O movimento ecológico constitui hoje um dos mais sérios obstáculos nas lutas sociais. Por João Bernardo

No artigo Agroecologia e a luta campesina: continuando o debate JG não retoma por sua conta as teses do artigo de Mix Será o camponês um mito? e desenvolve a argumentação num plano mais racional, como aliás já o havia feito num dos comentários ao meu artigo Sociedade urbana e industrial. Uma resposta. Não se trata portanto de continuar o debate, como JG pretende, mas de o recomeçar.

hartmut-bohm-1Mas será que a isto se pode chamar debate? Algumas das principais teses que defendi na série O mito da natureza nem sequer foram consideradas e o artigo de Mix falhou grande parte dos alvos. Na minha réplica ao artigo de Mix apresentei uma sequência de argumentos que na sua maioria não foram discutidos. Os leitores que usaram os comentários para tecer críticas à ecologia e à agroecologia também praticamente não tiveram respostas fundamentadas e um leitor que pacientemente indicou links para resenhas e artigos científicos que põem em causa os mitos da agroecologia e da alimentação chamada orgânica não viu nenhum desses links ser contestado.

Esta fuga ao debate não espanta. O presidente da Associação Brasileira de Agroecologia afirmou em Dezembro de 2011, no discurso de boas vindas ao VII Congresso Brasileiro de Agroecologia, que «em Ciência não há neutralidade. Os valores e a visão de mundo do pesquisador condicionam sua atividade, desde a decisão sobre o que pesquisar ou como e com quem formula suas perguntas de pesquisa. Ao pesquisarmos, o fazemos, consciente ou inconscientemente, a partir do desenho de uma sociedade que imaginamos estar contribuindo para construir. Logicamente, é uma decisão carregada de valores, de ideologia. É nesse sentido que é falsa a afirmação da neutralidade da ciência, mesmo quando ela tenta se amparar no argumento da “aplicação tecnológica inadequada” do conhecimento científico supostamente “gerado de forma adequada”». O presidente da Associação Brasileira de Agroecologia disse também «que a ciência é um campo em disputa e que a consolidação da Agroecologia representa uma revolução paradigmática. Pelo fato de estarmos desafiando velhos paradigmas, os que aderem a esta nova comunidade e a este novo campo passam a ser alvo de críticas e menosprezo nos ambientes em que a ciência convencional continua a ser praticada e no meio político ecotecnocrático que procura se legitimar com os conhecimentos produzidos naqueles espaços».

Não é por acaso que nesta hostilidade àquilo que o presidente da Associação Brasileira de Agroecologia classificou como «ciência normal» e «ciência convencional», um historiador encontra uma grande semelhança com os argumentos que levaram os seguidores de Hitler a defender a Física Ariana ou os seguidores de Stalin a defender a genética de Lyssenko. É certo que todas as noções, científicas ou outras, reflectem a época em que surgiram e o meio social que as originou, mas é um atroz simplismo pensar que assim se possa negar a validade de tudo com que não se esteja de acordo. A ciência fundamenta-se em experiências laboratoriais e numa eficácia prática que serve de confirmação às suas descobertas, e a alteração de paradigmas não invalida estas descobertas. Quando se passa de um modelo explicativo para outro os resultados científicos obtidos no modelo anterior não perdem a validade, mas são inseridos na nova estrutura, onde eventualmente são interpretados noutra perspectiva e podem suscitar novos desenvolvimentos. É assim que, pelo menos desde Galileu, se têm processado os avanços na ciência.

Mas a agroecologia coloca-se fora de qualquer debate científico ao considerar globalmente suspeitos os cientistas que se lhe opõem, precisamente pelo facto de se lhe oporem. Se «como e com quem» forem formuladas as «perguntas de pesquisa» pertencer a uma «visão de mundo» que não seja do agrado dos agroecologistas, eles rejeitam as perguntas, ou seja, fogem às questões inconvenientes. É a legitimação do charlatanismo. Vemos hoje proliferarem nas universidades departamentos dedicados à ecologia, pela simples razão de que os ecologistas são incapazes de defender as suas doutrinas nos departamentos comuns, perante os colegas cientistas. Nos seus departamentos próprios os ecologistas sentem-se protegidos — burocraticamente protegidos — e podem lançar-se na caça às bruxas contra o resto das universidades e dos institutos.

lygia-pape-2Desde há muitos anos que me interesso pela crítica à ecologia e tenho observado que a esmagadora maioria dos ecológicos é indiferente às lições da história económica e quando lhe fazem referência raramente conhecem o que tratam. Não espanta, porque a história económica põe em causa os mitos tradicionalistas e arcaizantes. O artigo de JG não constitui excepção, quando refere que a revolução do neolítico, que ele reduz ao «surgimento da agricultura em sua forma mais rudimentar», «possibilitou o crescimento exponencial da população humana e o estabelecimento das primeiras cidades, cujos moradores se dedicavam a outros empenhos que não produzir ou buscar sua comida, já que havia sobressalente».

lygia-clark-3Ora, o «crescimento exponencial da população humana» só foi tornado possível pelo capitalismo industrial, através de um duplo processo: a introdução de condições sanitárias nas cidades e a aplicação da industrialização à produção de alimentos. Se tomarmos como exemplo a Itália centro-setentrional no final da Idade Média, 95% da população habitava nas áreas rurais e 5% nas cidades, no máximo. E note-se que esta era a zona com maior concentração urbana na Europa da época. Além disso, é necessário saber que existia também nas cidades medievais uma população sazonalmente flutuante, que ia para o campo na época das grandes fainas e regressava à cidade para ganhar uns míseros tostões como serventes ou auxiliares no artesanato. Existia igualmente uma população residente na cidade mas que trabalhava nos campos das imediações. E as cidades não eram todas preenchidas por edifícios, encontrando-se hortas, pomares e outros terrenos agrícolas dentro das muralhas. Só o capitalismo industrial permitiu inverter aquela relação para 5% de rurais e 95% de urbanos; e hoje, nos países que além de serem os mais industrializados são também grandes produtores de alimentos, a percentagem de força de trabalho dedicada à agricultura é mais baixa ainda. A industrialização da produção agrícola e a aplicação da ciência química — agora também da biologia e da genética — à agricultura permitiu que um número diminuto de trabalhadores produzisse alimentos suficientes para uma população cada vez mais abundante, que pôde dedicar-se a outras actividades. Criou-se assim a sociedade urbana e industrial e ampliaram-se enormemente os horizontes da humanidade.

Mas os ecológicos vêem com muito maus olhos a aplicação da química à agricultura e bradam contra aquilo a que chamam agrotóxicos e venenos. Parecem ignorar que os mesmos laboratórios científicos que criaram as substâncias químicas da agricultura industrializada observam os seus efeitos nos seres vivos e no ambiente e continuamente as modificam ou criam outras novas, mais eficazes, que eliminam ou reduzem os efeitos nocivos. E isto ocorre não contra o capitalismo nem fora do capitalismo, mas dentro do âmbito da R&D financiada ou orientada pelo capital. É curioso que o facto de o próprio capitalismo detectar o carácter nocivo de muitos produtos, proibir ou restringir a sua utilização e os remodelar não leva os ecológicos a concluir que o capitalismo dispõe de alguns mecanismos auto-reguladores eficazes.

Com o progresso da ciência vai-se descobrindo que são tóxicas coisas que antes se julgava que não eram, e isto sucede tanto para a sociedade urbana moderna como para a rural arcaica. Sabe-se hoje que panelas de cobre e louça de barro vidrado, por exemplo, que foram durante alguns séculos artefactos comuns na Europa, são muitíssimo prejudiciais à saúde, no caso das panelas pela ingestão do metal e no caso da louça devido às rachas abertas no vidrado. Igualmente nocivos são os talheres e pratos de madeira, que constituíram a única baixela dos camponeses europeus ao longo de muitos séculos. Foram necessários os laboratórios científicos para chegar a estas conclusões.

Os ecológicos são incapazes de demonstrar que os chamados agrotóxicos envenenam a população. JG invoca a este respeito a distinção entre coeficiente de correlação e relação causal, bem conhecida de qualquer aluno de graduação em Economia, mas este aspecto metodológico em nada sustenta as pretensões dos ecológicos, pois seria impossível que a população mundial ingerisse doses crescentes de venenos e apesar disto se multiplicasse e a sua esperança de vida não deixasse de se prolongar. Aliás, quanto à forma incriteriosa como os ecológicos usam as estatísticas remeto para o livro indispensável de Bjørn Lomborg, The Skeptical Environmentalist. Measuring the Real State of the World (Cambridge: Cambridge University Press, 2001), do qual creio que existe uma tradução no Brasil.

terry-haggerty-3Na crítica ao que consideram agrotóxicos, os ecológicos confundem ainda os eventuais efeitos dessas substâncias nos alimentos com o efeito que certos produtos químicos usados na agricultura industrializada podem provocar nos trabalhadores. Mas esta é uma questão que se insere na rubrica dos acidentes de trabalho, extensiva a todos os ramos de produção no capitalismo. Só a luta organizada dos trabalhadores, dentro das empresas, criando comissões de fiscalização, e no âmbito social mais vasto, impondo uma legislação de garantias e seguros de acidentes de trabalho, pode fazer com que as administrações das empresas sofram mais prejuízos deixando adoecer e morrer os trabalhadores do que poupando-lhes a saúde. Este não é um problema específico da agricultura industrializada e sim um problema genérico de todo o capitalismo. Os ecológicos, no entanto, pouco reflectem sobre os acidentes de trabalho na indústria e nos serviços, já que pouco se preocupam com a organização do trabalho nesses ramos.

Fazendo de conta que não leu os comentários de Ronan e de Manolo ao artigo de Mix, onde estão descritas as condições de vida no campo por pessoas que as viveram — ou talvez não os tivesse lido mesmo — JG lamenta que «nós citadinos também perdemos algumas coisas ao não estarmos próximos à natureza e afastados de algumas condições das grandes cidades», e indica exemplos típicos de alguém em férias que vai tomar banho na cachoeira enquanto ouve cantar os passarinhos. A candura de JG não tem limites quando narra: «Lembro-me de uma família de militantes do MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens] que me hospedou em um estágio de vivência. Os pais haviam lutado por vários anos em ocupações para pressionar o governo a reassentá-los após sua terra ter sido inundada na construção de uma hidrelétrica e eles conquistaram um assentamento onde levavam uma vida que me parecia bastante agradável. Seus filhos, porém, tinham como sonho ir viver na cidade; soube recentemente que o filho mais velho se mudou para tentar ser jogador de futebol. A situação é comum nos movimentos da Via Campesina, que busca evitar que todos os jovens abandonem o campo, sendo a própria militância um dos fatores para a permanência de muitos».

Os «estágios de vivência» são uma forma de turismo ecológico que só se distingue daquele que é organizado por certas firmas turísticas francesas pelo facto de evocar o pretexto da militância, embora talvez nem sequer por isto, já que também essas firmas recorrem à ideologia para angariar clientes. E JG, o mesmo que gosta dos banhos de cachoeira e do canto das avezinhas e que acha «bastante agradável» a vida no assentamento, não extrai a lição de um facto elementar, o de os jovens desses assentamentos terem «como sonho ir viver na cidade».

bridget-riley-1Ora, esse sonho é tão forte que a Via Campesina «busca evitar que todos os jovens abandonem o campo». A respeito deste desejo de inverter o fluxo demográfico, que deixaria de se dirigir para as cidades e passaria a dirigir-se para o campo, eu tenho aconselhado os ecológicos — sem qualquer êxito — a estudarem a experiência dos Khmers Vermelhos no Cambodja. Acrescento agora que também é elucidativa a experiência do governo de Ceauşescu na Roménia. Só nestes termos comparativos é que podem medir-se as utopias à luz das realidades e avaliar as implicações da proposta de fixação rural apresentada pela Via Campesina.

Fico perplexo quando JG restringe a agricultura industrial à produção de cereais e de matérias-primas não alimentares e afirma: «Aqueles que porventura gostem ou achem importante comer a diversidade de frutas, verduras e legumes existentes, necessitam hoje da agricultura familiar». Será que realmente JG desconhece a industrialização operada nestes ramos através do uso de agentes químicos, de novos sistemas de irrigação, de enormes estufas e de modificações genéticas? Será possível que o ignore? Essa industrialização conseguiu conferir uma tão alta produtividade à produção de frutas, legumes e verduras que elas podem ser exportadas de um para outro lado do mundo com preços tão competitivos que liquidam as produções familiares autóctones.

Pressionada por um lado pela industrialização da produção agrícola nas culturas extensivas e pressionada por outro lado pela industrialização das culturas intensivas de frutas, legumes e verduras, a agricultura familiar só consegue subsistir em condições de mais-valia absoluta. Tal como sucede nas demais modalidades de economia doméstica, na agricultura familiar os membros da família não contabilizam o seu próprio esforço como custo, fornecendo assim um montante colossal de horas de trabalho gratuitas. Acerca deste assunto, remeto para o meu livro Economia dos Conflitos Sociais. Não o tenho agora comigo nem na edição Cortez nem na edição Expressão Popular, mas na versão que se encontra facilmente na internet as passagens relevantes estão sobretudo nas págs. 117-121 e 132-138. É nestes termos que eu apresento o aspecto económico da questão, e quem estiver interessado em criticar-me sabendo o que critica deve ler aquelas páginas. Se for só para me insultar, é desnecessário ler o que quer que seja.

A escassa produtividade da agricultura familiar é ingenuamente confirmada por JG quando indica, referindo-se ao Brasil, que «embora ocupe apenas 24,3% da área utilizada na agricultura, […] ela emprega mais de 70% dos trabalhadores rurais». Pois é, muita gente activa em pouco espaço é o que se chama fraca produtividade. Mas vejamos os números com maior detalhe.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o Censo Agropecuário de 2006 avaliou, em quilogramas por hectare, a produtividade nos estabelecimentos familiares e não familiares, conforme consta da tabela seguinte.

Produto Familiar (A) Não Familiar (B) B/A
Feijões (preto, cor e fradinho) 618 1.151 1,86
Arroz 2.741 5.030 1,84
Milho 3.029 4.303 1,42
Cafés (arábica e robusta) 1.179 1.582 1,34
Mandioca 5.770 7.541 1,31
Trigo 1.480 1.822 1,23
Soja 2.365 2.651 1,12

Fonte: Caio Galvão de França, Mauro Eduardo Del Grossi e Vicente P. M. de Azevedo Marques, O Censo Agropecuário 2006 e a Agricultura Familiar no Brasil, pág.20.

Depois vêm dizer-me que a agricultura familiar é produtiva! E menos produtiva ainda é se a questão for avaliada, como deve ser, em função do número de trabalhadores. O Censo Agropecuário de 2006 revelou que no Brasil os estabelecimentos de agricultura familiar representavam 84,4% do total e preenchiam 24,3% da área dos estabelecimentos agropecuários, significando isto que 74,4% da força de trabalho ocupada na agropecuária laborava em estabelecimentos familiares. Ou seja, 3/4 da mão-de-obra laborava em 1/4 da área trabalhada. Ainda de acordo com o referido Censo, no Brasil existiam em média 6,2 pessoas ocupadas por cada 100 hectares de terra aproveitável para lavoura e pecuária; ora, nos estabelecimentos familiares esta média subia para 17,9 pessoas por 100 hectares, enquanto se reduzia a 2,1 pessoas por 100 hectares nos estabelecimentos não familiares.

terry-haggerty-2Tudo isto indica a baixa produtividade da agricultura familiar, tanto medida em volume de produto por área como em número de trabalhadores por área. Precisamente porque se trata de uma modalidade pouco produtiva é que a agricultura familiar requer um grande número de horas de trabalho. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, do total de pessoas ocupadas neste tipo de agricultura, 89,4% tinham laços de parentesco com o cabeça de exploração; e como em todas as formas de economia doméstica os membros da família não contabilizam o seu próprio trabalho como um custo, o número médio de horas de trabalho por pessoa activa na agricultura familiar é necessariamente superior ao da agricultura não familiar. O referido Censo fornece a este respeito uma indicação muito significativa, ao revelar que 7,4% da força de trabalho ocupada nos estabelecimentos familiares era composta por crianças e adolescentes, enquanto nos estabelecimentos não familiares essa percentagem se reduzia a 3,6%. São estas as consequências da baixa produtividade da agricultura familiar e é num mundo assim que a Via Campesina «busca evitar que todos os jovens abandonem o campo». Uma proposta sinistra.

lygia-pape-1No capitalismo, a elevada produtividade cria as condições da mais-valia relativa e a baixa produtividade impõe a mais-valia absoluta. Nesta situação, a apologia da agricultura familiar não é mais do que um biombo idílico destinado a disfarçar a forma mais brutal de exploração, a mais-valia absoluta.

Poderia ser — embora mais sob o ponto de vista dos ideólogos do que de quem anda com a enxada nas mãos — que, apesar de tudo, valesse a pena trabalhar mais horas porque assim se fugiria aos ditames de um patrão, aplicando, nas palavras de JG, «métodos e práticas gestadas pelos trabalhadores». Mas na agricultura familiar não são as famílias camponesas quem controla o quê e como planta, nem quem controla as extenuantes horas de trabalho que não são contabilizadas como custos, nem quem controla o trabalho infantil e as condições miseráveis de vida. São as oscilações do mercado, que requerem certos produtos mais do que outros e que impõem os preços de venda. Um trabalhador do agronegócio depende das ordens do patrão. Uma família camponesa, por mais agroecológica que seja, depende dos imperativos do mercado. Por isso os jovens rurais têm «como sonho ir viver na cidade», o que significa que têm como sonho fugir da mais-valia absoluta e ser explorados pela mais-valia relativa. Não estão dispostos a servir de cobaias para as doutrinas ecológicas.

«O que se espera do ambientalismo pela esquerda é necessariamente tomar o ponto de vista dos trabalhadores», escreve JG. Mas, curiosamente, logo em seguida ele considera os trabalhadores apenas como consumidores — consumidores negativos, neste caso — ou seja, considera os que sofrem ou eventualmente sofrem a acção exterior de certas empresas, mas não os trabalhadores no interior das empresas. Eu observei num dos comentários a Sociedade urbana e industrial. Uma resposta: «É elucidativo verificar que o movimento ecológico se limita a protestar contra a poluição que as empresas provocam no exterior e esquece as condições sofridas pelos trabalhadores durante o processo de trabalho. […] Os ecologistas, que sistematicamente adoptam a perspectiva do consumidor, pretendem mobilizar populações exteriores às empresas, residentes nas imediações. Se essas pressões tiverem êxito, os custos delas decorrentes serão absorvidos pelo preço de venda do produto; e se este preço ultrapassar um dado nível, ele provocará uma restrição do mercado, reduzindo portanto, ou eliminando, o interesse da empresa por aquele tipo de actividade. Perante este agravamento dos custos exteriores de produção, resta à empresa um único recurso, que é a diminuição dos custos internos de produção, ou seja, o agravamento da exploração da força de trabalho. Mas as boas-almas ecologistas esquecem-se sempre deste aspecto, porque as empresas só as incomodam dos muros para fora e nunca dos muros para dentro».

tadasuke-kuwayama-2No século XVIII difundiu-se uma forma de jardim, que na arquitectura paisagística tem o nome técnico de jardim inglês, e que consistia em aumentar os contrastes e o dramatismo dos maciços de árvores, dos relevos e dos cursos de água, de maneira a tornar a natureza ainda mais natural, ornamentando-a também aqui e acolá com falsas grutas e ruínas apócrifas. Na Inglaterra dessa época, o reverendo William Mason, poeta e amante de jardins, sugeriu aos donos das terras que vestissem de andrajos graciosos os filhos das famílias miseráveis e os deixassem à solta entre as colinas e os riachos, as grutas e as ruínas. E na França burguesa de Bonaparte, o arquitecto Jean-Charles Krafft propôs que um ou outro casal de camponeses idosos, depois de uma vida de labuta ao serviço do proprietário, fossem alojados «numa choupana de estilo polaco», o que não deixaria de embelezar o jardim com mais «um efeito pitoresco» [*]. Os mesmos capitalistas que haviam proletarizado os campos e convertido o artesanato em manufacturas fabris povoavam os seus lazeres com falsas recordações vivas de uma sociedade rural idílica que, se alguma vez houvesse existido, teriam sido eles os primeiros a aniquilar. É o que faz hoje a tecnocracia ecológica, que aprende nos respectivos departamentos universitários a adornar a paisagem rural com famílias de agricultores pitorescos.

O que escrevi aqui e noutros lugares deixa claro que a minha oposição ao movimento ecológico, e neste caso específico à agroecologia, não é parcial mas total. No plano civilizacional sou hostil ao movimento ecológico, porque representa uma ameaça à sociedade urbana e industrial, que pela primeira vez na história oferece à humanidade uma possível libertação do reino da necessidade. No plano intelectual sou hostil ao movimento ecológico, porque volta costas à racionalidade científica e se encerra nos seus próprios artigos de fé. No plano estético sou hostil ao movimento ecológico, porque desde as performances e instalações de Beuys até às criações dos seus epígonos de hoje tem agravado os impasses do conceptualismo. No plano económico sou hostil ao movimento ecológico, porque todas as medidas que propõe levam, directa ou indirectamente, ao agravamento da mais-valia absoluta. No plano político sou hostil ao movimento ecológico, porque implica o policiamento exercido sobre a natureza por uma tecnocracia cooptada.

As ideias e a política da extrema-direita só se tornam realmente ameaçadoras quando começam a penetrar na esquerda; foi o que sucedeu com o fascismo na época entre as duas guerras mundiais. E o charlatanismo só se torna preocupante quando começa a ser adoptado como ideologia em amplos meios sociais; foi o que sucedeu com a eugenia na primeira metade do século XX e com o nacional-socialismo na Alemanha e na Áustria. Ambos estes processos convergiram na ecologia. Num livro publicado há quase trinta e cinco anos eu chamei ao movimento ecológico inimigo oculto, pela sua capacidade de adoptar a linguagem e as maneiras da esquerda para prosseguir um programa de direita. O problema agravou-se ao longo do tempo e, pela difusão capilar que conseguiu e pelo travesti com que se apresenta, o movimento ecológico constitui hoje um dos mais sérios obstáculos nas lutas sociais.

Nota

[*] Citado em Sophie Le Ménahèze, L’Invention du Jardin Romantique, Neuilly-sur-Seine: Spiralinthe, 2001, pág. 458.

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Ilustrações: de cima para baixo, obras de Hartmut Böhm, Lygia Pape, Lygia Clark, Terry Haggerty, Bridget Riley, Terry Haggerty, Lygia Pape e duas de Tadasuke Kuwayama. A ilustração da janela de destaque é de Julian Stañczak.

60 COMENTÁRIOS

  1. Pena desse cara… Gasta horas e horas escrevendo textos que um punhado de intelectuais demagógicos vão ler… Criticando o movimento ecológico, que certamente não é o maior problema da humanidade hoje, inclusive indicando um viés nazista (!!) pra ele hoje em dia. Poderia se focar em construir de fato coisas mais importantes pro mundo e a sociedade, ao invés de se focar nessa estéril apologia ao desenvolvimentismo industrial como salvação da humanidade.

  2. O peso brutal dos fatos serviria para embasar a questão, se acaso os fatos fossem considerados. De um lado jovens que realmente vivem/viveram a realidade do campo e da agricultura familiar lutando para fugir e viver na cidade e de outro jovens que não viveram esta realidade idealizando um mundo camponês e alardeando a ida ao campo.

    E mais: os ecologistas se alojam em departamentos universitários cheios de recursos, moram na Frei Caneca, Augusta, Paulista, imediações de metrô, possuem quem lhe sirva o café e, assim que podem, empregadas domésticas. Vivem num cotidiano em que mal lavam um copo de água, mas depois do turismo ecológico ou alguma vivência no MST, se conscientizam a respeito da beleza do trabalho pesado, que será sempre feito por outros. Embora a apologia do mundo arcaico, gostam é de ar condicionado e usar a internet, almoçam em restaurantes caros e consomem produtos que estão fora do alcance monetário de 80% da população. Para não faltar mais nada, existe até mesmo rede social para ecologistas conseguirem namoradas e namorados, porque não é fácil achar um amor ecologicamente correto.

    Uma leitura das roupas, dos olhos, da pele sem marcas de sol nem cicatrizes, do vocabulário polido, dos quadros na parede, dos meios em que circulam permite rápido vislumbrar o estelionato ideológico proveniente do turismo ecológico. Mas há também iludidos sinceros, embora não menos perniciosos, que gostam de se cercar de imagens de paraísos, talvez como remédio para um mundo brutal.

  3. Em primeiro lugar, concordo com o texto de Joao Bernardo a respeito do Inimigo Oculto a respeito de como os Partidos Verdes participaram das coligações políticas que iniciaram a entrada de governos conservadores que restringiram direitos das pessoas nos final dos anos setenta. E claro, podemos matizar que, naquele contexto, tais políticas referiam-se sobretudo a restrição de consumo e aumento do custo de vida para o trabalhador em muitos itens necessários para a vida destes trabalhadores.
    Mas na presente serie de artigos, não posso me furtar a colocar algumas discordâncias, que não são poucas a respeito da convergência ou não entre capitalismo e ecologia, ou ainda, de algo que fosse uma ideologia que se identifica com o anti-capitalismo, mas que coloca-se num quadro de mudança do capitalismo assumindo, no entanto, certas feições anti progressistas como no facismo, o que seria uma mobilização contraditória e não racional no sentido da restrição de direitos.
    Basicamente, não tenho convergência entre uma serie de pontos, iniciando com o sentido do desenvolvimento industrial sendo idêntico ao setor de produtos para consumo e bens de produção, como maquinas, equipamentos e a extração de matérias primas, pois, apesar dos raros setores em que estes itens recentemente convergem, como mostra a pesquisa de Claude Serfati a respeito de setores em que estão integrados o desenvolvimento de bens de consumo e produção bélica, como no setor de comunicações, eles em geral iniciam seu processo produtivo na industria bélica, como colocam historiadores da tecnologia como Barton C. Harcker, resultando que somente após a anulacao da vantagem estrategica de dada tecnologia aplicada a industria de defesa (lembrando a passagem constante da industria para a industria bélica como ocorre desde o final do século XIX) geralmente num periodo de 10 anos.
    Muitos dos produtos que conhecemos são resultado residual da industria belica. Outro fator, em segundo lugar, muitos dos produtos para o consumo surgem como refugo industrial e depois viram produtos, como exemplo, fluor em relacao a industria de aluminio e refrigerantes, fruto da producao de cerveja e sobra de gas que, posteriormente foi adicionado ao suco de frutas. Os controles ambientais nao sao desenvolvidos pelas industrias, eles as assumem depois de impostos por fora, preferindo-se lançar um produto e buscar os seus resultados e efeitos colaterais serem descobertos pelo uso e, mesmo assim, lutando contra eles, e, inclusive contra a pesquisa no sentido de seus efeitos, um exemplo recente foi a intervencao da industria de amianto na pesquisa realizada na saude publica na USP com ameaças de processos e criando um instituto para a defesa, busca e repressão de pesquisas que atuem na luta contra a produção de substancias que acabem com a saúde do trabalhador, como e a do amianto – e conheço algo parecido em outro setor, o das resinas fenólicas em que o tempo de validade de um trabalhador antes de se aposentar por invalidez por problemas pulmonares e de 8 anos.
    Terceiro, muitos dos danos ao meio ambiente em geral e nao um natural idealizado sao irreversiveis, como no caso da industria que lida com radiação em que 10000 anos separam a produção de um determinado elemento e sua transformação em algo relativamente seguro com todos os custos que são cobrados pelo trafico de substancias químicas residuais ativo em muitos países e, recentemente, no Brasil. Tal industria se dedica a esconder em áreas pobres e de pouco controle, muitas vezes aráveis, restos tóxicos de outros países, ou dos mesmos países que se transferem, com alto custo a vida das pessoas. Outros casos notáveis são os testes na população realizadas pelos EUA de substancias diversas, inclusive cancerígenas, ou em populações sob ataque militar. O controle ambiental, social e seus custos humanos são tão menores quanto mais controlados são estes humanos transferindo o custo do laboratório, para o próprio consumo. Há um aumento substancial de produtos criados e tornados mercadoria enquanto há um numero muito pequeno de substancias de que se conhecem todas as propriedades ou a neutralização de seus efeitos negativos sobre a vida humana.
    Um destes casos e sobre o tratamento de águas e efluentes industriais, livremente dispostos com substancias toxicas que comporiam armas químicas, mas que se depositam em rios que circulam pelas cidades sem qualquer controle aumentando as doenças das pessoas que são obrigadas a viver nestes locais e tornando suas vidas muito mais degradadas, aumentando a dependência estrita dos produtos comprados e industrializados, aumentando o custo de vida.
    Quarto, para mim, encontro certa idealização sobre o que acontece num laboratório civi hoje, principalmente no quadro que ele mesmo conhece da “distorcao” de resultados para convergencia com os interesses de centros e grupos de pesquisa que necessitam disputar verbas, como podem demonstrar, a Maria Caramez Carlotto ou outros que trabalharam pesquisando o laboratorio, ou mesmo que trabalham em um e encontram uma infinidade de dados ao qual tentam dar inteligibilidade, segundo um plano estipulado estrito que não pode mudar, o que seria o pressuposto de uma pesquisa, como os testes que podem ou não errar, enquanto as agencias financiadoras não permitem erros.
    Quinto, ha uma area que nao e simplesmente um campo de pesquisa neutro que e o da engenharia genetica, pois ao se colocarem cerceamento, racionalizacao e um limite da propriedade privada nestes dominios, perde-se algo muito maior do que simplesmente a dimensao da producao e melhora de produtos, mas coloca a possibilidade de existencia biologica plenamente integradas ao capitalismo, um exemplo desse caso e quando as seguradoras e planos de saude, especialmente em paises sem saude publica colocam a clausula da necessaria ciencia sobre a possibilidade de ter cancer, que inviabiliza os valores estipulaveis do seguro aqueles que possuem parentes com cancer, colocando a responsabilidade deste saber no contratante, o que, de certo modo, prenuncia um novo tipo de eugenismo e a propriedade privada das sementes patenteadas pelo genoma que lembra a acao pirata de apropriacao pela descoberta no sentido como os “descobridores” descobriam um lugar e se apossavam dele, com tudo o que tinha, inclusive pessoas. Assim, ao realizar mapeamento genetico e se apropriar de determinadas caracteristicas de certos organismos todos os que se utilizarem deles devem pagar tributo ao primeiro que se apossa desse saber e, segundo, com sementes que nao permitem a reproducao (as chamadas sementes terminator) e extinguem as demais, restringindo a variabilidade de especies e aumento a possibilidade de pragas que extingam todo um campo de plantas, outros exemplos sao a apropriacao de determinados microorganismos por empresas farmaceuticas, como os bacteriofagos, descobertos na URSS adaptadas a bacterias especificas e que substituiriam os antibioticos. Apos apropriacao estas pesquisas sao inviabilizadas.
    Sexto, a destruicao de uma area inteira com todos os organismos e pessoas ali presentes, inviabiliza o conhecimento sobre substancias, propriedades ambientais, clima, etc, e destroi fontes de agua potavel, entre outras coisas, para a extracao mineral – nao exatamente num momento de falta de minerios mas de producao de monopolios ou processos especificos, por exemplo, a producao de minerio de ferro pela vale do rio doce que atingindo 40% da producao mundial, possui a capacidade de ditar o preco internacional por uma unica empresa e, logo, especular a vontade com a relacao entre producao, manutencao e a cotacao entre o valor especifico deste minerio e outros em todo o mundo. Outro exemplo e o caso da producao do Coltan (columbita e tantalino) que destroi as relacoes socias no pais e, com isso, cria uma guerra civil sangrenta que acompanha apenas as oscilacoes do valor deste minerio internacionalmente (onde cada faccao representa uma empresa disputando remessas de minerio extraida em sistema de semi-escravidao), minerio da qual a industria de informatica tanto depende e que piorou com a producao de novas mercadorias, como videogames, que nao podem ser considerados como algo essencial a vida das pessoas, mas a producao de gadgets que se substituem a esmo. Nao sei se vale a pena seguir o sentido da producao industrial contra a vida de pessoas que dependem de extrativismo achando que isso melhora a vida das pessoas pois nao o faz, o mesmo vale para o retorno do trabalho escravo em escala com a producao de cana no Brasil com utilização de crack para o aumento de produtividade e o custo humano que isto produz, pois a pequena producao era melhor, nestes casos do que a industria da extracao de álcool e açúcar, como na época do Brasil Colonia.
    Setimo, as empresas desenvolvem produtos finais a partir de tecnologia desenvolvida em outros setores, adaptando de modo pouco extensivo a P&D, exceto para produto final, os impactos e outras coisas na vida das pessoas nao sao contabilizados e sao oriundos de relacoes produzidas pelo estado restrito, alem disso, a transferencia de tecnologia e interna as empresas e nao tem o sentido proprio de um desenvolvimento, mas de acompanhar o setor localizado desta corporacao onde ele mais lucra, obrigando os demais a extrairem de modo intensificado seguindo a matriz ou sede mais lucrativa, nao importando as condicoes locais. Como exemplo, uma empresa de consultoria internacional como a Mckinsey e a Price Waterhouse coopers mostra como se busca o local a melhor receber uma industria pela relacao entre leis trabalhistas e ambientais que pegam em relacao a acesso e transporte de materias primas, buscando o lugar onde nao pega tais leis e onde pode-se evitar que funcionem. Eu acompanhei pessoalmente casos destruidores de empresas que burlavam tais leis e como isso era aplicado.
    Há ainda o argumento do Nilton em sua critica aos pressupostos equivocadamente analogos entre a economia ecologica e o marginalismo neoliberal ou nao, onde ambos creem de um lado na substituibilidade infinita da matriz energetica e de outro lado na sua inesgotabilidade. Sua conclusao e um pouco mais tensa e coloca uma resposta complexa a possibilidade dessa constituicao de uma matriz ecologica verde no contexto do aumento constante de produtibilidade do capitalismo e no de uma crescente producao de valor onde e possivel vislumbrar um teto, um limite que nao passaria pelo mesmo processo dialetico da passagem entre limite e barreira descrito por marx no capital.
    Se pensado em relacao com a matriz energetica como outro fator mais complexo e nao apenas uma materia prima o calculo da producao de valor se torna muito mais dificil de se imaginar controlado dentro dos quadros do desenvolvimento capitalista. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/86/86131/tde-09062011-155308/en.php
    E por fim, e o que importa sua origem no nazismo, isto me parece de importancia menor em relacao a outros pontos, afinal, imagino que o pensamento do autor nao se fia numa ideia heideggeriana de um processo de pensamento e racionalizacao que se iniciaria num periodo e se espraiaria organizando e dando forma ao futuro, como se pressupoem em muitos tributarios do pensamento de Nietzche, entao, neste caso, qual a importancia politica de um pensamento de certo modo genealogico neste aspecto especifico e não em outros, por exemplo ?
    Não acredito que seja uma questão tão fácil de ser respondida aquela que coloca em questão os problemas apontados pelo que se chama ecologia, mas nem tudo acho descartavel, como por exemplo a noticia recente a respeito de indios negociando direitos de exploracao da floresta. A empresa explora biodiversidade e garante, para seus negócios, que ninguém derrube nada, pois explorará tecnologicamente a biodiversidade. O curioso é, primeiro, a empresa que ganha na exploração de capital tecnocientífico duas vezes, isto é, como crédito de carbono, isto é, que lá será preservado em nome de outros lugares devastados (algo similar a outras formas de troca de valores no mercado financeiro) e, segundo, que explorará os recursos genéticos no limite da tecnociência. Mas há uma última curiosidade, que, em terceiro lugar, nossos bravos milicos verde-oliva, desenvolvimentistas e os que tais querem mostrar como os índios estão errados, como, provavelmente estiveram aqueles que entraram em acordo com os portugueses para combater outros índios com a promessa da preservação de suas terras. Só que, no final, para derrubar tudo, dar ao agronegócio e findar a história do perigo da biodiversidade destruindo-a e entregando o que for possível à vale do rio doce e o que não for à cana, soja e derivados.
    Não acredito que a ecologia enseja uma resposta objetiva aos problemas relativos aos meios dos quais as pessoas dependam para viver, mas resvalam em questões que ficam, muitas vezes, invisiveis se nos atemos somente ao aspecto imediatamente produtivo do capitalismo como um sentido positivo e que não possua outros sinais possíveis dentro dele que leve, inclusive para sentidos que não seriam reapropriaveis para a criação de uma sociedade futura ausente das formas de exploração que o capitalismo provoca, pois o capitalismo tem um sentido complexo de apropriacao que tanto, ou muito mais que os movimentos capitalistas acabam se apropriando de aspectos tanto da luta anti-capitalista quanto de outras formas de organização política como o facismo.

  4. Realmente, alguns pontos e textos publicados pelo Passapalavra talvez fiquem tão distantes do senso comum militante que, posteriormente, há de tudo, menos debate. Nesta série nem parece que partimos de um mesmo texto. João Bernardo publica um, MIX escreve outro sem ligação com o anterior, os comentários não são respondidos, JG vem com outro descolado do primeiro do João Bernardo, do texto da MIX e dos comentários e, agora, segue o mesmo num comentário longo e confuso do Douglas (que tal um texto?).

    Quem leu o Manifesto Anti-ecológico e leu também Labirintos do Fascismo vai ver que, dentre tantas coisas, como a origem da ecologia na extrema direita, o que João Bernardo alerta é para o grande papel do movimento ecológico enquanto campo de compartilhar de práticas entre a direita e a esquerda militantes. E que, neste processo, o movimento ecológico tem servido de canal para que temas e teses de direita e de extrema direita sejam difundidas e propagadas na esquerda e na extrema esquerda.

    Ter lido aqui o texto da MIX, aqui no Passapalavra, foi uma das coisas mais decepcionantes que me ocorreu nos últimos anos. E, depois, nos comentários e em outros textos, tanta gente que se pretende militante sincera propondo para as pessoas um mundo de horrores ainda existente no Brasil arcaico, um socialismo da miséria digno de Gilberto Freyre.

    E é claro que tem que ser assim. Como a MIX é anarquista, ela só pode propor um mundo rural arcaico e de subconsumo para ser ecológica. Se for enveredar por um mundo ecológico mais arrojado e sem subconsumo, como pretende o Douglas, o que teremos? Um mundo que necessita que uma gigantesca tecnocracia ecológicca, ecocratas a policiarem a vida de todos e todos os processos.

    Será que meus amigos militantes não conseguem compreender que a ecologia ou os leva para o mundo miserável da MIX ou para um mundo dominado por uma tecnocracia ecologicamente legitimada? E que, implicitamente, no discurso ecológico está a defesa do saber como poder, do saber como justificação do poder, a apologia de especialistas em natureza como novos senhores do mundo? Quanto demora a começarem a cobrar um dízimo pelo planeta?

  5. Ao invés de escrever um comentário tão grande, porque o crítico acima não enviou sua crítica em formato de artigo, reunindo os dados e referências bibliográficas que aponta, e o publicou no Passa Palavra, sob o título de artigo-resposta ao artigo de João Bernardo?

  6. O que comentou acima esta sem um computador proprio e utilizando um estrangeiro enquanto o proprietario observa, nervoso em outro canto da sala.

  7. Sobre o subconsumo, a que se refere Maria, será interessante conferir algumas propostas da “arquitetura ecológica”, como a da “casa micro-compacta”, de 7 m², desenvolvida por Richard Horden e sua equipe da Technical University, de Munique; ou a da “casa de celofane” de Stephen Kieran e James Timberlake. Para Horden, a economia, deparando-se com limites ambientais, deverá obrigatoriamente, reduzir o consumo ao mínimo possível, o que é o mesmo que dizer que a classe trabalhadora pode (e deve!) adaptar-se a viver num ambiente de 7m²! Trata-se de uma fusão entre a tecnocracia ecológica (os arquitetos), policiando a vida de todos, conforme diz Maria, com a demanda ecológica pelo subconsumo. E (mais uma vez!) surgem os ecologistas tentando desestimular os trabalhadores de se apropriarem daquilo que é fruto de seu trabalho.

  8. E eis que aquele, que se insurge contra as distorções operadas nos laboratórios, é a mesma pessoa que possui um laboratório muito curioso, pelo qual realiza deduções bem detalhadas sobre comentadores que preferem o anonimato.

  9. Leio na Folha de hoje, caderno TEC, que a nova versão do SimCity, jogo no qual se simula o controle sobre cidades, será numa versão ecológica. A empresa desenvolvedora não somente quer lucrar com as vendas mas aproveitar para educar os jovens nos pressupostos da ideologia ecológica.

    É impressionante ver anarquistas, evangélicos, marxistas, nazistas, fascistas, empresários, tecnocratas, socialites, todo tipo de gente, irmanados em uma causa comum.

  10. Acho esse debate importantíssimo, mas parece que há ainda muito entulho entre os argumentos de cada lado. Realmente, a ecologia não pode justificar-se como um valor em si. Como tampouco o progresso científico e industrial. Talvez seja melhor ancorar-se em dois processos para avaliar cada pólo desse debate: exploração do trabalho e reprodução material da cultura (a vida humana e seu entorno). Evitar um e garantir o outro não possui como pressupostos nem um ideal de vida agrária ou uma urbana-industrial. Isso é indiferente, tal equilíbrio ou desequilíbrio pode ocorrer nas duas formas de organização sócio-econômicas (em diferentes escalas, é claro). Isso é uma avaliação que se faz de dentro da história. Pode-se chamar esse equilíbrio pelo nome que quiser, agroecológico, socialista etc etc etc, o que importa é que é um saber histórico e , portanto, não estanque ou passível de ser sequestrado por ecocratas e congêneres. A crítica “ambiental” de esquerda ao capitalismo tem que ser feita na medida que esse é um processo histórico cuja reprodução necessita essencialmente da exploração do trabalho e que, ao mesmo tempo, não apenas coloca em xeque a reprodução material humana e seu entorno de forma aguda e localizada, como há muito barbaramente o faz, mas torna isso um processo com um risco cada vez mais geral e sistêmico. Essa crítica, realmente, não pode retroceder em seu objetivo ao propor modos de produção cuja exploração é ainda maior que no capitalismo moderno ou que não garantam a reprodução humana na escala hoje necessitada, como nos casos de agroecologia que assumem regimes com alta exploração de mais-valia absoluta e com baixíssima produção. Esse é um ponto importante levantado nesse debate. Mas, vale questionar se essa atual difusão ideológica da agroecologia e uma aceitação desses regimes ainda mais exploratórios pelo senso-comum de esquerda não está relacionado, entre outras coisas já citadas, com uma dificuldade do marxismo em lidar criticamente com um conceito imbricado em sua gênese e cujo significado é complexo o suficiente para que seu valor positivo seja olhado, no mínimo, com extrema cautela: o progresso. Talvez, lidar melhor com ele na perspectiva marxista ajude a diminuir na esquerda tanto a apologia desmedida e irresponsável de sua positividade na história, quanto uma recusa imediatista e falsa que apenas repõe os males que supostamente quer se combater nele: exploração e destruição da vida. Duas faces da mesma moeda, essa oposição dentro da esquerda sobre o progresso.

    abraços,
    Lucas

  11. O Douglas Anfra diz: “Assim, ao realizar mapeamento genetico e se apropriar de determinadas caracteristicas de certos organismos todos os que se utilizarem deles devem pagar tributo ao primeiro que se apossa desse saber e, segundo, com sementes que nao permitem a reproducao (as chamadas sementes terminator) e extinguem as demais, restringindo a variabilidade de especies e aumento a possibilidade de pragas que extingam todo um campo de plantas, outros exemplos sao a apropriacao de determinados microorganismos por empresas farmaceuticas, como os bacteriofagos, descobertos na URSS adaptadas a bacterias especificas e que substituiriam os antibioticos. Apos apropriacao estas pesquisas sao inviabilizadas.”

    As sementes terminator ou suicidas não são comercializadas. Já quanto a extinguirem as demais, isso quer dizer o quê? Que devido as suas virtudes se reproduzem com vantagem? Mas ele não acabou de dizer que não se reproduzem? Também não entendi o resto da frase, mas o que aqui está em questão é precisamente a natureza capitalista da agricultura, ou melhor, do mundo, e não as suas virtudes ecológicas. Parte das mudanças que se pretendem com os transgénicos é precisamente diminuir o impacto em termos ecológicos, evitando o uso de pesticidas, etc, e por aumento da produtividade, diminuindo a urgência de ocupar mais terra.
    Tal como as patentes de software podem ser combatidas tanto em termos legais como por pirataria generalizada, assim se pode proceder com os transgénicos, e efectivamente é assim que se faz. Agricultores indianos recorrem precisamente a esse tipo de contrabando para se apossarem dessas novas tecnologias percebidas por eles como melhores. A não comercialização das sementes suicidas ou terminator é um exemplo de como as multinacionais do ramo não são todo-poderosas e têm que se vergar a outras pressões. Por outro lado, essa tecnologia das sementes terminator apresenta vantagens para precisamente quem teme que essas novas variedades se espalhem no meio e erradiquem as outras devido às suas vantagens de resistência à pragas ou criação de híbridos, etc. Mas é preciso que se note que toda a agricultura é eliminação de biodiversidade e que realmente variedades originas e intermédias do que se cultiva agora desapareceram e não fazem falta.

    Queria dizer que eu sei pouco sobre o assunto e posso ter cometido vários erros mas gostaria, nesse caso, que me indicassem com precisão quais seriam esses erros, com referências a fontes confiáveis e não a documentários alarmistas ou a páginas da Greenpeace ou da associação da agricultura orgânica, ou lá como se chama isso.

    Referências ao suicídio de agricultores indianos dispenso porque isso é um rumor espalhado por uma tal Vandana Shiva, que usa o seu capital identitário de “indígena” para impressionar pessoas longe do terreno. Ela diz uma mentira, e uma rede mundial de activistas dados ao alarmismo e à paranóia espalham isso e não se desdizem quando são confrontados com provas de que se enganaram.

  12. A reflexão de Lucas sobre o conceito de progresso é interessante. Ora, é óbvio que o marxismo é progressista, no sentido de perceber que a sociedade urbano-industrial é aquela que dá viabilidade ao projeto da emancipação universal, a partir da revolução comunista. Não é progressita, no sentido de que é uma filosofia da história escatológica e determinista etc. Os artigos de João Bernardo no PP e a intervenção antiecológica nos debates, há vários anos, simplesmente ressaltam isso: a necessidade de a classe trabalhadora se apropriar desta herança progressista do capitalismo, ao invés de negá-la. Dar-se-ia o mesmo com Lukács, por exemplo, que ressalta a necessidade de a classe trabalhadora se apropriar da herança cultural da burguesia, sua literatura etc. O tipo de crítica ambiental, de que fala Lucas, já é feito por intelectuais, partidos e movimentos conservadores, e é dispensável aos anticapitalistas, cujo objetivo é desvelar as contradições de classe do capitalismo, desvelar a exploração. Muitos leitores estão confundindo demandas dos trabalhadores com demandas ecológicas, inclusive o criticado JG. E insistem em tentar combiná-las, gerando uma contradição interna em seus argumentos que é inaceitável.

  13. Negativo, as sementes Terminator são não apenas vendidas, como são distribuídas entre agricultores. A disputa é muito mais em termos de amplitude de distribuição. Elas tem uma vantagem específica em relação às sementes crioulas ou nativas que é a imunidade a certos pesticidas intensos, assim, a Monsanto cria a planta geneticamente alterada que suporta uma carga muito maior do pesticida que ela mesma produz. Ela é sempre ligada a este tipo de alteração.
    No entanto quanto há uma praga que atinge esta planta determinada, todas se contaminam pois são como clones uma da outra, entende, não há variabilidade, então não há mutação no processo reprodutivo e, logo, resistência a pragas.
    Com essa sobrecarga de pesticidas, aumenta a concentração de toxicinas que poluem o solo, os mananciais de água e assim minam parte de outros recursos essenciais ao homem.
    Quanto à pesticidas que façam mal ou não ao homem, isto não é novidade. Em geral derivados de armas químicas, eles são utilizados em escala sem muitos testes. Exemplo é o do DDT, se a exposição à pragas mata imediatamente os homens, a exposição aos organo clorados os mata com o tempo. Em escala menor, talvez em certos casos, mas no da aplicação sobre os prisioneiros de guerra japoneses para controle de piolhos e pulgas em campos de concentração, como cobaias, sabemos com o tempo que esta foi apenas uma entre as tantas causas de problemas entre os sobreviventes de guerra no japão que desenvolveram doenças graves.
    Amigos, eu posso entender o argumento a respeito da produtividade do solo em relação à agricultura familiar, mas, isso funciona em todas as regiões ou comparando toda a caatinga com a agricultura familiar no sul e sudeste com uso intensivo do solo ? Acho isto pouco provável, principalmente levando em consideração que a quase totalidade de hortaliças e determinados tipos de frutas para uma região gigante ser abastecido a partir deste tipo de agricultura.
    E dizer que organo-clorados não fazem mal à saúde ? Fazem não só a quem os consome como a quem os produz na indústria química. Deste modo, acabam por destartar outra ciência, a da toxicologia.

  14. Douglas Anfra, as sementes terminator são vendidas onde? Leu isso onde? Tenho a certeza que não faltarão referências a isso em material de propaganda, mas só aí se encontram.Quero uma referência séria. Também se refere a história dos suicídios de agricultores indianos, que é mentira e de um suposto envenenamento de gado na Índia por algo que é apenas tóxico para insectos. Tudo isso é continuamente citado sem prova nenhuma. Os agricultores gostam de transgénicos, os cientistas também, têm sido cultivados em muitos lugares sem terem produzido nenhuma catástrofe. Os perigos para a saúde da agricultura orgânica têm sido maiores.

  15. E onde leu sobre as sementes Terminator sendo amada pelos agricultores, exceto como produto oferecido a preço subsidiado pela Monsanto para se tornar mais barata, afinal, ela não pode ser replantada. É óbvio que ela é distribuída de modo barato, pois depois de implantada, quem planta depende eternamente da compra dela.
    E novamente, ela é posta a venda antes de existirem testes, inclusive sobre possibilidade de transcriptase reversa. E não importa dizer, é claro, que a proposta partiu da senadora Katia Abreu, pois isso seria governismo. Os meios que tive acesso de informação foram plantadores (pra não chamar de camponeses e ser chamado de arcaísta) e noticiosos de esquerda ligados os movimentos sociais rurais, além de militantes da área de tecnociência, fonte ao qual imagino que conteste, pois, mesmo que tal campo possua um número grande de cientistas, biólogos e agronomistas (mas um cientista sempre pode ser considerado menos cientista que outros). Uma análise laboratorial é justamente o que foi negada colocando à venda no mercado antes de que houvesse comprovação de seus efeitos.
    A agricultura orgânica não coloca riscos à saúde como coloca esse tipo de programação genética, que, assim que descobrem uma aplicação imediata, vira produto e não pesquisa sobre consequências.
    Vocês se encontram, como se estivessem na perspectiva do inorgânico, ligados ao meio tecnocientífico como se desejassem suplantar os lentos ritmos da evolução biológica substituídos pela eficácia da temporalidade da bioengenharia. E isso do lado da “vontade de potência” que estas tecnlogias põem em operação, como forma pós humana integrada a uma utopia tecnocietífica, onde se colocam ao lado das corporações que desenvolvem técnicas de controle nesse sentido.
    Contra uma utopia pré-científica, colocam outra tecnocientífica, ao lado das corporações que desenvolvem formas novas de controle, de apropriação e de subsunção da vida e das propriedades mais próximas de novos limites científicos à produção capitalista.
    Vocês estão se colocando ao lado das corporações ao observarem com olhos muito benévolos a produção capitalista e seu desenvolvimento tecnocientífico estritamente como indutor de desenvolvimento, apropriável e positivo em qualquer sentido, e não como controle e expansão de formas de controle da vida social, que é outro aspecto.
    Para tanto negam observar o que é o desenvolvimento tecnológico na sua forma ambígua. Por exemplo, pensem no aparentemente óbvio episódio da revolta da vacina. Em certo olhar, as pessoas estavam contra o progresso, mas vendo em detalhe, criou-se uma instituição de controle social que pouco dava importância, de fato, às possibilidades e ao processo que então operava, como analisa em detalhe o livro de Henrique Cukierman Yes, nós temos Pasteur.

  16. Não tenho paciência para responder, até porque isso me custa muito esforço dado o meu nível de conhecimentos, mas parece-me também que os seus não são obtidos a partir de grande nível de conhecimento científico porque várias coisas que diz são precisamente mitos que circulam em meios activistas sem base científica. Curioso que fale em tecnociência. Que raio é isso? Alguma coisa má e dominadora? As sementes terminator não são comercializadas. AS variedades transgénicas são modificadas precisamente para se diminuir a necessidade de insecticidas e herbicidas. A agricultura orgânica baseia-se em misticismo e na recusa do conhecimento científico e tem dado muitos mais problemas em termos de envenenamento da população.
    Eu realmente tenho muita dificuldade em entender as suas frases. Não entendi essa questão das vacinas. As vacinas acabaram com doenças que dizimavam as populações e infelizmente graças ao obscurantismo continuam a fazê-lo em certas regiões, o caso da polio. Você está contra a vacinação? Não entendi.
    Simplesmente deixei de acreditar em tudo o que se diz nos meios onde você se informa, porque dispondo de algum tempo, e investigando um pouco em lugares sérios, facilmente se descobre que difundem as maiores patranhas ou ideias sem fundamento. Ah, e deixei de ser tão céptico com as opiniões dos cientistas, que certo mantra conseguiu infundir em mim. Os cientistas podem ter opiniões pouco neutras e mascará-las de ciência mas não vejo porque haveria de duvidar deles quando explicam fenómenos básicos que a seita ecológica está sempre a baralhar.

    Mas por favor, o que é isso de perspectiva do inorgânico? Mas você entende alguma coisa disso ou deu-se sequer ao trabalho de ler o que os biólogos têm a dizer sobre essas coisas? É suposto ficar a tremer com essa invocação da vontade de potência ou da questão da eficácia? O ritmo lento da evolução biológico da agricultura não tem nada de natural. É completamente artificial. Só foi lento por ignorância dos artífices. Toda essa sua frase é uma simples apologia do obscurantismo. Se os agricultores ficassem tão controlados pelas multinacionais por causa dos transgénicos escolhiam outras opções. Além disso, não é só nos transgénicos que há monopólios.
    Essa sua referência à vacinação, volto a isso, quer dizer que por causa de mecanismos de controlo que vieram com ela, deveríamos opor-nos a ela? Isso está para lá do obsceno. Actualmente há gente a morrer ou deformada com a polio porque preconceitos religiosos e tradicionalistas, puro obscurantismo, sabotam as campanhas de vacinação. Que controle é que há aí? É melhor o controle patriarcal sobre as mulheres na Índia?

  17. Enfim, quis dizer apenas que, com uma alteração específica num gene, a semente se torna a propriedade de alguém, no caso, a Monsanto. Então estas sementes que são propriedades de uma empresa competem com as que não o são.
    Quanto à revolta da vacina refere-se a um episódio específico da história do Brasil, onde, em nome do saneamento realizou-se a higienização dos bairros onde moraram pobres no Rio de Janeiro e as doenças não foram erradicadas.
    Mas não sei porque argumento. Eu sou uma pessoa, você é um dos anônimos deste mundo de anônimos, trolls, assessores de empresa de corporações, assessor de parlamentar que usa net pra disseminar informação, etc etc.
    Mas em todo caso, recomendo um artigo referente à questão onde se definem bem as questões da pesquisa aplicada, diferente da pesquisa científica normal por obrigar a uma aplicação sem observação de suas consequências econõmicas e financeiras chamado: “A Encruzilhada da Política Ambiental Brasileira” de Laymert Garcia dos santos.
    Encontrará alguns pontos interessantes deste debate ali.
    Apologia do obscurantismo, me parece mais sua perspectiva que implica simplesmente cair no colo das corporações que estendem o domínio da propriedade sobre os organismos vivos, onde antes havia milho, e hoje milhotecmonsanto 2.0.
    Não me parece ter ideia do que seja um laboratório e pesquisas, pois não se resumem a P&D, ou seja desenvolvimento de produtos, mas, quando é científica, a diversas questões, inclusive sobre implicações e testes de uso, pois é disso também que se faz ciência, afinal, ciência não se resume à engenharia que aplica algo num produto final, mas aplica as questões a todos os pressupostos.
    Um exemplo de questão que ficou ausente em todo este debate foi recuperação e beneficiamento do solo para a produtividade, como se tudo se resumisse ao uso de pesticidas e forma de organização do trabalho agrícola. O que igualmente é curioso e pouco científico no procedimento.

  18. O debate como um todo está interessante. Infelizmente não consigo acompanhar o raciocínio de alguns debatedores por carências conceituais. Vou estudar mais e tentar reler o texto.
    Fica uma sugestão aos interessados: que tal um debate sobre o tema, gravado e disponibilizado neste site?

  19. Um dos aspectos curiosos das teses agroecológicas é a separação que insistem em operar entre o campo e as cidades. Na fase actual do capitalismo, porém, essa separação já não existe: 1) a produçao agrícola mais dinâmica foi industrializada; 2) os assalariados das explorações agrícolas modernas assemelham-se mais a operários do que a camponeses; 3) a agropecuária familiar foi inteiramente subsumida pelo modo de produção capitalista e representa uma forma de extorsão de mais-valia absoluta; 4) a baixa produtividade das explorações familiares, implicando um excesso de mão-de-obra, constitui uma forma de obrigar uma parte do exército de reserva a alimentar-se a si próprio, equivalendo a uma modalidade de mais-valia absoluta. A economia de subsistência significa simplesmente que um excedente da força de trabalho, em vez de receber subsídios de desemprego, se está a alimentar a si próprio, para benefício dos capitalistas.
    Neste contexto, negar que a ultrapassagem da divisão entre o meio rural e o urbano já se efectuou corresponde a uma mitificação do campesinato. Uma consequência desta mitificação é considerar as explorações rurais familiares como ilhas de resistência ao capitalismo, quando, pelo contrário, elas contribuem para alimentar a mais-valia absoluta de que os capitalistas se apoderam. E quanto mais arcaicas forem essas explorações e menos produtivos os seus métodos de cultivo, maior é essa contribuição para a mais-valia absoluta.
    Outra consequência da convicção de que continua a existir uma clivagem entre a economia rural e a urbana é o espanto e a indignação que se apossam dos agroecológicos ao depararem no campo com processos que há muito se completaram nas cidades. Se a exploração familiar corresponde hoje a uma forma disfarçada de proletarização, então necessariamente os camponeses são despossuídos do controlo sobre os meios de produção, incluindo as sementes, como os proletários das cidades o foram desde há muito tempo.
    Convém ser coerente. Porquê — senão devido à mitificação do campo — se ataca a industrialização das fainas rurais e se reivindica a extinção do agronegócio e não se ataca ao mesmo tempo a industrialização das manufacturas e a introdução da electrónica nos escritórios e não se reivindica a extinção das grandes empresas industriais e de serviços?
    Regressaríamos assim à época paradisíaca das explorações rurais familiares e das pequenas oficinas, em que os partos eram feitos em casa e ainda não se haviam inventado as vacinas. Mas o mito da idade do ouro só se sustenta na ignorância da história económica.

  20. João, acredito que não seja apenas uma questão de que possa ser maior ou menor a produtividade neste caso por dois motivos. Precisariamos observar estes dados, pois, a agricultura familiar ou de pequena dimensão envolve em certas regiões do país algo muito diferente do que imaginam seja agroecólogos ou mesmo quem acha que se identificam com o Jeca Tatu cuidando da terra, mas cuidados intensivos com a produtividade do solo, aumento de implementos, etc, mesmo que o núcleo disso seja considerado “familiar”, esta produção é realizada em locais intensivos sendo subsumida pela distribuição onde grandes “cooperativas” compram toda a produção de uma série de pequenas propriedades produtivas.
    Sobre o caso das sementes chamadas pelos militantes Terminator, reitero, observem o texto da própria monsanto: http://www.monsanto.com.br/produtos/sementes/soja_roundup_ready/soja_roundup_ready.asp
    A principal característica adicionada à soja transgênica, reitero é: “Ela possui uma característica que a torna tolerante a herbicida à base de glifosato, usado para dessecação pré e pós-plantio, conhecido por sua eficiência em eliminar qualquer tipo de planta daninha*.”
    O uso indiscriminado pela distribuição inicial destas sementes imunes aos pesticidas fez com que houvesse mutações nas plantas daninhas, obrigando a mais pesticidas e gerando um efeito do tipo “circulo vicioso” que, por sua vez, compromete a produtividade do solo.
    O Glifosfato, por seu lado só foi testado in vitro e não houveram testes para observação de sua toxicidade em efeito prolongado, mas o próprio teste in vitro revelou que causa mutações nas células placentárias, isto é, induz aborto e gera mutações.
    Não funciona, neste caso contra pragas de insetos ou outras doenças de plantas, isto é, não é imune a doenças que ao atingir uma planta (pois são geneticamente idênticas) ataca todas com a mesma eficácia.
    Além disso, a modificação torna a planta propriedade da Monsanto e, ao substituir a maioria da soja, dá o monopólio à empresa.
    Que possa haver uma modificação numa planta que possa ser útil ao homem, isto é possível e imaginável, mas, não acredito que isto ocorra numa multinacional que desenvolveu o desfolhante agente laranja que tantas vítimas causou tanto no lado americano quanto no vietnamita onde há Associação de Vítimas Vietnamitas do Agente Laranja (AVVA) que luta até hoje por seus direitos. Até porque, como reitero, tenho medo de que um espécime importante à alimentação humana se torne uma propriedade de uma empresa.

  21. A crítica à prática científica evidenciada no discurso do presidente da ABA é claramente no âmbito social que decorre da ciência atual, do papel que determinadas pesquisas realizam, quais são financiadas e que resultados acabam mascarados devido a interesses de seus financiadores; não se pretende uma nova ciência, nem que ela se alicerce em novas metodologias e nem que decida seus resultados a priori. É de se pensar se são dados favoráveis à agroecologia ou ao agronegócio que acabam favorecidos ou ignorados devido à influência do capital, e quem se beneficiaria com maior independência e neutralidade na prática científica.

    “Vemos hoje proliferarem nas universidades departamentos dedicados à ecologia, pela simples razão de que os ecologistas são incapazes de defender as suas doutrinas nos departamentos comuns, perante os colegas cientistas.”
    Acaso não há departamentos de todas as disciplinas científicas? Zoólogos, bioquímicos e imunologistas fogem ao debate científico ao trabalharem em departamentos que levam o nome de suas áreas específicas de trabalho?

    Ao afirmar que foi o capitalismo industrial que proporcionou o crescimento da população humana, João Bernardo ignora o crescimento da população humana que seguiu o surgimento da agricultura. Enquanto fomos caçadores-coletores, durante mais de 90% da existência da espécie humana, estima-se que a população mundial nunca excedeu os poucos milhões de habitantes, chegando a momentos críticos de poucos milhares durante modificações ambientais como Eras do Gelo. No período de cerca de 10 mil anos no qual a agricultura surgiu e lentamente se dissipou pelas diversas populações humanas ao redor do mundo (podendo ter surgido independentemente várias vezes), a população humana se multiplicou várias vezes, muito antes do capitalismo se estabelecer. Está claro que uma agricultura rudimentar como essa não pode alimentar a população mundial atual sem ter que alocar boa parte da população a essa função; porém, isso não é problema, já que a agroecologia é capaz de produzir mais alimentos que o agronegócio, como já demonstrei em meu artigo, o que também sustenta o interesse nesse modelo de agricultura.

    As evidências de que os agrotóxicos são nocivos (ou seja, venenos), estão claramente indicadas. Seus danos não são diretos e agudos para causar queda na expectativa de vida de uma população humana com acesso crescente a saneamento, medicina e alimento – mas não deixam de ser perniciosos por isso.

    A análise dos dados do Censo Agropecuário de 2006 de João Bernardo é bastante enviesada, pois confude a produtividade das terras com o quão povoadas elas estão. O dado relevante é que a agricultura familiar produz cerca de 70% dos alimentos do país com esses 74,4% dos trabalhadores do campo, que estão numa área menor devido aos latifúndios e ao método diverso de plantio. De qualquer maneira, mesmo com a falta de equipamentos, subsídios governamentais, determinados insumos, e ocupando as piores terras, a agricultura familiar ainda apresenta produtividade similar à do agronegócio, que produz os 30% restantes dos alimentos brasileiros com cerca de 25% dos trabalhadores.

    Ao contrário de ignorar as dificuldades da vida no campo, como em partes fez Mix, ou de meramente afirmar que essa vida é péssima, o necessário é analisar que problemas específicos são esses e de que maneira se pode construir uma vida camponesa que não seja sofrida ou alienada. Não será possível alocar todas as pessoas na cidade e esvaziar o campo; o que resta é a luta por uma vida melhor, como já fazem os setores mobilizados do campesinato.

    E, por fim, nos diz João Bernardo nos comentários: “Porquê — senão devido à mitificação do campo — se ataca a industrialização das fainas rurais e se reivindica a extinção do agronegócio e não se ataca ao mesmo tempo a industrialização das manufacturas e a introdução da electrónica nos escritórios e não se reivindica a extinção das grandes empresas industriais e de serviços?”. Seu argumento parte da premissa que há tecnologias que são úteis e ajudam as pessoas – o que é inegável –, e chega a outra curiosa conclusão, a de que é necessário apoiar toda e qualquer técnica/tecnologia.

  22. Tantos falam em debate, mas fica difícil debater com as respostas taxadas as quais já se espera quando da escrita. Refletir e criticar a presente sociedade de consumo é necessariamente recair em um socialismo da miséria? Parece-me que não. E o mesmo é válido para a crítica da sociedade urbana e industrial, que não necessariamente é recair em uma mitificação/romantismo do campesinato e do “mundo rural”.

    Acredito que não haja, ou pelo menos não deveria haver, dúvidas de que foi a sociedade urbana/industrial a facilitadora do boom populacional mundial. Certamente não foi o amor do camponês por suas plantinhas. Até aqui tudo bem, mas e daí? E daí que (e volto a questões que coloquei no comentário do texto réplica do João, mas que fazem mais sentido serem retomadas neste) o aumento exponencial da população mundial e, posteriormente, da expectativa de vida continuam por me dizerem muito pouco. Afinal, aumentamos todos esses dados estatísticos a que custo e por qual razão? Não é o modelo produtivo atual do agronegócio, como se convencionou chamar, que compete com a extensão dos biomas “naturais”, e nisso o Brasil não é um exemplo típico? Sou gaúcho e conheço relativamente bem a migração dos meus conterrâneos rumo ao Norte. A perda de solos, como reportou alguém, é crescente ano após ano. A perda de diversidade de gramíneas no pampa também não pode ser descartada, voltando a um caso regionalista. A poluição da água e do ar, a extinção de cadeias tróficas que permitem o sustento das superiores (e nós, benditos humanos, não somos o topo máximo dela?), enfim. “A sociedade atual está danificando o planeta a níveis que superam sua capacidade de autodepuração”, diria o já recorrente citado Murray Bookchin com sua Ecologia Social. Técnicas mais arcaicas possuem uma produtividade menor do que as atuais, mas e o nível absoluto das atuais não é considerável? Mesmo sendo a produção extensiva de monoculturas mais produtiva que a agroecologia, não deveríamos lutar pelas multiplicidades de donos e de propostas de usos da terra, visto sua característica finita e, portanto, de caráter monopolista (o que já passa a ser discutível com os andares de hidroponia)?

    Foi a massificação medicamentosa que comportou esses aumentos numéricos? Certamente, mas retorno ao meu argumento que não vi respondido: chegamos aos 70 anos, é verdade, mas sob que aspecto? Em grande parte, em condições piores do que se poderia dizer de subsistência. Sem contar que vivemos uma lógica contrária de “qualidade de vida”, atacando os efeitos e não as causas. Iludidos com todas as benesses da tecnologia e do progresso, muitas vezes deixamos passar despercebidas que são elas próprias que causam nossos malefícios, e digo isso no seguinte contexto: temos fabricado alimentos extremamente calóricos e utensílios cada vez mais utilitários. Ou seja, mais calorias são consumidas, menor gasto de calorias é necessário, e ao que recorremos? Pílulas para pressão alta e academias para nos exercitarmos. Não tenho dúvidas que podemos recorrer a formas mais saudáveis de alimentação e de condição física, que incorram em menor gasto energético de fabricação e menor extração de matéria-prima. Pensar em uma sociedade que demande menos industrializações (para dar um caso simplório, frutas ao invés de salgadinhos processados e embalados) não é necessariamente querer ser arcaico.

    Além disso, sobre o sonho de viver nas cidades… Não se pode criticar o misticismo rural e recair em uma urbanofilia e um “progressismo” a torto e a direito (não que essa seja a postura do João Bernardo), como única resposta ao que é distorcido recorrentemente por ecologistas, hippies ou o que seja. Há situações tão cruéis, e algumas muito piores, na cidade do que o trabalho no campo do nascer ao pôr do sol. A critica do segundo não precisa, muito menos deve, recair em um refúgio no primeiro. Se a cidade já foi uma resposta à barbárie, como coloca Reclus, precisamos hoje de uma resposta para a pergunta que se tornou essa civilização.

    Enfim, enquanto apanhado geral do que disse, vislumbro uma grande possibilidade de que na busca em fugir do reino das necessidades nos afoguemos em meio ao reino da abundância. E não sendo toda ecologia profunda, não se deve colocar no lixo todo e qualquer questionamento que ela suscite, como esses próprios artigos e comentários.

  23. E quanto aos impactos da pesca industrial? Não representam “uma ameaça à sociedade urbana e industrial”? Qual a resposta dos que não são defensores da miséria em relação a isso? Mais progresso? Isso é o progresso.

    http://www.ecodebate.com.br/2009/09/04/pesca-predatoria-aponta-para-inseguranca-alimentar-e-a-extincao-do-modo-de-sustento-de-algumas-comunidades/

    Cientistas, olha eles aqui:
    http://e360.yale.edu/digest/scientists_call_for_ban_on_industrial_deep_sea_fishing/3112/

    Observa-se aqui a interlocução com o que Douglas Anfra coloca, já que as tecnologias bélicas (radares, submarinos, GPS’s, etc) são utilizadas em larga escala para dizimar peixes e tudo mais que vem com eles, nesse lindo exemplo de progresso auto-regulado pelo capitalismo. Há quem chame a pesca industrial de “guerra aos peixes”. Mas ok, criticar isso e buscar soluções é ser nazista, o lance é só e sempre mais-valia, e um abraço pro planeta que a envolve.

  24. Rita

    Parei de ler e comecei a rir na parte que fala “Todos os peixes do mundo desaparecerão em 2050”. Horóscopo é mais científico que isso e, catastrofismo por catastrofismo, prefiro o Nostradamus.

  25. Mais uma vez, JG reitera afirmações criticadas, sem resposta, anteriormente: se a maior parte da produção de alimentos é proveniente da agricultura familiar, então: a) ou não temos com o que nos preocupar, pois a agricultura familiar não usa agrotóxicos venenosos e, portanto, nossa saúde não corre riscos; b) ou então temos que culpar os camponeses da agricultura familiar, e não o agronegócio, por estarem nos “envenenando” (mesmo que isso não seja perceptível nos indicadores de perspectiva de vida etc., como bem observado por João Bernardo). Além dos mais, se é assim, a agricultura familiar não é “berço” de relações sociais novas, a forjar o “homem novo” – como talvez gostaria JG -, e sim o “berço” da produção de mercadorias, na qual a “solidariedade” camponesa inexiste (algo que já afirmei anteriormente, noutro comentário). Agora, o que não percebe JG, é que quando se luta por melhores condições de vida da população do campo etc., isso nada tem a ver com a ecologia, a não ser do ponto de vista de uma idealização da vida camponesa, extremada em Mix, moderada em JG. Quanto ao final de seu último comentário: obviamente, o comunismo necessitará de novas tecnologias – algo que nenhum marxista poderia negar -, mas abrir mão das atuais, que estão em desenvolvimento e transformação constantes, e querer regressar a tecnologias arcaicas, não é uma opção. O próprio fato de que se abre mão das tecnologias atuais é um obstáculo à gestação de novas tecnologias. Em última análise, o que está em jogo é perceber: a) que a luta pelas melhores condições de vida no campo já é uma demanda capitalista; b) que o desenvolvimento de insumos etc. não prejudiciais à saúde já é uma demanda capitalista, embora aí não se renuncie à tecnologia e à produtividade; c) que o desenvolvimento capitalista, estendido ao campo, já rompeu com os laços de solidariedade que aí haviam, se haviam; d) que a esquerda, ao empunhar bandeiras que já são empunhadas pelo capitalismo, perde, assim, sua relevância, desviando-se do fundamental: a luta contra a exploração.

  26. JG afirma que a minha análise do Censo Agropecuário de 2006 «é bastante enviesada». Se isto tivesse sido escrito por alguém responsável, seria uma acusação grave. Mas assim, revela apenas que JG não sabe dar resposta às estatísticas que eu seleccionei. Pior ainda. JG afirma que eu «confud[o] a produtividade das terras com o quão povoadas elas estão». O leitor que se dê ao trabalho de ver o que eu escrevi verificará que não me referi à população mas à força de trabalho, ou seja, à população activa. Isto no que diz respeito à produtividade por trabalhador, porque mostrei também a produtividade por área, medida em volume de produção. A este respeito mencionei ainda outras coisas, mas JG preferiu deslizar sobre elas, talvez por serem demasiado incómodas. O leitor que tiver boa memória ou que reler aquelas passagens do artigo entenderá a que me refiro.
    JG conclui que, sendo a agricultura familiar brasileira responsável em grande medida pelo abastecimento do mercado interno e ocupando uma área menor do que a agricultura não familiar, ela «apresenta produtividade similar à do agronegócio». JG chega a esta extraordinária conclusão de uma maneira simples — esquecendo-se de considerar as exportações, para as quais o agronegócio é especialmente vocacionado e cuja alta produtividade lhe permite ser muito competitivo no mercado mundial. Ora, as exportações dos produtos agroalimentares brasileiros abrangidos pelo Acordo Agrícola da Rodada Uruguai passaram de US$ 13,8 milhares de milhões [bilhões, como se diz no Brasil] em 1995 para US$ 36,9 milhares de milhões em 2006. Um pequeno detalhe que JG se esqueceu de considerar na sua maneira não enviesada de ler as estatísticas.
    Se nos restringirmos à relação da agricultura familiar brasileira com o mercado interno do país, vemos que, segundo o Censo Agropecuário de 2006, foi a seguinte a participação da agricultura familiar no Valor Bruto da Produção total dos seguintes produtos:
    Mandioca: 88,3%
    Feijões: 68,7%
    Leite de vaca: 56,4%
    Suínos: 51,0%
    Milho: 47,0%
    Arroz, 35,1%
    Cafés: 30,3%
    Trigo: 20,7%
    Ovos: 17,1%
    Soja: 16,9%.
    Agora, peço ao leitor que compare, na tabela incluída no artigo, a produtividade da agricultura familiar e da não familiar em vários destes produtos (medida em quilogramas por hectare). O leitor verá que em todos os casos mencionados na tabela a agricultura não familiar é a mais produtiva.
    Isto significa que a maior parte do mercado interno de alimentos brasileiro é abastecido por explorações pouco produtivas, e por conseguinte a preços mais altos do que seriam praticados se o abastecimento se devesse a explorações mais produtivas.
    E, como Fagner Enrique salientou, se se deve à agricultura familiar a maior fatia do mercado interno brasileiro, então onde está a potencialidade anticapitalista de uma agricultura familiar a tal ponto inserida no mercado? Ora, todos os trabalhadores, na sua condição de compradores de alimentos, preferem adquiri-los a fornecedores muito produtivos que podem praticar preços mais baixos do que a fornecedores pouco produtivos, obrigados a praticar preços mais altos. Assim, a agricultura familiar não só não é um embrião de relações sociais não capitalistas, como é um factor de agravamento das condições de vida dos trabalhadores no capitalismo.

  27. Caro João Bernardo
    O Estadao noticiou no último dia 11 que, no ano passado, apenas seis grupos de produtos – minério de ferro, petróleo bruto, complexo de soja e carne, açúcar e café – representaram 47,1% do valor exportado, e que em 2006 essa participação era de 28,4%. Isso mostra o aumento da produtividade da agricultura industrial, sem dúvida, como também uma pressão urbana maior. Mas esses números, para os considerar considerando ainda a sua série de artigos sobre a economia brasileira, não estariam indicando, agora, um viés de desindustrialização, ao menos no tocante aos produtos de mais alta intensidade tecnológica? E ao mesmo tempo uma tendência de acirramento da exploração do trabalhador no campo, de substituição da agricultura familiar em favor do atendimento ao mercado externo, e de cada vez menos possibilidade de absorção dos trabalhadores do campo pela indústria? Não estaria a conduzir a um aumento dos preços dos produtos agrícolas nas cidades brasileiras e, ao mesmo tempo, dos problemas sociais de uma sociedade urbana?
    Abraço

  28. Caro Paulo,
    Quanto à primeira parte do seu comentário, remeto para um artigo publicado neste site, onde poderá ver o que penso acerca da exportação de commodities e da pretensa desindustrialização.
    http://passapalavra.info/?p=43703
    Isso significa que não estou de acordo com Bresser Pereira quando ele considera o risco de o Brasil padecer da doença holandesa. E significa também que descarto mais uma ideia delirante da extrema-esquerda, que equipara o papel do Brasil enquanto exportador de commodities à situação na época colonial.
    Quanto à segunda parte da sua pergunta, é precisamente a isso que eu pretendo referir-me quando escrevo que as explorações agropecuárias familiares estão hoje inteiramente subsumidas ao modo de produção capitalista, que não têm nenhuma autonomia económica nem social e que são uma fonte de mais-valia absoluta.
    Você termina perguntando se isso não trará novos problemas. Claro que traz. Mas nem os políticos capitalistas nem os chefes de empresa pensam que possa haver soluções. O seu objectivo é unicamente substituir um problema por outro, e obter um novo fôlego no período que medeia entre ambos os problemas.
    Um abraço.

  29. Após a leitura dos artigos de J. Bernardo não tenho outra conclusão a não ser identificar nele o velho etnocentrismo produtivista que justifica o capitalismo e justificou o stalinismo. Uma visão limitada e pobre do que significa a atual civilização e onde chegou a chamada “humanidade”. O texto de J. Bernardo logo logo estará em eventos e colóquios patrocinados pela Monsanto e outras “empresas do progresso ciêntifico tecnológico” que garante a nossa “civilização de progresso e desenvolvimento”. A pergunta é: a que custo humano? Com certeza a resposta estará baseada no conceito normativo de humanidade de cada um. E com certeza o conceito de J. Bernardo não é o meu.

  30. Se o que caracteriza a crítica de João Bernardo à ecologia é o “velho etnocentrismo produtivista”, então é o mesmo que caracteriza todo o pensamento de Marx, porque se há algum elemento que consegui identificar no pensamento de João Bernardo que é ortodoxo, foi a sua crítica à ideologia ecologia. Trata-se da minha opinião pessoal, e não creio que estou enganado. Assim, creio que o camarada Paulo deveria dirigir sua crítica ao marxismo – ou pelo menos àquele que se pretenda ortodoxo. Não quero com isso afirmar o mesmo que diz Paulo: que João Bernardo justifica o capitalismo e o stalinismo, pois sabemos, desde Lukács, que a única ortodoxia a que um marxista deve ater-se é a ortodoxia do método de Marx, o que João Bernardo faz em seu livro “Marx crítico de Marx”, apontando as contradições de Marx com base em seu próprio método, e em muitos outros. Se o camarada Paulo tivesse se dado ao trabalho de perceber um dos argumentos fundamentais de João Bernardo – e dos marxistas, como o que aqui escreve, que partilham de sua crítica marxista à ecologia-, teria lido o seguinte trecho do artigo acima, com os devidos atenção e desprendimento… diz o autor: “No plano civilizacional sou hostil ao movimento ecológico, porque representa uma ameaça à sociedade urbana e industrial, que pela primeira vez na história oferece à humanidade uma possível libertação do reino da necessidade”. Talvez o camarada Paulo queira nos dizer como a humanidade se libertará do reina da necessidade sem recorrer ao produtivismo. Ficaríamos, talvez, surpresos com a resposta. O problema, de muitos comentadores, é o de tentar descreditar uma crítica porque ela talvez seja concordante com discursos direitistas ou não comprometidos com a crítica e derrubada do capitalismo. Mas um crítico sincero não deveria temer concordar com quem quer que seja, deveria temer não reconhecer a verdade, tal como ela se apresenta a partir de argumentos sólidos. O começo do debate está associado a uma discussão, bem fundamentada, de João Bernardo sobre o mito da natureza. Mas nenhum dos comentadores, nem sequer os que ousaram publicar artigos resposta, ousou criticar uma ínfima parte sequer das teses ali contidas. Limitam-se a dizer: “Já li isso na revista Veja… Já ouvi isso de um executivo da Monsanto…”. O que ocorre é que, a nós, resta concluir que nenhuma crítica bem fundamentada pode ser feita à crítica da ecologia, porque se os ecológicos não sabem sequer fundamentar seus argumentos, que o diga quando resolvem criticar os dos outros.

  31. Há Paulos e Paulos… Este prefere considerar os dados e os fatos e suas eventuais limitações.
    Abraços

  32. Maria, procure a lista de espécies de peixes já extintas nos últimos anos. Para cada dez atuns, tubarões e outros grandes peixes predadores que estavam nos oceanos de cinquenta a cem anos atrás sobrou apenas um. Para cada quilo de camarão vendido, 26 quilos de outros animais marinhos são jogados fora, no que se chama de “caputra acidental”. De 80 a 90% do que é pescado com redes de arrastão é jogado de volta ao mar, morto. Só no caso da pesca do atum, outras 145 espécies animais são mortas. Realmente, é catastrófico.

  33. Me pergunto se os ecológicos que comentam dão a devida atenção à indicação, anteriormente recomendada, da leitura de Bjørn Lomborg, que contesta as míticas estatísticas dos ambientalistas. Os camaradas Paulo e Rita, sobretudo o primeiro, que é tão preso aos dados e fatos, apreciarão aqueles que o Lomborg apresenta num de seus livros, disponível aqui: . E aqueles que não são chegados a previsões apocalípticas, podem apreciar algumas opiniões do mesmo autor aqui: ; e aqui: . Recomendo a leitura da entrevista na Revista Veja, justamente para provocar os leitores que consideram-na a fonte de argumentos para pessoas conservadoras e reacionárias, e qualquer leitor que ler meus comentários anteriores verá que não estou entre elas.

  34. Não conheço o Lomborg, olharei a indicação Fágner, brigada. Nas entrevistas, entretanto, ele se enfoca apenas no debate em relação ao aquecimento global, não o vi rebatendo a questão do massacre animal que abordei brevemente aqui – pode ser que ele o faço no livro. Mas em uma busca rápida no Google vi que ele foi vencedor do Global Leader for Tomorrow,prêmio concedido pelo Fórum Econômico de Davos. Não é um argumento para se jogar no lixo o conteúdo do livro, mas é algo pra se suspeitar, não?

  35. Bjørn Lomborg era um membro proeminente da Greenpeace na Dinamarca na ocasião em que escreveu The Skeptical Environmentalist. A sua especialidade profissional é a estatística e nesse livro ele mostra claramente que os ecológicos apresentam projecções como sendo previsões. Na distinção entre previsões e projecções assenta toda a diferença entre a sensatez e o catastrofismo. Acresce que muitas das projecções elaboradas pelos ecológicos se baseiam não em dados reais mas em meras hipóteses de trabalho. Uma das partes mais hilariantes — ou mais deprimentes, depende do leitor — de The Skeptical Environmentalist é aquela onde Lomborg revela a génese das taxas hoje correntemente atribuídas à extinção de espécies.

  36. Rita: sobre as extinções, confira o livro de Lomborg, proporcionado em versão integral no link indicado pelo Anônimo Deste Mundo, a partir da página 249, onde ele inicia a discussão sobre Biodiversidade.

  37. Reitero que o Censo Agropecuário de 2006 aponta (de maneira imprecisa) para o dado de que 70% do que produz as terras brasileiras vem da agricultura familiar, e não que essa é a porcentagem da alimentação brasileira que vem da agricultura familiar.

    É desalentador ler que “aqueles que se puseram a defender aqui a ecologia tenham se limitado a relacionar as críticas à Veja ou o Monsanto”. Isso aconteceu tanto quanto aconteceu de creditar as ideias ecológicas ao nazifascismo, e só demonstra como essa discussão está ideologizada no pior sentido do termo, no qual as pessoas vêm com sua ideia já formada e pouco importa o que foi argumentado e com que dados.

  38. JG está certo ao afirmar que “70% do que produz as terras brasileiras vem da agricultura familiar, e não que essa é a porcentagem da alimentação brasileira que vem da agricultura familiar”.

    Mas, e daí? O que importa é reconhecer que o artigo de JG (aqui: http://passapalavra.info/?p=53470) queria convencer-nos de que a agricultura familiar deve ser preservada, pois, diz JG, “aqueles que porventura gostem ou achem importante comer a diversidade de frutas, verduras e legumes existentes, necessitam hoje da agricultura familiar. De fato, é essa modalidade que produz a maior parte dos alimentos do país, embora ocupe apenas 24,3% da área utilizada na agricultura, e ela emprega mais de 70% dos trabalhadores rurais”.

    E se lermos o artigo por JG recomendado (aqui: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_impressao.php?id_noticia=1466), nas notas de rodapé, ele diz o seguinte: “Em 2006, a agricultura familiar era responsável por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café (parcela constituída por 55% do tipo robusta ou conilon e 34% do arábica), 34% do arroz, 58% do leite (composta por 58% do leite de vaca e 67% do leite de cabra), 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo”.

    Pois bem, isso tudo não invalida a crítica de JB, que diz: “A escassa produtividade da agricultura familiar é ingenuamente confirmada por JG quando indica, referindo-se ao Brasil, que ‘embora ocupe apenas 24,3% da área utilizada na agricultura, […] ela emprega mais de 70% dos trabalhadores rurais’. Pois é, muita gente activa em pouco espaço é o que se chama fraca produtividade”.

    E a fraca produtividade está associada à sujeição do trabalhador à mais-valia absoluta (uma forma de exploração mais opressiva e exaustiva para o trabalhador), o que não beneficia o trabalhador, nem a sociedade, pois a produtividade é mais baixa do que poderia ser.

    Creio que o que leva a um diálogo de surdos, aqui, é o fato de que alguns dos interlocutores simplesmente não se inserem na tradição marxista, e estão em oposição a ela. Parece-me que a hegemonia pós-modernista é realmente poderosa, nos meios intelectuais, em sua redução da tradição marxista a um último reduto do iluminismo etnocêntrico, do produtivismo predatório etc. JB chama de inimigo oculto a ecologia, mas talvez ela não esteja sozinha, e tenhamos que enfrentar outro inimigo oculto, o dos meios intelectuais, também de forma enérgica.

  39. Desculpe mas quando noto que vemos uma crítica, para mim estranhamente genealógica da ecologia tendo origem no nazismo, cabe lembrar que, entre seus labirintos estava também do lado conservador e nos formuladores de opinião nazista a ideia de uma modernização conservadora que anulasse os aspectos sociais do iluminismo.
    Conceito criado por Barrington Moore Jr. para retratar o caso de desenvolvimento capitalista na Alemanha e no Japão, temos o melhor exemplo disto na tese de O modernismo Reacionário – tecnologia cultura e política na Republica de Weimar Jeffrey Herf, onde o autor acompanha o discurso político dos engenheiros em particular, que notamos similitudes com o discurso de outros grupos conservadores, mesmo os não-nazistas como os nacional bolcheviques, a ode ao progresso e ao mesmo tempo reapropriação da experiência humana, como Junger, etc.
    Se a questão de colocar a pecha no pensamento ecológico de tributária no nazismo, parte das ideologias do progresso, em particular algumas das aplicadas pelas empresas também tem origem ali, especialmente o do controle genético de espécimes, como em questão em empresas que tem inclusive a mesma ponte de soluções tecnológicas para o nazismo e hoje para o agronegócio.
    Quando falei de pós-humano, não achem que isto vem de figuras heideggerianas e neo-heideggerianas, mas isso vem de teóricos da área, muito além dos analistas dos impactos sociais da tecnologia como Buckminster Fuller, Nakatami, Flusser, etc. A questão está no próprio discurso dos cientistas que lidam no limite da ciência aplicada, especialmente na biotecnologia.
    Para eles esse limite de manipulação genética interfere no limite do que é a natureza, este reles preconceito ecológico, este mero conceito arcaico, que, no entanto possui impacto sobre a nossa vida biológica, pois, dissolvidos os limites, somos manipuláveis sem qualquer consideração.
    Casos curiosos são o do roubo de sangue, fluidos vitais e outros de pessoas utilizados para testes e patenteados pro empresas involuntariamente, ilhas que vendem seu patrimônio genético, isto é, seus corpos, etc. Quais as consequências disso ? Não apenas positivas, pois há uma caixa preta atrás de cada um dos aspectos que apresentam e não há pesquisa pública sobre estas questões que estão guardadas nas corporações.
    Estas que, num passe de mágica se tornam, neste contexto apresentado, nossas aliadas táticas contra o inimigo oculto que é a agroecologia ? Entre corporações e hippies que querem construir comunas eu opto por corporações ?

  40. Um dos problemas destes comentários é o de numerosas pessoas — não lhes posso chamar leitores — nem sequer lerem os artigos que pretendem comentar. Assim, e a propósito do comentário anterior, parece-me conveniente recordar que no segundo dos artigos sobre O Mito da Natureza ( http://passapalavra.info/?p=48957 ) escrevi o seguinte: « Não poderemos entender o mito campestre sem nos apercebermos de que ele vigora num nível estritamente ideológico, servindo de adorno ao crescimento da grande produção fabril. São regimes promotores da industrialização ou até francamente tecnocráticos que propõem a pretensa harmonia rural como padrão de comportamento genérico. Assegurar a ordem e a obediência às hierarquias numa sociedade em mudança contínua, conseguir o milagre de enxertar a estabilidade dos modos de vida e de pensamento sem comprometer a necessária instabilidade da economia e os ritmos acelerados da produção — eis a ambição de quem promove o mito do campesinato e das suas raízes. As maiores companhias transnacionais sustentam hoje organizações não-governamentais destinadas a alertar a opinião pública acerca dos riscos da poluição e a promover outras boas causas, e nada há de contraditório nesta conjugação, já que os mesmos grupos económicos que poluem ou destroem o meio ambiente ganham redobradamente, depois, a vender serviços de limpeza da poluição e a reconstituir o meio ambiente. Exactamente da mesma maneira, em todos os regimes fascistas, sem excepção, existiam duas correntes, uma industrializadora e modernista, fazendo a apologia do mundo urbano e fabril, e a outra tradicionalista e ecológica, glorificando o mundo rústico».

  41. Curiosamente, a época da ofensiva neoliberal (na qual os trabalhadores têm sofrido uma regressão social tremenda, com perda de direitos etc.) é mesma época do consenso ecológico e do consenso pós-moderno, e, ainda, do fundamentalismo religioso. Eu diria que é a época do irracionalismo. Hoje, uma pessoa que expresse opiniões desfavoráveis à ecologia, ao neoliberalismo, ao pós-modernismo, ao fundamentalismo das religiões cristãs (o fundamentalismo islâmico não é, para mim, a maior das ameaças), é uma pessoa sem caráter, imoral. As opiniões divergentes são satanizadas. A crítica marxista do capitalismo é satanizada, a crítica marxista do ambientalismo é satanizada, a crítica marxista do pós-modernismo é satanizada… e por aí vai. João Bernardo abordou o assunto de forma semelhante numa entrevista, na qual disse: “[…] hoje em dia você não tem ninguém que não se diga ecológico, a ecologia entrou no civismo, todas as coisas são ecologia, todos os partidos seja de esquerda, seja de direita, seja de centro ou mesmo de coisa nenhuma se dizem ecológicos, é a mais completa demagogia, e essas idéias perpassam de uma maneira que as pessoas já não sabem qual é a sua origem [o fascismo]”. É assim que as coisas se dão: a ecologia já é hegemônica, no sentido gramsciano. Para Gramsci, “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”, e as pessoas tem sido educadas para serem ecológicas, o que faz com que, por mais que suas crenças sejam confrontadas por argumentos sólidos, elas se recusem a abandoná-las.

    [A referida entrevista de João Bernardo encontra-se na revista: Antítese – Marxismo e Cultura Socialista, Maio de 2006, nº 2, págs. 141-150]

  42. Então, neste caso, coloca-se para mim um problema: Como imaginar que o movimento social se apropria dos frutos positivos de produtividade da biotecnologia desenvolvida pelas empresas do setor, sem cair em problemas como o dos plantadores de algodão no centro da Índia recentemente, onde a utilização deste tipo de semente alienou os pequenos produtores rurais da produção de que dependiam – o algodão – e os 25 mil suicídios que acarretaram frente às dívidas contraídas junto à monsanto relativas à aquisição de sementes que se mostraram o inverso do que prometiam ?

    Nunca vi empresas ganhando com a despoluição, exceto com certificados que valorizavam seus produtos, no entanto, através destas ONG´s, apenas se denuncia, dentro de determinados limites aquilo mesmo que as empresas fazem. Isto é correto, agora, ganhar dinheiro com despoluição, isso normalmente fica dentro do orçamento “público”, ou do estado restrito, pois os custos nesse ítem são externalizados. Acredito que a poluição e a baixa produtividade possam sim dar lucros dobrados às empresas, mas discordo nesse aspecto específico, como nessa linha citada de seu artigo anterior.
    Isso não ocorre.
    A Chevron, por exemplo, não será responsabilizada pelo derramamento de petróleo e o custo será externalizado ao Estado, isto é, à acumulação de parte da mais-valia extraída dos trabalhadores e que antes iria para outros “direitos” sociais. Mesmo assim, será útil quando atingir a costa e expulsar os pescadores do litoral, pois tanto os mega-portos terão facilitados o trabalho de expulsão de moradores, quanto empresas de construção.
    Alguma ONG financiada pela Chevron certamente virá fazer barulho, mas morre nisso. A tecnologia para despoluição é pública, ou colocada enquanto obrigação chamada de contrapartida, quando há este tipo de cláusula.
    Nesse item ainda acho subdimensionados os impactos sociais da tecnologia e acho que isto atravessa o argumento crítico à agroecologia, de que ela é subprodutiva relativamente a implementos aplicados pelo agronegócio e, subentendendo que, observar danos e risco dos impactos da aplicação da tecnologia neste campo é ser irracional. O que discordo.

  43. Maria,

    Infelizmente a falta de tempo me impede de responder a todos os comentários naquele artigo que escrevi. Mas ele tampouco foi escrito para que depois eu fique colocando o que está certo e errado, era justamente para trazer o debate mesmo. a discussão. O mundo não é preto ou branco, nem a ecologia boa ou rui! Pode ser muita coisa. A intolerância e o pensamento único, historicamente vem produzindo coisas destrutivas, vanguardismo, que sinceramente, eu estou fora disso!

    Enfim, pouco tempo!!!!! Terra e liberdade!!!

  44. Eu realmente gostei de alguns textos anteriores do João Bernardo, mas esse… Carece de conhecimento, pesquisa, reflexão, dialética. Da maneira que está, parece que abriu um montante de livros em cima de uma mesa e juntou as idéias aleatoreamente como numa colagem. Entendo que, nestes tempos de imobilidade, nós que somos iluminados de conhecimento anti capitalista temos tido o sangue a ferver, aprisionado… Mas não devemos escapar pela tangente, como aconteceu neste texto com o companheiro.

    JB defende a ciência moderna de uma maneira vulgar. Além disso, conhece muito pouco de ciência, à medida que tenta explicar a baixa produtividade da agricultura familiar através de um gráfico de valores absolutos por cultura. Ignora que na agricultura familiar ecológica os alimentos são produzidos em consórcio, de forma que a sinergia entre eles (saberá JB o que é isso? por favor pesquise, verá que não se trata de misticismo) e a maneira como ocupam nichos ecológicos diferentes (ou seja, numa explicação fabril, diria que eles possuem estrutura diferenciada portanto funcionalidades extratificadas). Dessa forma, a produtividade total de uma área em que são produzidas diversas culturas é maior do que em áreas que se produz uma só cultura. Para isso, é necessário, imprescindível, abdicar do uso de maquinário excessivo na plantação. E quem é o sujeito capaz de executar esta tarefa? O Agricultor Familiar. Como tento provar, não é através da evolução absoluta da modernidade que vamos conquistar a evolução humana, como defende JB. E me impressiona a maneira como, muitos militantes e intelectuais pretendem avançar o pensamento dentro do paradigma moderno, sendo que este se encontra estagnado, estagnar-se-ão a eles mesmos.

    PS: Anexo um link referente à uma pesquisa que compara a produtividade de monocultivos e policultivos.

    http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=milho%20feij%C3%A3o%20ab%C3%B3bora%20cons%C3%B3rcio&source=web&cd=5&ved=0CD8QFjAE&url=http%3A%2F%2Fwww.aba-agroecologia.org.br%2Fojs2%2Findex.php%2Frbagroecologia%2Farticle%2FviewFile%2F9200%2F6411&ei=LEOXT8ShM5CftweJwuDVAQ&usg=AFQjCNEkaZwzBU8oLGdNNLhrYXlWU1is4w&cad=rja

  45. Falou uma “mente iluminada de conhecimento anticapitalista” (pós-moderno)! O paradigma moderno/estagnado do qual o “Sir” Newton quer se desvencilhar, qual é? O comentador poderia ter se dado ao trabalho de pelo menos defini-lo. Se bem que não é realmente necessário, pois podemos descobri-lo nas entrelinhas: renúncia à industrialização, regressão econômica, restrição do consumo etc., etc., etc…

  46. Tomei hoje conhecimento de um texto em que o ridículo compete com o miserável. Alguns meninos e meninas de Coimbra, depois de lamentarem o facto de que «investimos no betão como símbolo da qualidade de vida» e de evocarem «o prazer de adormecer sob um céu estrelado», anunciam que no dia 25 de Abril, precisamente quando se comemorou em Portugal o golpe militar que pôs fim ao fascismo e desencadeou o processo revolucionário de 1974 e 1975, plantaram uma horta num terreno abandonado no centro da cidade. «Em apenas um dia», escrevem eles, «debaixo de chuva e com o fazer-bem como única recompensa, conseguimos limpar e reabilitar um espaço que, ainda que esquecido, tem lugar. Desde aí, temos trabalhado no sentido de aqui construir uma área de convívio que aproxime pessoas e plantas numa comemoração do que de simples temos». E lançam o apelo: «Que a moda pegue!».
    Mas o pior é que a moda já pegou. Vítima de um ataque contra o nível de vida e contra as condições de trabalho sem precedentes desde a segunda guerra mundial, a população urbana portuguesa mais pobre, além de procurar restos de comida no lixo dos supermercados, começou a aproveitar terrenos abandonados para cultivar alimentos. Já durante o fascismo se estimulara a plantação de hortas em redor de Lisboa e das principais cidades, onde os operários, trabalhando aos domingos, produziriam os legumes que os ajudariam a sobreviver apesar dos baixos salários. A este mesmo recurso da miséria se começa a regressar agora, sob a democracia.
    De resto, basta passear à noite pelas ruas de Lisboa para observar como aumentou recentemente o número dos sem abrigo, que têm «o prazer de adormecer sob um céu estrelado».
    Também é escusado lamentar que «investimos no betão como símbolo da qualidade de vida», porque no último ano as restrições ao crédito bancário, somadas à queda do poder aquisitivo, precipitaram uma enorme crise na construção civil, levando empresários à falência e os operários ao desemprego.
    Já há dias outros meninos e meninas — ou quem sabe se os mesmos — haviam anunciado a constituição de um grupo destinado a promover o «decrescimento económico», como se o governo não estivesse já a tratar disso, com o Produto Interno Bruto em franco declínio. Se o decrescimento económico representar o fim do capitalismo, então são o governo português e a troika quem está a promover a grande revolução. E aos ecológicos cabe, como sempre, o papel de cantar em coro para alegrar os festejos. É difícil definir qual a dose de cinismo, qual a dose de ingenuidade e qual a dose de estupidez.

  47. Sempre que a mídia brasileira faz reportagens sobre o desenvolvimento sustentável, dá vontade de rir . Mostram os pobres ribeirinhos da Amazônia, em estados de moradia, alimentação e higiene deploráveis e dizem: “Isto é um exemplo de desenvolvimento sustentável!” E é incrível como existem programas televisivos completamente dedicados a propagar este tipo de tolice. A ideologia sempre tende a operar pela inversão da realidade, quando o que está em jogo é a manutenção da dominação de classe. A pobreza se torna riqueza, e por aí vai. O pior é que os ecológicos optam pela inversão ideológica extrema (a cínica): aquela que inverte absolutamente as coisas, e não aquela mais sutil que se limita a relativizá-las (a ingênua). É por isso que, cada vez mais, eu me sinto mais à vontade quanto mais me afasto de pessoas desta qualidade.

  48. Em Novembro do ano passado comecei a publicar neste site uma série de artigos dedicada ao mito da natureza e à agricultura familiar, e à função dúbia que desempenharam no fascismo. Essa série sucitou entre os ecológicos uma compreensível indignação e seguiram-se réplicas e contra-réplicas, enfeitadas com numerosos comentários. Ao longo desse debate eu desafiei repetidamente os meus opositores a estudarem o ruralismo ecológico dos Khmers Vermelhos no Cambodja. Não o fizeram, claro, não só por preguiça, embora não se deva desprezar este factor, mas porque os ecológicos fogem, como o diabo da cruz, ao estudo da história. Não espanta. Evocar um futuro de maravilhas não exige provas palpáveis. Outra coisa é estudar as consequências práticas resultantes da aplicação das doutrinas ecológicas. Mas a que propósito vem este meu comentário tardio? É que estou agora a ler um livro (Antonio Pennacchi, Fascio e Martello. Viaggio per le Città del Duce, Roma e Bari: Laterza, 2010) onde deparo (pág. 270) com a seguinte citação: «Em 1978-79 o Cambodja tentou pôr em prática exactamente os mesmos programas de ruralização, embora ainda com menos êxito do que teve o fascismo». (A citação é extraída de D. Ghirardo e K. Forster, «I Modelli delle Città di Fondazione in Epoca Fascista», Storia d’Italia. Annali 8. Insediamenti e Territorio, Turim, 1985, pág. 639 n.) Não seria interessante que nos departamentos de agroecologia se estudassem os regimes ecológicos de Mussolini e de Pol Pot?

  49. A ideologia do progresso tecno-científico e do crescimento económico infinito é uma ilusão com duzentos anos, fomentada por uma abundância de energia barata. Imaginar que é possível a expansão infinita num planeta finito é uma forma de cegueira e de wishful thinking que, infelizmente, parecem tão enraizadas à esquerda como à direita do espectro político. A mente humana está viciada no produtivismo, e toma como normais as condições absolutamente excepcionais dos últimos 200 anos: a disponibilidade de combustíveis fósseis e um ratio de EROI que são, em termos históricos, absolutamente excepcionais. O João Bernardo parece ter um deficit gritante de conhecimentos científicos, sobretudo em áreas como a biofísica ou a biologia sistémica. Também nunca parece ter ouvido falar em ciência sistémica, nem saber muito sobre antropologia das sociedades complexas. As suas análises da realidade política e social parecem feitas através do binóculo economicista/sociologista, assente num tripé mecanicista, que talvez fizesse sentido no sec. XIX, mas que há muito deixou de ser fiável para ler a realidade. Se a esquerda ainda continua presa à ilusão infantil de que a ideia de crescimento económico infinito tem futuro, se a esquerda se alia ao capitalismo na fé em que a tecnologia vai resolver os problemas criados pela própria tecnologia, se a esquerda se esquece de incluir nas suas grelhas de análise dados tão determinantes como o sobrepovoamento, o pico petrolífero, as alteraçoes climáticas, a erosão e salinização dos solos, a ruptura dos ciclos biológicos, a eutrofização, etc., se a esquerda prefere ignorar todos esses dados científicos e continuar a construir castelos teóricos assentes em visões do tempo de Marx e de Stuart Mill, a esquerda está simplesmente a condenar-se à irrelevância, e as suas análises têm a consistência de bolhinhas de sabão.
    Algumas leituras urgentes para a esquerda.

    Craig Dilworth, Too Smart for our own good
    Joseph Tainter, The Collapse of Complex Societies
    Thomas Homer-Dixon, The Upside of Down
    Richard Heinberg, The end of Growth
    Jared Diamond, Collapse
    Serge Latouche: Pour sortir de la societé de consommation.

  50. «O João Bernardo parece ter um deficit gritante de conhecimentos científicos». Possivelmente o mesmo se passa com os inúmeros cientistas que criticam, quando não ridicularizam, o movimento ecológico.

  51. E esses “cientistas que ridicularizam o movimento ecologista” têm nome? Se o João Bernardo tiver a amabilidade de me dar as referências bibliográficas, agradeço. Espero é que sejam mais científicos do que o cómico e tecno-fetichista Bjorn Lomborg, que o João Bernardo tanto parece estimar. Porque não tenho tempo a perder com cartesianos que, mais interessados na conveniência do que na cientificidade dos seus modelos teóricos, não têm pejo em subtrair dos mesmos o empecilho dos factos. Se é para fantasias, penso que mais vale ligar a televisão. Obrigado.

  52. Se JMS tivesse realmente lido o livro de Lomborg, talvez teria percebido que ele é fruto de um esforço vários colaboradores, que abasteceram-no com os resultados concretos de seus estudos, e não meramente um ensaio especulativo. JMS pode citar os teóricos mais sofisticados, que teorizam lindamente sobre a ecologia, mas não poderá elaborar uma crítica de João Bernardo, confrontando seus argumentos com outros considerados mais sólidos, e tendo por base dados que comprovem seus argumentos? Por que não continuar o debate e confrontá-lo com um novo artigo, que leve a discussão a um novo patamar? Agora, algo a que nenhum dos comentadores enfurecidos deu a devida atenção é na afirmação de João Bernardo de que estes fogem como o diabo da cruz do estudo da história. Bem para criticar as teses de João Bernardo, o primeiro passo é ler criticamente seu ensaio de 1979 (“O Inimigo Oculto”), no qual o autor examina historicamente a questão. Todos são temerosos em encarar João Bernardo como um interlocutor: todos querem que ele se remeta a outro teóricos, outros “cientistas”, ao invés de confrontá-lo em seus próprios argumentos. Lamentável.

  53. Fagner Enrique,

    Acho muito significativa a sua frase a respeito de autores “que teorizam lindamente sobre a ecologia”, porque ela revela precisamente o erro básico dos esquerdistas bloqueados no universo de fantasia das “ciências” sociais: pensarem que a ecologia é uma ideologia, uma matéria de “opinião”, e portanto tão aberta a “teorizações” como a economia ou o direito. O que eu recomendo é que vão ler os cientistas, e não os “teóricos”. Lomborg não é um cientista, é apenas um ideólogo cujas teorias chocam de frente com a realidade dos factos. Mas para as mentes formatadas na sociologia ou na economia neo-clássica a realidade biofísica é invisível, e a finitude dos recursos é apenas uma “teoria”. Daí que se ponham a especular comicamente sobre crescimento económico, sobre agro-indústria ou sobre o sexo da classe revolucionária, sem fazerem a mínima ideia sobre aquilo de que estão a falar. Mas os teóricos e os ideólogos não costumam gostar de nada que lhes possa atrapalhar as cavalgadas especulativas, a começar pelos factos. Preferem prescindir da realidade e entreterem-se com a construção de bonitos castelos teóricos, à la Hegel. Pessoalmente, acho esses exercícios tão fúteis como a tentativa de conceber pentes para um planeta de carecas. Se O JB tivesse alguma curiosidade científica, corria o risco de acabar surpreendido com a sua própria ignorância, e isso seria demasiado desconfortável para alguém que, aparentemente, está apenas interessado em perorar de cátedra, procurar “confirmação” para as teorias em que decidiu acreditar, e poder continuar a sentir-se uma pessoa influente.
    Está a sugerir que para criticar o J. Bernardo é preciso ter lido primeiro as suas obras completas? Parece-me isso um completo absurdo.
    Acho muito engraçado que se acuse os ecologistas de “fugirem do estudo da História”, quando isso é precisamente o que o JB faz. Ou melhor, ele usa a história da mesma maneira que um advogado interessado em construir a acusação do seu réu. No caso do JB, o “réu” previamente escolhido é ecologia, e aquilo que ele faz é, digamos, explorar os “antecedentes criminais” do sujeito, estudar a sua história clínica, entrevistar testemunhas, etc. Não para chegar à verdade, mas para confirmar aquilo em que acredita desde o início: na culpabilidade do acusado. A história é assim usada como um mero instrumento. Mas eu não chamo a isso “estudar”, tal como não lhe chamo vontade de aprender.

  54. É engraçado passar uma vista de olhos pela sequência dos comentários a este artigo.
    Um bom número de comentários está recheado de insultos pessoais. É curioso que, numa polémica, quem recorre ao insulto pessoal não dê conta de que não é o adversário que ele está a classificar, mas a si mesmo.
    O mais divertido nesta série de comentários, porém, é outra coisa. Uns ecológicos defendem que a ecologia é por ela própria hostil ao capitalismo, outros defendem que não e que há uma ecologia de esquerda assim como há outra de direita. Uns ecológicos juram a pés juntos que a agroecologia é mais produtiva do que a agroindústria, enquanto outros consideram que o problema maior da sociedade actual é o aumento da produtividade, que, a continuar, levará à ruína do planeta. Uns ecológicos indignam-se por eu estabelecer uma relação estreita entre a ecologia e o fascismo e outros citam o inevitável Murray Bookchin, como se alguns dos seus discípulos mais próximos não se contassem precisamente entre os que elucidaram a relação da ecologia com o fascismo. Em suma, as intervenções dos comentadores ecológicos destroem-se reciprocamente. Para quem é partidário da harmonia da natureza, é um mau exemplo que dão.
    É ainda curioso considerar que JG, defensor da agroecologia em outro artigo publicado neste site, continua a não saber o que é produtividade medida em função da força de trabalho. Inicialmente fiquei preocupado porque pensei que ele iria ter problemas no final do ano lectivo, quando chegasse a época dos exames, mas depois percebi que talvez não, porque possivelmente a confusão é feita pelo próprio professor de agroecologia e, se assim, for, JG não corre riscos.
    Passando a um plano mais sério, na série de artigos que dediquei à relação do Mst com a agroecologia (este http://passapalavra.info/?p=53997 e os seguintes) pude mostrar, através de uma análise económica concreta, a função reaccionária da agroecologia. Não se tratou de um mero exercício intelectual, porque um número significativo de militantes que estiveram e estão historicamente envolvidos neste processo têm dito, a mim e a outras pessoas, que esses textos contribuem para esclarecer o problema. A adopção da agroecologia pelo Mst é inseparável da burocratização interna deste Movimento, da sua assimilação política pelo PT e da sua dependência económica relativamente ao governo federal. Temos aqui um dos elementos que os leitores devem recordar ao ler este artigo.
    Finalmente, considerei que a sucessão de artigos de crítica à ecologia, que tenho vindo a publicar no Passa Palavra, alcançou os seus objectivos últimos quando JMS escreveu, num comentário a outro dos artigos (http://passapalavra.info/?p=50861 ): «Lamento, JB, mas não são os ecologistas que são fascistas, é a própria natureza». A partir de então cheguei onde quis. Mas este JMS é um manancial inesgotável. Ele afirma agora que as ciências sociais não são ciências e a economia não é ciência. E assim fica tudo esclarecido. JMS não é fascista por ideologia, mas por biologia. É a natureza que é fascista. Já os nacionais-socialistas do Terceiro Reich, actualizando uma frase de Ernst Haeckel, o cientista a quem se deve a fundação da ecologia, pretendiam que «o nacional-socialismo não é mais do que biologia aplicada».

  55. O sujo falando do mal lavado. João Bernardo, em todo o debate, vc foi dos primeiros a utilizar-se de insultos pessoais. Seu jeito agressivo de ser, falar e escrever legitima outros a fazerem exatamente o mesmo que ti. Nao se espante, por favor, caso as pessoas estejam de saco cheio de vc e, por isso, percam a paciencia contigo.

  56. Não estudo a respeito de produção agrícola e leio pouco sobre o assunto. No entanto, lendo alguns livros do gastroentereologosta Hiromi Shynia (o inventor da colonoscopia), veio à mente que a qualidade nutricional das alimentos está ligada à qualidade do solo (nutrientes e microoranismos no solo). Por exemplo, sendo a qualidade do solo no Japão inferior a dos Estados Unidos, os vegetais norte-americanos costumam ter um maior potencial nutritivo.
    Bem, esse médico procura mostrar em determinadas passagens que o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos – ambos voltados para uma produção rápida e eficente – tornam esses produtos menos nutritivos (proporção de vitaminas e minerais muitas vezes menor que os de produção orgânica).
    Então creio que essa é uma variável a ser adicionada no cálculo da produtividade, e na comparação entre a produtividade agroecológica e a “industrial”.
    Deve-se lembrar que a tecnologia industrial existente surge por interesses capitalistas e expressa esses interesses. Não surge com o propósito de alimentar quem quer que seja, embora possa ter por consequência, em parte, isso (tem em vista o valor de troca e não o valor de uso). Antes de serem alimentos, são mercadorias. O objetivo é produzir mercadorias, não alimentos. E o fato é que com as características dessa tecnologia de produção, cada vez mais os produtos se enquadram menos como alimentos. De onde se compararmos a produtividade, não por massa de cenouras, feijões ou arroz, mas pela massa de vitaminas e minerais contidos neles, a produtividade será bastante diferente.
    Não fui atrás de dados para fazer esse cálculo, mas seria um exercício interessante.
    Esse médico que citei inclusive lança a hipótese de que, pelo menos em parte, a epidemia de obesidade nos EUA se deve aos alimentos serem cada vez menos nutritivos, o que faria as pessoas comerem mais para terem o suficiente de minerais e vitaminas. Creio que um pouco como beber água destilada (que não contém minerais). Não nos saciamos (já que são os minerais na água que ‘matam a sede’), e tomamos mais e mais água destilada.

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