Por DORAlivreira

Esse Achado & Perdido faz parte do dossiê “Causos de trabalho”: uma seleção, feita pelo Passa Palavra, de threads relatando o cotidiano e curiosidades de diferentes trabalhadores.

Foi criado no Twitter um perfil exclusivo para fazer as denúncias em relação à exploração, abusos e desmandos realizados contra os livreiros. Segue aqui umas das primeiras threads.

Vendo tudo isso acontecendo criei até essa conta no Twitter para poder falar dos 5 anos que meu colega trabalhou na Livraria Cultura de Brasília. Segue a thread…

Primeira vez que ele entrou na Cultura ele ficou deslumbrado, passou muito tempo contemplando tudo, enquanto andava pela Livraria, recebia um bom dia e um sorriso de um funcionário que passava por ele com alguns livros que estava guardando. No fundo uma música bem tranquila.

E ele falou que seria um sonho trabalhar na Livraria Cultura. No outro dia lá estava ele deixando o currículo e pouco tempo depois participando do processo seletivo e depois sendo chamado para começar a trabalhar.

No início ele estava fascinado com tudo, tudo funcionava, tinham tudo para tornar a experiência dos clientes a melhor possível. Mas já na época que ele entrou já escutava alguns borburinhos.

Ele ia almoçar com a galera mais antiga e eles sempre comentavam algo… A colega que estava treinando ele já falava para não se preocupar, para aproveitar essa fase de ficar deslumbrado com tudo, mas que na real já estava rolando muita coisa tensa.

E aos poucos foi começando a perceber a merda que era esse ambiente. Quando aconteceu o caso de Curitiba, tiveram colegas sendo demitidos apenas por terem respondido o e-mail… Foram várias demissões em várias lojas, até que desabilitaram esse e-mail interno.

Mas o pior ainda estava por vir. Eis que uns anos depois chega o banco Itaú e começam as mudanças nos contratos. E foi bem isso, eles iriam agora trabalhar com metas de vendas que iriam impactar diretamente no salário, com um detalhe que nos primeiros meses seria como se eles tivessem batido a maior meta… Era assim: “olha o quanto vocês poderão ganhar”. Mas tinha muito mais por trás disso. Sabe o lance das advertências? Então, se você ganhasse uma, você não ganhava um benefício X. Se chegasse 1 minuto atrasado, ficava sem o benefício Y.

E adivinha, esse meu colega não assinou. Foi um dos poucos que comprou a briga com esse novo contrato e não assinou nada que eles trouxeram para ele. Todos achavam que ele seria demitido, mas não, mesmo ele não assinando falaram que ele iria receber como todos os outros.

Claro que agora que tudo isso veio a tona já sabem o que aconteceu… Foi uma perseguição absurda para tentar encaixar uma justa causa nele. Mas esse meu colega ficou atento a isso e fazia tudo na maior perfeição, e isso deixava a gerência P da vida.

Ele nunca atrasava, seus atendimentos eram prefeitos, seus pedidos sempre bem monitorados, recebia elogio de clientes e dos colegas, ou seja, não dava nenhuma brecha. E ele acabou se tornando a referência para questionar a gerência.

Ele era o cara que dava a cara a tapa. “Salário veio errado” e ele já estava lá no RH questionando. “Loja era obrigada a fechar no feriado mas queriam abrir” e ele quem chegava lá com a convenção coletiva.

Sério, ele segurou a barra da galera. Até que um dia ele comprou a briga com o dono… Aí a coisa ficou mais séria. Ele questionou o dono porque a meta do mês era X sendo que era o pior mês do ano e em nenhum outro mês eles haviam chegado se quer perto disso…

Ou seja, metas impossíveis de serem batidas… Itaú na veia, né. E rolou até uma reunião dele com o dono. Foi bizarro… O dono em Brasília sentado com ele mais o gerente no café. Depois disso a coisa começou a apertar para ele. Estavam mais ainda de olho nele.

Sobre a meta, a desculpa que falaram pra ele era que ela era feita mais de um ano antes, parece piada. Eis que conseguem dar uma advertência para ele… E o motivo eu nunca vi mais banal, sério, quando ele me contou achei surreal. Não foi justa causa, mas ele perdeu um dinheiro do bônus.

Motivo da advertência: ele estava sem cadeado no seu armário pessoal. Aconteceu o seguinte… Ele saiu de férias e quando voltou, 2 dias depois ele levou a advertência. Detalhe que eles falaram que avisaram o mês todo que era obrigatório o uso do cadeado e que falaram pra ele quando ele voltou, mesmo ele falando que não estava sabendo de nada… Foi surreal. Mas ele continuou firme, mesmo sabendo que até o computador que ele usava era monitorado.

Resultado: nunca conseguiram desestabilizar ele ou dar outra advertência e por fim mandaram ele embora. Hoje ele está na justiça contra a Livraria Cultura, mas por outros motivos.

2 COMENTÁRIOS

  1. Gostaria de também deixar meu depoimento. Também sou ex-funcionário da Livraria Cultura e tive um cargo de gestão em uma unidade do Nordeste. A coisa pode piorar quando envolve a relação de uma matriz em SP e uma filial nordestina…

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