Por Zeev Sternhell

Leia a 1ª parte, a 2ª parte e a 3ª parte deste artigo.

Manifestação em Bolonha pela intervenção da Itália na guerra

Foi no momento em que a teoria sindicalista estava adiantada em relação à realidade do movimento trabalhista, quando a ideologia revolucionária deixou de ser um reflexo das práticas reformistas das organizações proletárias, que a crise ideológica se instaurou, permitindo a fusão, tanto em França como na Itália, dos sorelianos com os nacionalistas. De fato, logo depois, os limites da ação proletária ficaram evidentes, seja como consequência da incapacidade dos sindicatos de abalar o Estado burguês, seja pela falta de vontade de ir além da busca do bem-estar imediato dos trabalhadores. O proletariado dos grandes centros industriais da Europa ocidental correspondia ao retrato que Le Bon tinha feito: ele também era uma multidão, e uma multidão é conservadora. Na Alemanha a oeste do Elba, em França e na Itália, em que greves frequentes e violentas pareciam anunciar a ascensão de uma nova militância, ficou evidente que este proletariado do sufrágio universal, da jornada de oito horas, da educação e do serviço militar compulsórios não era mais o proletariado da Comuna de Paris nem o da luta contra as leis antissocialistas de Bismarck. Este proletariado não era e não seria nunca mais um agente da revolução antiburguesa: ou se acompanhava a sua aposentadoria ou se descobria uma força revolucionária alternativa capaz de destruir a democracia liberal e resgatar o mundo da decadência.

Manifestação em Milão pela intervenção da Itália na guerra

A principal razão pela qual o revisionismo revolucionário foi capaz de mudar o conceito da natureza do agente da revolução foi a ausência das válvulas de escape que as variantes do marxismo opostas ao reformismo democrático possuíam. Democracia para uma escola, revolução permanente ou fé na lógica da teoria econômica do marxismo para outra, crença num partido vanguardista revolucionário para uma terceira, todas eram posições que permitiam se manter dentro dos limites dos princípios fundamentais do marxismo, mesmo que adiando indefinidamente a revolução, ou trabalhando pela revolução enquanto ela não fosse deflagrada na esteira da situação internacional periclitante do início do século. Os adeptos do sindicalismo revolucionário careciam de uma perspectiva deste tipo. Foi por isso que a solução para o dilema que os absorvia foi de outra natureza: o proletariado ineficaz seria substituído pela grande força ascendente do mundo moderno, nascida da modernização, das guerras de independência e da integração cultural – a nação. A nação e todas as suas classes unidas na grande luta contra a decadência burguesa e democrática. Este processo se completou antes da guerra, e sem nenhuma relação com ela.

Os adeptos desta forma de socialismo contaram com o proletariado apenas enquanto acreditaram que ele fosse capaz de cumprir o seu papel de agente da revolução. Vejam o que diz Lagardelle em escrito de 1912:

O movimento trabalhista interessa-nos apenas na medida em que é o porta-estandarte de uma nova cultura. Se o proletariado cair na demagogia ou no egoísmo, ele não apresentará mais nenhum atrativo para aqueles que buscam os meios pelos quais o mundo será transformado.

É por isto que tantos sorelianos, como tantas outras pessoas da esquerda, antes e depois da guerra, resvalaram para o fascismo. Quando estes esquerdistas de todas as cores e formatos chegaram à conclusão de que a classe trabalhadora tinha definitivamente batido em retirada, eles se recusaram a segui-la. O seu socialismo mantinha-se revolucionário mesmo que o do proletariado tivesse deixado de o ser. Tendo que escolher entre o proletariado ou a revolução, ficaram com a revolução. Tendo que escolher entre um socialismo proletário mas moderado e um socialismo nacionalista não-proletário mas revolucionário, optaram pela revolução não-proletária.

Assim, é bastante natural que tenha acontecido uma síntese entre este novo socialismo, que acabara de descobrir a nação como agente revolucionário, e o movimento nacionalista, que também se rebelara contra o velho mundo dos conservadores, contra os aristocratas e os burgueses e contra as injustiças sociais, e que acreditava que a nação nunca estaria completa enquanto não integrasse o proletariado. Um socialismo para toda a coletividade e um nacionalismo que, separado do conservadorismo, proclamava-se o mensageiro da unidade e da unanimidade juntaram-se para formar uma arma de guerra sem precedentes contra a ordem burguesa e a democracia liberal.

Mussolini preso numa manifestação pela intervenção na guerra

Era esta a natureza da síntese que produziu o fascismo. Os sorelianos contribuíram com a ideia de uma revolução que precisava erradicar o regime democrático liberal e as suas normas intelectuais e morais sem destruir todas as estruturas da economia capitalista. Ao universo dos negociadores e dos esmiuçadores, eles opunham um universo todo herói e virilidade, onde pessimismo e puritanismo se transformavam em virtude – um universo em que o sentido de dever e sacrifício era glorificado. A nova sociedade seria dominada por uma poderosa vanguarda constituída por uma aristocracia de produtores unida a uma juventude ávida por ação. Estamos perante a grande descoberta de Sorel: as massas precisam de mitos para avançar. São sentimentos, imagens e símbolos que lançam os indivíduos à ação, não raciocínios. Foi provavelmente de Sorel e dos sorelianos em geral que o fascismo pegou emprestado algo mais: a ideia de que a violência revela o sublime. Posto desta forma, a ação revolucionária estava agora desimpedida de todas as resistências do mundo material.

A esta combinação de revisionismo revolucionário e nacionalismo integralista foi acrescentado, por volta de 1910, um terceiro elemento: o futurismo. Esta síntese inspirou o fascismo, fornecendo-lhe o caráter de um movimento de rebelião e revolta: revolta cultural e, depois, política. Nunca é demais ressaltar a significância do elemento vanguardista no fascismo original, a importância da estética revolucionária que ele portava. A esta combinação de sindicalismo revolucionário e nacionalismo radical que surgia na primeira década do século, Marinetti, com a publicação do Manifesto Futurista, em 1909, arregimentou o apoio entusiástico da vanguarda cultural:

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo — um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha — é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.
5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.
6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e generosidade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.
8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.
9. Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.
10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

Com este sentido de teatralidade, Marinetti sabia que, para atingir a imaginação dos seus contemporâneos, este grito de rebelião tinha que vir de Paris. Meca das Artes e Letras, centro cultural sem par, Paris era também o principal centro da cultura italiana em que o mais famoso escritor italiano deste período, o herói nacionalista do pós-guerra, Gabriele D’Annunzio, vivia e trabalhava. Além do mais, Marinetti e D’Annunzio escreviam frequentemente em francês e participavam da vida intelectual da capital francesa.

O manifesto de fevereiro de 1909 foi seguido por toda uma série de declarações de princípios aplicadas aos vários domínios artísticos, como música, pintura e arquitetura. Havia até uma ciência e uma culinária futuristas. E a influência de Marinetti era mais ou menos – mais mais do que menos – sentida na maioria destas áreas. A síntese fascista implicava na estética como parte integral da política e da economia.

O estilo fascista, notável na sua agressividade, expressava bem os novos valores éticos e estéticos. O estilo expressava o seu conteúdo. Não era simplesmente um meio de mobilizar as massas, representava uma nova escala de valores, uma nova visão da cultura. Todos os futuristas professavam o culto da potência, do dinamismo e do poder, da máquina e da velocidade, do instinto e da intuição, do movimento, da vontade de poder e da juventude. Eles votavam um desprezo absoluto pelo velho mundo burguês e louvavam a necessidade e a beleza da violência.

Não é natural que estes rebeldes reconhecessem nos sorelianos as suas verdadeiras almas gêmeas, especialmente quando esta “poesia do heroísmo” envolvia o culto à ação direta e à guerra? E, finalmente (isto, do ponto de vista da sua função histórica, era o mais importante), eram violentamente nacionalistas. De acordo com Giovanni Lista, as profundas convicções políticas de Marinetti, para ficar apenas com ele, podem ser resumidas nas ideias de violência e pátria, ou guerra e nacionalidade. O seu anticlericalismo e individualismo anárquico, que visavam a total liberação do homem, foram adotados dentro deste contexto. O “Patriotismo Revolucionário” era o critério do seu futurismo político, uma ideologia nacionalista e beligerante à qual ele permaneceu fiel até o fim dos seus dias. Com a adoção de um nacionalismo antitradicionalista e antiburguês que, juntamente com o individualismo anárquico, constituíram a religião única da violência como criação do futuro, Marinetti encontrou-se, em 1910, no mesmo campo dos sorelianos e dos nacionalistas. Este encontro de forças não-conformistas e vanguardistas aconteceu alguns anos antes da guerra e não teve nenhuma relação com ela.

O futurismo, vanguarda artística por excelência com grande poder de influência antes de 1914, foi, à sua época, a primeira corrente intelectual a oferecer uma formulação política a um conceito estético. O futurismo italiano e o vorticismo britânico de Ezra Pound e Wyndham Lewis, próximo do futurismo, são boas ilustrações do aspecto cultural do fascismo. É possível explicar a atração que esta escola de pensamento exerceu, ao longo da primeira metade do nosso século, sobre importantes segmentos da intelligentsia europeia quando se entende que eles encontraram nela uma expressão do seu próprio não-conformismo e da sua própria revolta contra a decadência burguesa, e que além de propor uma forma de relação entre o indivíduo e a sociedade, esta ideologia representava um novo ideal de beleza e excelência.

Carrà, «Manifestação Intervencionista», colagem, 1914

Este era o denominador comum entre os revisionistas revolucionários, os nacionalistas e os futuristas: o ódio pela cultura dominante e o desejo de substituí-la por algo totalmente novo. Os sorelianos, que tinham aberto uma nova via revolucionária e oferecido uma proposta inicial de nova sociedade, forneceram aos nacionalistas a base social e as forças que permitiram que a ideia de protesto fosse traduzida em movimento político. O futurismo agregou a essa fusão o instinto artístico, o espírito da juventude e a impetuosidade, e a magia do não-conformismo cultural.

Sorelianos, nacionalistas e futuristas não podiam mais escapar do encontro mútuo. O ódio pela cultura dominante colocou-os na linha de frente contra a democracia burguesa. Tendo o proletariado se mostrado imperfeito, o nacionalismo formou a massa crítica que poderia transformar um sistema de ideias em força política. Era a realização do desejo do sindicalista revolucionário Robert Michels, que clamou pela “grandiosa união” da ideia revolucionária com a grande força revolucionária do momento. Michels desejara que o proletariado pudesse ter cumprido esse papel. Quando isso não aconteceu, ele também se voltou para a ideia de nação. No fim da primeira década do século, o sindicalismo revolucionário tinha contribuído com a ideia e o nacionalismo com as tropas. Mas não foi só isso. O nacionalismo também introduziu no fascismo original o culto à autoridade. Obviamente os sindicalistas revolucionários não atacavam a autoridade como tal; esses defensores da autonomia proletária não eram anarquistas. Um sindicato é uma unidade de luta, não um clube. Mesmo assim, inexistia o culto à autoridade política, tão importante para os nacionalistas. A esse respeito, a guerra desempenhou um papel vital na cristalização da ideologia fascista, não apenas porque deu provas da capacidade de mobilização do nacionalismo, mas também porque revelou o tremendo poder do Estado moderno. O Estado era visto como a emancipação da unidade nacional e o seu poder dependia da unidade espiritual das massas. Mas, ao mesmo tempo, o Estado era o guardião desta unidade, que ele alimentava, utilizando-se de todo o meio capaz de o fortalecer. A guerra demonstrou a grandeza da capacidade individual para o sacrifício, a superficialidade da ideia de internacionalismo e a facilidade com que todos as camadas da sociedade podiam ser mobilizadas a serviço da coletividade. A guerra mostrou a importância da unidade de comando, da autoridade, da liderança, da mobilização moral, da educação das massas e da propaganda como instrumento de poder. Ela mostrou, acima de tudo, a facilidade com que as liberdades democráticas poderiam ser suspensas e uma quase ditadura aceita. Do ponto de vista fascista, a guerra comprovou de forma inequívoca a validade das ideias de Sorel, Michels, Pareto e Le Bon: as massas avançam sob o impulso de mitos, imagens e sentimentos. Elas desejam obedecer, e a democracia é uma ilusão. Para os fundadores do fascismo, a Grande Guerra foi um laboratório em que as ideias que eles tinham concebido ao longo da primeira década do século foram inteiramente confirmadas.

Em relação à teoria política, a síntese fascista já estava claramente exposta, por volta de 1910-1912, em publicações como La Lupa, em Itália, e os Cahiers du Cercle Proudhon, em França. Depois das primeiras manifestações da síntese fascista em França, foi preciso a guerra para que existisse uma situação na Itália que permitisse a transformação desse movimento de ideias em força política.

De fato, por razões relacionadas a uma situação de crise quase permanente na sociedade italiana do início do século, esta síntese ali floresceu e se tornou uma força política. Sorel era visto como um patriarca, uma autoridade e uma inspiração constante. Foram os sorelianos puros, os proponentes de um revisionismo ético, vitalista e voluntarista, os advogados da violência criativa e moral, que formaram o verdadeiro núcleo ideológico do fascismo, proporcionando-lhe o primeiro arcabouço conceitual. A primeira biografia de Sorel, feita por Agostino Lanzillo, apareceu em Itália em 1910. Foi de novo entre a juventude, nas universidades italianas, que as suas teorias, misturadas a dados científicos, se enraizaram.

Sergio Panunzio

No fim de 1902, Arturo Labriola iniciou a publicação do semanário Avanguardia socialista, que logo se transformou no centro das atividades do sindicalismo revolucionário italiano. Labriola era nessa época porta-voz da extrema-esquerda do movimento socialista, oponente das políticas reformistas de Turati. Ele adotou a teoria da violência proletária de Sorel, cujo maior defensor na Avanguardia socialista era Sergio Panunzio. Panunzio foi o maior teórico do fascismo nos anos 20: apenas Giovanni Gentile o ofuscou, mais tarde. Em 1905, Enrico Leone e Paolo Mantica fundaram uma revista sindicalista, Il divenire sociale. Eles foram seguidos pelo que viria a ser um dos maiores ideólogos do fascismo, Angelo Oliviero Olivetti, que em 1906 publicou, em Lugano, outro jornal sindicalista revolucionário, Pagine libere. Esta publicação já seguia uma orientação nacionalista e saudava a convergência vindoura entre nacionalistas e sindicalistas. Este encontro parecia natural – assim como parecia inevitável em França – depois da expulsão dos sindicalistas revolucionários do Partido Socialista italiano em 1908. O encontro aconteceu em torno do jornal La Lupa, fundado em outubro de 1910. Apesar do seu caráter efêmero, este jornal foi de particular importância no processo de incubação intelectual do fascismo, pois agrupou pela primeira vez o grupo de nacionalistas em torno de Enrico Corradini e os teóricos do sindicalismo revolucionário: Paolo Orano, Arturo Labriola, Lanzillo, Olivetti e Michels, que tinha vindo da Alemanha. Outros sindicalistas optaram por um caminho ainda mais direto e juntaram-se à Associação Nacionalista de Corradini.

Em Itália, a síntese do nacionalismo com o sindicalismo revolucionário baseou-se nos mesmo princípios que em França: por um lado, a rejeição da democracia, do marxismo, do liberalismo, dos chamados valores burgueses, da herança do século XVIII, do internacionalismo e do pacifismo; por outro, o culto ao heroísmo, ao vitalismo e à violência. Robert Michels, uma das figuras de destaque do sindicalismo revolucionário, um alemão italianizado e um dos teóricos do fascismo mais proeminentes até à sua morte em 1936, disse que para estilhaçar o conservadorismo das massas eram necessárias uma ética vitalista e voluntarista, e uma elite capaz de liderar as massas no combate. Michels é conhecido não apenas pela sua contribuição à ideologia fascista, mas também pela sua obra pioneira Partidos Políticos, que até hoje é um clássico da ciência política. Juntamente com Pareto e Mosca, ele angariou ao fascismo o apoio das novas ciências sociais.

Depois do encontro entre os revisionistas sorelianos e os nacionalistas, a síntese nacional-socialista desenvolveu-se rapidamente. Os principais intelectuais sindicalistas revolucionários foram fortemente favoráveis à Guerra da Líbia de 1911, e de agosto de 1914 em diante todos os sindicalistas revolucionários voltaram-se entusiasticamente para a campanha a favor da intervenção da Itália na guerra europeia, que tinha acabado de começar. Como os leninistas, os sindicalistas revolucionários consideravam a guerra um evento que poderia modificar a face do continente, uma verdadeira guerra revolucionária. A guerra, acreditavam eles, criara um ambiente em que as grandes virtudes humanas e sociais – violência, heroísmo, altruísmo, solidariedade entre as classes – emergiriam. A guerra estabeleceu as condições para uma renovação moral e espiritual. Na hora da batalha, não havia espaço para discursos sobre direitos naturais, justiça e igualdade, para toda essa choradeira humanística que caracterizava a democracia liberal e o socialismo democrático.

Durante os anos de guerra e nos meses que se seguiram ao armistício de novembro de 1918, o sindicalismo revolucionário transformou-se em nacional-sindicalismo. Este novo tipo de sindicalismo não era mais, como disse Sergio Panunzio em 1921, um sindicalismo revolucionário, negativo, somente dos trabalhadores, mas um sindicalismo que reunia todas as classes sociais. No começo dos anos 20, o nacional-sindicalismo já encorpava a essência da ideologia fascista, e a transição para o corporativismo ocorreu suavemente.

Uma Squadra d’Azione (milícia fascista) em 1922

Nem todos os sindicalistas revolucionários italianos se tornaram fascistas, mas a maioria dos líderes sindicalistas estava entre os fundadores do movimento fascista. Muitos até ocuparam postos importantes no regime fundado pelo mais famoso simpatizante do sindicalismo revolucionário, Benito Mussolini. Em 1909, Mussolini declarou que tinha se tornado sindicalista durante a greve geral de 1904, mas, na verdade, na época do seu exílio na Suíça entre 1902 e 1904, as suas conexões com os sindicalistas revolucionários já estavam bem estabelecidas. Antes de 1905, ele colaborou com Avanguardia socialista, leu Sorel e Pareto e foi decisivamente influenciado pelos teóricos e líderes do sindicalismo revolucionário como Olivetti, Panunzio, Alceste de Ambris e Filippo Corridoni. Mussolini logo se tornou um dos mais conhecidos líderes do socialismo italiano. Personalidade carismática, ao mesmo tempo intelectual e líder destacado, ele rapidamente cresceu em importância. De líder socialista provincial, tornou-se líder da esquerda revolucionária do partido socialista e editor do Avanti! Nesse período, nos partidos socialistas europeus, a tarefa de editor estava reservada a uma personalidade importante, a uma das figuras principais, se não mesmo ao próprio líder do partido. Jaurès, Blum, Vanderwelde, Bernstein, Kautsky, Plekhanov e Lenin foram todos editores. Durante este período, Mussolini frequentemente se embatia com heréticos que preferiam deixar o partido ou foram expulsos, especialmente em questões referentes às decisões políticas da organização. […] É importante assinalar que a sua oposição aos sindicalistas revolucionários se referia apenas a questões táticas, não às principais opções ideológicas. Desde o início da sua associação, Mussolini efetivamente subscreveu os princípios fundamentais do sindicalismo revolucionário.

Em 1913, o líder socialista voltou a reunir-se às pessoas que lhe tinham moldado o pensamento. Quando parecia ter atingido o ponto mais alto da sua ascensão dentro do partido, Mussolini fez algo inesperado: começou a publicar um jornal com o simbólico nome Utopia, abrindo as suas páginas à participação de dissidentes que o partido tinha excluído dos seus postos alguns anos antes. Foi um passo muito calculado que refletia a profunda crise intelectual pela qual o líder socialista passava na época. Ao fim da sua busca pessoal, e sob a pressão dos dramáticos eventos do verão de 1914, Mussolini pôs um fim à ambiguidade que por dois anos tinha caracterizado as suas relações com a liderança do partido que ele supostamente deveria conduzir no período da guerra na Europa. O líder da esquerda socialista abandonou o partido e juntou-se aos sindicalistas revolucionários, que já estavam organizados em grupos de pressão agressivos e vociferantes e que clamavam pela participação italiana na aliança anglo-francesa. A crise ideológica pela qual Mussolini passou tinha começado muito antes da guerra e não estava relacionada a ela, mas a guerra foi um catalisador. Como todos os socialistas europeus, Mussolini tinha que se definir. Um socialismo heróico, extravasante de valores vitalistas, sempre capturou o coração deste jovem que tinha lutado pelo socialismo democrático desde os seus primeiros dias de atividade política. Doze anos depois de ter começado no grupo de Arturo Labriola, Mussolini encontrou praticamente todos os sindicalistas revolucionários no movimento intervencionista. Mas a guerra também trouxe outra coisa: o poder mobilizador do nacionalismo. Depois do armistício, o fascismo de Mussolini estava quase formado. De qualquer modo, ele já tinha incorporado as ideias do sindicalismo revolucionário.

Muitos anos mais tarde, ele disse corretamente, a respeito da sua formação e dívida intelectual:

Reformismo, revolucionarismo, centrismo – estes são termos esquecidos pela memória, mas no grande rio do fascismo há correntes que remetem aos Sorel, aos Péguy, aos Lagardelle do Mouvement socialiste, e a esse grupo de sindicalistas italianos que, graças ao Pagine libere de Olivetti, a La Lupa de Orano e a Il Divenire Sociale de Enrico Leone, entre 1904 e 1914, introduziram uma nova nota nos círculos socialistas castrados e anestesiados pela fornicação giolittiana.

A presença de Péguy nesta lista pode ser à primeira vista surpreendente. Alguns verão nisso um motivo adicional para duvidar da credibilidade deste texto bem conhecido. Na realidade, o oposto é verdadeiro: Mussolini tinha reconstruído com exatidão a atmosfera da sua juventude militante. A menção a Péguy não revela nenhuma tendência apologética no Duce. Pelo contrário, ela chama a atenção para uma das fontes de inspiração do fascismo: a revolta dos intelectuais da esquerda que, perante o fracasso do socialismo democrático, descobriram uma fonte de força e esperança no nacionalismo. Essa é a forma como Mussolini se lembra de Péguy, um ex-dreyfusiano cujos virulentos ataques a Jaurès, o símbolo vivo da república democrática e do socialismo reformista, raramente tinham sido ultrapassados.

Mussolini à frente das Squadre d’Azione na Marcha Sobre Roma em 28 de outubro de 1922

Não há portanto nenhuma surpresa no fato do Duce relembrar as invectivas de Péguy como um dos fatores que influenciaram o seu pensamento, pois quem condenou de forma mais vigorosa do que Péguy – e Sorel – o socialismo murcho pelo decadência parlamentar? Quem deplorou com mais veemência a degeneração da “mística” dreyfusiana, transformada em política socialista liberal-democrática? Quem mais do que ele surrou Jaurès, o aliado por excelência dos italianos reformistas, inimigos declarados dos jovens revolucionários inflamados de Forlì? Péguy chamava Jaurès de “homem desonesto”, “traidor em essência”, “tambor-mor da rendição”. Para todos os efeitos, vinte anos mais tarde, era desse Péguy que Mussolini se lembrava: não do defensor de Dreyfus, o inimigo enérgico e comprometido do antissemitismo, mas do detrator do socialismo reformista em particular e da política da conciliação em geral. No ódio feroz contra o socialismo democrático e liberal, que agora havia se tornado parte integral da ordem estabelecida, o editor do Avanti! e o autor de Nossa Juventude acabaram por se revelar aliados naturais. A descoberta mútua da ideia de nação aproximou ainda mais o socialista italiano do escritor católico francês. Além do mais, para Mussolini, esta figura excepcional, que teve um destino que os proponentes do heroísmo só podiam encarar como heróico (Péguy foi morto na guerra), foi objeto de um interesse que beirava a admiração.

Indubitavelmente, a ditadura de Mussolini teria horrorizado Péguy e Sorel, mas essa afirmação não nos permite questionar a autenticidade da contribuição de Mussolini à Enciclopédia Italiana. Escrito em 1932, este artigo foi mais uma reconstrução a posteriori do que propriamente uma tentativa de conferir alguma respeitabilidade intelectual ao fascismo. De fato, ele dá uma boa medida das realidades do começo do século. Incontáveis textos desse período, tanto de Mussolini quanto de outros militantes socialistas que estiveram entre os fundadores do fascismo, provam isso sem qualquer sombra de dúvida.

2 COMENTÁRIOS

  1. Como é perturbadora as semelhanças dessa extrema direita com o que atualmente se convencionou a chamar unicamente de esquerda. A impressão que dá é que um movimento fascista e popular brasileiro se passaria despercebido.

  2. Mas já não passou despercebido? Embora não seja no Brasil, não são poucos os brasileiros que celebraram e ainda celebram a tal revolução bolivariana. Mas que é aquilo senão… senão essa coisa que ninguém quer dizer o nome?

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