Em memória do Golpe de 1964, o Cordão da Mentira desfilou pelas ruas de São Paulo e o mais interessante, talvez, tenha sido ver uma nova geração de militantes tomar contato com a luta e os lutadores de ontem.  Por Passa Palavra

Neste 1º de abril, dia em que há 48 anos atrás o Brasil amanhecia sob o golpe civil-militar, desfilou pelas ruas da capital de São Paulo o Cordão da Mentira, uma iniciativa formada por coletivos políticos de diversas tendências, grupos de teatro e agremiações de samba da cidade. O objetivo do ato festivo foi não deixar esquecer e exigir a punição para as torturas, assassinatos e perseguições que ocorreram durante a vigência do regime; e também escancarar os fios de continuidade do período que ainda se fazem presentes na vida social e política do país.

A concentração iniciou-se por volta do meio-dia, em frente ao Cemitério da Consolação, com um sarau feito em homenagem ao poeta, escritor e líder abolicionista Luiz da Gama. Neste momento, diversos poetas e representantes de coletivos culturais tomaram a palavra para denunciar o estado de constante opressão e violência em que vivem moradores das periferias e bairros pobres da cidade, dando concretude para algo que há muito vem sendo pontuado por militantes que lutam pela efetivação de uma Comissão da Verdade, e que fora bem resumido no manifesto lançado pelos organizadores: “Quando admitimos que os crimes do passado permaneçam impunes, abrimos precedentes para que eles sejam repetidos no presente.”

Em seguida, o grupo de pessoas que seguiu o Cordão – variando entre 300 e 500 pessoas – deu iníciou ao seu trajeto, animado por sambas, marchas e um frevo, compostos especialmente para o dia (ouça e veja aqui, aqui e aqui), que celebravam ironicamente a história mal contada do passado e a farsa do período democrático. Do mesmo modo, os pontos de parada escolhidos foram todos simbólicos da agitação política que caracterizou os embates de ontem e que se ligam ao presente. Era por volta das 14h30 quando o Cordão chegou à rua Maria Antônia, palco do confronto em que se envolveram, em outubro de 1968, os estudantes da Universidade Mackenzie, em sua grande parte ligados ao Comando de Caça aos Comunistas, e os estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, foco da resistência de esquerda ao golpe. Neste ponto, a atividade contou com uma intervenção do grupo Engenho Teatral e com uma homenagem ao estudante secundarista, José Guimarães, que morrera no fatídico conflito.

Dali, o cortejo seguiu para a uma das sedes da TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), grupo de extrema-direita que, em 1964, dias antes do golpe, conclamou as forças do exército a agir contra a ameaça comunista. Foi a vez, então, do grupo de teatro Estudo de Cena fazer sua intervenção, que troçava os elementos da “sociedade civil organizada” que deram sustentação à ação militar do passado e hoje, sob facetas ongueiras e assistencialistas, impulsionam novas modalidades de controle social.

Outros pontos emblemáticos escolhidos para a passagem do Cordão da Mentira foram a rua Barão de Limeira, onde se situa o jornal Folha de São Paulo (o da “ditabranda“) onde foi denunciado o apoio da imprensa ao golpe, em frente ao jornal as Mães de Maio e o Padre Júlio Lancelotti homenagearam as vítimas da política higienista aplicada na chamada Cracolândia, região da Luz.

O Cordão continuou pelas ruas da região da Luz até chegar à antiga sede do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde foram lembrados os presos políticos torturados durante a ditadura pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, o mesmo que comandou o Esquadrão da Morte. Foi feito então o rebatismo simbólico da “Escola de Música do Estado Tom Jobim” para “Escola Livre de Música Pato N’Água”, relembrando o mestre de bateria da Escola de Samba Vai-Vai, executado pelo Esquadrão da Morte.

Se é que nos é permitida uma breve opinião sobre o ocorrido, vale a pena observar que, em seu conjunto, o desfile do Cordão da Mentira representou algo aparentemente novo no cenário da esquerda – paulistana, pelo menos. A começar pelo caráter musical de considerável bom gosto, deixando um pouco de lado aquelas velhas palavras de ordem que já não parecem alcançar o público passante, sempre apressado e bombardeado pela profusão de informações que caracteriza o ambiente urbano. Também a presença de coletivos e ativistas políticos das mais variadas colorações ideológicas, e que se utilizam de linguagens distintas, é um ponto a ser ressaltado. Contudo, o mais interessante, talvez, tenha sido ver uma nova geração de militantes tomar contato com a luta e os lutadores de ontem – oportunidade realçada pelo turismo político em que de certa forma consistiu a manifestação -, o que se mostra particularmente interessante num momento em que a muitos movimentos que se afirmam como nova tendência, dotados de novas formas, parece faltar uma percepção de continuidade, o que significa a rejeição de outras experiências e o não reconhecimento da História. E aí residem os elementos que poderão revelar algo sobre, não só as deles, mas também as nossas falhas.

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