A ecologia preocupa-se com os alegados danos que a industrialização da agricultura possa provocar na natureza e com o bem-estar dos animais, mas é indiferente à sobreexploração no quadro familiar. Por João Bernardo

Os defensores bem-pensantes e bem-falantes da ecologia e da ruralização da sociedade põem em risco a sobrevivência de boa parte da humanidade sem precisarem para isso de atingir os extremos a que os Khmers Vermelhos chegaram no Cambodja. Basta-lhes a drástica redução da produtividade agrícola, com a consequente crise alimentar, que seria o resultado obrigatório das técnicas de cultivo que aplicam.

1.

Numa notícia publicada na Nature News em 25 de Abril de 2012, Natasha Gilbert anunciou um estudo publicado na Nature por Verena Seufert, Navin Ramankutty e Jonathan A. Foley e resumiu as conclusões escrevendo que «cultivar sem usar fertilizantes químicos e pesticidas pode suprir as necessidades em algumas circunstâncias. Mas o rendimento da produção [yields] é inferior ao da agricultura convencional e, por isso, satisfazer a grande massa das necessidades alimentares mundiais exigirá técnicas agrícolas que incluam o uso de fertilizantes […]». Com efeito, no mais recente estudo científico global sobre o problema, Verena Seufert et al. concluíram que «a nossa análise dos dados disponíveis mostra que, tudo considerado, o rendimento da produção orgânica é normalmente inferior ao da convencional. Mas estas diferenças nos rendimentos da produção estão estreitamente relacionadas com o contexto, dependendo das características do sistema e do lugar, e variam desde uma produção orgânica 5% mais baixa (leguminosas sem irrigação e culturas perenes em solos pouco ácidos a pouco alcalinos) ou 13% mais baixa (quando são usadas as boas práticas na produção orgânica) até 34% mais baixa (quando o sistema convencional e o orgânico são na maior parte comparáveis)» (pág. 229). Os autores acrecentaram que, em média e tudo considerado, «o rendimento da produção orgânica é 25% inferior ao da convencional», mas o desempenho varia muito consoante as culturas e «os cereais e vegetais orgânicos têm rendimentos de produção significativamente inferiores aos das culturas convencionais» (pág. 230). (Como a consulta da Nature é paga, convém saber que este estudo pode ser lido gratuitamente aqui.)

Um dos autores deste estudo, Jonathan A. Foley, escreveu no site de Mark Lynas que «pode dizer-se que os sistemas orgânicos precisam de mais terra do que os seus congéneres convencionais; isto em parte foi quantificado (a diferença “directa” no uso da terra, que é aproximadamente 20-30%, mas variando consoante as culturas) e em parte não o foi (os efeitos “indirectos” do uso da terra, considerando de onde, afinal, vêm os fertilizantes)». Mark Lynas sintetizou a questão escrevendo que «no que diz respeito ao uso da terra, a agricultura orgânica é consideravelmente menos eficiente do que a convencional».

Num estudo paralelo e publicado praticamente ao mesmo tempo na Agricultural Systems, Tomek de Ponti, Bert Rijk e Martin K. van Ittersum chegaram a resultados semelhantes, concluindo que, embora com variações significativas, «em média, os rendimentos da produção orgânica correspondem a 80% dos obtidos na agricultura convencional», devendo ainda notar-se que «em média, o desempenho relativo da agricultura orgânica não mudou substancialmente nos últimos anos» (pág. 4). Por isso Tomek de Ponti et al. consideraram também que «alimentar o mundo com a agricultura orgânica pode exigir mais terra do que com a agricultura convencional» (pág. 1) .

A Nature é uma revista científica muito prestigiada e a Agricultural Systems é relevante na sua especialidade, mas como Mark Lynas é um ecologista céptico relativamente à agroecologia, ouçamos os ecos do outro lado. Pretendendo que a agricultura orgânica teria uma elevada produção medida em volume por área, Brian Halweil recordou, num artigo de 2006, que «um estudo recente elaborado por cientistas do Instituto de Pesquisa de Agricultura Orgânica, na Suíça, mostrou que, num período de 21 anos, as explorações orgânicas eram só 20% menos produtivas do que as convencionais. Considerando mais de 200 estudos da América do Norte e da Europa, Per Pinstrup Andersen (professor em Cornell e galardoado com o World Food Prize) e alguns colegas chegaram recentemente à conclusão de que o rendimento da produção orgânica é de cerca de 80% do da produção convencional. E muitos estudos mostram uma diferença menor ainda». Nada poderia ser mais comprometedor do que esta argumentação, porque é hilariante ler que a agricultura orgânica é somente 20% menos produtiva do que a convencional. Em economia, percentagens destas ditam a vida ou a morte de instituições e sociedades. Se a agroecologia se convertesse em todo o mundo no sistema de cultivo predominante, ocasionando esta queda de produção por hectare, suscitaria uma catástrofe alimentar sem precedentes, não só directamente, pela diminuição do volume de alimentos, mas também indirectamente, pela enorme subida que provocaria no preço dos bens agrícolas, o que os colocaria fora do alcance de uma grande parte da população.

Brian Halweil acrescentou ainda que nos países em desenvolvimento desaparece a diferença de produtividade entre os dois tipos de agricultura, o que à primeira vista parece óbvio, porque aí a industrialização da agricultura é ainda incipiente. Estes resultados foram confirmados por Tomek de Ponti et al. ao escreverem que para a agricultura orgânica «o rendimento de produção relativo foi mais baixo na Europa Setentrional (70%) e mais alto na Ásia (89%)» (pág. 5). Verena Seufert et al. chegaram, no entanto, à conclusão oposta, considerando que «nos países desenvolvidos o desempenho orgânico é, em média, -20%, enquanto que nos países em desenvolvimento é -43%». Logo em seguida, porém, estes autores admitiram que a maioria dos dados referentes aos países em desenvolvimento indicam rendimentos de produção atípicos para a agricultura convencional e que, nos poucos casos em que a comparação é mais segura, «os rendimentos da produção orgânica não diferem significativamente dos da convencional» (pág. 230). «Não podemos», concluíram estes autores, «excluir de antemão a alegação de que a agricultura orgânica é capaz de aumentar os rendimentos de produção na pequena agricultura dos países em desenvolvimento. Mas, devido à falta de estudos quantitativos efectuados sob controlo apropriado, também não dispomos de provas científicas suficientes para defender essa tese» (pág. 231) .

O reconhecimento da escassa produtividade da agroecologia encontra-se noutro site agroecológico: «Durante 50 anos, “crescer ou morrer” foi o lema da política e da pesquisa agrícolas, quer privadas quer públicas. Havia a convicção generalizada de que só grandes unidades económicas eram capazes de obter aumentos de produtividade competitivos graças a métodos de cultivo modernos e racionalizados. Considerava-se que era necessário um aumento global da produtividade para alimentar uma população mundial em crescimento rápido. Este modelo de desenvolvimento baseia-se em estímulos tecnológicos conseguidos através da mecanização, da reprodução [breeding] de plantas para obter espécies com alto rendimento, do uso de produtos químicos, etc. Com cada vez mais inputs exteriores, os custos de produção unitários estão em diminuição. Os preços no produtor estão a baixar e tanto a produção como a produtividade por trabalhador estão a aumentar». Se assim é, para que serve a agroecologia? O autor do artigo considerou que a vantagem da agroecologia não residia no volume de produção dos géneros agrícolas e remeteu-a para o plano difuso dos equilíbrios naturais. «Solos empobrecidos e salinizados, desarborização, contaminação generalizada de cursos de água e de cadeias alimentares naturais bem como uma perda maciça de biodiversidade são os custos ecológicos deste progresso». É esta mesma a linha de defesa adoptada ultimamente pelos agroecologistas, em resposta ao desastre que para eles representa a publicação do artigo de Verena Seufert et al. Nada disto é certo, porém.

2.

Começo pela alegada perda de biodiversidade, e como hoje se menciona a questão a propósito de tudo e de nada vale a pena conhecer-lhe a génese. Bjørn Lomborg esclareceu que em 1979 o ecologista Norman Myers estabelecera, sem citar referências, que até ao começo do século XX ficava extinta uma espécie em cada quatro anos, taxa que em seguida passou para uma espécie por ano. Numa conferência realizada em 1974 colocara-se a hipótese, sem qualquer fundamento de pesquisa, de que a taxa de extinção atingia então 100 espécies por ano, não só animais mas todas as espécies, incluindo as que eram ainda ignoradas pela ciência. É deveras extraordinário atribuir uma taxa de extinção a algo que não é conhecido, mas como se esta metodologia peculiar não fosse suficiente e assumindo que nos próximos vinte e cinco anos ficaria extinto um milhão de espécies, Norman Myers procedeu então ao cálculo fácil de que são perdidas 40.000 espécies por ano. «Toda a argumentação de Myers se resume a isto», concluiu Lomborg. «O livro de Meyers não fornece nenhumas outras referências ou argumentos». É esta a origem de um dos pavores contemporâneos. Mas vejamos o resto da lista.

Basta a forma como os ecologistas colocam a questão da modificação genética dos alimentos para lhes denunciar o obscurantismo, porque tanto os vegetais como os animais que hoje comemos não são naturais. Resultam de um multimilenar processo de domesticação, que implicou modificações genéticas, com a desvantagem de terem sido muito mais lentas e terem levado a um maior número de resultados inconvenientes, que tiveram de ser abandonados. Num artigo, García Olmedo observou a este respeito que um dos erros da palavra natural «consiste em designar variedades cultivadas tradicionais, que deixaram de ser naturais precisamente durante a domesticação, processo pelo qual foram eliminadas as características essenciais para sobreviver na natureza em troca da aquisição das propriedades que as tornavam adequadas para o cultivo». E este autor, engenheiro agrónomo especializado em engenharia genética, professor catedrático na Universidade Politécnica de Madrid e membro da Real Academia de Ingeniería espanhola, chamou a atenção para o facto de que «nenhuma das espécies cultivadas foi natural porque nenhuma foi ou é capaz de viver por si própria em vida livre e todas dependem da mão humana para ter êxito na sucessão dos seus ciclos biológicos». Mas para os ecologistas o laboratório é a sede do Mal, e os alimentos geneticamente modificados resultantes da associação da ciência com a indústria são classificados como nocivos, enquanto os alimentos modificados por uma domesticação que não foi menos artificial do que qualquer outra técnica humana são classificados como… naturais.

O problema fundamental, porém, não consiste em saber se as classificações são certas ou erradas, mas se os alimentos orgânicos são ou não mais nutritivos e melhores para a saúde. «É uma falácia que natural implique necessariamente mais segurança do que artificial», escreveu Mark Lynas no seu site. «Em 2009, um importante estudo realizado para a Food Standards Agency do Reino Unido [departamento governamental responsável pela protecção da saúde pública] concluiu que o orgânico não trazia vantagens nutricionais nem de saúde». E Lynas evocou o caso de bactérias que passam do estrume animal para a planta e o alimento. Com efeito, um estudo publicado em 2004 por Avik Mukherjee et al., da Universidade do Minnesota, citado por García Olmedo no artigo já referido, detectou a presença de coliformes fecais em 9,7% das frutas e verduras oriundas de explorações agroecológicas, mas apenas em 1,6% das oriundas do outro tipo de agricultura. E García Olmedo acrescentou uma inquietante lista de doenças e mortes provocadas pelo uso de matérias fecais como adubo. Mas os ecologistas abstêm-se de chamar a isto agrotóxicos. Pelo menos os Khmers Vermelhos limitaram-se a decretar a recolha da urina, mas não do resto.

Quanto ao aspecto nutritivo, o Dr. Patrick Moore, que durante nove anos foi presidente da Greenpeace Canadá e durante sete anos foi director da Greenpeace International, declarou numa entrevista, em 16 de Fevereiro de 2012, que a modificação genética de plantas foi uma das descobertas científicas mais relevantes da história e explicou os motivos medicinais que levam o arroz geneticamente modificado a ser mais eficiente sob o ponto de vista da alimentação e da saúde. Além do arroz, o Dr. Moore deu outros exemplos de como os alimentos geneticamente modificados podem ter componentes importantes para a saúde.

Mas García Olmedo é inteiramente crítico da ecologia e Mark Lynas e Patrick Moore, embora sejam ecologistas, são cépticos quanto às tão cantadas virtudes da agroecologia. Então, vejamos o que um defensor e praticante da agricultura orgânica, Jason Mark, escreveu em 14 de Agosto de 2011 no blog do Scientific American a respeito da questão de estar ou não cientificamente provado que os alimentos orgânicos sejam mais saudáveis do que os outros. «A maneira mais honesta de expôr a situação é reconhecer que as provas são mistas. […] Por outras palavras, o juri ainda não deliberou quanto a saber se os alimentos orgânicos são mais nutritivos. É necessária mais pesquisa para solucionar a questão».

3.

Tudo somado, e mesmo admitindo que os alegados benefícios dos alimentos orgânicos sejam uma questão ainda pendente, a outra questão, o volume de produção por área, foi resumida pelo Inter-Departmental Working Group on Organic Agriculture da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO): «- Nos países industriais os sistemas orgânicos diminuem o rendimento da produção; o âmbito dessa diminuição depende da intensidade dos inputs exteriores usados antes da conversão; – Nas áreas da chamada Revolução Verde (terras irrigadas) a conversão à agricultura orgânica proporciona geralmente um rendimento da produção quase idêntico; – Na agricultura tradicional regada pela chuva (com baixos inputs exteriores) a agricultura orgânica tem potencial para aumentar o rendimento da produção». Em suma, e confirmando o que já vimos anteriormente, a agroecologia só tem um potencial de rentabilidade em termos de produção por área nas sociedades tecnologicamente retardatárias, onde a industrialização da agricultura é escassa ou inexistente. Ora, é nestas sociedades que o campesinato é mais depauperado e que o cultivo da terra mais dependente está de enormes jornadas de trabalho pagas miseravelmente.

Precisamente por isso é sugestivo que nos textos que citei, excepto numa brevíssima passagem, as comparações fossem feitas em função do volume de produção por área e não em função do número de trabalhadores e do tempo de trabalho, como seria correcto em cálculos de produtividade. Aproximamo-nos da explicação desta lacuna quando lemos o que Jason Mark escreveu no blog do Scientific American, depois de ter negado que a agricultura orgânica fosse menos produtiva do que a não orgânica em termos de volume por área. «A agroecologia, centrada no tratamento do solo mediante compostagem, é muito trabalho-intensiva. O desafio de alimentar o mundo não é […] uma questão de precisarmos de mais terra. O que precisamos é de mais agricultores, que usem a terra com mais eficiência». Com efeito, é este um dos aspectos fundamentais. A escassa produtividade da agroecologia exige um afluxo de mão-de-obra. Já David Pimentel et al., uma equipa de cientistas favoráveis à agroecologia, reconheceram num artigo de 2005 que «em média, os sistemas orgânicos precisam de cerca de 15% mais de trabalho» (pág. 576). E em que condições de laboração?

Segundo um relatório publicado por Compassion in World Farming, citado por Mark Lynas, «o modelo da agricultura industrial é insustentável e implacável na exploração dos animais, da terra, da energia e da água. É urgente uma mudança da agricultura intensiva para uma agricultura de maior bem-estar [higher welfare farming] de modo a melhorarmos o bem-estar dos animais [animal welfare], assim como reduzirmos a poluição ambiental e os desperdícios». A compaixão que adorna o nome dessa ONG, ou talvez mais exactamente lobby, não se estende aos seres humanos.

Uma vez mais, foi o Inter-Departmental Working Group on Organic Agriculture da FAO que resumiu a questão: «Os custos de produção dos alimentos orgânicos são normalmente mais elevados devido a mais inputs de trabalho por unidade de output e porque a maior diversidade das empresas implica que não possam alcançar-se economias de escala». Ora, nestas condições de menor produtividade, a agricultura orgânica só pode concorrer no mercado graças a uma utilização extensiva de trabalho gratuito, nomeadamente pelo facto de nos pequenos empreendimentos, funcionando no âmbito doméstico, o esforço despendido pelos membros da família não ser geralmente contabilizado como custo.

Isto mesmo é afirmado com uma candura que roça o cinismo num artigo publicado no Brasil de Fato, uma revista estreitamente vinculada ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O economista Jean Marc Von Der Weid, coordenador de Políticas Públicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia e membro da Articulação Nacional de Agroecologia, deixou claro que a agroecologia «não é um sistema que opere bem com mão de obra assalariada, pois esta só funciona com tarefas simples» e acrescentou: «Se você vai pedir uma tarefa extremamente complexa ele [o assalariado] não tem interesse, porque vai ganhar igual por hora de trabalho». Por isso Von Der Weid concluiu que «há uma simbiose perfeita entre a agroecologia levada a seu limite máximo e a agricultura familiar» e que «no futuro precisa de muito mais agricultura familiar do que você tem hoje». O mais interessante de tudo é que, depois de constatar que os assalariados se esforçam por reduzir o tempo de trabalho que lhes é extorquido, este economista considerou que o trabalho dos agricultores familiares «é o trabalho não alienado». Curiosa inversão de conceitos, que classifica como alienado o trabalho de quem tem a noção de que está a ser explorado, e mais curiosa ainda quando a lemos num órgão que serve de porta-voz ao MST.

Nesta perspectiva, é preocupante que muitos dos defensores da agricultura orgânica façam ao mesmo tempo a apologia de toda a agricultura familiar e pretendam negar o seu carácter pouco produtivo. Entendemos à custa de quanto trabalho gratuito é obtido o que eles denominam produtividade, tanto mais que Von Der Weid se pronunciou contra a mecanização das fainas na agricultura familiar. Ao considerar que a agroecologia diz respeito a «sistemas em que o nível de mecanização é baixo», Von Der Weid situou-se na contramão da tendência actual no Brasil, já que, segundo a Folha de S. Paulo, no primeiro semestre de 2013 a compra de tractores pelo sector agrícola aumentou 27% em relação ao mesmo período do ano anterior e a compra de colheitadeiras — ou ceifeiras-debulhadoras, como se diz em Portugal — aumentou 69%. A venda de máquinas agrícolas no primeiro semestre de 2013 superou o record precedente, obtido em igual período de 2010. Todavia, é só com esforço braçal que Von Der Weid e o MST que lhe dá voz entendem o trabalho no campo. A ecologia preocupa-se com os alegados danos que a industrialização da agricultura possa provocar na natureza e com o bem-estar dos animais, mas é indiferente aos danos resultantes da sobreexploração no quadro familiar.

4.

Assim, a questão da produtividade na agricultura familiar adquire uma grande importância e, para simplificar, limito-me aqui à situação no Brasil. Comparemos as contribuições da agricultura familiar e da agricultura não familiar, segundo o Censo Agropecuário de 2006.

Produto Produtividade dos estabelecimentos familiares (A) em quilogramas por hectare Produtividade dos estabelecimentos não familiares (B) em quilogramas por hectare B/A Participação da agricultura familiar no Valor Bruto da Produção total segundo a Lei da Agricultura Familiar,
em %
Feijões (preto, cor e fradinho) 618 1 151 1,86 68,7
Arroz 2 741 5 030 1,84 35,1
Milho 3 029 4 303 1,42 47,0
Cafés (arábica e robusta) 1 179 1 582 1,34 30,3
Mandioca 5 770 7 541 1,31 88,3
Trigo 1 480 1 822 1,23 20,7
Soja 2 365 2 651 1,12 16,9

Fonte: Caio Galvão de França, Mauro Eduardo Del Grossi e Vicente P. M. de Azevedo Marques, O Censo Agropecuário 2006 e a Agricultura Familiar no Brasil, Brasília: MDA, NEAD, 2009, págs. 27 e 28.

Em todos os casos mencionados na tabela, em que a participação da agricultura familiar na produção total foi desde quase 17% até pouco mais de 88%, vemos que a agricultura não familiar foi a mais produtiva, em volume por área. Apesar disto, há quem tenha a ligeireza de pretender que a produtividade da agricultura familiar é superior à do agronegócio. Não o é, e por outro lado devemos considerar que a produtividade não consiste fundamentalmente numa questão de volume, mas das condições em que esse volume é obtido, sendo indispensável tomar em consideração a força de trabalho.

Ora, um dos argumentos invocados pelos defensores brasileiros da agroecologia é o de que as explorações familiares, ocupando apenas 24,3% da área dedicada à agricultura e à pecuária, produziam a maior parte dos alimentos consumidos no país. É comum a afirmação de que a agricultura familiar é responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos, e o secretário de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário tomou-a como sua em Julho de 2011. No entanto, o que Caio Galvão de França et al. escreveram numa obra editada por aquele Ministério é que «cerca de 70% a 75% da produção agropecuária do país destinou-se ao mercado doméstico», o que é muito diferente, e estes autores acrescentam, sem especificar a percentagem, que «a agricultura familiar é responsável por garantir boa parte da segurança alimentar do país, como importante fornecedora de alimentos para o mercado interno». Na tabela acima, no entanto, verifica-se que só na mandioca e no feijão é que mais de metade da produção se deveu à agricultura familiar.

De qualquer modo, quem admite que a agricultura familiar produza a maior parte dos alimentos consumidos no Brasil está a esquecer-se de que aquela produção requer o esforço de 74,4% da mão-de-obra rural. Esta desproporção — 3/4 dos trabalhadores em 1/4 da superfície utilizada — confirma o baixo grau de produtividade da agricultura familiar. A desproporção pode ainda ser medida de outra forma, sabendo-se que nos estabelecimentos familiares, sempre segundo o Censo de 2006, existiam em média 17,9 pessoas ocupadas por cada 100 hectares de terra aproveitável para lavoura e pecuária, enquanto essa média se reduzia a 2,1 pessoas por 100 hectares nos estabelecimentos não familiares.

Na realidade, em termos de tempo de trabalho a desproporção é maior ainda, porque é necessário ter em conta se o amanho da terra está a cargo de assalariados, com uma jornada de trabalho mais ou menos fixa, ou de famílias proprietárias ou arrendatárias, que não contabilizam o seu próprio esforço como um custo e podem por isso proceder a jornadas enormes. Como, segundo o referido Censo, 89,4% das pessoas ocupadas na agricultura familiar tinham laços de parentesco com o cabeça de exploração, concluo que todas elas sofriam pressões para a extensão da jornada de trabalho. Para mais, 7,4% da força de trabalho ocupada nos estabelecimentos familiares era composta por menores de catorze anos, enquanto nos estabelecimentos não familiares essa percentagem se reduzia a 3,6%. Usando outra perspectiva de avaliação, do total de menores de catorze anos ocupados na agropecuária, 86% trabalhavam na agricultura familiar. Bastariam estes dados para nos apercebermos da barbárie que é a pequena agricultura. Nestas condições, um trabalhador numa economia doméstica representa mais horas de trabalho diário do que um trabalhador no agronegócio.

Em desespero de causa, e imaginando como certa a pretensão de que 70% dos alimentos consumidos no mercado interno proviriam da agricultura familiar, há quem use o argumento de que, se essa produção se obtém com cerca de 70% da mão-de-obra rural, então a produtividade da agricultura familiar seria equivalente à do agronegócio, que produz os restantes 30% dos alimentos consumidos com os restantes 30% da mão-de-obra. Mas como podem estes apologistas da agroecologia esquecer que a produção de commodities se destina sobretudo à exportação e que, portanto, a força de trabalho empregada pelo agronegócio se ocupa muito mais da produção para o mercado estrangeiro do que para o mercado interno! Ora, as exportações dos produtos agroalimentares brasileiros abrangidos pelo Acordo Agrícola da Rodada Uruguai passaram de 13,8 milhares de milhões (bilhões, como se diz no Brasil) de dólares em 1995 para 36,9 milhares de milhões de dólares em 2006.

Perante os dados incontestáveis revelando que a produtividade do trabalho é muito menor na agricultura familiar do que no agronegócio, já deparei com o argumento de que, se o agronegócio requer menos mão-de-obra por área, por outro lado usa inputs (máquinas, fertilizantes, insecticidas, transportes) que representam trabalho já efectuado, o que implicaria uma diminuição da produtividade. O argumento é improcedente, porque a produtividade na produção de um dado bem é medida tomando em conta a produtividade com que são produzidos os inputs usados na produção desse bem. Quando se trata de cadeias tecnológicas altamente produtivas, como sucede naquela de que o agronegócio faz parte, a produtividade na fase inicial da cadeia representa uma diminuição do valor unitário dos inputs incorporados na fase seguinte, e assim sucessivamente. Aliás, no Brasil a produtividade do agronegócio é a tal ponto elevada que consegue mesmo absorver a falta de produtividade de um dos elos da cadeia. Recordo que num dos artigos de uma série que publiquei neste site, dedicada à economia brasileira contemporânea, citei um livro de Werner Baer indicando que o mau estado das vias de comunicação no Brasil levava a que o custo do transporte da soja atingisse uma média de 50 dólares por tonelada, enquanto nos Estados Unidos se limitava a 20 dólares por tonelada. Tal como comentei naquele artigo, «é realmente preciso que o ramo das commodities tenha atingido um elevadíssimo grau de produtividade para ser mundialmente competitivo em tais condições de transporte».

A análise do caso brasileiro mostra como a hostilidade à civilização urbana pôde gerar a apologia de formas económico-sociais arcaicas e pouco produtivas, que requerem condições de laboração brutais. Não deixa de ser paradoxal que tal apologia recorra a um dos elementos chave da sociedade industrial — o critério da produtividade. E neste caso, como vimos, além de o emprego do argumento ser contraditório, ele não tem razão de ser.

Referências

O estudo de Verena Seufert, Navin Ramankutty e Jonathan A. Foley é: «Comparing the Yields of Organic and Conventional Agriculture», Nature, nº 485, 2012. O artigo de Tomek de Ponti, Bert Rijk e Martin K. van Ittersum é: «The Crop Yield Gap between Organic and Conventional Agriculture», Agricultural Systems, nº 108, 2012. O artigo de Brian Halweil é: «Can Organic Farming Feed Us All?», World Watch Magazine, vol. 19, nº 3, 2006. A passagem citada de Bjørn Lomborg encontra-se em The Skeptical Environmentalist. Measuring the Real State of the World, Cambridge: Cambridge University Press, 2001, pág. 252. O artigo de Francisco García Olmedo é: «Mito y Realidad de la Agricultura Ecológica», Revista de Libros. O artigo de David Pimentel et al. é: David Pimentel, Paul Hepperly, James Hanson, David Douds e Rita Seidel, «Environmental, Energetic, and Economic Comparisons of Organic and Conventional Farming Systems», BioScience, vol. 55, nº 7, 2005. A passagem citada de Caio Galvão de França et al. encontra-se em Caio Galvão de França, Mauro Eduardo Del Grossi e Vicente P. M. de Azevedo Marques, O Censo Agropecuário 2006 e a Agricultura Familiar no Brasil, Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, 2009, págs. 13 e 25, respectivamente. A indicação fornecida por Werner Baer encontra-se no seu livro A Economia Brasileira, São Paulo: Nobel, 2009, pág. 419 n. 74.

Este artigo é ilustrado, de cima para baixo, com fotografias de Martin Parr, Robert Polidori (a segunda e a última) e Sweet Juniper (as restantes).

A série Post-scriptum: contra a ecologia é formada pelos seguintes artigos:
1) a raiz de um debate
2) o lugar-comum dos nossos dias
3) a hostilidade à civilização urbana
4) a agroecologia e a mais-valia absoluta
5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico
6) Malthus, teórico do crescimento económico
7) «Os Limites do Crescimento» ou crescimento sem limites?
8) oportunidades de investimento e agravamento da exploração

24 COMENTÁRIOS

  1. Caro,
    tudo o que dizes está muito certo e é extremamente importante tê-lo em conta. No entanto, nem todos os que, bem ou mal, alimentam preocupações ecológicas e politizam as questões ambientais defendem (antes, muitas vezes, tendem a denunciar) as teses que tu refutas. Assim, o teu texto seria mais convincente se o levasses em conta, tanto mais que, até pela bibliografia que citas, é impossível que o ignores.
    Por fim, talvez uma perspectiva demasiado unilateral prejudique também a tua argumentação. Claro que nem tudo o que é natural é bom. Mas isso não significa que tudo o que transforma o dado (e tudo o que fazemos o transforma) o faça para melhor. O mesmo poderíamos dizer dos organismos geneticamente modificados, ainda que deixando de lado os direitos de propriedade sobre as sementes e outros aspectos relevantes da questão. E assim por diante.
    A intervenção e a acção transformadoras sobre o meio são inevitáveis, até para quem quer “conservar” ou “reequilibrar” e invoca uma natureza mítica como justificação. Nisso, marcas sem dúvida o teu ponto. O problema é que nem todas as transformações se equivalem e nada do que dizes é razão para ignorarmos politicamente as questões ambientais, que são parte de resto da questão das condições da existência quotidiana comum, estão presentes na questão urbana (que tipo de cidade queremos?), etc.
    A nossa divergência, se me permites, parece residir no seguinte: acompanho-te na medida em que penso que devemos tratar politicamente as questões ambientais e dos recursos, etc., e não subordinar ou reduzir ecologicamente as questões sociais e políticas, ao passo que tu – é a ideia que se fica quando se lê parte do que escreves – tendes a considerar que as questões ambientais são, por inteiro, falsas questões, manobras de diversão, não passando de alibis de tecnocratas (“gestores”) ou chamanes ressacralizadores. Considero, como tu, falsas e tóxicas as concepções tecnocráticas ou religiosas das questões ambientais. Mas não considero, ao contrário de ti, que tê-las em conta seja alimentar falsas questões.
    Espero que isto ajude para clarificar o debate, e corrige-me se achas que não te compreendi bem.

    Abraço

    miguel

  2. Miguel,
    Se com esta série de oito artigos (ainda nem ia a meio e já os meninos se assustaram), coroando tudo o que escrevi acerca do tema, eu não tiver conseguido esclarecer o que penso, também não é numa resposta que o conseguirei. Ao menos esperem que eu chegue ao fim para me dizerem que não me expliquei. E daí, escusam de esperar ou de ler mais, porque quando escrevi, no segundo artigo, que «a natureza é um mito porque existe apenas em inter-relação com a acção humana, quer esta acção se deva à necessidade de proteger a sociedade quer à ambição de ampliar a esfera social» e que «proporcionalmente ao nível de produção pretendido, as técnicas mais rudimentares são as que ocasionam efeitos secundários mais consideráveis e perturbam áreas mais vastas» estava tudo dito.
    Agora, peço-te eu a ti que faças um exercício. Compara este quarto artigo, com a catadupa de dados estatísticos, com o teor do teu comentário, e verás que eu falo de uma coisa para ter um coro a falar-me de outra muito diferente. E depois sou eu que não me explico bem.
    Para terminar, dando-te mais uma desilusão, a boa ecologia faz-me lembrar aquela da moça que dizia que estava só um bocadinho grávida.

  3. Estimado João Bernardo

    Confesso que estou “desconcertado” com o vosso artigo, pois ele traz argumentos e fatos de extrema relevância, e que de certa forma viraram “tabu” na esquerda brasileira (ou talvez pseudo-esquerda), especialmente para aqueles que, de fato, estão no luta pela emancipação social.

    Dessa forma, situo nova indagação, a luz do seu argumento: Será que os os movimentos sociais, como o MST, optam pela agroecologia em confronto direto com a agricultura convencional, de fato por seus benefícios as necessidades humanas ou dos trabalhadores? Ou há um viés político nesta opção, uma vez que no sistema capitalista, a agricultura convencional, por ser mais eficiente, favorece a classe dos proprietários?

    Me parece que tal opção dos movimentos sociais no Brasil, reformista e centra no Estado, tem levado a profundos equívocos histórico na luta pela superação do capital (se é que isso realmente está em pauta).

    Porém, se me permite, ainda assim penso que há danos preocupantes sobre os ciclos ecológicos de suporte a vida humana, não em decorrência da industrialização em si, mas principalmente do padrão de desenvolvimento centrado na acumulação de capital, que instrumentaliza a produção de forma a gerar fortes desperdícios (como a obsolescência das mercadorias), e crescentes externalidades negativas (poluição/contaminação do ar, solo, águas, além de outras formas de violência, guerras, etc)…

    Me parece que somente um modo de produção socialista e autogestionário poderia equacionar adequadamente tais questões (uso de recursos e necessidades humanas), arrisco ponderar.

  4. João,

    eu não falo da “boa” ecologia, nem penso que o problema seja esse. Do mesmo modo que subscrevo sem problemas o que aqui repetes sobre as relações natureza/sociedade. A questão é que o ambiente, social e historicamente recriado (sem dúvida), que habitamos não pode ser-nos indiferente e é por isso mesmo origem de questões sociais que requerem respostas políticas. Não é preciso – nem desejável – ser-se “ecologista”, na acepção que dás ao termo, para entender que assim é. Ou, por uma vez, não pode deixar de ser. O que está em causa, para esquematizar um tanto, não é transformar mais ou menos, muito ou pouco, o meio ambiente, mas decidir que transformação é melhor e evitar as piores (que desprotegem a sociedade, limitam a sua margem de acção ou reservam as decisões a instâncias ou grupos de dominação hierárquica. Não consigo ver as coisas de outra maneira, e não vejo que seja ceder ao irracionalismo ou à consagração dos gestores vê-las assim.

  5. Édi Benini,
    Eu sou anticapitalista, como você sabe, e penso que a destruição do capitalismo é necessária e urgente, mas por motivos que têm a ver com a organização social.
    Neste site eu publiquei uma história do MST, em três partes, «MST e agroecologia: uma mutação decisiva». Tentei aí apresentar o enquadramento que ajuda a compreender a viragem agroecológica do MST, e para mim o momento decisivo ocorreu quando esse Movimento desistiu de organizar cooperativas de produção e aceitou o modelo da pequena agricultura familiar. Disse também nesses artigos que o facto de Fernando Henrique Cardoso ter substituído o Procera pelo Pronaf como principal fonte de financiamento contribui muito para aquela mudança de rumo e constituiu uma vitória política do então presidente. No campo ideológico, a agroecologia aparece como uma legitimação moderna da agricultura familiar. Quanto ao que ela é na prática, eu pretendi mostrar neste artigo.

  6. Entrando rapidamente no debate (e saindo tão rapidamente quanto entro), fico em dúvida se o Miguel compreendeu as implicações da afirmação de que «a natureza é um mito porque existe apenas em inter-relação com a acção humana, quer esta acção se deva à necessidade de proteger a sociedade quer à ambição de ampliar a esfera social» feita por João Bernardo.

    Se a natureza não existe para além da capacidade humana de agir, significa que não existe sentido e torná-la sujeito de qualquer política – portanto é uma preocupação ideológica – e que o único sujeito nesta situação é a sociedade organizada (e suas capacidades produtivas).
    Deste modo considerar que «o ambiente, social e historicamente recriado (sem dúvida), que habitamos não pode ser-nos indiferente» é falso, porque esta preocupação nunca deixa de existir quando a organização social pretende agir sobre o espaço natural (e a prova disto é que a já velha racionalização produtiva dá conta deste aspecto a todo momento). Assim, quando se faz o recorte de crítica sobre a forma como agimos sobre este espaço, tornando este espaço um ente da análise social, são rebaixadas as preocupações com as relações sociais que nos permitem perceber a natureza (percepção também histórica, que se transformou bastante no tempo em função das mudanças na organização social) e o ecologismo se torna um entrave à percepção do que é fundamental na sociedade capitalista.
    E se o ecologismo cumpre a dupla função de apologia às transformações produtivas e escamoteamento das relações sociais de produção, significa que serão estas relações sociais de produção a pagarem o preço destas mudanças, já que são o fundamento da sociedade capitalista.

  7. Rodrigo Araújo,

    também eu não sei se você compreendeu o que eu escrevi, e duvido que a sua leitura do que escreveu o próprio João Bernardo seja adequada.
    Por exemplo, uma coisa é dizer, como o JB faz, embora por outras palavras, que somos parte activa do chamado mundo da natureza e que não o podemos conhecer sem as transformações que a nossa existência introduz nele, outra é dizer que nada mais existe a não ser essas transformações e que não podemos sequer, como fazem diversas ciências, tentar a empresa paradoxal mas necessária de, através da abstracção, tentar elucidar até certo ponto como seria (para nós, daí o paradoxo) essa realidade sem nós, ou independentemente de nós.
    Mas creio que estas declarações mútuas de incompreensão mútua não nos levarão muito longe. E fico-me por aqui.

  8. Desculpe Miguel, mas não resisto em fazer este comentário.
    Fico com a impressão que teu raciocínio é tautológico, porque «se não o podemos conhecer [o natural] sem as transformações que a nossa existência introduz nele», significa que o objeto de análise que você defende não existe (pelo menos para nós que vivemos nesta sociedade, neste mundo).
    É possível fazer abstrações e estabelecer algo inexistente como critério para análise? Sem dúvidas. Mas isto não deixa de implicar em um procedimento idealista.

  9. Rodrigo,
    eu diria que idealismo extremo é a sua posição. O real não se reduz à consciência que temos dele ou às nossas representações. Podemos conceber e concebemos tempos e estados de coisas nos quais não existiam nem a sociedade nem seres humanos, tentamos reconstituí-los, etc. – embora seja verdade que só o podemos fazer porque existimos e porque a sociedade existe, nas condições presentes. Ou não?

  10. Não. Certamente o conhecimento sobre «tempos e estados de coisas nos quais não existiam nem a sociedade nem seres humanos» não é construído exclusivamente com base em nossa mera existência, mas pressupõe também relações ativas (capacidade de agir) sobre vestígios de outros tempos, espaços, etc. Caso contrário não teríamos ciência e sim algo próximo à fé. Mesmo assim este não me parece ser o problema central levantado pelo artigo e se meu comentário não foi útil, fico por aqui.

  11. Se for possível e aceitável publicar um extenso conjunto de comentários, espero que estes se revistam de alguma utilidade. (Discordâncias à parte, é uma virtude os artigos do João Bernardo terem trazido a lume problematizações de grande interesse. E neste plano virtual não se pode fazer muito mais…).

    As citações de João Bernardo nas quais me ancoro para tecer comentários ou dar largas a reflexões integram os artigos “Post-scriptum: contra a ecologia. 2) o lugar-comum dos nossos dias” e “Post-scriptum: contra a ecologia. 3) a hostilidade à civilização urbana”.

    “Na realidade, passou-se exactamente o contrário. Proporcionalmente ao nível de produção pretendido, as técnicas mais rudimentares são as que ocasionam efeitos secundários mais consideráveis e perturbam áreas mais vastas. É conveniente não esquecer o primeiro membro da regra, proporcionalmente ao nível de produção pretendido. Qualquer leitor familiarizado com os aspectos práticos da história económica conhece exemplos ilustrativos. Considero esclarecedor, por isso gosto de citá-lo, o caso das pedreiras esgotadas em períodos muito curtos porque quando os instrumentos de pedra ficavam com o gume embotado, em vez de serem afiados deitavam-se fora e fabricavam-se novos, e aquele pequeno grupo humano tinha de partir para outra área, com tudo o que isto acarretava. Não menos elucidativas são as técnicas de caça que implicavam incendiar uma floresta num dia em que o vento levasse o fogo em direcção a um precipício, de modo que os animais, para fugirem às chamas, se despenhavam e morriam em massa e, como não se conheciam ainda técnicas de conservação dos alimentos, o desperdício era colossal. Se dispusesse de espaço podia alinhar um sem número de exemplos, todos indicando a validade da mesma regra.” JB

    Em que é que este exemplo de suposto esgotamento das pedreiras na pré-história nos pode ser esclarecedor dos efeitos secundários e perturbadores provocados pelo uso de técnicas modernas e de tecnologias avançadas na realidade actual, a do império do produtivismo? Além de na sociedade contemporânea, os indivíduos desempenharem a sua actividade económica alienados do controlo dos meios de produção, ao contrário do indivíduo pré-histórico, há uma grande diferença entre o uso das pedreiras na pré-história e o sistema de produção actual: o sujeito da pré-história não tinha nem podia ter consciência da “finitude” dos recursos naturais que usava – curioso, que uma contradição tão flagrante tenha escapado a JB, assumindo o esgotamento das pedreiras na pré-história ao mesmo tempo que põe em causa a tese da finitude de recursos naturais no mundo de hoje –, nem seguramente estaria na ordem do seu dia a compreensão de que as suas práticas conduziriam à limitação das oportunidades de produção de outras populações, presentes e futuras. Ora, este grau de consciência não nos pode escapar hoje. Enfrentando há menos de um século a aceleração de um modelo de evolução que, para assegurar a sua própria sobrevivência, impõe um programa de diminuição constante de recursos naturais a par de uma complexa degradação de todos os recursos, humanos e ambientais, qualquer que seja o modelo económico e social que adoptemos, estamos obrigados a pensar no grau de marginalização social, política e económica que a sua prática irá impor, no futuro, a todos nós.
    Posto isto, a defesa por parte de algum ecologismo de que a auto-suficiência local/regional é uma virtude essencial cai, bastas vezes, em contradição com a leitura ecologista (independentemente de existirem outras, mais ou menos prevalecentes) que postula (vagamente) um equílibrio global e uma sustentabilidade planetária, atingida através da interligação e dependência mútua homem-meio.

    O lapso temporal que decorre entre os exemplos citados por JB (pedreiras e caça predatória) e a problemática contemporânea diluem, senão o efeito de prova, seguramente a pertinência política da validade da regra acima citada. Ao rechaçar o neo-ecologismo pela tendência mística com que este recusa as novas tecnologias, por considerá-las como imanentemente malignas, tentar provar que uma técnica rudimentar causa mais danos ambientais e “secundários” que uma técnica mais desenvolvida (proporcionalmente ao nível de produção) através de um exemplo pré-histórico é seguir uma extrema… romantização crítica. Convirá, por isso, não sair da “história a quente”: o que provoca danos ambientais e sociais profundos, desastrosos e de longo-prazo (já que usar o termo irreversível nos atira para a dimensão inapreensível do que nos transcende; e para questões técnicas e quantitativas que não domino) é o uso das novas tecnologias ao serviço do modelo capitalista de hiper-industrialização e de dominação das actividades de produção, e não projectos minoritários, defensores de modelos da eco-agricultura, da permacultura, das hortas urbanas, das AMAP, das cooperativas de consumo directo, etc, por mais místicos e folclóricos que possam ser os discursos de auto-legitimação, para adoptar o simplismo dispensado por JB.

    Uma questão importante, que não deve ser secundarizada numa reflexão sobre a tecnologia, é ter presente que uma tecnologia comporta sempre um conceito mental associado ao seu uso e finalidade. Há, de facto, um mundo que corre intrínseco à descoberta de uma nova tecnologia. Um campo de projecção intelectual, que desenrola horizontes possíveis ainda por antever, moldando em potência um conjunto de novas práticas, práticas que instituirão novos tipos de relações sociais.
    Sabendo nós que a investigação tecnológica é uma disciplina separada da/na sociedade e regulada por uma elite política e económica no quadro do modelo económico e de poder capitalista, temos razões de sobra para criticar e pôr em causa a tecnologia hoje produzida. Se o próprio corpo de técnicos, burocratizados pelo Estado ou profissionalizados pelas multinacionais, não determina nem interroga em colectivo e democraticamente o objecto do seu trabalho, o que dizer das populações, absolutamente alienadas dos processos que determinam que tecnologias estão em falta e que finalidades devem elas comportar?

    Não me versando por aí além em obras que abordam exemplos recentes (contemporâneos) de como a introdução de novas tecnologias causaram transformações profundas, vêm-me à memória artigos de Vandana Shiva sobre a introdução de OGM na índia. Em plantações de agricultura familiar no Uttar Pradesh, em poucos anos, a diversidade de plantas, consideradas daninhas pela ciência, em alguns locais, desceu para menos de meia-dúzia, onde antes superava a vintena. Comunidades locais que usavam essas plantas como complemento fundamental da sua nutrição e para fins medicinais, passaram a ter uma condição física mais débil e perderam meios de cura, quando sucumbiam doentes. Além disso, a utilização dos químicos e os compromissos com as empresas agro-químicas tinham um peso muito elevado nos parcos orçamentos, conduzindo a uma diminuição da qualidade de vida e da autonomia económica. Ora, em que medida o uso das práticas tradicionais dessas comunidades agrícolas causam mais danos, proporcionalmente ao nível de produção, que a introdução de uma tecnologia mais desenvolvida? Ou, se quisermos, em que medida a apropriação da técnica OGM por essas comunidades não será ainda mais deasastrosa do que o uso dela feito por agro-tecnocratas e gestores capitalistas, comparando com as práticas que até aqui essas mulheres usavam em autonomia? E em que medida é socialmente mais eficaz e justo produzir mais, com menos bio-diversidade e com uma tecnologia mais avançada, do que produzir menos, com mais bio-diversidade com uma tecnologia rudimentar, se sob o modelo capitalista de produção o desperdício de recursos naturais, em termos absolutos, aumenta e o grau de autonomia humana diminui? Finalmente, respaldando a preocupação de JB com a sustentabilidade urbana, em que medida as perdas associadas à imposição de um modelo de industrialização contemporâneo e à introdução de tecnologias avançadas na produção agrícola, são justificadas pelos ganhos sociais das populações urbanas?

    Conheceremos bem o caso do Brasil: a devastação causada pelo expansionismo da soja transgénica. Teria sido o expansionismo (da produção agrícola) do modelo económico capitalista tão selvagem, destrutivo, violento e socialmente impactante, sem o uso da recente tecnologia OGM? Por outras palavras, sem a descoberta tecno-científica do OGM, teria sido o capitalismo de produção agrícola tão eficaz e lucrativo como se revelou ser? Os danos “secundários” do hiper-cultivo da soja transgénica são conhecidos: assassinatos e violência sobre comunidades indígenas e caboclas, sobre pequenos agricultores e lideranças comunitárias, migração forçada de populações rurais e extractivistas para áreas urbanizadas com a consequente queda invariável na miséria e o sobrepovoamento das cidades, envenenamento dos solos e dos rios, perda da bio-diversidade, deflorestação galopante.
    (Cedendo à ilustração não pré-histórica mas actual, quando o arado, atrelado a búfalos d’água, foi introduzido em populações caboclas da Amazónia não consta que tivesse desencadeado uma vaga de violência social, deflorestação descontrolada, envenamento da terra… e os pobres búfalos sucumbiam não por sobre-exploração, mas por, sequiosos e desaustinados, beberem a água do tucupi… E um arado a tracção animal não comporta a escala e a qualidade de dominação que o OGM pressupõe e propaga, o âmbito de efeitos do último tem um grau superior. E é isto que importa discutir.)

    Outro exemplo paradigmático sudeceu nos anos 80/90 do século passado em muitos países da África subsariana, onde o esbulho de matérias-primas a ritmo acelerado só foi possível com a introdução de tecnologia avançada/pesada (que foi lá parar, no quadro dos arranjos do FMI, de grandes grupos multinacionais e dos sobas locais) e, como sabemos, de novo, essas novas tecnologias (tal como as arcaicas) induzem um conjunto de práticas, enformam uma concepção sobre os seus usos e finalidades, instituem disposições legais que incrementam os resultados que se pretendem alcançar com o desenvolvimento e aplicação dessas tecnologias. Nesse rol, a introdução dessas tecnologias avançadas era crucial para a eficácia do plano de expansão do lucro. Um dos dispositivos que vieram a par desses programas de “desenvolvimento local”(!) foi a proibição do uso das matérias-primas para manufactura e transformação pelas populações nativas, levando à miséria comunidades que se sustentavam, precisamente, com o uso socialmente mais justo desses recursos naturais, mesmo se através de técnicas rudimentares, .
    (Vide a “neo-colonização” do Norte de Moçambique, pelos investidores brasileiros e chineses, leia-se o relatório El Dorado Tete.. do Centro de Integridade Pública, ou, por abrir o debate à complexidade da questão Questões a volta da mineração em Moçambique. Creio também que alguns autores/historiadores explicam que ciclos de fome em países da África subsariana, no último terço do século XIX, foram causados pelos programas de industrialização agrícola impostos pelo Reino Unido, forçando ao abandono das práticas agrícolas locais).

    Os casos abordados de relance não querem necessariamente provar a antítese da tese aventada por JB – que técnicas rudimentares e menos avançadas seriam necessariamente menos nocivas em termos ambientais –, mas denunciar o fracasso analítico e a ligeireza do alcance político dessa premissa e, sobretudo, evidenciar que o grau de eficácia do expansionismo capitalista e do exercicio do seu domínio (na produção, no controlo social, bem como na repressão) é indissociável do grau de avanço tecnológico. Politicamente, é um equívoco não pensar nesta inextricabilidade. Porém, esta osmose não justifica a concepção catastrofista de uma intrínseca malignidade da tecnologia contemporânea. Catastrófica é a organização capitalista do poder, da economia e do saber.
    O que me parece de destacar é que este conjunto de interrogações não podem ficar sem resposta e estou convicto de que colocá-las é mais urgente (sob o ponto de vista político e social) do que derriçar no “espiritismo” que grassa na formulação da argumentação de boa parte dos movimentos ecologistas ou tão importante como pôr a nu as raízes filosóficas destes.

    “Os danos eventualmente provocados pelas tecnologias contemporâneas, que em termos absolutos parecem maiores do que os provocados pelas tecnologias arcaicas, são incomparavelmente menores proporcionalmente ao nível de produção atingido. Além disso, as tecnologias contemporâneas têm uma capacidade de corrigir tais danos muito superior à que poderiam ter as tecnologias arcaicas.” JB

    Correndo o risco da repetição, a questão política não está, precisamente, no termo comparativo (com as tecnologias ultrapassadas/antiquadas), mas nos danos absolutos causados hoje pela tecnologia contemporânea, associados a um modelo de produção irracional, humanamente degradante e exploratório, imposto às sociedades.

    Acontece que o modelo de produção actual expande-se e aprofunda-se (ou seja, aprofunda as condições de dominação sobre as populações, submetendo-a a uma degradação e exploração crescentes) de acordo com a amplitude de possibilidades oferecida pela tecnologia em uso, tecnologia cujo desenvolvimento científico está ao serviço do modelo capitalista. (E não é menosprezável o facto de a maior parte dos recursos materiais investidos em tecnologia se destinarem aos exércitos e polícias e que a maioria dos técnicos e cientistas que trabalham na produção tecnológica estarem, directa ou indirectamente, afectados a esse campo de poder fundamental dos Estados, através de financiamento dos contribuintes, e só depois vindo as multinacionais como o segundo grupo).

    “Por este conjunto de razões, e contrariamente ao que pretendem os ecologistas, quanto mais desenvolvida for uma técnica, menor será, relativamente, o seu efeito destrutivo.” JB

    A questão não é se um drone é menos destrutivo que um míssil scud, mas compreender até que ponto a última tecnologia (do drone) foi desenvolvida para preservar, solidificar e expandir um programa de dominação. Isto é, para arregimentar um modelo económico e de poder (o capitalismo, em síntese). O busílis é que a tecnologia é/foi desenvolvida intrinsecamente com esse propósito de dominação (tal como a colher, a bomba atómica, etc). E uma fisga nas nossas maõs não comporta a escala e a qualidade de dominação que o drone acarreta nas mãos de quem o controla, além de o âmbito de efeitos do último ter um grau superior. E é isto que importa discutir.

    “Hoje, com a hegemonia obtida pelo multiculturalismo no meio académico, no jornalismo e no meio político considerado de esquerda, é praticamente unânime a crítica à noção de progresso. Em grande parte dos casos, porém, é uma crítica equivocada, porque supõe que o progresso implique obrigatoriamente uma evolução linear e uma teleologia. Ora, o estruturalismo permite pôr em causa tanto a noção de linearidade de evolução como a noção de teleologia sem para isso prescindir da noção de progresso.” JB

    Se bem entendi, por outras palavras, estamos a falar da hidro-eléctrica de Belo Monte…
    As teses de JB aqui criticadas e esta última (“[na] esquerda, é praticamente unânime a crítica à noção de progresso”), acompanhadas pelo seu silêncio crítico à ideia de progresso dominante que sustenta o mercantilismo contemporâneo, não corre necessariamente o risco de se deixar levar pelo canto de sereia da grande ideia que subjaz, por exemplo, ao projecto da barragem de Belo Monte?
    Vai, então, o uso de tecnologias modernas de aproveitamento de uma fonte de energia ser ali mais eficaz e acarretar menos danos sócio-ambientais? E em nome quem? E de quê? E esses danos, serão corregidos por tecnologias renonáveis? (que grau de confiança… na “ilusão renovável”, citando Los Amigos de Ludd).
    O discurso de rejeição da mega-barragem pelas comunidades afectadas pelo projecto revelou a consciência prática do que estava em causa: “nós” vamos perder o controlo sobre a nossa economia, “nós” vamos perder a raiz da nossa autonomia. E essa autonomia é o ponto central da construção/criação/recriação da sua cultura própria. De como se revestiu a argumentação desse ponto, se com arrebiques multiculturalistas, induzidos à comunicação xamanista, com tropicalismo para entrutar o activista branco-europeu de penacho estilo Sting na cabeça, que importa, se acertaram no alvo? Porque expuseram na hora a lógica do projecto da hidro-eléctrica: expropriação do direito de uso público de recursos naturais em nome da expansão do lucro privado, pela necessidade de uma oligarquia refortalecer e renovar as condições de submissão das populações (neste caso, não as comunidades ribeirinhas, mas as massas de assalariados, precários, desempregados do mundo urbano), lubrificando a lógica da hiper-produção, em nome de um falso progresso que conduz ao agravamento da desigualdade social e, neste caso particular, à destruição do modo de vida autónomo de pessoas e ao uso irracional de fontes de energia.

    Neste ponto, o da “hegemonia obtida pelo multiculturalismo no meio académico, no jornalismo e no meio político…”, a leitura de JB parece-me completamente desfasada da realidade. Os investigadores que prosseguem uma crítica à visão do progresso moldada pelo capitalismo são (ou foram?) escassíssimos; jornalista a criticar o progresso ou, melhor dito, que antes de escrever pense sob essa óptica? Jamais… (até porque primeiro tinham de voltar a pensar para fazer jornalismo, e isso seria insubordinação e amotinação). Político de esquerda contra a ideia do progresso?!!!?

    Seria mais premente criticar o uso da noção do progresso na sua retórica política de escamoteamento e legitimação do modo de produção capitalista. Acerca do termo progresso e das significações que o conceito de progresso molda no dia a dia da vida económica com vista a uma projecção no futuro, quer a política profissional, quer a problematização do cidadão comum, legitimam o modo de (hiper)produção e de industrialização capitalista e a mitologia do crescimento (contínuo) enquanto um valor intrinsecamente benigno. Políticos e cidadãos, não se distraem dessa narrativa, voltando a sua tensão para uma perspectiva filosófica, como a esgalhada por JB, de cariz historicista e marxizante.
    Quiçá o engodo da esquerda pela ideia benigna do progresso (industrialização e urbanização capitalista) derive nem mais nem menos do historicismo da visão marxista (linear e teleológica), apressando-se esta a aceitar e integrar a industrialização e a urbanização modernas como um desígnio incontestado, uma necessidade histórica para que as condições subjectivas da revolução amadureçam. Entretanto, da podridão das condições objectivas vê-se tudo menos um organismo social próprio e com capacidade autónoma de desenvolvimento… certo que até ao lavar dos cestos…
    Nas últimas quatro/cinco décadas, a esquerda foi-se endireitando no naufrágio capitalista: à esquerda não interessava/interessa a direcção do barco, preciso era/é tomá-lo de assalto e mudar a tripulação. O problema para a esquerda não era/é o modo de produção e a técnica do capitalismo, mas o facto deste modelo “servir unicamente os capitalistas, em lugar de servir a humanidade inteira” (Castoriadis).

    “Para ser um sujeito histórico não basta ser uma vítima do progresso, senão haveria hoje uma multidão infindável deles. É indispensável constituir um organismo social próprio e com capacidade autónoma de desenvolvimento, e isto só a classe trabalhadora tem condições de assegurar. As formas campestres e primitivas defendidas pelo multiculturalismo de esquerda não constituem ilhas sociais que permitam, a partir daí, enfrentar o capitalismo. Pelo contrário, os resquícios do pré-capitalismo estão inseridos no modo de produção dominante, onde desempenham uma função auxiliar, mas eventualmente importante, de reforço das formas mais degradadas de exploração.” Jb

    E aqui conviria citar… JB: “Em grande parte dos casos, porém, é uma crítica equivocada, porque supõe que o progresso implique obrigatoriamente uma evolução linear e uma teleologia. Ora, o estruturalismo permite pôr em causa tanto a noção de linearidade de evolução como a noção de teleologia sem para isso prescindir da noção de progresso.”

    “É curioso observar o empenho com que departamentos académicos e os seus associados nos movimentos sociais pretendem manter a linguagem, o modo de vida e as tradições de comunidades arcaicas, das quais sobra apenas um lastimável arremedo, enquanto os jovens dessas comunidades desejam emigrar e abandonar um meio que só representa a miséria e falar a língua que lhes permita inserir-se no mercado geral de trabalho.” Jb jb

    Várias passagens dos primeiros três artigos publicados por João Bernardo resvalam na armadilha do ponto cego, quando denunciam a romantização do espaço rural empreendida pelos “ecologistas”. Na cegada, duas coisas não se avistam: primeiro, e mais simples de ver, a romantização do espaço urbano que JB descreve; segundo, essa romantização do espaço urbano (ou o inverso, naturalmente) implica um olhar antitético sobre o espaço rural, não sendo improvável que essas descrições caiam num emaranhado de romantizações.

    Caeiro e Campos. Sobre a mitologia do espaço rural e do espaço urbano, Pessoa, com os seus heterónimos, revela-nos um signo, que nos permite perceber que a glorificação do campo ou da metrópole induz à negação (romantizada) do outro.

    Sem dialéctica pessoana, parece-me que o camponês (campónio e arcaico que fosse, procuro falar dos nossos avós e bisavós… não de arqueologia geriatrossauria!) não se alienava dos meios e conhecimentos para alcançar em autonomia e cooperação as suas necessidades básicas (casa, conforto e alimentação), nem das suas necessidades espirituais (as expressões culturais, música, rancho, folclore, festas pagãs/religiosas). Não só não se alienava, como resistiu até há bem pouco tempo a alienar esses meios para um conceito externo ao seu (o capitalismo, o lucro, o produtivismo, o individualismo, os mercados). Isto não significa que traços culturais ali presentes não devam ser alvo de crítica, como o poder da Igreja ou o patriarcado (embora, este grasse por todo o lado).
    E este modo relacional, autónomo na relação com os meios de produção e cooperativo com os demais, em que as necessidades são auto-determinadas, malgrado não ter feito história no mundo urbano, como o conhecemos desde há decadas, não se traduz numa cultura ímpar e em si numa riqueza? Património cultural que tanto é posto em causa por uma mitologia romantizada que caricatura o meio rural sob o olhar civilizatório da industrialização moderna, mitologia legitimada no discurso desenvolvimentista, do “progresso”, etc., como é resgatado pelo ecologismo, desgraçadamente, não sob o prisma da relação autónoma com os meios de produção, da cooperação e da instituição do conselho aberto, mas pelo carácter da ressureição (!) da natureza e/ou da regeneração humana através de uma suposta harmonia com a natureza.

    “A luta dos trabalhadores contra os patrões de uma empresa, se por um lado pressiona ao aumento da produtividade e, por aí, contribui para o desenvolvimento da mais-valia relativa e do próprio capitalismo, em sentido oposto contribui para reforçar elos de solidariedade entre os trabalhadores, antagónicos da hierarquização vigente no âmbito da produção capitalista. Aquelas relações de novo tipo, solidárias e igualitárias, tecidas na luta, constituem a base real possível de uma sociedade nova. Ora, não se encontra este vigor nos resquícios históricos em decomposição, desertados pelas novas gerações, que não estão dispostas a viver na miséria para sustentar a ideologia alheia. Sucede por vezes que estes resíduos sociais arcaicos sejam mantidos artificialmente graças a financiamentos variados, a ponto de os seus membros chegarem a mascarar-se com imitações de adereços tradicionais para aparecer em manifestações públicas ou em vídeos de propaganda, tal como os índigenas de certas aldeias despem a roupa comum e se vestem de fantasia quando está prevista a chegada de um grupo de turistas.” JB

    Mas onde se encontra na Europa esse “vigor” das relações de novo tipo, solidárias e igualitárias, tecidas na luta, [que] constituem a base real possível de uma sociedade nova?
    Se é a questão ecológica que dita a mobilização de grupos/movimentos políticos (não me refiro obviamente ao lobbyism, aos Verdes, aos ambientalistas, enfim, às Relações Públicas, que não só não partilham uma visão não-capitalista como se borrifam para relações igualitárias no seu dia a dia, mas a movimentos como a ZAD, No TAV, Stop Castor), onde se pratica o uso do conselho democrático, da cooperação e se dá curso a relações igualitárias, o que fazer?
    Se neles se afirma uma dinâmica política contra o poder capitalista, uma criatividade e abertura a outros campos de luta (mesmo que ténue) e se o operariado/assalariado está absolutamente esfrangalhado nesses valores, em que sentido, para o cidadão anónimo, explorado e esmifrado no modo de vida imposto pela hiper-produção, poderá ele vislumbrar a reactivação desses valores no mundo laboral? Lendo teoria? Mergulhando num arrebatamento nostálgico em experiências de luta operária com mais de quatro décadas (excluindo os operários porteños que tomaram em mãos um dos mais interessantes processos revolucionários desta história recente tão infecunda nesse capítulo…)?
    Que razões devem travar que o uso dessas práticas e valores sejam reintroduzidas no imaginário do assalariado urbano precisamente por via dos movimentos ecologistas anti-sistema e anti-autoritários? Na medida da complexidade do mundo capitalista de hoje, não há aqui um campo de forças em potência, a fusão entre aqueles que já recusaram “a miséria de uma ideologia alheia” e os que a ela estão submetidos?

    “Hoje, porém, os ecologistas e os multiculturalistas que compõem a maior parte do que ainda se chama esquerda parece terem adoptado o lema socialismo e barbárie. A mudança de duas letras muda tudo. Desejar uma construção do socialismo com base na negação da civilização urbana e da sociedade industrial é desejar a barbárie, e não vejo por que hei-de defender uma barbárie com o pretexto de que ela é colectiva.” Jb

    A questão devia ser formulada noutro prisma mais politizado: não vejo porque tenhamos de defender a factual barbárie da industrialização capitalista actual só pelo facto de o seu aparelho ser tomado pela classe trabalhadora, pronta a auto-gerir essa barbárie. E convém não perder o pulso à realidade, em nome da esquerda, a classe assalariada (a velha, a de sempre, como por antagonismo com a esquerda ecologista o JB impicitamente deixa definida – mesmo que estiolada e desarticulada, e mesmo com os ecologistas que possam existir no seu seio – contém em si uma perigosidade latente na instauração de uma “barbárie” que os movimentos ecologistas, na descrição sumária que JB fez deles, não podem sequer comportar (já que, arquivado fique, “a única classe revolucionária é o operariado”, JB dixit). Parece-me que nem haverá processos revolucionários sem ocupação dos meios de produção, nem sem que se afirme uma consciência crítica que ponha em causa a técnica de produção capitalista e a ligação inextricável da sua eficácia com parte da tecno-ciência hoje desenvolvida.

    Sabendo que a história real das lutas sociais e ainda mais a das erupções revolucionárias, guardam evoluções e vias que não podemos prever, sub-estimar uma crítica profunda ao modelo capitalista de industrialização (se não formos mais longe do pós-guerra) e a forma como ele moldou a urbanização do território (todo ele) é politicamente mais obscuro do que não rastrear a genealogia da ecologia. Obscuro, porque o modelo de produção capitalista (e no que ele formatou a industrialização e urbanização) não dá resposta nem a uma radical democratização do uso racional das fontes de energia e do usufruto equitativo dos bens materiais, muito menos à emancipação da autonomia humana na capacidade que este tem de dominar, criar e saciar as suas próprias necessidades – visão de desenvolvimento humano e colectivo que por razões óbvias me parece incompatível com os modelos políticos de industrialização e de urbanização, sob os quais vivemos desde há décadas.

    (Vadio)

  12. É incrível como em meios esquerdistas se toma como garantido que os transgénicos são uma catástrofe. Isso só prova que esse meio é completamente autista. Ignoram a ciência por trás dos transgénicos, os estudos sobre eles, e repetem lendas urbanas e mitos sem o menor pudor. E quem diz transgénicos diz energia nuclear e a suposta barbárie industrial em que estamos a viver. Apenas mitos para justificar a aceitação das suas miseráveis propostas, que convenientemente prescindem do proletariado, pouco dado a abraçar o moralismo anti-consumista. Dum simples acidente industrial fazem uma catástrofe de proporções planetárias, ignorando convenientemente as vidas poupadas por essas indústrias, que não servem apenas para produzir lucros mas que produzem bem-estar e prolongam e melhoram a vida da maioria.

  13. Sobre os transgénicos, deixo um link que um amigo meu divulgou hoje: http://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/3371.htm

    Basicamente trata-se da certificação da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar de que uma estirpe de milho transgénico não coloca qualquer tipo de problema para a saúde ou para o ambiente. Agora só falta virem certos meninos citar publicações de ecologistas, com as teorias da conspiração associadas.

  14. Um editorial da revista Science, da American Association for the Advancement of Science, que se coloca a favor dos transgénicos e contra o vandalismo criminoso da Greenpeace.
    http://www.sciencemag.org/content/341/6152/1320.full

    Recomendo, por exemplo, este blog http://blogs.mediapart.fr/blog/yann-kindo
    para acompanhar as peripécias das campanhas de desinformação dos ecologistas, escrito por alguém que se situa politicamente na extrema-esquerda. É membro desta associação que desmascara outras patranhas alarmistas também. http://www.pseudo-sciences.org/

    Em França, outro tipo de extrema-esquerda que combate a desinformação anti-transgénicos é um tal Luc Marchauciel. Os comentários dele aqui http://www.politis.fr/Ete-des-OGM-Monsanto-installe-un,11265.html, juntamente com o animador do site onde eles escreveu este artigo http://www.imposteurs.org/article-la-decroissance-ou-la-gauche-reactionnaire-par-luc-marchauciel-43606452.html , mostram bem que o esquerdista típico é habitualmente um desinformador sempre que se trata de avaliar novas tecnologias por manter a sua linha verde, e que essa desinformação não resiste minimamente a uma crítica séria.

    Para quem tiver paciência para pornografia esquerdista pode seguir a discussão deste fórum http://forummarxiste.forum-actif.net/t260-ogm, onde surge o Marcheauciel algures lá pelo meio, e onde o irracionalismo esquerdista se mostra ainda com mais nitidez. Quando confrontados com a inanidade da sua desinformação recorrem ou a teorias da conspiração para desacreditar, normalmente toda a comunidade científica, ou em último recurso condenam a ciência, o “produtivismo”, a pretensão da humanidade em mexer na obra de deus, etc. Isto apenas para mostrar que os esquerdistas nestas questões, apenas repetem sem vergonha as mesmas posições mil vezes desacreditadas, talvez de boa fé já que se informam sempre nos mesmos lugares, mas que estão ideologicamente conquistados pela ideologia anti-produtivista, descrescentista, tendo vergonha do seu marxismo ou anarquismo mais clássico, se é que alguma vez aderiram a essas posições, que claramente estão fora de moda. Vários livros que se pretendem sérios, ao tomar posição em relação aos transgénicos baseiam-se nas obras de uma tal Vandana Shiva, uma inimiga da ciência que na sua Índia natal (ver Mehra Nanda http://ubuntuone.com/0zNgjcyrDPiy1FEbfyfH8a ), contribuiu para reforçar a extrema-direita hinduísta, que é uma mentirosa grosseira sem qualquer pudor (For example, there’s a struggle about so-called genetically manipulated organisms, or GM foods and so on. Now, one might have a number of reasons for opposing that particular technology. To the extent that I oppose it, it has nothing to do with dangers to health, of which there is no evidence. And, yet, I see people writing, making claims which might support the public position I want to take on a political issue, but using pseudo-scientific claims and their own legitimacy as scientists to tell what come to be lies. I have to tell you, when I was thinking about the GM food thing, book coverI read the works of a woman, Vandana Shiva, who’s an extremely important writer in this field, who has a Ph.D. in physics, so she’s a scientist. And I’ll give you a specific example. One thing I read, Shiva said: “Do you realize that when children, infants, eat baby food, they’re getting eight times the dose of estrogen that a woman gets when she takes her contraceptive pill?” And I thought, “My God! How terrible, that a little baby will get eight times the dose of estrogen that an adult woman gets when she takes a contraceptive pill!”

    So I went to look at the paper she cited. Well, yes, it’s true, they are getting eight times the dose of a thing, but it turns out not to be physiologically active estrogen. It turns out to have only one one-thousandth of the physiological activity that estrogen has. It’s a thing called a plant estrogen. She played on the word “estrogen.” Now, she must have known the truth in the matter, because she cited the paper from which she got the data. She would presumably regard that as a justifiable — I would call it a deliberate distortion; she would say something else — in the interest of the greater good. I think we cannot put up with that, because in the end it will be detected, it will make people cynical, and it will be counterproductive. http://globetrotter.berkeley.edu/people3/Lewontin/lewontin-con2.html).

    Já agora, a Shiva não tem um PhD em Física. O PhD dela é em filosofia da ciência, precisamente a tomar uma posição anti-ciência.

    Mas com energia livre, medicina natural, agricultura orgânica, espiritualidade oriental, quem precisa da ciência, perdão, tecnociência para alguma coisa? O problema é que essas outras coisas são pura charlatanice e quem politicamente está a contar com a sua validade para a sua utopia ir para a frente é politicamente um charlatão.

  15. “O conformismo que habita a social democracia desde seu início repousa não meramente sobre sua tática política, mas também sobre seus conceitos econômicos.É uma causa fundamental de seu colapso posterior. Não há nada que tenha corrompido tanto a classe trabalhadora alemã quanto a opinião que estavam nadando com a maré. Os desenvolvimentos técnicos contavam para eles como o curso da correnteza, na qual acreditavam estar nadando. Disso, foi apenas um passo para a ilusão de que o trabalho industrial levado adiante pela trilha do progresso tecnológico representava uma realização política. A velha ética protestante do trabalho celebrava sua ressurreição entre os trabalhadores alemães em forma secularizada. O Programa de Gotha já trazia traços dessa confusão. Ele definia o trabalho como ‘a fonte de toda riqueza e toda cultura.’ Suspeitando do pior, Marx respondeu que o ser humano, que não tinha outra propriedade além de sua força de trabalho, ‘deve ser o escravo de outros seres humanos… que fizeram deles mesmos proprietários.’ Alheia a isso, a confusão apenas aumentou, e pouco depois Josef Dietzgen anunciou: ‘O trabalho é o salvador dos tempos modernos… No… aperfeiçoamento… do trabalho… consiste a riqueza, que pode agora finalmente realizar o que nenhum redentor até agora pôde alcançar.’ Esse conceito marxista vulgar do que é o trabalho não se incomoda em questionar como seus produtos afetam os trabalhadores, contanto que esses não estejam mais à sua disposição. Ele quer perceber apenas a progressão da exploração da natureza, não a regressão da sociedade. Ele já carrega os traços tecnocráticos que seriam depois encontrados no fascismo. Dentre eles, está uma concepção de natureza que diverge de maneira preocupante daquelas das utopias socialistas do período Vormaerz [pré-1848]. Trabalho, como doravante concebido, equivale à exploração da natureza, que é contrastada à exploração do proletariado com ingênua autossatisfação. Comparadas a essa concepção positivista, as fantasias que forneceram tanta munição ao ridículo de Fourier exibem uma sensibilidade surpreendentemente saudável. De acordo com Fourier, uma divisão social benéfica do trabalho teria as seguintes consequências: quatro luas iluminariam o céu noturno; o gelo seria removido da calota polar; a água salgada do mar não teria mais um sabor salgado; e as feras selvagens colocariam-se a serviço do ser humano. Tudo isso ilustra um trabalho que, longe de explorar a natureza, é ao invés disso capaz de parir criações cuja possibilidade dorme em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho é própria, como seu complemento lógico, aquela natureza que, como coloca Dietzgen, ‘existe grátis’ [de graça].” (Benjamin, Teses sobre o conceito de história, XI, 1940, tradução improvisada.)

  16. Queria ressaltar dois pontos, para o debate:

    1)Falou-se sempre, ao longo do texto, em termos de produtividade, qual seja, a razão das unidades de produzidas (kgs, sacas) pela área cultivada.

    Proporia que agudizássemos o debate em termos de rentabilidade por área: dado que os orgânicos chegam ao mercado com preços (bem) mais altos, sua produtividade, mesmo mais baixa, poderia compensar em termos de retorno?

    Creio que esse raciocínio esteja correto pois cada vez mais as transnacionais do setor investem na plantação de produtos orgânicos, buscando em saberes tradicionais/populares, soluções que o desenvolvimento de pesticidas e outros insumos não tem mais dado conta.

    2)Além disso, essa disparidade de preços (entre orgânicos e os outros vegetais) preocupa-me em um sentido mais amplo:

    Haja visto que a parcela que pode consumir produtos orgânicos tem um poder aquisitivo mais alto, sobra as camadas subalternas qual opção? Sempre o mais barato (e de menor qualidade não?). A isso se soma o padrão de industrialização da alimentação que subverte a nutrição das pessoas em termos a apenas de calorias… O que me parece? Que estamos, em termos biológicos, separando as classes.

  17. Allan,
    Quando depende de mim, uso o conceito de produtividade exclusivamente para a relação produto/produtor medida em tempo de trabalho. Neste artigo, porém, tive de levar em consideração os artigos citados, que praticamente só se referem à relação rendimento da produção/área cultivada. Aliás, salientei isto mesmo a dado passo do artigo. Já no § 4, onde trato do problema da agricultura familiar, pude mostrar como, em termos de produtividade do trabalho, ela representa uma forma brutal de sobreexploração.
    Se algumas empresas se interessam hoje pela produção de alimentos orgânicos, isso deve-se, penso eu, à conjugação de dois factores: por um lado, eles dirigem-se a faixas de mercado com maior poder aquisitivo, o que permite um mark up nos artigos; por outro lado, eles pressupõem a sobre-exploração do trabalho familiar. Um duplo ganho para as empresas do sector.
    Quanto à pretensão de que os alimentos orgânicos sejam mais saudáveis, remeto para as constatações da Food Standards Agency do Reino Unido, para as declarações do Dr. Patrick Moore, para o estudo de Avik Mukherjee et al., para a opinião de Mark Lynas e, finalmente, do próprio Jason Mark, apesar de este último ser um produtor de alimentos orgânicos. Tudo isto vem mencionado no § 2 do artigo.
    Ainda sobre a questão da alegada qualidade dos alimentos orgânicos, penso que os leitores gostarão de conhecer os resultados de um teste realizado em Agosto deste ano pela principal associação de consumidores portuguesa:
    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/teste-da-deco-a-25-marcas-de-azeite-revela-cinco-fora-da-lei-uma-por-fraude-1604070

  18. Os órgãos de informação noticiaram que em 28 de Novembro deste ano a revista científica Food and Chemical Toxicology publicou uma nota retractando-se pela publicação, em Setembro de 2012, de um artigo segundo o qual o milho geneticamente modificado seria cancerígeno. Foi agora anunciado que aquele artigo, da autoria de um grupo de pesquisadores encabeçado por Gilles-Éric Séralini, se baseara em métodos desprovidos de validade científica, o que significa que até hoje nenhum estudo científico detectou riscos de saúde em mamíferos por consumirem alimentos geneticamente modificados.
    A primeira observação a este respeito é que o artigo de Séralini et al. teve muitíssimo mais repercussão quando foi publicado do que a teve agora a retractação. A assimetria é elucidativa.
    Há ainda uma segunda observação. The Economist de 7 de Dezembro deste ano, na pág. 75, informa que, previamente à publicação do artigo, Séralini e os seus colaboradores haviam exigido que os jornalistas a quem o iriam comunicar se comprometessem a não pedir a opinião de terceiros, sob pena de pesadas multas. Deste modo, as notícias acerca do artigo foram redigidas sem as condições mais elementares de imparcialidade, o que lhe garantiu o máximo de impacto.
    Reunindo estas duas observações, temos mais um exemplo dos lobbies ecologistas, que referi em vários artigos desta série, onde se conjuga a acção de pseudocientistas com a de jornalistas coniventes.

  19. Antes de tudo quero dizer que acho muito importante este debate, e a meu ver, a existência dele abre espaço para mais discussão e a elucidação de opiniões, a busca por conclusões, interssecções…

    No entanto confesso que não consigo compreender a lógica do pensamento do autor e a preferência por elucidar em alguns trechos alguns fatos ao invés de outros mais gritantes. Talvez para poder justificar sua tomada de partido com comparações que beiram um fanatismo e acho que não é por aí que chegaremos a algum lugar.

    Há diversos trechos no texto que são exagerados, como na tentativa de comprovar que uma técnica rudimentar causa mais danos ambientais e “secundários” que uma técnica mais desenvolvida e, também na tentativa de comparar os potenciais danosos entre um alimento com resquício de adubo e outro que embora aparentemente seguro para uso, não se vê, nem se sabe, a quantidade de veneno que circula em sua seiva. Eu não tenho dúvidas que prefiro ter a opção de poder lavar bem as folhas de uma hortaliça.

    São dignas e válidas as questões levantadas sobre o trabalho assalariado e a produtividade na agroecologia. E acho que realmente são questões que continuam em aberto e demandam respostas. Talvez a busca seja pelo meio-termo, aliar o conhecimento e a objetividade de modelos da eco-agricultura com a produtividade do agronegócio.

    Não dá pra pintar um modelo de produção como é o agronegócio de bom-moço e esquecer-se de alguns de seus feitos, bem lembrados pelo Vadio:

    “assassinatos e violência sobre comunidades indígenas e caboclas, sobre pequenos agricultores e lideranças comunitárias, migração forçada de populações rurais e extractivistas para áreas urbanizadas com a consequente queda invariável na miséria e o sobrepovoamento das cidades, envenenamento dos solos e dos rios, perda da bio-diversidade, deflorestação galopante.”

  20. Na semana passada tomei conhecimento de um abaixo-assinado devido à iniciativa de cientistas de mais de oitenta e cinco institutos e centros de pesquisa europeus de primeiro plano. O documento pede às autoridades da União Europeia para não tomarem medidas que limitem a investigação científica na área das plantas e da agricultura, o que poderia impedir a criação de novas variedades mais nutritivas e mais resistentes às variações climáticas. Esses cientistas invocam um argumento decisivo, que eu mencionei neste artigo, ao escreverem: «A melhoria das culturas tem sido feita desde há séculos por meio de técnicas convencionais de reprodução de plantas, todas elas levando a mudanças genéticas nessas plantas. Hoje, técnicas inovadoras constituem o passo seguinte na reprodução de plantas e permitem fazer as desejadas mudanças genéticas com eficiência e precisão muito elevadas».
    É tão raro que cientistas enfrentem publicamente a demagogia dos lobbies ecológicos, que esta iniciativa merece ser saudada e divulgada.

    O texto completo do abaixo-assinado pode ser lido aqui:
    http://www.itqb.unl.pt/news/european-scientists-unite-to-safeguard-precision-breeding-for-sustainable-agriculture
    Para mais explicações, ver aqui:
    http://www.vib.be/en/news/Pages/European-scientists-unite-to-safeguard-precision-breeding-for-sustainable-agriculture.aspx

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