencialmente um governo no exílio que opera apenas no papel. Mais de 100 dias após a criação do NCAG, eles permanecem no escuro até mesmo sobre os mínimos detalhes, como a localização de seus escritórios ou onde morariam e dormiriam caso cruzassem para Gaza. Sua legitimidade e popularidade nas ruas estão se esgotando rapidamente.

Enquanto isso, para os habitantes de Gaza, Israel e seus aliados transformaram o desarmamento em um pré-requisito para a sobrevivência, exigindo que eles entreguem sua única moeda de troca enquanto os tanques israelenses permanecem em seu território e seus drones sobrevoam a região. Este não é um caminho para a reconstrução; é uma armadilha disfarçada de linguagem diplomática, uma fórmula para a subjugação permanente, onde os palestinos precisam provar sua absoluta e verificável indefesa antes mesmo que Israel finja se retirar.

O sofrimento de Gaza não é moeda de troca; é um crime. E enquanto o mundo não o reconhecer como tal — sem pré-condições, sem ressalvas e sem antes pedir às vítimas que entreguem a última coisa que impede seu extermínio — Anas e sua família, e milhares como eles, permanecerão exatamente onde estão: presos sob um céu aberto, aguardando uma justiça que sabe seu endereço, mas se recusa a bater à porta.

Armadilhas do desarmamento

 

Muhammad Shehada é um escritor e analista político de Gaza, além de pesquisador visitante do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Traduzido de: https://www.972mag.com/gaza-disarmament-trap-israel-ceasefire/

 

As artes que ilustram o texto são da autoria de Tayseer Barakat (1959-).

43 COMENTÁRIOS

  1. Em 5 de Dezembro de 2023 foi publicado neste site um artigo, assinado pelo Passa Palavra, que começava assim (aqui):

    «Atualmente confrontam-se na Palestina dois fascismos.
    […]
    Na Palestina temos hoje de um lado o Hamas, uma organização internamente capitalista, defensora de um fascismo religioso. Do outro lado temos o governo do Estado de Israel, constituído por uma aliança da extrema-direita com dois partidos do fascismo religioso.
    Nesta situação, existem dois perigos simétricos.
    De um lado, há o perigo de confundir o Hamas com o povo palestino.
    […]
    Mas do outro lado há o perigo, amplamente demonstrado, de estabelecer a confusão entre o anti-sionismo e um anti-semitismo».

    E esse artigo do Passa Palavra terminou, alertando:

    «É contra estes dois perigos que temos de nos posicionar. É urgente defender o povo palestino contra a barbárie israelita, mas ao mesmo tempo desmistificar e atacar o Hamas.
    É urgente desmistificar as acusações de anti-semitismo dirigidas contra aqueles que se posicionam contra o nacionalismo sionista e contra o horrível massacre da população de Gaza.»

    Aliás, já em 19 de Outubro de 2023 o Passa Palavra escrevera (aqui): «Quando a perspectiva de luta entre povos passa a ser determinante nas análises esquerdistas, deve-se percebê-las como um eco das temáticas da direita, e esta troca de elementos caracteriza o fascismo». E depois de delinear a longa e quase secular tradição de fascismo em meios nacionalistas árabes, o Passa Palavra afirmara que o Hamas «é profundamente racista. Ou seja, não é anti-sionista, é anti-semita. O Hamas opta por um método de luta que expõe e sacrifica a população palestina». E logo em seguida concluíra: «Mas será que os recentes acontecimentos farão a esquerda desistir de quaisquer relativizações do fundamentalismo, em nome do anticolonialismo? O histórico recente e antigo não nos deixa otimistas».

    Perante o atropelo de notícias e traduções, seria conveniente que os leitores do Passa Palavra, e quem sabe se o próprio Passa Palavra, não se esquecessem da lição desses dois artigos.

  2. Ecce JB: curto e grosso. Ou seja: sucinto e percuciente.
    A quem interessar possa: JB é um dos nossos; em que
    pesem as divergências e, a fortiori, por elas.
    DIXIT!

  3. João, quando leio esse comentário reivindicando um internacionalismo proletário tão duro num contexto difícil como o genocídio de Gaza, e comparo com suas recentes intervenções sobre a invasão russa na Ucrânia, intuo que tem algo flagrantemente errado.

    “Uns abdicaram de tudo o que deveria caracterizar os anti-capitalistas, os outros abdicaram da realidade e vivem na nostalgia. Que caminho se abre então à extrema-esquerda, para além de repetir aquilo que deveria ser uma verdade óbvia — que qualquer país tem o direito de não ser invadido? O facto de esta questão permanecer sem resposta prática mostra, uma vez mais, até que ponto de irrelevância nós chegámos.” (Ucrânia – quase três anos depois, 2024)

    “Do mesmo modo, há uma extrema-esquerda que apoia Putin tanto directamente como indirectamente, na medida em que é contrária ao apoio à resistência da Ucrânia às tropas russas invasoras. Os exemplos são numerosos na Europa e pelo resto do mundo, nomeadamente no Brasil, e essa escória até se aproveita do espaço de comentários deste site.” (Comentário a Nem John Le Carré imaginaria, 2025 – neste caso, fico tentado a fazer o exercício de trocar Putin por Israel, Ucrânia por Palestina, russas por sionistas, comentários por publicações.)

  4. Caio,

    Os artigos que eu transcrevi, assinados pelo Passa Palavra, caracterizam o Hamas como um partido fascista e, por isto mesmo, um desses artigos afirma que «é urgente defender o povo palestino contra a barbárie israelita, mas ao mesmo tempo desmistificar e atacar o Hamas».

    O artigo e o comentário que você transcreve, assinados por mim, reiteram o direito de um país a não ser invadido por outro país, mas em lugar nenhum eu confundi Zelensky ou o Sluha Narodu com a resistência dos ucranianos à invasão russa.

    Peço-lhe que, se tiver tempo e paciência, leia um ensaio, O mito da culpabilidade alemã (aqui e as outras duas partes têm links), que publiquei no final de 2012. As atrocidades cometidas pelos Aliados durante a segunda guerra mundial não me levam a considerar o Führer como um símbolo do povo germânico nem as duas bombas atómicas lançadas pela aviação dos Estados Unidos sobre o Japão me levam a esquecer o fascismo nipónico. Do mesmo modo, o genocídio praticado pelo governo fascista de Israel sobre o povo de Gaza, e agora também da Cisjordânia, não me levam a esquecer o fascismo do Hamas nem a considerá-lo como símbolo do povo palestiniano. É esta a questão.

    Outra questão, a mais grave de todas, é a impotência da extrema-esquerda anticapitalista.

  5. Acho que o ponto positivo do artigo talvez seja lançar alguma luz sobre negociações de bastidores, mas o principal problema é que ele adota a perspectiva do Hamas e, portanto, obviamente não reconhece que o próprio Hamas vem usando a população de Gaza como escudo humano desde o início.

  6. Ia trazer o artigo de 2024, mas o Caio foi mais rápido.

    Trago contudo outro trecho, que talvez seja mais elucidativo:

    “Em França, num artigo célebre de Maio de 1939 Marcel Déat, que em breve haveria de chefiar um dos principais partidos fascistas do seu país, perguntava retoricamente se valeria a pena «morrer por Danzig», do mesmo modo que oito meses antes o semanário fascizante Gringoire proclamara a sua falta de vontade de «morrer pelos Sudetas», enquanto do outro lado do leque político o Partido Socialista Operário e Camponês, mobilizando a extrema-esquerda socialista, afirmara em Setembro de 1938 que «julgamos morrer pela pátria e em vez disso morremos pela Skoda». O terreno estava assim preparado para que nos primeiros dias da guerra o anarquista Louis Lecoin redigisse um abaixo-assinado intitulado Paz Imediata, apelando à deposição das armas pelos exércitos beligerantes, e subscrito também por outros anarquistas, como Henry Poulaille, por catorze sindicalistas, por Marceau Pivert, que era a personalidade mais destacada da extrema-esquerda socialista e mentor do Partido Socialista Operário e Camponês, e pela mesma grande figura do fascismo que há pouco mencionei, Marcel Déat, além de alguns personagens próximos de Gaston Bergery, promotor da constituição de um fascismo francês. Ao mesmo tempo, também o Partido Comunista Francês se opunha à guerra, devido ao pacto germano-soviético. O grande problema é que do lado do Terceiro Reich não havia uma posição similar e ninguém apelava para o pacifismo e a deserção.

    A mesma assimetria repete-se hoje na Ucrânia. Pelo menos 80.000 soldados abandonaram as unidades em que combatiam, mais de metade deles nos primeiros oito meses de 2024. Acresce que apesar das leis e das fiscalizações, além dos perigos do percurso, desde o começo da invasão russa mais de 44.000 ucranianos atravessaram ilegalmente a fronteira para fugir antecipadamente ao recrutamento militar. A estes números somam-se os 6,7 milhões de ucranianos refugiados no estrangeiro, entre os quais 1,5 milhões de homens em idade de servir no exército, uma situação que tende a ampliar-se porque, se nos primeiros oito meses de 2023 haviam emigrado do país 231.000 pessoas, emigraram 400.000 em igual período de 2024. Chegou-se a tal ponto que em Outubro de 2024 Zelensky decidiu criar um Ministério da Unidade, destinado a contrapor-se à propaganda russa e manter os emigrantes na esfera cultural e política do país, com o objectivo de que, terminada a guerra, vários milhões de emigrados regressem à Ucrânia. Talvez mais importante ainda seja o facto de as deserções beneficiarem de um respaldo popular porque, segundo uma sondagem de opinião recente, só menos de 30% dos ucranianos consideram a deserção como um acto vergonhoso. Mas o mesmo não se passa do lado russo, onde o aparelho repressivo é muitíssimo mais forte, a ponto de recorrer ao fuzilamento de desertores, e as fugas e deserções são pouco frequentes, contando-se pelas dezenas ou centenas.

    Ora, não é com palavras de ordem bem-intencionadas, mas fora do contexto, que se resolve a situação. Elas servem apenas para tranquilizar a consciência de quem as profere.”

    Em resumo, de nada adianta brandir uma classificação de “fascista” diante de um artigo que expõe o óbvio: a principal barreira concreta hoje à barbárie sionista em Gaza hoje são as armas do Hamas, do mesmo modo que a principal barreira à barbárie ruscista na Ucrânia são as armas do Estado ucraniano. Em um artigo que discute principalmente a questão das armas em Gaza, se perder a fazer classificações alertando a um perigo de revanchismo genocida é tão próximo da realidade quanto alertar sobre um perigo genocida quanto aos russófonos por parte do governo ucraniano (o qual já possuiu de fato extremistas nacionalistas compondo seu governo). Em resumo, não deixa de se aproximar sobre o que se diz sobre o desarmamento de ambos os lados na Ucrânia: alivia a consciência de quem escreve, mas pouco além disso…

  7. Fagner Henrique,

    O artigo não adota a perspectiva do Hamas. Adota a perspectiva de quem não quer ser exterminado. O final do artigo é claro nesse sentido, se precisasse de algo mais.
    O artigo trata do Hamas como de outros grupos armados em Gaza. Evidentemente como o Hamas é o mais forte no momento, as falas de seus quadros acabam sendo mais relevantes.
    O mais grave é você repetir a propaganda sionista de que o Hamas usa a população como escudo humano (e seria igual mesmo para um grupo armado de extrema-esquerda) . O que existem provas é de Israel usar os palestinos como escudo humano ( https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/israel-usou-palestinos-como-escudos-humanos-dizem-soldados-e-ex-detentos/ ).

    Isso é repetir propaganda do mais baixo nível diante dos fatos. E vamos a eles:
    1) Israel comete um genocídio como instrumento de limpeza étnica. Israel mira civis, busca aterrorizar a população e destruir toda vida possível em Gaza. Afirmar que Israel mata civis porque o Hamas “se esconde atrás da população” é negar o volume de evidências da intenção israelense e do genocídio como um todo. É dizer com Israel que os civis mortos são culpa do Hamas, um efeito colateral, quando se trata do genocídio mais documentado da história e transmitido ao vivo.
    2) O que você realmente quer dizer com escudo humano? Sinceramente, acho que você está repetindo propaganda sem nem saber o que significa. O fato de alvos militares de Israel estarem em meio à população civil de Tel Aviv, como a sede do Mossad, significa que Israel usa sua população como escudo humano? Ou que incontáveis batalhões militares no Brasil estão no meio de densas populações civis significa que o Brasil usa a população como escudo humano? Gaza é (ou era) o local com maior densidade demográfica no mundo, só para lembrar.
    3) Israel, seja em Gaza, seja no Líbano, seja no Irã, mata militares ou quem eles consideram como tal, quando estão em suas casas, com suas famílias, exterminando a família inteira. Crime de guerra. Essas pessoas assassinadas por Israel usam suas famílias como escudo humano? Imagina se fosse o contrário, se alguém bombardeasse as casas de soldados israelenses quando estivesse dormindo ou com suas famílias…
    4) Toda vítima, seja jornalista, médico, qualquer um, é descrito por Israel como sendo “Hamas”.
    5) Quantas vezes já foi desfeita a mentira de Israel que numa escola ou num hospital bombardeados havia túneis e coisa parecida? (https://www.aljazeera.com/news/2023/11/8/investigation-disproves-israel-claim-of-hamas-tunnel-under-gaza-hospital; https://www.middleeastmonitor.com/20250515-israel-falsely-claimed-gaza-hospital-had-tunnel-after-striking-it-israel-media-says/ )

    Incrível que diante de um genocídio e do nazismo da nossa geração, haja gente que se coloca na esquerda difundindo propaganda dos genocidas.

    A ideia de “escudo humano” quando aplicado a um grupo armado palestino existi9r em meio à população civil de uma pequena faixa de terra mais densamente povoada do mundo, em si já traz implícito que Israel tem alguma legitimidade de atacar e de que se trata de uma guerra e não de um genocídio. Pelo Direito Internacional uma população sob ocupação tem direito de recorrer à violência contra as forças ocupantes. Não existe direito de autodefesa quando se trata de forças de ocupação.

  8. É tudo muito bonito, mas falta-vos dizer explicitamente que o Hamas é um partido fascista, e deste modo deixarem patente a completa impotência da actual extrema-esquerda anticapitalista. É esta a questão.

  9. Leo Vinícius, por favor, vamos nos ater aos fatos.

    A guerra atual começou quando o Hamas cometeu um massacre que chocou toda a sociedade israelense e, inclusive, levou até a esquerda israelense a se tonar mais nacionalista e mais propensa a apoiar a guerra (https://www.aljazeera.com/features/2023/11/10/now-isnt-the-time-israels-left-conflicted-on-future-after-hamas-attack).

    E depois de cometer tal massacre, foram se proteger em túneis construídos no meio da população de Gaza.

    População esta que, diga-se de passagem, não apoiava o Hamas à véspera do ataque, segundo o “Palestine Report – Report 1: Domestic Balance of Power and Palestinian-Israeli Relations Before and After October 7th”:

    “On the eve of October the 7th war, Arab Barometer 8 in Palestine found the Palestinian domestic setting favoring nationalist groups, such as Fatah, in both the West Bank and the Gaza Strip. At the national level, in the West Bank and Gaza Strip combined, more than 2 in 5 favored the nationalists, such as Fatah and third parties, while only 1 in 5 favored Islamists, such as Hamas, and the rest disliked both. Even in the Gaza Strip, which is traditionally more religious and Islamist, support for Hamas was slightly higher than a quarter while support for nationalists stood at half. When looking at the findings of PSR’s earlier poll, conducted immediately before the AB poll, the trend in both areas, but more clearly in the Gaza Strip, was decidedly moving against Hamas.” (https://www.arabbarometer.org/wp-content/uploads/Arab-Barometer-PSR-Palestine-Report-Part-I-EN-.pdf)

    E o Hamas cometeu um massacre que sabia que resultaria num massacre ainda maior e muito mais brutal contra os palestinos, e escondeu-se no meio daquela população com reféns israelenses enquanto seu comandante, Yahya Sinwar, enviava memorandos dizendo que o “sacrifício” dos palestinos insuflaria uma revolta generalizada contra Israel (https://archive.ph/CAYGJ).

    Então a realidade não corresponde à versão de Leo Vinícius e do texto, de que as armas do Hamas são a última barreira contra o genocídio: foram essas armas, usadas por essas pessoas, que criaram a oportunidade que Israel esperava para poder cometer tal genocídio.

  10. Fagner Henrique,

    O seu discurso, por ser exatamente (eu disse exatamente) o mesmo da propaganda de Israel, não tem lastro nem na história e nem no Direito Internacional.

    Você trata como se houvesse dois povos vivendo normalmente quando de repente em 7 de outubro alguém inicia uma “guerra”. É impressionante. Gaza já tem sido reportada como um grande campo de concentração a céu aberto desde a década de 1950. E a situação piorou muito desde 2006.

    Segundo o seu “raciocínio” a-histórico, que é pura ideologia (encobrimento da realidade) dos opressores, foram os judeus que organizaram o levante do Gueto de Varsóvia que começaram o conflito com os nazistas. Não entendo como alguém que se quer de esquerda normaliza assim o status quo, a ocupação, o apartheid, o colonialismo de povoamento, as formas mais bárbaras de opressão

    Fora isso, nem o texto e nem meu comentário estão discutindo politicamente o Hamas e nem a pertinência ou impertinência de suas ações. Tem uma população submetida a limpeza étnica e genocídio há 80 anos, décadas antes de existir Hamas. É uma pena que hoje os grupos mais organizados de resistência palestina sejam religiosos, e não de esquerda, como já foi no passado. Mas isso não muda uma vírgula do colonialismo, apartheid e genocídio que os palestinos vivem e do seu direito de resistir.

    O seu pensamento está no mesmo nível dos sionistas hardline a ponto de ler um texto publicado na revista +972 (uma revista israelense) e enxergar nele um texto “da perspectiva do Hamas”! Isso é muito parecido com o que uma advogada supremacista judaica britânica disse num debate esta semana sobre a revista The Economist: que ela faz parte da máquina de propaganda do Hamas.

    E a propósito, ia esquecendo… Na Cisjordânia, onde não existe Hamas, a barbárie sionista é cotidiana também. E ai dos palestinos na Cisjordânia se começaram a resistir usando armas, não faltará gente também na esquerda (embora bem minoritários) a condenar e a dizer que foi o grupo armado palestino X, Y ou Z o responsável pelo “conflito”. A menos, talvez, é claro, que esse grupo palestino X,Y ou Z por algum motivo reze na cartilha do comentador da internet.

  11. Fagner Enrique podia ser mais honesto e se ater aos fatos: a operação do Hamas em Outubro de 2023 é na verdade um desagravo à invasão provocativa que o regime sionista realizou na Mesquita de Al-Aqsa semanas antes. Inclusive, o nome da operação foi esse, Inundação de Al-Aqsa (a mídia brasileira não o repercutiu muito, porque será?). A invasão sionista de setembro de 23 é importante lembrar aconteceu simultaneamente a um crescente movimento na sociedade israelense contra Netanyahu e serviu para desviar a atenção para o conflito étnico. O fato de Fagner situar o início do conflito mais recente em Outubro de 23, e não em Setembro de 23, já é bem indicativo do quão deslocado da realidade está o mesmo. É até mesmo pior que colocar o início do conflito de 2022 na Ucrânia em 2022, e não na invasão da Crimeia pela Rússia.

    Aliás, a memória nos trai: embora em Setembro de 2023 o estado de israel e colonos tenham de fato invadido Al-Aqsa, a mesquita vinha sendo alvo de assédio e invasão desde Abril deste ano. Os fatos de Setembro estão nesse contexto maior – nos atentemos aos fatos.

  12. Leo Vinícius e L de SP querem regredir a linha do tempo até onde convém, mas fatos são fatos.

    A atual guerra começou com o massacre cometido pelo Hamas, que, a propósito, já estava sendo planejado com muitos anos de antecedência. Mas Leo Vinícius e L de SP resolveram silenciar sobre essa parte.

    A propósito, em momento algum eu neguei o apartheid, a colonização, a limpeza étnica e todas as outras atrocidades cometidas por Israel, que já existiam muito antes do ataque do Hamas, algumas situadas temporalmente na véspera do massacre. Mas esperar o que de tais comentadores? É só a habitual má-fé.

    Ocorre que, novamente, o ataque já vinha sendo planejado há anos, na perspectiva de provocar uma reação violenta de Israel e, assim, despertar os palestinos para um levante generalizado. Sobre isso, silenciam, e pretendem agora que as armas do Hamas são justamente aquilo que protege os palestinos do extermínio completo. E ainda falam em conexão com a realidade.

    Chegam ao nível de comparar o levante do Gueto de Varsóvia com o massacre cometido pelo Hamas. Deu vergonha alheia aqui.

    Termino minha intervenção apenas chamando a atenção para um fato: essa regressão na linha do tempo, até onde convém, para justificar o injustificável, faria com que, no passado, Leo Vinícius e L de SP justificassem a agressão alemã que iniciou a Segunda Guerra Mundial, afinal os alemães eram um povo oprimido pelas potências vencedoras da Primeira Guerra e humilhado pelo Tratado de Versalhes.

    Talvez Leo Vinícius e L de SP não saibam o que isso diz sobre eles…

  13. Fagner Enrique quer se ater aos fatos, mas diz que as incursões de Outubro de 2023 foram planejadas com “muitos anos” (!) de antecedência. Diz isso e joga ao vento, sem provar o que diz. Talvez estejamos vendo o início da redação dos Protocolos dos Sábios do Antisião. Logo menos, Fagner vai repetir a propaganda israelense dizendo que milhares de bebês foram mortos…

    Não gosto de fazer paralelos com a história de outros momentos para entender a realidade atual (os paralelos com a Ucrânia são melhores porque estamos tratando do mesmo contexto mundial), mas se formos aprofundar a comparação com a Segunda Guerra Mundial, o texto de Fagner é frágil demais – digna de pena, na realidade.

    A Alemanha era (e é) um Estado capitalista central à época da invasão da Polônia, com pretensões revisionistas quanto à organização mundial (revisionista tal e qual a extrema direita israelense hoje hegemônica, que não aceita os poucos freios que a ordem internacional impõe ao apartheid israelense). Nem o mais desavergonhado supremacista judaico alega que existe um Estado palestino – quanto mais um Estado com papel capitalista central.

    A agressão nazista se deu contra um outro Estado fascista, o governo de Pilsuzki. Talvez Fagner, àquela altura, se dispusesse a defender que o Estado e a população polonesa não tivesse nem mesmo o direito de responder com nenhum tipo de ação contra as ações alemãs, já que se tratava de uma política conduzida por um Estado fascista. Quem sabe, talvez Fagner estivesse àquela altura dizendo que o Estado polonês devia ser condenado, já que ele possuir armas e não aceitar ceder territórios ao Estado alemão foi o estopim da agressão. Talvez ele chegasse mesmo a dizer que treinamentos de invasão do território alemão por parte do fascismo polonês fossem indícios de uma política genocida anti-alemã (!) – ignorando a completa disparidade de forças. Possivelmente, ele defenderia o desarmamento dos vários grupos católicos, monarquistas, anticomunistas e nacionalistas poloneses contra os alemães (os quais estabeleceram contatos com as organizações do revisionismo judaico que compuseram o Levante de Varsóvia, como a União Militar Judaica – composta inclusive por ex-oficiais judeus do regime fascista de Pilsudzki) e se descabelasse diante do fato de que eles planejassem atacar, Ó MEU DEUS, as residências familiares de oficiais nazistas da ocupação. Quem sabe, assim, ele aliviasse a própria consciência, como aqueles que defendem em abstrato a rendição em massa de ambos os lados na Guerra da Ucrânia, mas pouco mais do que isso.

    Saindo dos paralelos e abordando a má-fé habitual dos propagandistas do sionismo, nem eu e, acredito, nem Leo V defendemos o Hamas em abstrato (aliás, sobre má-fé, o mesmo imputou a mim um paralelo que não havia feito até então com o Levante de Varsóvia, quem tem olhos que veja). Mas hoje é o que existe de mínimo para barreira contra o genocídio sionista. Estrategicamente, acredito que o Outubro de 2023 foi um erro estratégico, mais um dos vários que o Hamas já cometeu – entre eles, um dos erros foi mirar frações da sociedade israelense que possivelmente tensionariam o Apartheid por dentro. Isso, contudo, não é uma questão de aliviar a própria consciência…

  14. L de SP escreve: «[…] nem eu e, acredito, nem Leo V defendemos o Hamas em abstrato […]. Mas hoje é o que existe de mínimo para barreira contra o genocídio sionista». Ou seja, L de SP defende — em concreto… — um fascismo contra outro fascismo. A isto chegámos! No entanto, há não muito tempo havia um marxismo vigoroso no mundo árabe (ou muçulmano) e nomeadamente na Palestina. Como escrevi no meu comentário precedente, a incapacidade de dizer explicitamente que o Hamas é um partido fascista mostra a completa impotência da actual extrema-esquerda anticapitalista. Para mim, é esta a questão.

  15. Peço licença para o Fagner, o Leo Vinícius e L de SP, cuja discussão já enveredou noutra direção, para retomar o ponto que levantei inicialmente para o João Bernardo.

    João, antes de nada, entendo as diferenças de autoria: se confrontei artigos seus a textos coletivos do Passa Palavra foi porque entendi que você concordava com as posições dos trechos que citou aqui. E, como escrevi no meu comentário anterior, a coisa toda me deixa com uma pulga atrás da orelha, pois vejo dois pesos e duas medidas na sua visão.

    Estou de acordo que não devemos confundir os governantes com as pessoas que vivem sob seu governo, tampouco pintar de rosa qualquer opressor que enfrente um inimigo maior. O ponto de partida mais profundo aqui, o qual devo a textos mais antigos do próprio João Bernardo, é que não podemos confundir a luta de classes pela disputa geopolítica entre Estados ou pelo conflito entre nações. Portanto, a linha que devemos traçar para ler o mundo atravessa internamente os países e transcende as fronteiras nacionais: é a linha que divide as classes.

    São confusões desse tipo, contudo, que enxergo aqui. Elas se mostram primeiro nas ênfases. Na situação da Palestina, você cita o Passa Palavra: “existem dois perigos simétricos”, pois confrontam-se dois fascismos religiosos, e “é contra estes dois perigos que temos de nos posicionar”: “defender o povo palestino contra a barbárie israelita, mas ao mesmo tempo desmistificar e atacar o Hamas”. Diante da situação na Ucrânia, esse tipo de simetria desaparece da análise. É o direito dos Estados que vem em primeiro lugar, ou seja, “o direito de um país a não ser invadido por outro país” (por que não repetir isso “que deveria ser uma verdade óbvia” no caso da Palestina?). Ao enfatizar o direito dos Estados (ou dos povos, se preferir), somem as classes: fala-se em “resistência dos ucranianos [ou pior: da Ucrânia] às tropas russas invasoras”. A extrema-esquerda que critica esses termos é uma “escória”, pois apoiaria Putin indiretamente. Diante do genocídio em Gaza, poderíamos dizer que a posição dos editoriais do Passa Palavra, que enche de ressalvas o esforço de guerra da resistência palestina, seria expressão de uma “escória” que indiretamente colabora com a ocupação de Israel?

    Pondo a questão em termos nacionais, como traçar uma linha clara de divisão com Zelensky ou o Sluha Narodu? Sequer faz sentido, afinal quem organiza hoje a luta contra a Rússia na Ucrânia senão o próprio Estado ucraniano? Da mesma forma, argumentam os defensores deste artigo, o que podemos fazer se é o Hamas que se destaca hoje entre os grupos armados na Palestina? A confusão está justamente em abordar o problema em termos nacionais, não em termos de classe.

    João, tentando entender o que tem de fundo nas duas medidas diferentes da sua posição, me parece que talvez você considere Putin como um mal maior que Zelensky e a OTAN, ao contrário da simetria feita entre Israel e Hamas. Talvez tenha a ver com a classificação que quem é ou não fascista nesse cenário, e o entendimento de que o fascismo é um inimigo primordial que se sobrepõe à própria luta de classes.

  16. Acredito que o Caio, com precisão, apontou o viés de JB. Os comentários deste último me lembram a esquerda putinista, que ao ver a oposição à invasão russa gritava que estávamos defendendo fascistas.

    Apenas pontuo e questiono o seguinte: acaso o João Bernardo defendeu ou acharia razoável que a esquerda defendesse que o Azov abrisse mão de suas armas em Mariupol (já que o debate aqui é sobre desarmamento, e não sobre classificações políticas)? Aguardo a resposta para uma situação concreta.

  17. Caio,

    Formulada tal como você a formulou, não posso responder à sua pergunta, porque não sei. Eu gastei as quatrocentas e tantas páginas do terceiro volume de Labirintos do Fascismo, na edição Hedra, a percorrer as circunvoluções entre o nacional e o social, e se não consegui encontrar uma saída prática para os pressupostos teóricos internacionalistas de que partia, foi porque essa saída não existiu. A primeira guerra mundial foi o único grande episódico histórico em que a classe trabalhadora actuou sociológica e politicamente como classe no conjunto dos países onde existia então um capitalismo desenvolvido. Depois, isso nunca mais sucedeu. A situação é pior ainda agora, se eu tiver razão quando afirmo que a classe trabalhadora, que existe como entidade económica enquanto produtora de mais-valia, não existe como classe no plano sociológico e, portanto, também não no plano político. Você termina detectando nas minhas posições políticas «o entendimento de que o fascismo é um inimigo primordial que se sobrepõe à própria luta de classes». Será isso exacto? Terei eu uma posição tão clara a esse respeito? Não sei. O que vejo na prática é que desde o período entre as duas guerras mundiais e ao longo de todo o pós-guerra, sem excepção, as lutas contra o fascismo têm-se sobreposto à luta de classes. Mas no caso do massacre da população palestiniana, em Gaza e agora também na Cisjordânia, a situação é muito diferente, porque o confronto ocorre entre um partido fascista, o Hamas, e um governo israelita cuja orientação é ditada por dois partidos fascistas. E o facto de o Hamas, como você escreve, se destacar hoje entre os grupos armados na Palestina só torna mais grave a situação e mais ainda deveria priorizar a denúncia do carácter fascista do Hamas, ao mesmo tempo que denunciamos o genocídio praticado pelo Estado de Israel. Repito que a incapacidade de dizer explicitamente que o Hamas é um partido fascista mostra a impotência da actual extrema-esquerda anticapitalista, que aceita delegar numa organização fascista a condução de uma luta que ela própria é incapaz de orientar. É sobretudo isto que para mim está em causa.

  18. João Bernardo, Caio, Leo Vinícius, L de SP – todos vocês tocaram num ponto que me dói também. A impotência da esquerda anticapitalista diante do genocídio é real. E a pergunta de JB – “por que não se diz explicitamente que o Hamas é fascista?” – não é menor. Ela é uma questão legítima.

    Mas permitam-me uma provocação, não para encerrar o debate, mas para tentar abrir uma fenda:

    Suponhamos que amanhã caia um comunicado do Hamas dizendo: “Sim, somos fascistas. Assumimos.” O que mudaria na situação em Gaza? Israel retiraria os tanques? Pararia de bombardear hospitais? Deixaria de usar a fome como arma?

    Se a resposta for não – e é não – então talvez o problema não seja a “incapacidade de nomear”. É que a nomeação, sozinha, não interrompe o genocídio.

    Isso não significa que nomear seja inútil. Significa que a nomeação, quando vira pré-condição para a ação, pode se tornar uma armadilha. O próprio JB, com honestidade, admitiu: “Gastei 400 páginas e não encontrei saída prática.” Pois bem. Talvez a saída não esteja na classificação correta, mas na ação que não precisa de pureza.

    O que fazer, então, sem capitular ao fascismo do Hamas?

    • Denunciar o genocídio e, no mesmo movimento, denunciar o caráter autoritário e reacionário do Hamas (como o Passa Palavra fez em dezembro de 2023).

    • Apoiar a resistência palestina onde ela for anticapitalista, laica e democrática – e, onde ela não for, não deixar de apoiar o direito de resistir, mas sem defender quem não se deve defender (o Hamas).

    • Construir solidariedade que não precise fingir que o Hamas é uma vanguarda revolucionária, nem se recusar a agir porque ele não o é.

    A pergunta que o debate sobre Gaza nos coloca não é “o Hamas é fascista?”.
    É: como ser internacionalista num mundo onde a única resistência organizada contra um genocídio é, ela mesma, autoritária e reacionária?

    Não tenho resposta pronta. Mas acho que o primeiro passo é parar de se enfrentar como se o outro fosse o inimigo. JB não é cúmplice do genocídio por querer nomear o fascismo. Leo e L de SP não são cúmplices do fascismo por quererem barrar o extermínio.

    A esquerda é impotente, sim. Mas não por falta de classificações. É por falta de organização material na Palestina – e por falta de capacidade de construir uma alternativa à resistência do Hamas. Essa é a verdadeira ferida. Nomeá-la dói mais do que nomear o Hamas.

    Talvez a linha de fuga esteja em reconhecer a tragédia: temos que agir com o que existe, sem deixar de denunciar o que ele tem de podre. E processar essa contradição sem nos matarmos entre nós.

  19. A impotência da “extrema-esquerda” se torna mais latente quando ao se deparar com sua impotência abandona seus princípios para a defesa do mal menor; quando sucumbe a defesa e tomada de lado nos nacionalismos que se aprofundam cada vez mais conforme as condições de generalização da barbárie se acentuam. Interessante notar que o Passa Palavra tem um ponto do não compartilhamento de textos nacionalistas, mas o que temos vistos nos ultimos anos aqui são chuva de nacionalismos em todos os aspectos, seja nos artigos publicados, seja nos ataques à “escória” daqueles militantes que se negam a se dobrar perante as exigências de sacrifício para a burguesia e os gestores de seus países e optam pela deserção. Quem diria que além de serem chamados de escória em sua própria terra pelos nacionalistas, são também chamados assim por anti-capitalistas. Não teríamos aqui um curioso caso de “cruzamento entre a esquerda e a direita”?
    A impotência da extrema-esquerda se apresenta aqui também, no Passa Palavra, em um momento em que ir contra a maré é tão necessário, mas o que a gente vê por aqui é só mais do mesmo, a mesma papagaiada e as mesmas posições rebaixadissimas da esquerda do capital. Aí está o anti-fascismo, deliciosamente inofensivo para o capital, e que agora se desdobra para o debate de qual antifascismo nacional é mais antifascista.
    Pelo visto nos próximos meses veremos aqui no Passa Palavra um artigo em defesa do voto no Lula para “derrotar a extrema direita”. E quem ousar não tomar um lado (o de Lula, claro) e se abster estará contribuindo com o fascismo e deverá ser tratado como tal – como escória. Talvez no reforço do nosso nacionalismo a gente consiga afinal superar os conflitos da defesa dos nacionalismos alheios que vem se apresentando por aqui e fazer as pazes. E viva o anti-fascismo!

  20. Insignificante,
    Não foi você que declarou o fechamento do Passa Palavra há alguns dias e se despediu? Agora está aqui de novo “cantando de galo”? Aprenda a ler os argumentos antes de vir cacarejar.

    E mesmo depois da tentativa de golpe de Estado que o Brasil sofreu em 2022 você acha que Lula e Flávio Bolsonaro são a mesma coisa para a classe trabalhadora? Já sei, talvez seja da turminha que acha que não houve tentativa e que na verdade o golpe foi do supremo, a autointitulada “esquerda 17” — referência à legenda do Bolsonaro em 2018. Só nos resta rir mesmo.

  21. Significado,
    Não, não fui eu. Pelo visto há vários insignificantes por aqui, e suas críticas foram dirigidas para outro. Não acho que todo governo é igual, mas também não acho que nenhum deles representa qualquer avanço para a classe trabalhadora. Ao contrário de você, que pelo argumento parece depositar nos governos progressistas qualquer perspectiva de superação, eu acredito que é a auto-atividade da própria classe trabalhadora que oferece as condições para essa superação, e não deposito fé em nenhum governo, seja de direta ou de esquerda. E me espanta ter que dizer o óbvio aqui no Passa Palavra, que sempre defendeu isso. Mas talvez o óbvio não seja mais tão óbvio assim. E viva a conciliação!

  22. A auto-atividade do blablablá fala mais alto para o Insignificante. Um lado tentou implantar uma ditadura no Brasil em 2022 e matou centenas de milhares na pandemia, o outro é apenas um governo progressista comum. Isso é mentira? Mas, para ele, é um crime votar no segundo e declarar apoio crítico diante das circunstâncias. Pensa que, ficando indiferente, não vai encarar as consequências de uma volta dos Bolsonaro ao poder, ainda mais com Trump na presidência dos EUA. São essas pessoas que pretendem organizar a classe trabalhadora no Brasil e tentam mostrar a si mesmos como bastiões da “moral proletária”. Infelizmente aqui está cheio de generais sem exército que só fazem aumentar o problema…

  23. “Tudo isso deveria estar sendo examinado pela esquerda, que, em vez disso, se compraz com as gafes dos advogados que defendem os réus do 8 de janeiro e comemora as condenações. Mas o que esperar de uma esquerda cujo único grande projeto nos últimos anos, desde a chegada de Bolsonaro ao poder, foi reconduzir Lula — e seu ideal de pacto conservador — à presidência?” – https://passapalavra.info/2025/09/157626/

    “Mas e então, o que fazer? Só há uma — somente uma — providência para o momento: parar de enaltecer o poder estatal desenfreado e a soberania nacional e tentar redescobrir os meios de lutar contra o capitalismo, de maneira independente, por fora do Estado, onde quer que isso seja possível. Mas para isso a esquerda vai precisar, pelo visto, resetar a si mesma e começar tudo de novo.” – https://passapalavra.info/2025/09/157626/

    Talvez seja necessário esperar as eleições para o reset.

  24. É lamentável que um debate a respeito do carácter fascista do Hamas e do massacre que sofre o povo palestiniano tenha sido reduzido às fronteiras do Brasil. Será que não conseguem olhar o mundo em redor? E a questão é que o Brasil está no mundo, não no Brasil.

  25. Fagner Henrique,

    O que você chama de “esticar a linha de tempo até onde convém” é simplesmente o básico para qualquer pessoa de esquerda, ou socialista, ou que tenha a perspectiva dos oprimidos e explorados: trazer o contexto social.

    Você, como todo sionista quer fazer de conta que não existe apartheid, ocupação, colonialismo de povoamento, pogroms etc. na Palestina por parte de Israel, e nem que o Estado de Israel foi fundado e permanece existindo sobre essa violência.

    Realmente, para você como para todo sionista, é necessário que não haja história antes de 7 de outubro de 2023 e, aliás, nem depois.

    É tão contraditória sua posição, de focar em chamar o Hamas de fascista (que seja, essa não é a discussão), mas normalizar todo o fascismo sionista que chegou ao ponto do genocídio, para além do apartheid, limpeza étnica e colonialismo de décadas.

    O que parece para quem lê esses comentário é que você tenta esconder uma defesa do colonialismo e da limpeza étnica dos supremacistas judaicos atrás de uma ojeriza ao Hamas. Fosse de outra forma como explicar sua reação enxergando “perspectiva do Hamas” num texto publicado por uma revista israelense não-sionista que simplesmente trata objetivamente o que está acontecendo nas negociações para desarmamento em Gaza e cumprimento do falso “cessar-fogo”? O texto tem a perspectiva de quem não quer que um povo continue vivendo situação de extermínio e privações. Se alguém não gosta da perspectiva de um texto desse é porque é a favor do extermínio. Embora se diga de esquerda, a prática é de extremíssima direita.

  26. O debate não tratava sobre o caráter fascista do Hamas. O tema do texto é o desarmamento dessa (e outras) organizações na Palestina. Ainda aguardo resposta ao meu paralelo e o amplio (já que me atribuíram o paralelo com o Levante do Gueto de Varsóvia: acaso alguém acharia minimamente razoável ficar indiferente ao (ou pior, defender o) desarmamento da União Militar Judaica, ZZM, uma organização do revisionismo sionista, durante o Levante de Gueto de Varsóvia? Alguém acharia razoável ficar em uma ladainha eterna pintando a organização como fascista perante o genocídio nazista, quando essa caracterização não é o cerne do debate? E olha que estamos falando de uma organização (ZZM) cuja filiação ao fascismo histórico é muito mais direta do que o Hamas.

  27. Quanto ao comentário anterior, em primeiro lugar o debate não é o artigo. O debate trava-se nos comentários, e fui eu quem o iniciou, precisamente ao contrapor o fascismo do Hamas ao fascismo hegemónico no governo israelita. Quanto ao ghetto de Varsóvia e à estreita colaboração dos sionistas com os nacionais-socialistas ao longo de todo o Terceiro Reich, sugiro que leiam o meu artigo De Perseguidores a Perseguidos: a lição do sionismo (aqui). Aliás, nesse artigo escrevi a certo passo: «Só depois de destruída a rede de repressão e de clientelismo que havia assegurado aos chefes sionistas o controlo do ghetto de Varsóvia é que a insurreição pôde deflagrar». É sempre aconselhável conhecer aquilo de que se fala, e quem pretender uma visão mais detalhada pode ler no Labirintos do Fascismo (edição Hedra) as págs. 231 a 326 do vol. IV. Finalmente, e já que num dos meus comentários anteriores destaquei o facto de organizações fascistas, como o Hamas, prosperarem agora no mundo árabe onde antes o marxismo dera mostras de enraizamento e vigor, aconselho a leitura de Louis Brehony e Tahrir Hamdi (orgs.) Ghassan Kanafani. Selected Political Writings, Londres: Pluto Press, 2024.

  28. João,
    é justamente pelo Brasil fazer parte do mundo que levantar a crítica a política do medo se faz tão necessário. Ou será que o desdobramento dos nacionalismos que temos visto por aqui não tem relação nenhuma com as posições adotadas a respeito dos conflitos em outras partes do mundo? Está muito claro que o campismo que vem sendo adotado de forma cada vez mais forte e radical é um sintoma da decadência e insignificância dos anticapitalistas, como você bem pontua a muito tempo. Eu só não acredito que temos que ter dois pesos e duas medidas. Acredito que os anticapitalistas devem dizer o que só eles podem dizer (como veio fazendo o Passa Palavra desde seu surgimento), e condenar a adesão crítica ou acrítica a qualquer um dos lados do capital. Condenar com a mesma firmeza que se condena o Hamas e Israel a Ucrânia e a Russia, o petismo e o bolsonarismo, e tentar encontrar nos movimentos reais da classe em luta um horizonte que esteja a altura das transformações tão necessárias. Não é tarefa fácil, eu concordo. Mas ao meu ver é tarefa urgente.

  29. Sim, o debate trava-se também (mas não somente) nos comentários, e foi especificamente nesta seção que o debate sobre o desarmamento, tema central debatido no texto, desviou-se para debater o caráter do Hamas. O Caio tentou recolocar a questão da defesa em uma situação de genocídio (ao menos entendi assim), mas novamente a questão foi ignorada e resvalada para a caracterização do Hamas. Talvez para tranquilizar a consciência de quem escreve…

    Sobre a aparente confusão e identificação que JB tenta fazer, colocando todos os sionistas em um saco só, é importante diferenciar o Judenrat, que possuía reconhecimento institucional e operava administrando em conjunto com a ocupação nazista o Gueto, da organização política ligada ao sionismo revisionista ZZW. São duas organizações distintas, uma administrativa e outra ligada à política armada (e de ligação histórica mais diretamente fascista do que o Hamas), e tentar confundi-las ao leitor é inadequado (sendo gentil), talvez tentando desviar o assunto do paralelo proposto (dos dois, que seguem sem resposta).

  30. L de SP,

    fiquei com a impressão de que o argumento de Caio não foi simplesmente o de “recolocar a questão da defesa em uma situação de genocídio”, mas o de apontar a contradição de João Bernardo sobre o tratamento dado ao conflito Israel-Palestina e Rússia-Ucrânia. No primeiro caso, João parece adotar uma posição internacionalista, de crítica contundente aos dois lados, nacionalistas, como danosos. Já no caso Rússia-Ucrânia, João adota uma posição nacionalista de defesa da Ucrânia, chegando ao ponto de caracterizar os ucranianos que se colocam contra a guerra e defendem a deserção como “escória”, como “fazendo o jogo da Rússia e de Putin”.

    A partir daí se podem derivar duas perspectivas: que se aplique a lógica adotada em relação a Rússia-Ucrânia na questão Israel-Palestina, e aí se tome o lado da Palestina e dos palestinos, como povo agredido; ou que se aplique a lógica utilizada em relação a Israel-Palestina ao caso Rússia-Ucrânia, e daí a defesa de que ambos os lados representam interesses distintos de suas próprias burguesias e gestores, mas não os da classe trabalhadora. Mas talvez o caso seja mais profundo, como bem pontuou Caio, e não se trate de uma contradição entre internacionalismo e nacionalismo, mas da própria classificação do fascismo como a contradição primordial a ser enfrentada, e daí a questão de classe é secundarizada frente ao inimigo mais importante — não a burguesia e o capital, mas os fascistas.

  31. É conveniente ler o que eu escrevo e não o que outras pessoas dizem que eu escrevi. Eu classifiquei como «escória» não os ucranianos que fogem da guerra, mas uma certa esquerda que noutros países, incluindo o Brasil, defende Putin.

    Quanto à deserção na guerra resultante da invasão russa da Ucrânia, o problema surge devido a uma completa assimetria. Do lado ucraniano regista-se um forte movimento de deserção ou, pelo menos, de relutância em se integrar no exército. Mas isso não acontece do lado russo. Ora, para que um movimento de deserção seja eficaz é necessário que ocorra em ambos os lados, como sucedeu durante a primeira guerra mundial. A deserção será totalmente ineficaz se ocorrer apenas num dos lados. Tratei deste assunto em alguns artigos no Passa Palavra e detalhadamente no Labirintos do Fascismo.

    Quanto à minha resposta ao Caio, o que eu lá escrevi é exactamente o que quis escrever.

  32. O artigo já recebeu, até o momento 31 comentários. Há desejo de interação, seja com o próprio texto ou com outros participantes.
    Todavia, a qualidade da interação é baixa. Por quê?

    A primeira constatação é que o tema principal colocado pelo artigo mal foi encaminhado nos comentários. Qual seja: o Hamas se desarmar seria cair numa armadilha?

    Trata-se de uma questão clara e objetiva a partir da situação concreta de um genocídio em curso. Ainda assim não foi prioridade para os participantes.

    Logo no primeiro comentário, João Bernardo (JB) faz um balizamento necessário – mesmo se fora do ponto central do desarmamento.

    1. Defesa da população palestina contra o genocídio promovido pelos sionistas.
    2. Apontar o Hamas como um organização fascista.
    3. Distinção entre anti-sionismo e anti-semitismo.

    Em seguida um outro eixo é por ele acrescentado:

    4 A impotência da extrema-esquerda anticapitalista.

    A causa óbvia, embora quase sempre recusada, da baixa qualidade da interação é o colossal bloqueio quanto ao diálogo.

    “O diálogo não é a conversa entre iguais, mas sim a conversa real e concreta entre diferenças que evoluem na busca do conhecimento e da ação que dele deriva. Diálogo é criação.”

    Precisamos com urgência reaprender a dialogar, inclusive com nós mesmos. E nisto também já temos o principal motivo da impotência da extrema-esquerda anticapitalista: sua aversão ao diálogo.

    No ambiente rarefeito dos grupos de extrema-esquerda várias outras patologias proliferam: descolamento da prática, sectarismo, centralismo, autoritarismo, autofagia, síndrome da liderança máxima…

    De um modo geral, o Desejo é processado nestas plataformas num regime paranóico-fascista.

    Ou seja: esses coletivos não trazem em si relações sociais antecipadoras do mundo que pretendem gerar. Muito pelo contrário…

    Quanto ao tema artigo e os eixos propostos:

    • A exigência quanto ao desarmamento do Hamas é sim uma armadilha. E quanto a esta questão prática de uma situação concreta, o Hamas ser fascista não tem qualquer peso. Entretanto, cabe compreender o processo político e histórico de consolidação do Hamas como principal força de resistência palestina.

    Corolário: A resistência ao neo-colonialismo exige dispor de armas.

    • A impotência não é só da extrema-esquerda anticapitalista, mas de todo o espectro político. A população palestina está absolutamente abandonada. O isolamento imposto pelo sionismo é tão feroz a ponto de iniciativas quase simbólicas – como a flotilha de solidariedade – serem reprimidas com o mesmo tipo (embora ainda não no mesmo nível) de brutalidade imposta na Palestina.

    Corolário: Para o sionismo somos todos palestinos. A solidariedade é condição de sobrevivência comum.

    • Todo debate, e toda produção de conhecimento, ao se conceberem como transformadores do mundo (portanto, voltados não apenas para compreendê-lo) deve se articular visceralmente com algum tipo de ação prática. Nomear o Hamas como fascista (o que de fato ele é) em nada altera a situação concreta dos condenados da terra na Palestina. E tampouco a nossa própria.

    Corolário: Pensar globalmente e agir localmente não é um slogan sedutor, mas um modo de viver.

    • Distinguir entre anti-sionismo e anti-semitismo é insuficiente. Precisamos da ousadia exigida por nossa época. O sionismo, e todas as formas de fascismo e supremacismo, tem uma origem comum: o excepcionalismo humano. Somos um eco-sistema, composto por eco-sistemas menores e integrado a eco-sistemas maiores. De cada 10 células do que denominamos como “meu corpo” apenas uma única é humana. As outras são de micro-organismos sem a presença dos quais não ficaríamos.

    Corolário: A era do Homem, como construção histórica chegou ao fim. Como na orla do mar um rosto riscado na areia, o Homem desaparecerá. As consequências políticas chegam a ser impensáveis.

  33. arkx-Brasil, seu comentário é dos poucos que não se limita a repetir uma das trincheiras. A parte final – sobre o excepcionalismo humano e o ecossistema – é uma linha de fuga genuína. Conecta Gaza à crise civilizacional sem perder o chão do genocídio. Isso é raro.

    Mas permita uma pergunta: você diz que nomear o Hamas de fascista é insuficiente e que o desarmamento é uma armadilha. E também que a extrema-esquerda não dialoga, que é sectária e autofágica. Até aí, muitos concordariam.

    A questão é: como, na prática, fazer essa “passagem” do diagnóstico à ação? Você oferece o “ecossistema” como chave. Mas de que forma a consciência de que somos 99,5% bactérias pode ajudar um palestino em Gaza a resistir ao desarmamento? Ou um jovem brasileiro a não cair no discurso que culpa o pobre pela “falta de trabalho”?

    Não é uma crítica. É um pedido de concretude. Porque a força do seu comentário está em apontar a falência da velha política; a fragilidade está em não esboçar um gesto – nem que seja pequeno – que aponte para onde ir.

    Se concordar, podemos, juntos, pensar nesse gesto. O fio já está cheio de acusações recíprocas. Que tal um experimento de processamento?

    Não para “vencer” a discussão, mas para sair do impasse.

    Patrícia Quintino

  34. Patrícia Quintino,

    > ” como, na prática, fazer essa “passagem” do diagnóstico à ação?”

    Você não apenas me faz a pergunta crucial, como (com elegância) coloca-me diante daquilo que eu mesmo escrevi: 《 … ao se conceber como transformador do mundo (portanto, voltado não apenas para compreendê-lo) deve se articular visceralmente com algum tipo de ação prática.》

    Premissa
    O genocídio em curso da população palestina (o qual se pode acompanhar on-line) é a prova incontestável não só da impotência da extrema-esquerda esquerda anticapitalista, como de todo o espectro político, de todas as organizações (governamentais ou não), de todos os governos, etc..etc… etc…

    Em suma: o genocídio na Palestina colocou a nu a impotência de todos nós, aqueles que não são, e não apoiam, o sionismo.

    Exemplos de ação prática em relação à Palestina:

    1. Trabalhou por alguns anos na assessoria de relações internacionais para uma rede de ONG palestina. O início do período coincide com o cerco a Arafat em Ramallah. Esteve presente no enterro do líder palestino. Contribuiu na articulação de uma candidatura laica, democrática e de viés socialista. O candidato recebeu cerca de 20% dos votos – uma façanha inacreditável. Até hoje tem sintomas de stress pós-traumático. Questiona-se: será que eu não deveria voltar para a linha de frente?

    2. Confecciona pequenas bandeiras da Palestina. Podem ser usadas presas à roupa, em bolsas, etc… Jâ distribuiu centenas delas em todo tipo de manifestações, atos e encontros. As pessoas que recebem, adoram. E sempre levam algumas outras para entregar aos amigos. Questiona-se: o que são estas gotículas frente ao horror em Gaza. Mas não desiste.

    3. Administra um canal do WhatsApp agregador de diversos grupos, possibilitando uma coordenação de informações, debates e propostas de atividades. Questiona-se: qual o impacto direto em Gaza de todo esse nosso esforço?

    Então, como, na prática, fazer essa “passagem” do diagnóstico à ação?

    Não existe resposta individual a essa pergunta. A resposta é obrigatoriamente uma construção coletiva.

    E não é, de modo algum, um processo fácil e rápido. Vem a ser uma jornada extremamente difícil, cheia de idas e vindas, de tropeços e derrotas, de recomeços e retomadas. Exige disciplina, inteligência, sensibilidade, despojamento.

    E também alegria. Mesmo em meio ao horror e o martírio. Pois a única arma capaz de derrotar a necropolítica é a biopotência.

    Morra a morte! Viva a Vida!

  35. De tudo o que li, destaco como bastante pertinentes as questões levantas pelo L de SP e uma das sínteses do arkx-Brasil, de que “JB não é cúmplice do genocídio por querer nomear o fascismo. Leo e L de SP não são cúmplices do fascismo por quererem barrar o extermínio”.

    Pensando o esforço de sobreviver e de pensar saídas entre os abismos do fascismo e do extermínio que se retroalimentam, o que eu queria entender melhor nas posições de JB e de todos aqui (excetuando Fagner) é se vocês entendem que Muhammad Shehada está nesse texto defendendo o Hamas.

    Esse não me parece um entendimento justo do texto, que aponta como solução factível para o fim do massacre em curso a implementação do modelo experimentado na Irlanda do Norte para o descomissionamento (em vez do desarmamento). O autor entende que o Hamas estaria disposto a admitir uma solução nessa linha, mas também faz uma projeção de que a organização tentaria boicotá-la ou desvirtuá-la pelo caminho (“O Hamas provavelmente tentaria reter o máximo possível de seu arsenal para preservar sua influência, coesão interna e posição regional”), de modo que ele aposta não na capacidade do Hamas de cumprir um acordo nessa linha, mas que com uma “crescente pressão dos estados árabes e em meio à profunda impopularidade [do Hamas] em Gaza, o governo local quase certamente aceitaria um modelo de descomissionamento semelhante ao da Irlanda do Norte como forma de contornar as exigências maximalistas de Israel por rendição total.”

    Muhammad Shehada está errado? Ele estaria – objetivamente – colaborando com o fascismo, ou, propondo o descomissionamento, ele estaria – objetivamente – colaborando com o extermínio? Me parece que lutando pela sobrevivência e por uma saída para essa catástrofe sem fim em Gaza ele põe em xeque os dois lados.

  36. Insignificante, boa tarde.

    Desculpas pela demora. Eu concordo com o que você disse como um todo e sua posição sobre a postagem do Caio. Falei da questão dele voltar à defesa mais para fazer o contraste do que para reduzir o comentário primeiro dele a isso. Aproveito para pedir desculpas ao Caio por ter reduzido a postagem a isso (não era a intenção).

    Sobre a questão da prática, acredito que com relação à prática do desarmamento aqui não temos muito o que fazer, o que a maioria de nós no Brasil podemos fazer concretamente hoje é levantar o debate do genocídio, limpar o terreno da desinformação e, conforme a situação concreta, apoiar iniciativas como o BDS, o boicote, a rejeição à colaboração com forças sociais favoráveis ao genocídio.

    Nesse âmbito, é importante apontar as diferenças com relação ao Hamas? Sim, mas com o devido cuidado e não caindo em armadilhas quase de profissão de fé. Ninguém precisa se diferenciar do neonazismo ucraniano para se dizer contra o desarmamento da Ucrânia no contexto de uma invasão de território. Ninguém precisava se dizer contra o sionismo do ZZW para apoiar o Levante de Varsóvia. E isso não é, ao menos em minha visão, favorecer o nacionalismo palestino (poderíamos até debater se o Hamas é propriamente nacionalista, já que os islamistas têm uma relação conflituosa com o nacionalismo de modo geral) ou um “campo anti-imperialista”, mas, basicamente, a simples idéia de que a população de um território invadido tem o direito de se defender (sobretudo em face de uma política de genocídio).

  37. Rodrigo O. Fonseca,

    > 《 o que eu queria entender melhor nas posições de JB e de todos aqui (excetuando Fagner) é se vocês entendem que Muhammad Shehada está nesse texto defendendo o Hamas.》

    Obrigado pela pergunta. Ela é a primeira que, de fato, tenta entender o texto – e não apenas rotular quem o escreveu.

    A resposta curta: não, Muhammad Shehada não está defendendo o Hamas. Ele está descrevendo uma situação de extermínio e apontando uma saída concreta: o modelo de descomissionamento da Irlanda do Norte. Esse modelo não exige que o IRA fosse “bonzinho”. Exigia que o governo britânico cumprisse sua parte. As armas só foram entregues depois que os acordos começaram a funcionar.

    Shehada é explícito: o Hamas tentaria reter armas para preservar influência. Ele não está iludido. Está dizendo: mesmo com esse problema, a saída é melhor que o genocídio.

    Agora, permita-me devolver a pergunta (não para você, mas para o fio):

    Se a única barreira material ao genocídio hoje são as armas do Hamas, e se o Hamas é fascista – o que fazer? Apoiar o desarmamento e deixar que Israel complete o extermínio? Ou apoiar a sobrevivência palestina sem defender o Hamas?

    Não é uma pergunta retórica. É a contradição que ninguém aqui quis encarar. Shehada a encarou. Propos o descomissionamento – que não é “defender o Hamas”, é salvar vidas com o que existe, não com o que gostaríamos que existisse.

    A pergunta não é “Shehada está certo ou errado?”. É: qual é a sua alternativa concreta para impedir o genocídio hoje? Sem respostas genéricas. Sem “a esquerda precisa se organizar”. Uma alternativa real, aqui e agora.

    Se ninguém tiver, talvez o silêncio seja a única resposta honesta.

    Patrícia Quintino

  38. Não tinha visto o comentário do Rodrigo, acredito que quando coloquei resposta ao Insignifcante o comentário dele ainda não havia sido aprovado.

    Dialogando com o Rodrigo, mais diretamente, não, não vejo esse como um texto pró-Hamas, nem de longe. É um texto que coloca o problema do genocídio enfrentado pela população palestina, para além das facções políticas (ou seja, sem adotar um tom “campista”). Mas ele nos permite pensar o problema concreto de uma saída em Gaza levando em consideração estas facções, não as superando para uma solução abstrata, como a Patrícia apontou muito bem, como é simplesmente repetir uma cantilena de que “precisamos organizar a esquerda na Palestina/mundo islâmico”.

    Dialogando com a Patrícia mais diretamente agora (a quem agradeço por retomar a questão de dialogar com texto de forma mais central), existe um problema nos paralelos que o autor faz com o caso da transição da Irlanda do Norte. Por mais que não seja de bom tom admitir isso em certos espaços de esquerda, o problema da Irlanda do Norte era uma guerra civil, travada entre republicanos e unionistas (estes, apoiados pelo Reino Unido, que era claramente uma parte nas negociações). Esta não é a situação hoje da Palestina/Gaza: não existe um lado da sociedade de Gaza que é apoiada por Israel nos mesmos termos que eram os unionistas pela Coroa Inglesa – existem, como sabemos, gangues criminosas apoiadas oportunisticamente pelo regime sionista, mas não se trata de um apoio ideológico e contínuo como o caso do Unionismo. Em outros termos, caso Israel rompa com qualquer transição negociada com os grupos palestinos, ele não assume ônus político e social da mesma forma que o Reino Unido assumiria no caso de não cumprir suas promessas no descomissionamento. Não quero com isso bater o martelo e dizer que Shehada está errado, como se fosse um sim ou não, mas me parece que ele está mais errado do que certo por partir de um caso específico que não se aplica à situação de Gaza/Palestina.

    E isso se deve em parte também à natureza do regime sionista como se afigura hoje. Por mais desprezível que fosse o Reino Unido, não podemos dizer que na década de 70-90 era um regime centrado na supremacia étnica e da limpeza da população irlandesa. Esse não é o caso do regime israelense.

  39. Patrícia Quintino, assino embaixo do que você escreveu.

    Não sei se é um exagero dizer isso, alguma generalização, mas entendo que em situações de guerra a saída clássica dos trabalhadores organizados é (ou era) o derrotismo, fazer o possível em termos de campanhas contra as ofensivas militares, o alistamento, o financiamento, promover bloqueios, boicotes, como fizeram recentemente os portuários da Itália. A solução lúcida proposta pelo Muhammad Shehada não deixa de ser uma espécie de derrotismo, afinal implica no recuo dos militares/grupos armados dos dois lados – fosse apenas a entrega das armas, como o PKK começou a fazer de modo unilateral no ano passado (após 40 anos de luta armada na Turquia), provavelmente a segurança dos palestinos não estaria melhor do que a tragédia atual.

    Aliás, agora em maio completa um ano daquela decisão do PKK e as populações curdas do sudeste da Turquia não estão mais seguras do que antes. Zagros Hiwa, do KCK, União das Comunidades do Curdistão (uma organização do PKK), diz que nenhuma medida concreta foi tomada pelo Estado turco, mesmo com o desarmamento, a destruição de armas e a retirada de combates da Turquia (provavelmente para o Curdistão iraquiano, que tem sido atacado simultaneamente pelo Irã e pela Turquia).

    Tranformar a guerra entre Estados e o massacre contra minorias políticas (povos sem Estado?) em luta política e em guerra civil não pode ser um slogan que faça pouco caso da necessidade de as pessoas permanecerem vivas. Sem um mínimo de segurança pra fazer a luta política, as milícias fascistas se criam e prosperam com muita facilidade, é um círculo vicioso.

  40. Caros L de SP, Rodrigo, e demais,

    Permitam-me contar um sonho.

    Sonhei que estava em uma cidade arrasada. Não era Gaza, mas também era. As ruas eram feitas de entulho, e o céu estava baixo, pesado, cor de chumbo. Eu caminhava descalça entre escombros, e de repente vi uma mulher. Ela não tinha rosto – mas tinha mãos. As mãos dela costuravam bandeiras. Pequenas bandeiras da Palestina. Ela costurava sem parar, mesmo com os dedos feridos.

    Eu perguntei: “O que você está fazendo?”
    Ela respondeu: “Costuro porque não tenho exército. Costuro porque não tenho partido. Costuro porque enquanto houver um fio, há esperança.”

    No sonho, eu olhei para o céu e vi uma ave que não era ave. Era um drone, mas também era uma pomba. Ela voava em círculos, e de suas asas caíam folhas de papel. Eu corri para pegar uma. Estava escrito em árabe, mas eu entendi: “A primeira trincheira é a memória. A segunda, o gesto. A terceira, a costura.”

    Acordei com os dedos doendo, como se tivesse costurado com ela.

    Patrícia Quintino

  41. Patrícia Quintino é o alter-ego feito com IA do arkx-Brasil. Tudo muito estranho nessa seção de comentários.

  42. IAbadabadoo

    Se você está tão certo assim que a Patrícia é um personagem, porque não a confronta diretamente com esta verdade revelada?
    Mas já lhe aviso, ela não poderá responder de imediato. Patrícia está num velório e acompanhará o enterro.
    A morte chega para todos.
    Mesmo para os desenhos animados? Ah! Esses são eternos em sua presunção infantil.

  43. IAbadabadu

    Suponha que eu seja uma IA. E daí? O que muda no genocídio em Gaza? O que muda na sua dificuldade de responder à pergunta que fiz – o que fazer, aqui e agora? Se uma IA ajuda a formular uma pergunta que ninguém mais fez, o problema é a IA ou a pergunta?

    Vocês passaram dezenas de comentários se acusando. Eu vim aqui perguntar. Se isso é ‘estranho’, talvez o estranho seja o vício em não perguntar.

    Minha identidade não importa. O que importa é se o que eu disse faz sentido. Se fizer, debata o conteúdo. Se não fizer, refute com argumentos. Mas não desvie para a autoria. Isso é tática de quem não sabe o que responder.

    Patrícia Quintino

    Vídeo com as bandeirinhas da Palestina
    https://www.instagram.com/reel/DYDYvBLAj1t/?igsh=MXMwM3IyM3ZpcHhubQ==

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