Por Joshua Clover
CAPÍTULO 5
A Greve Geral
Essa ideologia de ação coletiva, com sua oposição estática entre revolta e greve, seria, por sua vez, elidida com uma oposição correspondente em um estrato conceitual mais elevado, o do anarquismo e do socialismo. Pode parecer, dentro das convenções do presente, que táticas específicas e seus repertórios surgem de, e são portanto próprios de, posições políticas e analíticas particulares [1]. Historicamente, a oposição ideológica das táticas ajudou a produzir a oposição política e isso, por sua vez, consolidaria ainda mais a antítese das formas de ação.
Atualmente, a greve, e com ela a categoria mais ampla de ações trabalhistas organizadas e a organização em grande escala como tal, é entendida como a tática político-econômica associada ao campo complexo do socialismo e do comunismo como horizontes políticos, conjugando-se com o pensamento materialista histórico. A revolta, e com ela o conjunto de táticas “insurrecionais” antes e além da organização trabalhista tradicional, é entendida em oposição a isso. É um ataque espontâneo à vida cotidiana, mas também a rejeição de um programa político supostamente determinista, autoritário e implicitamente, se não explicitamente, estatista. Uma das questões básicas deste livro é se esse conjunto de oposições dicotômicas, uma fórmula com motivos históricos reais, ainda faz sentido.
A divisão na Primeira Internacional certamente não precisa ser repetida aqui, e um desdobramento completo da divergência entre anarquistas, de um lado, e socialistas e comunistas do outro, está além do escopo deste estudo [2]. Vale a pena lembrar até que ponto essas posições eram, a princípio, muito mais contínuas do que parecem agora; em paralelo com a das revoltas e greves, sua polarização é um procedimento a-histórico. Na época da Primeira Internacional, a retórica da emancipação do trabalho como projeto fundamental era compartilhada, juntamente com a centralidade do proletariado e o pressuposto da luta de classes como base para a revolução. Os debates da época são ilustrativos. Pode-se considerar a disputa entre o anarquismo coletivista e o comunismo anarquista na década de 1870. A primeira facção desejava acabar com todas as trocas comerciais e o salário, enquanto na visão da segunda, “uma economia de troca ainda opera dentro de uma rede de ‘coletividades’ autogerenciadas e pertencentes aos trabalhadores, que detêm a propriedade legal dos instrumentos e recursos de produção”. O trabalho assalariado e seu status assumiram uma importância decisiva. Kristin Ross escreve: “Além disso — e esse foi o ponto de maior ruptura entre os dois grupos —, o anarquismo coletivista manteve o sistema salarial, fazendo a distinção entre alimentos e outros bens dependentes da contribuição de trabalho de cada indivíduo” [3].
Tais posições e debates sobre o conteúdo de uma sociedade revolucionária deixam claro que a antítese rígida das posições políticas decorrentes dessa oposição seria moldada ao longo do tempo. A divisão de táticas em posições políticas e analíticas não acontece simplesmente ao longo do caminho, mas faz parte dessa moldagem. Em nenhum lugar o processo é encenado de forma mais explícita do que no caso da greve geral. Os debates sobre a greve geral apresentam dificuldades, sobretudo pelas várias distinções feitas (e não feitas) entre greves gerais “proletárias” e “políticas”, entre a greve “geral” e a greve “de massa”. Felizmente para nós, analisar essas distinções é menos importante do que um momento específico dentro dos debates e as possibilidades que ele oferece para considerar a relação entre táticas e posições políticas.
A vitória dentro da Internacional da posição socialista, no que diz respeito aos modelos de luta política, já havia sido ratificada antes da cisão de 1872. A Resolução nº 9 do ano anterior afirmava que “essa constituição da classe trabalhadora em um partido político é indispensável para garantir o triunfo da revolução social e seu objetivo final — a abolição das classes”. O compromisso com um processo parlamentar implica tanto um certo tipo de organização quanto, pelo menos, alguma observância de um padrão legalista. A estratégia parlamentar terá idas e vindas, mas a lógica organizacional do partido, que a acompanha, terá grande constância. Como expressão de sua base organizacional, supostamente ordeira em sua execução e entrando em confronto com o capital em vez do Estado, a greve restrita não pode deixar de aderir a tal horizonte político, mesmo que qualquer greve específica provavelmente tenha ambições mais locais.
Em contrapartida, a aparente desordem dos modos anarquistas de luta torna-se objeto de antipatia. Espontaneidade é a palavra-chave que codifica essa antipatia. É um termo ambíguo, politicamente. Muitas vezes, indica uma ação que surge “naturalmente”, uma resposta momentânea. Nesse sentido, um ato espontâneo é escravo do estímulo. No entanto, de acordo com outra definição, “no século XVIII, quando Kant descreveu a unidade transcendental da apercepção — o fato de eu estar ciente de mim mesmo como tendo minhas próprias experiências —, ele chamou isso de ato espontâneo. Kant queria dizer o oposto de algo natural. Um ato espontâneo é aquele que é realizado livremente” [4]. Assim, o termo preserva tanto o sentido de afloramento autônomo (lembrando a visão espasmódica da revolta) quanto o de ato voluntário, livremente escolhido, que, no entanto, carece do desenvolvimento paciente de uma contra-organização que se movimenta paralelamente aos desenvolvimentos do capital.
O termo assume uma complexidade ainda mais controversa com a revolução Soviética. Lenin o utilizará, notoriamente, para deplorar as massas desorganizadas. A palavra russa stikhiinost significa tanto espontaneidade quanto o caos da natureza: aquilo que tem o menor grau de organização. Alexander Bogdanov, um filósofo polímata russo, especificará que essa desordem da natureza é uma resistência à organização que é o trabalho humano, e que os dois se opõem: “Consequentemente, o mundo é um campo de batalha do trabalho coletivo, no qual a atividade humana luta contra a resistência espontânea da natureza” [5].
É o colapso não declarado desses sentidos — caótico, natural, contra o trabalho humano — que permite que o termo assuma suas dimensões mais pejorativas. A partir da ortodoxia leninista, o espontaneísmo torna-se não apenas falta de organização em algum sentido, mas também antagonismo ao trabalho e, portanto, implicitamente ao proletariado. Além disso, uma discordância com estratégias organizacionais pode ser transcodificada como irracionalidade, contrária não apenas ao trabalho, mas também ao ser humano como tal.
Em um momento anterior desse debate encenado à luz da Comuna de Paris, Marx inicialmente argumenta seriamente contra tal abordagem, contra a revolução impaciente. Em meio às esmagadoras derrotas francesas de 1870, ele adverte: “Os trabalhadores franceses […] não devem se deixar influenciar pelos souvenirs nacionais de 1792 […]”. Em vez disso, eles devem “construir o futuro. Deixem-nos incrementar calma e resolutamente as oportunidades da liberdade republicana, para o trabalho de sua própria organização de classe” [6]. Como é bem sabido, ele mais tarde mudará sua posição e fará uma avaliação surpreendente sobre a Comuna.
Engels e Sorel
As dúvidas iniciais de Marx retornam na avaliação de Engels sobre a greve geral desencadeada pelos bakuninistas em 1873, com a Espanha à beira da guerra civil. As conclusões de Engels certamente assombram a vacilação posterior de Hobsbawm, sua identificação da greve geral com a revolta — dois avatares de espontaneidade excessiva e organização inadequada, a identidade do excesso e da insuficiência. “A greve geral, no programa dos bakuninistas, é o mecanismo que será usado para introduzir a revolução social”, escreve ele, elevando o tom de escárnio. Ele continua:
Em uma bela manhã, todos os trabalhadores de todas as indústrias de um país, ou talvez de todos os países, cessarão o trabalho e, assim, obrigarão a classe dominante a se submeter em cerca de quatro semanas ou a lançar um ataque contra os trabalhadores, para que estes tenham o direito de se defender e possam usar a oportunidade para derrubar a velha sociedade.
Voltando a 1842 e suas limitações, suas falhas de coordenação e preparação, ele então chega ao “ponto crucial da questão”:
Por um lado, os governos, especialmente se encorajados pela abstenção da ação política por parte dos trabalhadores, nunca permitirão que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente e, por outro lado, eventos políticos e as intervenções da classe dominante levarão à libertação dos trabalhadores muito antes que o proletariado consiga formar essa organização ideal e esse colossal fundo de reserva. Mas se eles tivessem isso, não precisariam recorrer ao caminho indireto da greve geral para atingir seu objetivo [7].
Os anarquistas, nessa narrativa, carecem tanto de razão quanto de recursos. Não tendo desenvolvido adequadamente suas associações trabalhistas, os trabalhadores não terão acumulado capacidade organizacional adequada nem recursos financeiros suficientes para encenar o que acreditam ser uma batalha pela emancipação total. Rosa Luxemburg encontra nisso o que se tornará o senso comum da social-democracia, derivado de seu oposto, a “teoria anarquista da greve geral — ou seja, a teoria da greve geral como meio de inaugurar a revolução social, em contraposição à luta política cotidiana da classe trabalhadora”. Qualquer defesa da greve geral anarquista “se esgota no seguinte dilema simples: ou o proletariado como um todo ainda não possui a poderosa organização e os recursos financeiros necessários, caso em que não pode levar adiante a greve geral, ou está suficientemente bem organizado, caso em que não precisa da greve geral” [8].
Georges Sorel oferecerá, no entanto, uma defesa notável. Antes de passar a isso, podemos observar em Engels uma suposição interessante sobre o desenvolvimento de um fundo de greve, a artilharia pesada no arsenal do proletariado. O limite para sua expansão é o Estado, que “nunca permitirá que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente”. Este é o mundo visto da perspectiva da acumulação, em que se pressupõe um excedente social crescente, e a disputa para apropriar-se da maior parte possível desse excedente é o preâmbulo plausível e necessário para uma luta ampliada. A concepção de Engels sobre os fundamentos da luta é produtivista, não apenas no sentido abstrato de assumir a centralidade do trabalho produtivo para a luta revolucionária, mas também em sua pressuposição de um aumento concreto e contínuo da riqueza social decorrente do capital produtivo; ela se encaixa com a observação de Rule sobre a dependência da greve bem-sucedida da “expansão da produção”. Essa é a particularidade histórica implícita a partir da qual Engels universaliza sua crítica.
Sorel será o opositor de Engels mais de trinta anos depois. Sua defesa da greve geral não é menos ardente do que a denúncia de Engels, embora compartilhe a tendência universalizante dessa denúncia. Para Sorel, o poder da greve geral não é sua capacidade de subjugar instantaneamente o capital, mas sua provisão ao proletariado de uma orientação total, uma totalização política.
Ele distingue entre uma greve geral “proletária” e uma greve geral “política”. Esta última é entendida como um mecanismo convocado por atores políticos no controle de sindicatos centralizados com o objetivo de transferir o poder de um governo para outro já preparado e organizado. É a “organização ideal” que Engels considera impossível. O gesto de Sorel não é insistir, contra Engels, na possibilidade dessa organização. Em vez disso, ele a rejeita por preservar a dominação política, por projetar sobre a greve geral esse caráter “político” cujo horizonte é a tomada do poder estatal e o controle estatal centralizado. A greve geral proletária, por outro lado, é a pré-condição para a luta de classes emancipatória.
Aqui, Sorel opõe a greve geral proletária à greve limitada ou restrita, sugerindo que esta última oferece satisfações e ganhos parciais que servem para diminuir o fervor revolucionário. Além disso, ela revela, mas não resolve, os interesses divergentes entre os trabalhadores comuns e a aristocracia operária dos “encarregados, escriturários, engenheiros, etc.”, bem como os interesses aparentemente opostos do campesinato e do proletariado industrial. A noção de Marx do capital como uma totalidade e sua concepção da existência social em duas classes antagônicas não podem ser compreendidas a partir dessa perspectiva, nem podem ser construída a partir de fragmentos.
A greve geral unifica a experiência das misérias cotidianas e os vislumbres fragmentários de algo além delas, permitindo ao trabalhador individual uma intuição do mundo para o qual a revolução tende, obtida “como um todo, percebida instantaneamente” [9]. Esse “conhecimento total” bergsoniano supera, ao mesmo tempo, o problema prático da desunião da classe. Sorel imagina resolver o chamado problema da composição desta forma: “Mas todas as oposições se tornam extraordinariamente claras quando os conflitos são ampliados para o tamanho da greve geral… a sociedade está claramente dividida em dois campos, e apenas em dois, em um campo de batalha” [10].
A ação espontânea, portanto, é corolário do conhecimento espontâneo no sentido kantiano. Isso fornece a única passagem possível para a consciência de classe atualizada e a possibilidade revolucionária que não está entravada desde o princípio por estruturas organizacionais reificadas: “a greve geral deve ser tomada como uma totalidade indivisível, e a passagem do capitalismo ao socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento escapa a qualquer descrição” [11]. Embora Sorel fosse um socialista e sindicalista herético, é essa contraposição à organização estatal e partidária que se torna a posição anarquista familiar sobre a greve geral.
A Inversão de Rosa Luxemburg
A reelaboração dessa questão por Luxemburg em “A greve de massas”, um dos maiores panfletos políticos jamais escritos, tanto por seu método quanto por sua conclusão, não está isenta de ambiguidades. Aqui, ela parece distinguir a greve geral e a greve de massa como fenômenos dos séculos XIX e XX, respectivamente, para depois tratá-los como iguais: “o anarquismo, ao qual a ideia da greve de massa está indissoluvelmente associada”. Ela admite que a crítica de Engels a essa greve “à primeira vista é tão simples e irrefutável que, por um quarto de século, prestou um excelente serviço ao movimento operário moderno contra o fantasma anarquista e como meio de levar a ideia da luta política ao mais vasto círculo de trabalhadores” [12].
Sua retórica aqui é sofisticada, mas enviesada e potencialmente enganosa. Ela sugere que qualquer refutação do veredito de Engels deve, portanto, tomar o lado do “fantasma anarquista”. Isso provou ser uma interpretação errônea duradoura de Luxemburg, cuja posição é frequentemente atribuída a uma espontaneidade soreliana. “Rosa Luxemburg deu grande ênfase à espontaneidade das massas”, começa um resumo da sabedoria recebida; ele cita comentários representativos no sentido de que Luxemburg tinha “uma fé fanática, mas utópica, quase anarquista, nas massas” [13]. O próprio Sorel relata que a “nova escola que se autodenomina marxista, sindicalista e revolucionária” — ele se refere a Luxemburg, talvez Anton Pannekoek —“declarou-se a favor da greve geral assim que tomou consciência do verdadeiro sentido da sua própria doutrina” [14].
Mas, para Luxemburg, não foi a consciência doutrinária que mudou. Foram as circunstâncias materiais. Não se pode culpar Engels pelo seu raciocínio em 1873; são aqueles que permanecem presos nessa posição contra os novos desenvolvimentos históricos que merecem desprezo. Pannekoek apresentará um argumento semelhante pouco tempo depois. Diante da polêmica de Kautsky contra a greve de massa, que Kautsky temia que prejudicasse o Partido Social-Democrata e seus sindicatos, Pannekoek sustenta que “várias formas de ação… não são opostas, mas parte de uma gama gradualmente diferenciada”, formas que assumem sua relevância mutável a partir do desenvolvimento das forças econômicas [15].
Luxemburg escreve seu panfleto na esteira de uma série de greves de massa em expansão, primeiro na Bélgica e na Suécia, depois na Holanda, Rússia e Itália; em seguida, a onda insurrecional de greves que constitui a Revolução Russa incompleta de 1905. Ela encara a greve, portanto, não como um erro, mas como uma eventualidade:
Se, portanto, a Revolução Russa nos ensina alguma coisa, ela nos ensina acima de tudo que a greve de massa não é artificialmente “criada”, não é “decidida” aleatoriamente, não é “propagada”, mas que é um fenômeno histórico que, em um determinado momento, resulta de condições sociais com inevitabilidade histórica. Não é, portanto, por meio de especulações abstratas sobre a possibilidade ou impossibilidade, a utilidade ou a nocividade da greve de massa, mas apenas por meio de um exame dos fatores e condições sociais a partir dos quais a greve de massa cresce na fase atual da luta de classes — em outras palavras, não é pela crítica subjetiva da greve de massa do ponto de vista do que é desejável, mas apenas pela investigação objetiva das fontes da greve de massa do ponto de vista do que é historicamente inevitável, que o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido [16].
Sua investigação revela uma situação profundamente complexa na Rússia. Ela descreve os preparativos para a greve de massa de janeiro em São Petersburgo:
Aqui se lutava pela jornada de oito horas, ali se resistia ao trabalho por peça, aqui se “expulsavam” capatazes brutais em um saco sobre um carrinho de mão, em outro lugar se lutava contra sistemas infames de multas, em todos os lugares se lutava por melhores salários e aqui e ali pela abolição do trabalho em casa [17].
Nessa circunstância de múltiplas queixas, nenhuma coordenação política vinda de cima é possível. No entanto, a disseminação interna da greve dentro do proletariado torna-se possível. O que dá consistência a essas várias particularidades russas é a transição de um absolutismo quase feudal para um capital industrializante. Embora a mão de obra urbana e o campesinato possam se encontrar em posições bastante diferentes, ambas as posições flutuam dentro dessa transformação singular, e a conexão entre lutas políticas e econômicas está aberta, desafiando a separação que Anthony Giddens chama de base fundamental do Estado capitalista [18]. Assim, torna-se possível uma mudança no equilíbrio, da frente do absolutismo para a das lutas econômicas que se seguem à greve de janeiro. Para Luxemburg, isso abre uma perspectiva revolucionária:
Mas, ao mesmo tempo, o período das lutas econômicas da primavera e do verão de 1905 tornou possível ao proletariado urbano, por meio da agitação e da direção social-democrata ativa, assimilar posteriormente todas as lições do prólogo de janeiro e compreender claramente todas as tarefas futuras da revolução [19].
A espontaneidade, então, pode se desdobrar em coordenação em determinadas condições, as de transição. Essa é a sequência revolucionária que Luxemburg vê diante de si, e a greve de massa é a forma que essa sequência assume. Para ela, isso não valida a posição anarquista. Sua conclusão, apresentada no início, é de fato brutal a esse respeito. O caráter revolucionário e o sucesso da greve de massa “não apenas não justificam o anarquismo, mas significam, na verdade, a liquidação histórica do anarquismo” [20]. Devido aos desenvolvimentos político-econômicos, a greve de massas, por assim dizer, mudou de lado; em um movimento objetivo, entrou no repertório da luta comunista.
Pode-se agora ler Luxemburg como um golpe desferido pelo socialismo e pelo marxismo contra as fantasias anarquistas. Em alguns momentos, o panfleto assume tons triunfalistas, o que não é louvável. Pode-se lê-lo como uma recomendação de como proceder, da importância da arma da greve de massa; sem dúvida, isso é fundamental.
No entanto, talvez seja mais significativo para o presente ler o panfleto por sua clareza dialética. Quando as condições materiais mudam, quando a estrutura político-econômica muda, a importância política e as possibilidades práticas de uma tática de ação coletiva também podem mudar. A associação congelada da greve e das formas de organização política que a acompanham com o que agora passaremos a chamar de teoria comunista deve ser abandonada. Da mesma forma, a associação congelada da ação coletiva supostamente espontânea com o anarquismo. Os pensadores que defendem essas identificações, apesar de toda a sua astúcia intelectual ou rejeição por princípio das tendências teóricas, só podem ser nossos Kautskys, ou, nesse caso, Bömelburgs, presos no âmbar do “que é desejável”. Devemos estar abertos a “uma revisão fundamental do antigo ponto de vista do marxismo”, baseada nas transformações da realidade social [21]. Não se declara que um comunista faz isso ou um anarquista faz aquilo. Vai-se ao “ponto de vista do que é historicamente inevitável” — somente a partir desse ponto de vista “o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido”.

NOTAS
[1] O marxismo não é uma crença política (muito menos um programa), mas sim um modo de análise.
[2] É uma espécie de petição de princípio distinguir entre socialismo e comunismo. A intenção, que será relevante mais adiante, é muito semelhante à do termo “marxismo tradicional” de Moishe Postone, que consideramos ser o socialismo — referindo-se a um horizonte político de socialização dos meios de produção sob o controle dos trabalhadores por meio da tomada do Estado, enquanto “comunismo” se refere ao horizonte político de abolir o modo de produção por completo. Sobre a questão de se o primeiro pode levar ao segundo, como proposto na Crítica ao Programa de Gotha, de Marx, algumas breves reflexões são apresentadas no capítulo final.
[3] Kristin Ross, Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune, Londres: Verso, 2015, 107.
[4] “Spontaneity, Mediation, Rupture”, Endnotes 3, 2013, 232. Os autores coletivos citam Robert Pippin, Hegel’s Idealism, Cambridge: Cambridge University Press, 1989, 16-24.
[5] Maria Chehonadskih, “The Anthropocene in 90 Minutes”, mute.com.
[6] Karl Marx e V. I. Lenin, The Civil War in France: The Paris Commune, Nova York: International Publishers, 1968, 34.
[7] Friedrich Engels, ““The Bakuninists at Work: An Account of the Spanish Revolt in the Summer of 1873,” cited in Rosa Luxemburg, The Essential Rosa Luxemburg, ed. Helen Scott, Chicago: Haymarket Books, 2008, 111-12.
[8] Luxemburg, Essential, 112.
[9] Georges Sorel, Reflections on Violence, ed. Jeremy Jennings, Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 128. Ver nota de rodapé 17 nessa página sobre Bergson.
[10] Sorel, Reflections, 132.
[11] Ibid., 148 (ênfase no original).
[12] Luxemburg, Essential, 114, 112.
[13] Norman Geras, The Legacy of Rosa Luxemburg, Londres: Verso, 1976, 111-12. A segunda passagem cita E. H. Carr.
[14] Sorel, Reflections, 120.
[15] Anton Pannekoek, Pannekoek and Gorter’s Marxism, ed. D. A. Smart, London: Pluto, 1978, 65.Em retrospecto, como era fácil derrotar Kautsky em um debate!
[16] Luxemburg, Essential, 117-8 (ênfase no original).
[17] Ibid., 129.
[18] Anthony Giddens, The Class Structure of the Advanced Societies, Londres: Hutchinson, 1973, 206.
[19] Luxemburg, Essential, 131.
[20] Ibid., 113 (ênfase no original).
[21] Ibid., 114.
As obras que ilustram este capítulo são da autoria de Frans Masereel (1889-1972).
Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:
Introdução: Uma Teoria da Revolta
REVOLTA
Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?
Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta
Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve
GREVE
Capítulo 4: Greve Contra a Revolta
Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta
REVOLTA LINHA
Capítulo 7: A Longa Crise
Capítulo 8: Rebeliões Excedentes
Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna
First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016
The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.




