Todxs contra todxs

Passeava com uma amiga também negra – ou também árabe, já não é mais possível saber a diferença – quando, ao virar uma rua, um mendigo branco e bêbado ironizou: “ah, como eu preciso de uma ‘femme de ménage!’”. Axélino

Ecorracismo

Decolou negro e aterrissou árabe. E sem falar uma única palavra da sua nova identidade, descobriu-se rebaixado no campeonato das opressões. Certo dia, já na pele de novo mouro, fazia compras em um supermercado de um bairro multicultural quando percebeu-se seguido por um segurança de ascendência africana: “Algum problema?”, perguntou educadamente como manda a etiqueta local. E a resposta foi imediata: “ah, sim, você deveria pegar os produtos bio (forte acento no ‘o’), sem agrotóxico”. Axélino

Lugar de fala

Dois amigos brancos conversavam sobre o passado, e um deles contava sobre uma antiga patroa com quem muito havia aprendido, mas que apesar disso lhe pagava muito pouco e explorava seu trabalho quando era ainda criança, quando foi abruptamente interrompido: – Mas esta mulher não passa de uma branca de classe média! Pacientemente tentou explicar-lhe que não era bem assim, que esta era uma mulher sofrida que trabalhava 14 horas por dia na própria casa em um ritmo frenético de produção e sem nenhuma seguridade social, situação decorrente de uma reestruturação produtiva que havia retirado um setor da produção do interior da planta industrial e o terceirizado para os mesmos trabalhadores que antes executavam a mesma tarefa no interior da fábrica e relativamente protegidos pela CLT… Quando mais uma vez foi interrompido: – Mas isto é o que você branco está dizendo… O primeiro espantado, retrucou: – Mas claro! Se passou em minha vida e só é possível esta nossa conversa se você não me desqualificar como interlocutor. É isso o que você quer? Em sequência ouviu um seco e fatal: – É isso mesmo. Após isto cada um virou para seu lado e caminhou até a própria casa. Passa Palavra

Predestinada

Ao ser questionada sobre uma posição política, ela automaticamente se blinda: “você está desvirtuando o assunto, não quero nenhum branco dizendo que sou reformista, já que minha própria existência é um ato revolucionário”. Passa Palavra

Totalmente democrático

– Mas então, só porque não sou negra não posso ir ao Encontro da UNE representando a turma? Isso não parece certo, eu milito como todo mundo aqui.
– Olha, é totalmente democrático: pra nos representar tem que ter colado cartaz e passado em sala de aula, ser mulher, negra, e lésbica. Você atende aos outros requisitos, mas não é negra, por isso, não poderia representar verdadeiramente uma das bandeiras que a gente quer erguer lá no Encontro, que é a luta contra o racismo. Passa Palavra