Os lugares-comuns culturais andam aos pares, e as feministas excludentes deviam reflectir que, ao atribuírem a todos os homens certos comportamentos-padrão, estão a atribuir a todas as mulheres outros comportamentos não menos insultuosos. Por Passa Palavra

1. Retomada do debate

Recentemente, no artigo «Dois feminismos: um que inclui e outro que exclui», o Passa Palavra procurou analisar de maneira critica a temática do feminismo. Propusemos naquele artigo uma divisão entre um feminismo que exclui e um feminismo que inclui, pois nos parece que no interior dos grupos que pautam o assunto existem duas tendências contrárias. Isto não significa que os grupos feministas se vejam desta maneira ou se dividam assim. Porém, não nos interessou analisar detalhadamente as diversas ideias e correntes sobre o feminismo e sobre a chamada questão de gênero, mas tão somente explicitar as linhas gerais da atuação destes grupos, ao entrarem em contradição com as práticas emancipatórias mais amplas. Neste sentido assume maior importância a crítica àquilo que tem potencial nocivo ao desenvolvimento das lutas sociais.

Os comentários a esse artigo foram diversos, e aqueles contrários às nossas teses alegaram, entre outras coisas, que nada entendemos sobre feminismo e que negamos a opressão sofrida pelas mulheres. Também muito se comentou em rodas de conversa, procurando desqualificar o artigo sem, contudo, discutir o que nos moveu a este campo de debates. Assim, pudemos constatar que aqueles questionamentos ignoraram um dos objetivos expressos no artigo — o apoio ao feminismo transformador. Isso tornou pública uma dimensão que ao mesmo tempo sustenta e expressa a estrutura que busca justificar as práticas de exclusão, pois ali qualificamos como excludente aquele feminismo que procura enquadrar o homem como um criminoso potencial, e é esta noção que pretendemos agora atacar.

2. Explicitação do feminismo excludente

Muitas foram as antevisões deixadas pela literatura e pelo cinema de comportamentos indesejáveis e, no limite, criminosos. De momento nos remetemos ao clássico Admirável Mundo Novo e ao sistema de pré-crime existente naquela sociedade distópica, onde os sonhos igualitários se realizam ao contrário. No âmbito da história, algo comum a grande parte destas representações diz respeito à associação a regimes autoritários, cujo fundamento foi buscado em ocasiões diversas no prestígio que determinada área da ciência possuía em sua época. Exemplos disto são flagrantes em casos como a antropometria de Lombroso, indo mesmo até à biologia racista da eugenia e da modalidade extrema de eugenia que foi o nazismo.

Em outras ocasiões nos pareceria demasiado dizer que as práticas do feminismo segregacionista estariam estreitamente vinculadas aos objetivos de controle e cerceamento de determinado grupo social sobre outro, integrando-as nas justificativas políticas do campo da direita. Porém, nos causa especial transtorno quando vemos aspectos destas práticas vinculadas a movimentos contestatórios. Tanto mais grave quando os homens, que correspondem a metade da humanidade, passam a ser vistos como potenciais agressores, procedendo-se a uma biologização da cultura, ou seja, defendendo a noção de que as diferenças culturais se radicam em diferenças biológicas.

A biologização da cultura corresponde a uma negação da história. Neste caso, o comportamento do sexo masculino fica automaticamente associado às práticas de opressão, como se o fator biológico fosse suficiente para inferir costumes e comportamentos que se radicam e reproduzem no terreno social. Trata-se do mais rasteiro determinismo biológico.

Por isso o feminismo excludente recorre a categorias supra-históricas, como patriarcalismo, e apresenta a estrutura familiar de uma maneira alheia às mudanças históricas. Neste sentido, as únicas fontes que as feministas excludentes podem citar são as próprias historiadoras comprometidas com o feminismo excludente e para quem o resultado da pesquisa já está decidido antes mesmo de ter começado. Ora, a vastíssima historiografia académica sobre os sistemas familiares mostra que a posição ocupada pelas mulheres não só variou muito entre as diferentes sociedades como também no interior do mesmo tipo de sociedade puderam coexistir estruturas em que cabiam às mulheres funções e hierarquias distintas. Estas distinções verificavam-se não só entre as várias classes sociais como, por vezes, também no interior da mesma classe. Igualmente importante é o fato de, em várias épocas, a documentação que nos permite o acesso às estruturas familiares não existir para as camadas sociais mais pobres, que não recorriam aos notários nem deixavam escritos relativos à propriedade. Em suma, as estruturas familiares e o lugar ocupado pelas mulheres não só foram historicamente muito variados como ainda houve sociedades ou grupos sociais que não deixaram nenhuma documentação sobre o assunto, o que torna ilegítimas quaisquer generalizações. Termos como patriarcalismo são pseudo-conceitos supra-históricos, vazios de conteúdo concreto.

O caso extremo do feminismo excludente é a defesa de um lesbianismo militante como forma de exclusão dos homens, que tem origem no manifesto Scum, escrito por Valerie Jean Solanas.

Neste manifesto Solanas fez apologia de uma sociedade onde os homens não seriam mais necessários, arregimentando variados argumentos que têm sempre como fundo uma suposta característica biológica inata à psique masculina, de inferioridade congênita tanto física quanto intelectual. Valerie Solanas chegou ao ponto de afirmar que as técnicas atuais tornariam desnecessária a participação masculina para a reprodução da espécie, concluindo pela eliminação física dos homens como forma de alcançar esta distopia feminista. Se tal concepção fosse levada a cabo, assistiríamos a um genocídio sem precedentes, já que se trataria de eliminar metade da humanidade.

Podemos avaliar este tipo de concepções ao sabermos que Valerie Solanas procurou assassinar Andy Warhol, um dos artstas emblemáticos da segunda metade do século XX. Conhecido por ser um homem frágil, de sexualidade indeterminada e fazendo coro contra barreiras sexuais consideradas opressivas, Warhol sofreu três disparos de Valerie Solanas, dos quais nunca conseguiu se recuperar plenamente. Os motivos do ataque de Solanas estariam no suposto fato de que Warhol teria subtraído dela seu manifesto Scum, através de uma atuação conspirativa com o único intuito de calar as vozes femininas. Na verdade, o ataque conduzido contra um homem com menor capacidade de autodefesa deve nos ensinar algo sobre a atuação deste tipo de feminismo.

E se, por um lado, não nos causa espanto o fato de Valerie Solanas ter sido diagnosticada clinicamente com esquizofrenia paranoica crônica, espanta-nos, por outro lado, que tais concepções estejam perpassando hoje movimentos que se pretendem libertários.

3. O paradoxo do feminismo excludente no Brasil

O feminismo excludente cumpre a dupla função nociva de ao mesmo tempo encobrir as diferenças sociais que existem internamente a cada sexo — gênese de outras opressões — e dar vazão a uma perspectiva ressentida — mote para o fomento de mais opressões. Ora, no caso específico do Brasil, e apesar dos desníveis ainda existentes, é inegável que a inserção social da mulher vem aumentando, juntamente com o ascenso a posições de liderança tanto no âmbito público quanto privado.

As pesquisas de emprego realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas principais regiões urbanas, e de que analisamos os resultados publicados em 2008 , em 8 de Março de 2010 e em 8 de Março de 2012, revelam algumas desproporções significativas.

Por um lado, e como é do conhecimento geral, embora as mulheres estejam em maioria na população com dez anos ou mais de idade, elas mantêm-se em minoria na população ocupada profissionalmente. No entanto, a posição relativa das mulheres tem vindo a melhorar, porque em 2003 compunham 43,0% da população ocupada, subindo esta percentagem para 45,4% em 2011.

Por outro lado, o nível de escolaridade das mulheres ocupadas é superior ao dos homens ocupados. Segundo o estudo do IBGE de 2010, «Enquanto 61,2% das trabalhadoras tinham 11 anos ou mais de estudo, ou seja, pelo menos o ensino médio completo, para os homens este percentual era de 53,2%. Destaca-se ainda que a parcela de mulheres ocupadas com curso de nível superior completo era de 19,6%, superior ao dos homens, 14,2%». A razão desta defasagem deve-se possivelmente ao fato de em 2010 o salário médio feminino (R$ 1.097,93) ser inferior ao masculino (R$ 1.518,31), o que leva as mulheres, para competirem profissionalmente com os homens, a procurarem obter habilitações superiores.

Com efeito, na categoria dos trabalhadores sem instrução e com menos de um ano de ensino, os rendimentos do trabalho masculino cresceram 28,2% entre 2003 e 2011, enquanto os femininos cresceram 32,4%. No mesmo período, na categoria dos trabalhadores com onze anos de instrução ou mais, os rendimentos do trabalho masculino cresceram 1,2% e os femininos cresceram 7,6%. Isto significa que na camada de instrução inferior a proporção dos rendimentos do trabalho feminino relativamente ao masculino aumentou de 66,2% para 68,4% entre 2003 e 2011, enquanto aumentou de 65,0% para 69,2%, no mesmo período, na camada com onze ou mais anos de instrução.

Sendo assim, parece que na média global as mulheres conseguiram algum êxito na disputa pela igualdade, porque em 2003 ganhavam 70,8% do rendimento médio anual recebido pelos homens, mas cinco anos depois essa percentagem subira para 71,3% e em 2009 alcançara 72,3%. No entanto, de então em diante a situação manteve-se estacionária e em 2011 a percentagem era ainda 72,3%. Num balanço global, isto significa, citando o estudo do IBGE de 2012, que «Entre 2003 e 2011, o rendimento do trabalho das mulheres aumentou 24,9%, enquanto que o dos homens apresentou aumento de 22,3%».

A noção de que o aumento da qualificação da força de trabalho feminina se deve à disputa pela igualdade parece confirmar-se ao compararmos os rendimentos médios dos profissionais que concluíram o ensino superior. É certo que, com este grau de ensino, no comércio as mulheres ganhavam em 2003 o equivalente a 61% do rendimento ganho pelos seus colegas homens e a percentagem baixou para 60% em 2011 e na administração pública a percentagem manteve-se idêntica, 60%, entre 2003 e 2011. Porém, em todos os outros ramos de atividade a situação feminina melhorou entre aqueles dois anos, nomeadamente passando de 61% para 62% na construção, de 64% para 66% na indústria e de 63% para 66% nos serviços prestados a empresas.

Outros indicadores apontam, todavia, para conclusões ambivalentes. Segundo o estudo do IBGE publicado em 2008, «observou-se que as diferenças entre os rendimentos de homens e de mulheres eram maiores entre os mais escolarizados». Esta conclusão foi confirmada pelo estudo do IBGE de 2010, que afirmou: «Verificou-se que nos diversos grupamentos de atividade econômica, a graduação superior não aproxima os rendimentos recebidos por homens e mulheres, pelo contrário, a diferença acentua-se». Excetuando nos serviços domésticos, em todos os outros ramos de atividade as mulheres com onze ou mais anos de estudo mas não tendo concluído o nível superior tinham em 2009 uma menor diferença de rendimentos do trabalho relativamente aos seus colegas masculinos com o mesmo grau de instrução do que sucedia com aquelas que haviam concluído o ensino superior, e esta situação manteve-se em 2011.

Ao mesmo tempo que aumentou o destaque das mulheres no mercado de trabalho, reforçou-se o seu ascendente na estrutura familiar brasileira.

Segundo dados do IBGE referentes a 2010, 38,74% dos domicílios particulares tinham uma mulher como pessoa responsável. Se mudarmos um pouco a perspectiva e considerarmos as pessoas residentes em domicílios particulares, vemos que a proporção residente em famílias onde a pessoa de referência é uma mulher aumentou de 8,16% em 2001 para 12,38% em 2011. Em números absolutos, isto significa que se passou de 13.891.000 em 2001 para 24.099.000 em 2011, o que representa uma subida de 73,5%.

Neste tipo de situação, em que a posição ocupada por um dado grupo social é inferior em números absolutos mas está a aumentar em números relativos em certos aspectos, embora não noutros, é mais fácil a tomada de consciência da injustiça representada pela inferioridade e pela subordinação. Ao mesmo tempo, a melhoria relativa gera autoconfiança. Em termos gerais, é neste quadro bivalente que as mulheres brasileiras travam hoje uma luta pela igualdade. Abre-se assim um campo cheio de nuances na luta contra a opressão exercida sobre as mulheres, o que ao mesmo tempo invalida as noções do feminismo excludente e o torna ainda mais nocivo política e socialmente.

4. A apropriação do feminismo excludente pela esquerda

Boa parte da movimentação esquerdista em torno do feminismo, embora alegue discordar de pressupostos como os de Valerie Solanas, parte de premissas semelhantes.

Sugere-se que as mulheres ficariam mais à vontade apenas entre elas, qualificando o homem como elemento opressor e desagregador. O principal aqui é o salto da divisão em classes para a clivagem biológica. Quando existe machismo ele deve ser discutido e combatido entre todos, mulheres e homens, porque o machismo é uma atitude cultural que encontra defesa também em meios femininos e que depara com ataques provenientes também de meios masculinos. Ora, admitir que alguém, pelo fato de pertencer ao sexo masculino, veicula obrigatoriamente o machismo, é uma atitude reacionária, porque destrói as necessárias solidariedades de classe. E se não for como classe que atacarmos a questão, incorreremos no erro de compartimentar o assunto e torná-lo marginal aos próprios militantes.

Quando atribui características negativas aos homens, como portarem-se de maneira autoritária ou falarem alto, o feminismo excludente tem exatamente a mesma validade — ou melhor, falta de validade — do seu irmão gêmeo, que atribui características negativas às mulheres por não dizerem o que pensam e agirem pelas costas. Geralmente os lugares-comuns culturais andam aos pares, e seria bom que as feministas excludentes refletissem que, ao atribuírem a todos os homens certos comportamentos-padrão, estão a atribuir a todas as mulheres outros comportamentos não menos insultuosos.

Na verdade, tanto homens como mulheres usam de autoritarismo e manipulação para fazer valer suas posições dentro dos movimentos, e é necessária ou muita hipocrisia ou a miopia dos devotos para não o reconhecer. O argumento atinge o ridículo ao vermos moças, que enfrentaram corajosamente a brutalidade das cargas policiais nas ruas de muitas cidades brasileiras, dizerem que precisam de espaços próprios para se reunirem, porque sentem como ameaçador o machismo dos rapazes militantes de esquerda. Quando constatamos que as denúncias acerca da violência machista recaem sobre os rapazes da esquerda (habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular) e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas, mas exclusivamente sobre aqueles que entram em pânico sempre que são acusados de politicamente incorretos, concluímos que há outras pautas ocultas nos argumentos das feministas excludentes. Ao não questionar certas representações sexuais historicamente constituídas e ao assumi-las como se fossem determinações biológicas, o feminismo excludente facilita o reforço das manipulações e hierarquias no interior dos movimentos, só que desta vez em benefício… das mulheres? Não. De algumas mulheres sobre as restantes e, por aí, sobre a totalidade do movimento.

É sugestivo que as críticas ao artigo «Dois feminismos: um que inclui e outro que exclui», assinado pelo coletivo do Passa Palavra tivessem partido do princípio — errado — de que ele havia sido escrito apenas por homens. Em seguida o Passa Palavra publicou um artigo da autoria de uma mulher, Rita Delgado, e de um homem, João Bernardo, que mostra como a destruição dos espaços exclusivamente femininos foi uma das condições do avanço da luta antifascista em Portugal nas décadas de 1960 e 1970. Curiosamente, esse artigo não foi comentado pelas feministas excludentes.

O inverso também ocorre e um companheiro fez notar como a recente preocupação com P2 no interior das manifestações se tem vinculado exclusivamente à atuação de homens P2, como se não existissem mulheres ligadas à polícia e aos órgãos de espionagem. Isto nos causa grande preocupação, pois torna mais fácil que agentes da repressão do sexo feminino possam não só passar despercebidas como também ser protegidas por grupos feministas, sendo que qualquer questionamento a elas pode ser entendido como um ataque machista. Com isto, todos os grupos e coletivos ligados à luta contra a opressão sairiam perdendo, e ainda toda a classe trabalhadora, já que, além de desorganizada em seu interior, se veria vigiada e monitorada por dentro graças ao feminismo excludente.

5. Um feminismo para a transformação social

Nossa atuação visa superar as desigualdades entre os sexos na construção de uma sociedade igualitária. As experiências históricas nos mostram, no entanto, que a construção deste mundo não passa pela homogeneização da classe, tão pouco pela criação de escalonamentos e grupos descolados da luta como um todo. Entendemos que somente na medida em que a classe consegue se organizar de forma coesa, mas mantendo as múltiplas facetas que a compõem dentro de um mesmo universo de práticas, é que poderemos avançar rumo à construção de outro mundo.

Nesse sentido, compreendemos que a luta contra o machismo deve estar inserida em nossa prática cotidiana, na divisão de tarefas em igualdade entre ambos os sexos e na rotatividade das tarefas. Isso inclui a realização de falas públicas, jograis e entrevistas, frequentemente destinados aos homens, estimulando ao máximo a participação de mulheres neste espaço. A experiência ensina-nos, contudo, que não devem ser criados constrangimentos a essa participação, já que o seu interesse deve partir das próprias mulheres. Não se trata de pressionar as mulheres para participarem, mas de criar condições para que, quando quiserem participar, se sintam à vontade para fazê-lo, o que implica a participação precedente na construção de todos os rumos do movimento. As tarefas internas também precisam de ser distribuídas igualitariamente, rompendo com a atribuição tradicional de funções sociais aos sexos. Tanto homens quanto mulheres devem cuidar da limpeza dos espaços, do cozimento de refeições e das creches para as crianças, assim como mulheres e homens devem tratar em comum das pautas e assuntos políticos do grupo.

Quando tal sucede, essa construção cotidiana demonstra na prática a possibilidade de uma sociedade igualitária, contribuindo para a formação de um mundo que não considere alguns humanos — pela origem social, pela cor da pele ou pelo sexo — como biologicamente superiores a outros.

Um erro comum das concepções feministas excludentes é o de crer que existe um espaço social predeterminado, como uma pizza de oito pedaços, e que se trata hoje de arrancar dos homens pelo menos quatro pedaços (quando não todos, como no caso de Valerie Solanas) e passá-los às mulheres. Quem adopta este tipo de perspectivas imagina que qualquer crítica de esquerda ao feminismo excludente se deve ao ressentimento de quem perdeu um pedaço da pizza. Em sentido contrário, nós, mulheres e homens do Passa Palavra, dizemos que não nos interessa uma pizza com sabores de nova opressão e beiradas de novas hierarquias, mas que outra pizza deve ser feita.

O que importa aos militantes anticapitalistas não é a simples abertura de espaços, mantendo, no entanto, os termos da disputa opressiva, mas que tal disputa acabe através da criação de novos espaços de atuação realmente coletivos, onde estejam ausentes os valores opressivos, quaisquer que sejam. Desta forma estaremos ajudando a construir a sociedade que queremos, a partir da união e discussão conjunta entre homens e mulheres. Ora, a organização de grupos exclusivamente femininos, com o seu inevitável recíproco, os grupos exclusivamente masculinos, contribui para a ampliação da clivagem entre os sexos e não para a sua superação.

O texto foi ilustrado com obras de Lygia Clark

Os leitores portugueses que não percebam certos termos usados no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam outros termos usados em Portugal
encontrarão aqui um glossário de gíria e de expressões idiomáticas.

90 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, vocês precisavam estudar mais o que é patriarcado. A-histórico? Imutável? Nenhuma feminista defende isso. Muito menos que a família não muda com o decorrer da história.

    Além disso, usar o manifesto scum para falar sobre “O” feminismo é dose, hein?

    E, não adianta chorar: os espaços auto-organizados continuarão existindo, independente do chororô do passa palavra.

    ps: curioso o texto não ser assinado, né?

  2. Li há alguns dias um texto oriundo de feministas de Florianópolis e que se refere ao mesmo caso comentado por Lucas. Em dado passo esse texto afirma: «[…] vivemos em um sistema que denominamos patriarcado. Por mais que essa categoria já tenha sido criticada pelas feministas acadêmicas, ela ainda é bastante útil pois nos ajuda a ver o
    machismo que existiu e que existe em todas as sociedades e em todos os tempos. Por mais que o patriarcado não atue da mesma forma em todos os lugares, ele é muito hábil em se adaptar em diferentes culturas e tempos, e passar despercebido muitas vezes dentro daquelas pessoas que se propõem a questionar o sistema». Curiosa metodologia em que o critério para a adopção dos conceitos é justificarem os preconceitos.

  3. Defenda seu ponto então, Maria Júlia. Você taxa o texto de “chororô”, mas não contribui com nenhum argumento que faça o debate avançar.

    Saudações!

  4. Valeu PP por se juntar ao coro contra as “feminazi”. Usaram outras palavras mas querem dizer o mesmo, reproduzindo o discurso de direita. Artigo infeliz e, na minha opinião, só serve para polarizar mais o debate sobre o machismo nas organizações e movimentos sociais.

  5. Em primeiro lugar, eu entendo que esse texto aparece como reação a um certo discurso feminista que também não me agrada. No entanto, me parece que ao combater esse “feminismo excludente” o Passa Palavra foi bastante infeliz, dando mais passos para trás do que avançando. Acho lamentável.

    O uso da Valerie Solanas como referência é particularmente ridículo. É o estilo de argumento que a gente lê na Veja, tipo “sou contra o bolsa família porque fulana usou o dinheiro pra comprar roupa de marca”. Trata de um caso caricato para justificar as próprias conclusões já preestabelecidas.

    Quando eu tinha 13 anos de idade sofri uma tentativa de estupro por parte de cinco adolescentes mais velhos do que eu. Passei quase uma década sem falar no assunto, porque eu tinha muita vergonha do que tinha acontecido e me causava muita dor pensar nisso. Uma vez foi organizado um evento feminista aqui na minha cidade e uma única atividade da programação era um espaço fechado só para mulheres. Até o dia dessa atividade eu era bastante contra a divisão de gêneros nos espaços políticos.

    Foi nesse espaço que pela primeira vez eu consegui conversar sobre meu episódio de violência e foi quando eu descobri que eu não era a única. Muitas amigas com as quais eu convivia diariamente tinham passado por violências ainda piores e eu nem imaginava isso. Éramos mais de 20 mulheres nessa sala, e menos de cinco saíram dali sem compartilhar casos assim.

    Nós passamos por situações de agressões todo santo dia, então sejam minimamente compreensíveis com a nossa “histeria” frente aos homens. Caros, estamos em um contexto de feminicídio e de um altíssimo índice de violência de homens contra mulheres. Por isso, por favor, vocês não estão sendo nada solidários ao condenar esses espaços de confiança onde nós lutamos para politizar nossas tristezas.

    Como bem sabemos (e seria de um puta elitismo não reconhecer isso) a violência machista não têm classe. Acontece entre ricos, acontece entre pobres. É claro que uma maior autonomia financeira da mulher pode ajudar muito para sair de um relacionamento violento, mas não basta e não é só o que resolve.

    Achei especialmente infeliz o seguinte trecho do artigo:

    “Quando constatamos que as denúncias acerca da violência machista recaem sobre os rapazes da esquerda (habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular) e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas, mas exclusivamente sobre aqueles que entram em pânico sempre que são acusados de politicamente incorretos, concluímos que há outras pautas ocultas nos argumentos das feministas excludentes.”

    Vocês escrevem como se a violência machista não fosse também uma violência simbólica, como se os únicos agressores fossem os homens fortes batendo em mulheres fracas. Achei bastante raso. Aliás, foi mal, não fiquei com pena de vocês “pobres meninos fracos de esquerda”.

    Acho bastante óbvio que a grande maioria das feministas não partem do pressuposto de que homens são “naturalmente e biologicamente agressores”. Estivemos todo o tempo lutando contra a biologização e não é tão fácil assim cair nela outra vez. Se afirmamos que os homens são agressores em potencial é por conta não de sua natureza, mas da socialização em um mundo extremamente sexista.

    Nós nos esforçamos para romper o local de fragilidade onde nos colocaram e por isso passamos a ocupar novos espaços. Difícil é ver um homem se esforçar para romper com seus privilégios. Obviamente, isso se dá porque são eles quem se beneficiam de uma estrutura patriarcal. No entanto, preciso reconhecer que fico muito feliz de ver que tenho muitos companheiros que têm se esforçado nesse sentido.

    Acho difícil que a partir de posições como as desse artigo vocês consigam “estimular ao máximo a participação das mulheres”. Certamente essa não é inclusive uma política muito efetiva do Passa Palavra, que conta com uma minoria de mulheres no coletivo. Não se inclui as mulheres falando “pronto, vai lá e fala! prometo que aqui a gente nem é machista”.

    Não chegamos a uma situação de igualdade negando essa desigualdade existe. Só reconhecendo as estruturas exploratórias de classe e as opressões de gênero e de etnia que podemos sair do lugar. Fingir que elas não existem – ou reconhecer a existência delas somente em situações extremas – é um erro bem idiota.

    Existem outros feminismos que vão muito além do multiculturalista, muito além do feminismo da contracultura e, especialmente, muito além desse feminismo restrito defendido por vocês.

    Ao romper com quem secundarizava a luta das mulheres, alguns feminismos acabaram se afastando muito de outras lutas, contribuindo para que o tal “feminismo que exclui” produzisse mulheres que se entendem como as únicas oprimidas do mundo. É preciso manter um feminismo comprometido com a luta de classes, porém, voltar a secundarizar a luta das mulheres é algo que nós já não vamos aceitar. E isso (ainda bem!) independe da vontade do Passa Palavra.

    *obs: acho sintomático que esses argumentos do Passa Palavra têm sido usados para defender a permanência de agressores dentro de alguns espaços políticos..

  6. Aliás, não é de se estranhar que as mulheres queiram fazer espaços exclusivos, já que precisam militar com gente que vomita estatísticas para dizer que o machismo já nem é algo tão sério assim.

  7. Então, se a ideia era cuspir dados do IBGE, acho que o artigo cumpriu bem seu papel. Aliás, escolheu muito bem os dados , mas esqueceu de falar da divisão dos afazeres domésticos. Ou segundo o próprio IBGE “De acordo com os resultados para 2005, pode-se afirmar que os afazeres domésticos constituem um grupo de atividades predominantemente femininas. No país, 109,2 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade declararam exercer atividades relacionadas com os afazeres domésticos; sendo que, deste conjunto, 71,5 milhões são mulheres.
    As desigualdades de gênero na realização dessas atividades são ainda mais visíveis quando se considera a população total de acordo com o sexo e os grupos de idade. Verificou-se que somente 51,1% dos homens realizam afazeres domésticos
    enquanto que entre as mulheres esse percentual é de 90,6%. É no Nordeste que se observa a menor participação dos homens no afazeres domésticos (46,7%) enquanto que no Sul se evidencia a maior taxa (62%).

    São dados, como o de vocês, mas por que são escolhidos uns e não outros?

    Além disso, acho que a esquizofrenia paranoica crônica vem dos autorxs, que mistura Admirável Mundo Novo, manifesto Scum, dados do IBGE, proteção das feministas a P2 e um bando de outras coisas que eu não devo ter ententido a lógica porque não compartilho dessa gama de leitura de vocês ou talvez eu não compartilhe dessa vontade de ficar falando díficil, vomitando dados e fornecendo embasamento teórico pros pseudos libertários continuarem vomitando teorias e convencendo aqueles que na prática não querem refletir sobre os próprios privilégios e preferem , como SEMPRE, falar (impor)para as feministas como deve ser a nossa militância.

    Aliás, acho que os nossos próprios espaços de militância vem nos mostrando que muitas vezes os opressores estão do “”nosso lado””, citando Simone de Beauvoir e Emma Goldman e aí? Os inimigos são os outros? Sinceramente, pra mim não!

  8. Algumas coisas têm me incomodado em relação aos comentários criticando o artigo.

    Quando Camila diz “Ao romper com quem secundarizava a luta das mulheres, alguns feminismos acabaram se afastando muito de outras lutas, contribuindo para que o tal “feminismo que exclui” produzisse mulheres que se entendem como as únicas oprimidas do mundo.” ela reconhece a existência de um feminismo excludente. Ora, o artigo não diz a mesma coisa ao criticar uma vertente do feminismo que não contribui com a luta pela superação da opressão?

    Ao contrário do que alguns comentadores fazem parecer, o artigo não apresenta o feminismo como algo unificado, ao contrário, é contundente ao criticar “um” feminismo, o excludente. E se é reconhecido por muitas feministas que esta vertente existe e é prejudicial ao movimento, não consigo entender por que não conseguimos avançar na discussão. Por que motivo, quando o Passa Palavra publicou um artigo que contribuía com um exemplo concreto do feminismo “inclusivo” (“Feminismo ou emancipação? Movimento estudantil português nos anos sessenta”)os comentários tão tiveram tanta polêmica quanto neste artigo e no primeiro que publicaram sobre este tema?

    Não concordo com Camila quando ela diz que o artigo ignora que a violência machista seja também uma violência simbólica. Na verdade entendo que reconhece que a violência acontece em espaços diversos e por formas distintas, e mais, avança na discussão ao questionar o por que deste feminismo excludente somente criticar e lutar contra o machismo na esquerda e ignorar a opressão em outros espaços, contra machistas stricto senso.

  9. Me parece que apresentação dos dados do IBGE foi feita em sentido contrario ao interpretado pelas comentaristas Francine e Lili. No artigo reconhece-se que a ascensão das mulheres em termos de rendimentos e participacao no mercado de trabalho dão mais força a luta das trabalhadoras, pois facilitam a percepção das contradições capitalistas e da situação de dominação que estão colocadas.
    Alias o artigo parece levar em conta o que fala a Francine ao posicionar-se pela necessidade de divisão igualitária de trabalhos como a limpeza, o cuidado com as crianças e a cozinha.

  10. Sim, mas por que nesse caso não foram utilizados dados para mostrar como essa divisão é desigual?Por que deixar os dados que “comprovam” a desigualdade de lado? Entendo que é a proposta do texto, mas discordo completamente dela. Claro que tivemos conquistas importantes, mas acho que devemos ter cuidado quando usamos esses dados, aliás, só nos comentários foram duas interpretações ‘erradas’. Também entendi como “ah, machismo foi um problema sério, hoje, olha só como as mulheres estão bem”. Mas acho que talvez essa interpretação seja pelo resto do texto, não só pelos dados apresentados.

  11. Uai, se este é um ponto de acordo (que existe a desigualdade), qual é o sentido de ficar repetindo a mesma coisa e colocar mais dados? Se o texto fosse por este caminho ele ia falar de outra coisa e não do problema que se quer apresentar. Afinal, qual é o sentido de um debate, fazer uma louvação ou discutir os problemas?
    O texto aponta que o cenário hoje é muito mais complexo do que foi um dia e que isso requer uma muito maior sensibilidade e sutileza para entender as nuances da luta, caso contrário há o risco eminente da criação de novas hierarquias nas lutas (coisa que é por demais conhecida pra quem estuda o percurso das lutas sociais no século XX). E o que fazem quanto a isto? Negar tudo, é claro. Deprê total.

  12. para mim o texto coloca um tópico muito problemático: “3. O paradoxo do feminismo excludente no Brasil” que simplesmente joga estatísticas que, em si, não dizem nada e falam pouco sobre o resto do texto. o que faz é dizer que “é inegável que a inserção social da mulher vem aumentando”, e com isso…? é um tópico que está aí para dar certa veracidade ao artigo, mas que está totalmente desconexo do resto do texto.

    agora quando falam: “habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas”, dá a impressão que homens fracos e flácidos não podem ser tão agressores quanto leões de chácara e lutadores de jiu jitsu, e isso não é verdade.
    é bem desrespeituoso colocar esse argumento, sendo que dentro dos movimentos autônomos nos últimos anos houve várias denúncias de agressões. houve denúncia nos partidos também, até no fora do eixo teve gente denunciada. o que significa que ninguém está isento de ser agressor só por ser um militante flácido.

    isso não significa que metade da população é potencial agressora, significa que também há agressores dentro dos movimentos, talvez na mesma proporção que fora.
    o que mostra que o projeto de igualdade dentro da esquerda ainda não funciona, se nem a própria integridade física das militantes não é valorizada por certos companheiros.
    não dá para pensar que só porque não são “machistas stricto senso”, seja lá o que isso for, não há atitudes machistas e até femicidas dentro do nosso meio e que não devam ser denunciadas e combatidas.

    e se é para abrir mais a discussão, vamos pensar por que há tanta resistência em discutir gênero nos movimentos?
    qual é a política da esquerda em relação a abusos e violências contra companheiras? qual é a discussão acumulada, de verdade? não se repetem os mesmos discursos que se ouve sempre sobre “por que ela não se defendeu?”, “não é culpa dele, ele está louco?”.

    é no mínimo sintomático que o passa palavra decida fazer uma série de artigos contra um suposto “feminismo errado” e promover um tal de “feminismo transformador”, que não deve ter espaços exclusivos, sendo que esses espaços são dos poucos lugares onde as denúncias de machismo são compartilhadas.

    não li o outro texto inteiro, o dos anos 60, só fiquei sabendo dele hoje, mas sinceramente duvido muito que ele seja a grande prova que os espaços exclusivos sejam uma prática fascista.

  13. Me espantou ver a incapacidade de comentaristas não entenderam o motivo das estatísticas no texto. Fico me perguntando se realmente leram para acharem que elas tentam justificar uma redução da desigualdade de gênero ou coisa que o valha.

    De resto, fugindo ao texto, pela minha experiência nesses meios libertários, principalmente de características juvenis, eu acho que se realmente as mulheres querem discutir seriamente mudança de relações sociais, antes de tudo devem definir claramente o que entendem por ‘machismo’. Pois vejo essa palavra ser dita como se fosse algo autoexplicativa (um conceito mágico que mais encobre do que revela), e sempre num sentido biologizante mesmo, como se só o homem fosse ou pudesse ser machista, e não num sentido de relação social que pressupõe homens e mulheres machistas.

    Pra terminar, essa nova pizza que deve ser feita deve ser vegetariana para ser de fato livre de opressão. :)

  14. Os dados apresentados me parecem ter a função de apresentar que a desigualdade se mantém apesar da crescente inserção e que isso é um terreno fértil de luta, ao contrario de um feminismo excludente.
    O texto afirma que o machismo deve ser combatido dentro das organizações de esquerda e em nenhum momento afirma que agressões nao devem ser denunciadas. Contudo ele chama a atenção para o feminismo excludente voltar-se apenas para a esquerda e nao denunciar outros casos latentes na sociedade.

  15. Léo,
    realmente me envergonha muito ver você, uma pessoa tão informada querendo saber das feministas o que é machismo, sendo que você mesmo sabe do que se trata, o que define o machismo. Se você quer exigir nota de rodapé para cada ver que citamos machismo, lamentamos informar, mas isso não vai rolar. Não nos peça para ensinar o beabá.

    Alias, oriente seus amigos passa(pano de agressores)palavra para que leia mais sobre feminismo, vá conhecer espaços feministas, conheça o feminismo militante(e não meia duzia de mulheres desse vergonhoso coletivo). Recomendo também que leia mais, há livros de feministas brasileiras que contribuíram para construção do feminismo aqui no Brasil. É só procurar!

    O que vocês escrevem é ruim, viu? Todas as vezes que recebo um link recomendando a leitura, me sento envergonhada já no primeiro paragrafo, mas agente acaba lendo, porque algumas coisas nos fazem rir.

    Agora, tenham mais humildade e reconheçam que vocês não querem contribuições para o debate (como o Neco sugere) agente sabe que isso é uma falácia, se vocês quisessem contribuições, vocês paravam de atacar o feminismo e as feministas. Vocês não vão a nada feito por feministas (a não ser de mulheres que estão do seu lado carregando casacos, organizando as bibliotecas, as militantes subalternas que só abrem a boca pra concordar com vocês).

    Porque o contra-ataque de vocês beira a misoginia do Pondé, mas não nos fazem cocegas.

    Ah, Léo, antes de você vir com uma resposta acadêmica de 3 páginas com inumeras referencias, procure entender uma coisa: não existe mulheres machistas. Posso até concordar que se reproduza o machismo, mas mulheres machistas, sinceramente, você tá viajando.

    Vou lembrar de dizer a todas feministas que recomendarem esses textos em listas de emails, grupos de debate que NÃO LEIAM O PASSA PALAVRA! Porque é perda de tempo, um coletivo anti-feminista que não merece respeito.

    Nina

  16. Na minha opinião o ponto é que posturas autoritárias dentro dos movimentos libertários, venham de homens ou de mulheres, devem ser combatidas constantemente tanto por homens quanto por mulheres. Mas a luta se dá de forma muito eficaz, na minha experiência, quando se mantém a comunicação e o diálogo entre os grupos em espaços comuns, porque permite ver que esse tipo de posição é minoritária ou, se for majoritária, então que de fato há um problema bem sério pra ser resolvido dentro dos coletivos e nas discussões públicas. No entanto, se isso não for colocado nos espaços comuns, não se descobre e não se enfrenta o problema.

    Na minha cidade por exemplo, há um caso de um sujeito autoritário que costuma gritar e ameaçar de bater nas pessoas durante as reuniões. Ora o alvo é uma mulher, ora é um homem, apesar de ser pronunciado que ele é bem mais agressivo com as mulheres que o questionam. Ou seja, é um sujeito machista. Só que, ao tentar intimidar as mulheres, o sujeito está inviabilizando todo o ambiente de discussão coletiva, a democracia interna do movimento mesmo. Democracia interna que interessa a todos — quando um sujeito se impõe, não se impõe só sobre as mulheres, mas também sobre os homens. Essa democracia interna foi o interesse comum que permitiu que a gente, homens e mulheres, pudesse afrontar o sujeito nos momentos em que ele estava sendo autoritário e isolasse esse tipo de postura como minoritária — sem que isso levasse a coisas como expulsão ou a gente, que era ampla maioria, precisar de ficar chamando reuniões escondidas do sujeito.

    Os espaços exclusivos não servem pras mulheres ou sequer pras feministas, até porque não existe um conjunto unificado desses grupos. Eles servem principalmente para as mulheres que querem os espaços exclusivos, as feministas excludentes. As mulheres que não concordam com esses espaços e são oprimidas nos espaços mistos continuam tendo que lutar sozinhas e de quebra isolada das outras mulheres que poderiam apoiá-las na luta. Além de isolar os homens que concordam com esse enfrentamento mas não podem nem querem falar em nome das mulheres.

  17. A ingenuidade, quando ultrapassa um certo ponto, deve chamar-se hipocrisia. Há quem se indigne com o facto de este artigo do Passa Palavra evocar Valerie Solanas a respeito do feminismo e há quem pretenda que é um absurdo falar de mulheres machistas. Um dia destes o Passa Palavra devia fazer um artigo analisando as relações de poder no interior dos grupos e espaços exclusivamente femininos. Seria interessante que no mesmo artigo analisassem também as relações de poder nos casais de lésbicas, incluindo os actos de violência. Quem quiser começar a puxar o fio da meada pode começar por esta ponta:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Princess_Donna
    Já agora, e como está em voga atacar o machismo nos grupos anarquistas, sugiro que organizem um escracho contra Proudhon. Ou será que a ignorância é tão grande que não sabem o que esse fundador do anarquismo escreveu sobre as mulheres?

  18. Nós feministas excludentes somos eternamente gratas ao Passa Palavra por divulgar a obra de nossa ô grande Deusa Valerie Solanas: Nosso ô grande Livro, o SCUM MANIFESTO

    Aproveito para divulgar também o nosso hino

    https://soundcloud.com/sapatanicas/intima-poderosa

    Nossos sinceros agradecimentos
    Feministas Excludentes

  19. E não se enganem!! Apesar de estarmos agradecidas, no exato momento em que vocês prepararem essa nova pizza, nós estaremos prontas esperando para roubá-la de vocês.

  20. Camila,

    E quanto aos homens que foram estuprados? Cara, você simplesmente não tem ideia da quantidade de meninos que são estuprados e de como isso fica ainda mais silenciado do que os estupros de mulheres. Vários estupradores começam suas atividades, na verdade, estuprando meninos na adolescência. No cárcere, é basicamente legalizado o estupro de homens, que não é visto como estupro.

    Se tem um dado assustador em certo feminismo é a complacência com o estupro de pessoas do sexo masculino. Assim como fazem de conta que não existe p2 feminina, fazem de conta que não há estupros contra homens, rapazes e, principalmente, meninos. Ao contrário, cansei de ver feminista defendendo explicitamente o estupro de homens. O horror!

  21. Ótimo texto e grande debate.

    “Todo ato de penetação para a mulher é uma invasão que mina sua confiança e esgota sua força. Para um homem é um ato de poder e domínio que o torna mais forte, não somente sobre uma mulher, mas sobre todas as mulheres. Então toda mulher que se engaja na penetração reforça o opressor e reinforça o poder de classe dos homens.”

    Lesbianismo Político: A Causa Contra a Heterossexualidade – Primeira Parte

    https://materialfeminista.milharal.org/

    Quando estas feministas afirmam que “pessoal é político” é exatamente disso que estão tratando: uma norma de conduta em todos os âmbitos para homens e mulheres, sobretudo normas sexuais, como por exmeplo, a obrigatoriedade do “amor livre” para um “poliamor”. E o inverso passa a valer também: a política é pessoal, uma ação entre amigos e amigas. Não por acaso esse feminismo é crescente no meio anarquista e o que veio a ser chamado de “autônomo”, aonde se confunde política com estilo de vida.

    É curioso que se ocultem nas discussões de “grupos gênero” os casos de assédios entre mulheres — aquilo que é chamado internamente de “relações não-consensuais” –, a violência psicológica e mesmo os casos de perseguição. Um grande silêncio.

    Quanto ao termo ficticio de feminicidio: bastaria uma consulta em qualquer estatística para saber que o número de mulheres na sociedade é crescente; o número de homens que matam homens é muito superior ao número de homens que assassinam mulheres.

  22. o que me espanta é que quando eu digo que acho que o texto foi escrito de forma tosca as pessoas dizem que eu não entendi.

    o texto não diz que as agressões não devem ser denunciadas, diz que os espaços onde muitas agressões são denunciadas são excludentes, e que isso é ruim.

    repito que é sintomático que o passa palavra prefira lançar esse tipo de artigo em vez de alguma reflexão sobre as tantas agressões que rolam, e com isso alimentam a picuinha com as “feministas exludentes” em vez de entender quais são os pensamentos que ainda são reproduzidos aí que não incentivam a participação de certas feministas como, por exemplo, o dos militantes flácidos.
    acho que seria demais se o texto dissesse que as agressões não devem ser denunciadas. mas diz que um homem fraco não pode ser tão agressor quando alguém forte!! quem está usando o argumento biologizante aqui?

    é realmente muito triste que uma página com esse compromisso faça um texto muito parecido com os textos que vemos aí em blogs anti-feminazi. isso só mostra como o passa palavra está totalmente fora de sintonia com o debate feminista. só que em vez de tentar se integrar ao debate, só piora a discussão categorizando qual é o feminismo certo e qual é o errado, de uma posição arrogante e exterior.

    eu entenderia algumas críticas, por exemplo o comentário do GM, se soubesse que as práticas são diferentes dentro dos coletivos. mas sei que na maioria das vezes não são.

  23. Colo aqui a posição do Coletivo Anarquista Bandeira Negra em relação a agressão de um dos membros do coletivo contra sua companheira.

    Sem esquecer que recentemente o coletivo do CMi em floripa se retirou da rede brasil, por conta do tratamento que a rede deu para o caso da agressão do gustavo contra uma, tambem, companheira em curitiba.

    espero contribua com o debate.
    abraços.

    ———————————————–

    [Florianópolis] Nota sobre expulsão de militante

    [Reflexões sobre o processo – 23/07/2013]
    O caso de violência de gênero com o qual tivemos que lidar foi acompanhado de muitas discussões, internas e externas, e em aprendizados importantes para nossa militância. Não existem respostas prontas, mas compartilhamos algumas reflexões e avaliações.
    1) O peso da cultura que cria relações de poder entre os gêneros não pode nunca ser subestimado, pois perpassa todas as relações sociais e, entre elas, os processos de organização e luta dos oprimidos. Por isso, nenhum dos homens está imune a exercer posturas machistas, assim como ninguém está imune de reproduzir opressões.
    2) Isso exige organização das(os) oprimidas(os) para lutar contra o silenciamento, a dominação e a violência que as opressões produzem. Porém, exige também a identificação dos privilégios que essas opressões trazem aos homens, assim como também aos brancos, aos heterossexuais, etc. A reprodução desses privilégios acontece, em grande parte, de forma inconsciente, naturalizada, e por isso é necessário esse esforço de identificação e reflexão.
    3) Também por isso, a questão das opressões deve ser parte constituinte de todas as lutas sociais que construímos, tarefa de todo e toda militante. É no seio dos movimentos populares que queremos forjar novas relações sociais de liberdade e igualdade, um processo que tem local inequívoco junto à nossa classe e suas lutas, além de acontecer em nossa vida cotidiana.
    4) Consideramos que os comportamentos anti-sociais (como a violência e o machismo) não vêm determinados pela natureza, mas são construídos pela relação com a sociedade. No entanto, avaliamos que manter a possibilidade da volta do militante foi um erro, porque não temos estrutura pra lidar com o acompanhamento, avaliar efetivamente sua mudança de comportamento e garantir espaços políticos abertos e confortáveis a todas e todos, particularmente a vítima. Ainda assim, estivemos de forma inequívoca ao lado da vítima e sem menosprezar a gravidade do ocorrido.
    Núcleo Florianópolis – Coletivo Anarquista Bandeira Negra
    [Nota pública – 17/07/2013]
    No início do mês de junho de 2013, recebemos a informação de que o militante Leandro Bó, da Frente Comunitária da nossa organização, havia agredido a companheira com quem morava e ainda mantém um relacionamento. Além disso, outros comportamentos violentos eram recorrentes, como humilhação e coerção psicológica, que nos foram relatados pela própria companheira, que atua junto a nossa militância nos movimentos sociais, além dos vínculos de amizade que temos.
    Para nós, essa foi uma quebra de confiança completa e uma atitude em total desacordo com nossos princípios. Defendemos que a luta contra o machismo e o patriarcado são centrais, assim como todas as opressões, e que um caso de violência de gênero é inaceitável vindo de quem quer que seja. Vindo de alguém que se considera anarquista, é absurdo e incoerente.
    Nós nos posicionamos, desde então, em completa solidariedade à companheira, que buscamos auxiliar nesse momento difícil. Ajudamos sua mudança da casa, oferecendo outro lugar para que morasse. Sugerimos que ela denunciasse a história e nos dispusemos a ajudar nessa tarefa, porque entendemos que o silêncio só favorece o agressor, assim como já nos posicionamos em outros casos de violência machista. No entanto, respeitamos seu pedido de sigilo e, por isso, a história não foi tornada pública naquele momento.
    Quanto ao militante, ele foi imediatamente afastado da organização, tanto externa quanto internamente. Por ter reconhecido o grave erro cometido e alegado disposição para mudar seu comportamento, estipulamos uma série de exigências necessárias para reavaliarmos posteriormente a retomada (ou não) de sua atuação em nossos espaços: 1) nunca mais agredir ou ter posturas violentas em um relacionamento, 2) procurar ajuda psicológica para seu comportamento agressivo, 3) procurar também um grupo de reflexão para agressores, para discutir e refletir sobre suas posturas, 4) se manter afastado da militância, 5) ler e pesquisar sobre feminismo e violência de gênero, para produzir um material de síntese sobre o tema, 6) fazer repasses periódicos à nossa organização sobre o cumprimento dessas exigências, para avaliação coletiva.
    Esses passos não foram cumpridos e o militante reincidiu na agressão. Por isso, julgamos que é necessário nos posicionarmos publicamente, o que fizemos discutindo novamente junto à companheira.
    Entendemos que essas eram exigências mínimas para começarmos a lidar com seriedade com o problema da violência de gênero, que não é uma falha individual de uma ou outra pessoa, mas uma questão social, amplamente difundida e sustentada na cultura machista que vivemos. Buscamos dar uma resposta mais efetiva que uma mera expulsão, que apenas lavaria nossas mãos, isolando o ex-militante das discussões feministas e libertárias onde ele precisa estar inserido, agora mais do que nunca. Ao mesmo tempo, buscamos não expôr nenhum(a) companheiro(a) a atuar politicamente ao seu lado sem estar ciente da situação.
    Soluções punitivas, mas que não tratam da origem dos problemas, são a prática que o Estado já oferece hoje. Para construir uma sociedade libertária e feminista, precisaremos construir métodos que sejam feministas e libertários para tratar dos problemas sociais, incluindo aí a violência de gênero. É uma tarefa muito árdua, na qual temos mais dúvidas do que respostas, mas que julgamos necessária.
    Por isso, precisamos continuamente debater as questões de gênero e reavaliar nossas posturas políticas, incluindo aí todas as relações sociais. Pois dentro de um sistema onde a violência estrutural é uma característica central as relações sociais também estão marcadas pela opressão. Vemos cotidianamente as lutas feministas serem secundarizadas nos movimentos sociais e organizações de esquerda, inclusive nos meios libertários, e precisamos estar dispostos a enfrentar essa situação. Não queremos com essa nota nos isentar de quaisquer avaliações ou críticas, mas sim dar visibilidade a essa questão e fortalecer a discussão de gênero dentro dos espaços políticos que participamos.
    Lançamos esta nota não apenas para tornar público uma violência de gênero, mas porque queremos construir juntos os mecanismos de uma justiça revolucionária libertária – pois a liberdade só se constrói com liberdade.
    Assim como o socialismo será libertário ou não será socialismo, a revolução será feminista ou não será!
    Núcleo Florianópolis – Coletivo Anarquista Bandeira Negra

    disponivel em: http://www.cabn.libertar.org/?p=1122

  24. Eu e Lili não devemos ter lido o mesmo texto… Em momento algum o passa palavra disse que um homem fraco não pode ser tão agressor quando alguém forte! A crítica, pelo que entendi, é pelo fato de um determinado tipo de feminismo só escolher tipos frágeis (e não só fisicamente) para enquadrá-los. E veja, os espaços restritivos são criticados, e não as denúncias de agressão! Por isso concordo com GM: o combate à postura autoritária deve partir de homens e mulheres!

    Não consigo compreender como a criação de um espaço restrito às mulheres pode contribuir para isso. Na verdade, o que vejo nestes espaços é uma inversão da opressão que só serve para reforçar a perspectiva de um feminismo excludente e autoritário. Recentemente vi um cartaz que dizia “Garota você é sensacional, TUDO o que você tem a dizer é importante, é relevante, você é INCONTESTÁVEL, você é capaz, indescritível, revolucionária, você é estupidamente linda”. INCONTESTÁVEL? E se em vez de garotA, estivesse escrito garotO? Um homem incontestável? Que qualquer coisa que diga é importante e relevante a priori? Ah, isso é machismo.

  25. O artigo merece ser lido como referente a problemas específicos de grupos específicos, isso, pra mim, é fato. O debate dos comentários é também bastante interessante, e todo o tema de opressão dentro e fora de espaços (ditos) libertários é profícuo.

    Já a ignorância – ignorar fatos – que reina em alguns comentários chega a ser enervante. O próprio artigo, por exemplo, o que pretende com

    “Quando constatamos que as denúncias acerca da violência machista recaem sobre os rapazes da esquerda (habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular) e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas, mas exclusivamente sobre aqueles que entram em pânico sempre que são acusados de politicamente incorretos, concluímos que há outras pautas ocultas nos argumentos das feministas excludentes.”

    ou

    “Conhecido por ser um homem frágil, de sexualidade indeterminada e fazendo coro contra barreiras sexuais consideradas opressivas, Warhol sofreu três disparos de Valerie Solanas, dos quais nunca conseguiu se recuperar plenamente”?

    ou negar o “termo ficticio de feminicidio” é uma coisa, conclamar dados (ah, as estatísticas!) de que “o número de homens que matam homens é muito superior ao número de homens que assassinam mulheres” é, no mínimo, mal colocado.

  26. Interessante que ao falar do feminismo excludente autor deste infeliz artigo não cita nenhum nome, só diz que existem as feministas tendenciosas que distorcem fatos históricos e outros, mais confiáveis, – homens, obviamente.
    Ridículo e deprimente.

  27. A fraqueza dos comentários em defesa de um feminismo abstrato e geral demonstram a força da argumentação do texto do coletivo Passa Palavra.
    A virulência, demagogia e hipocrisia com que atacam um texto que apresenta críticas a uma determinada modalidade de feminismo e procura colocar elementos de união da classe trabalhadora, formada por mulheres e homens, é exemplo de como devem pautar as suas reuniões e os seus reais interesses.

    Tenta-se desvirtuar e inverter os termos da discussão em prol de acusações e xingamentos.

    Quando o Passa Palavra apresenta a questão de que certo feminismo excludente ataca apenas os militantes de esquerda fracotes e que se borram com o politicamente correto, mas não utilizam o mesmo método nas cotidianas agressões que sofrem as mulheres em outros espaços, menos acadêmicos, menos flácidos e com menos grupinho de amigxs. Aí tentam passar que o texto diz que os militantes flácidos não são agressivos, nada mais falso, o texto diz que esse feminismo excludente apenas responde a estes militantes mirrados, e por quê?

    A outra debatedora ataca verozmente as mulheres que fazem parte do Passa Palavra, com expressões machistas de que elas só devem servir para limpar a biblioteca e coisas do tipo, reproduz assim o machismo dela e da sociedade, desqualificando companheiras de luta. É esta a forma de diálogo e convencimento deste feminismo excludente?

    Outra debatedora afirma que não leu o texto indicado sobre o feminismo includente em Portugal, mas que isso não importa e do mesmo jeito ela não irá se convencer.

    Já outra manda um debatedor procurar livros que não indica, ler coisas que não diz onde estão, pouco contribuindo para a mudança de postura de pessoas que foram criadas num mundo em que o machismo é imperante (para homens, mulheres e crianças), preferindo fazer um troca de acusações entre amiguinhxs e termina afirmando que mulheres não podem ser machistas, desconhecendo toda a forma de opressão que foi reproduzida pelas feministas burguesas contra as mulheres trabalhadoras, e reproduzindo, uma vez mais, o biologismo no social.

    Outra, como não poderia ser diferente, questiona o fato do artigo não ser assinado por uma pessoa, desmerecendo os processos coletivos de criação e autoria, e reproduzindo o individualismo da sociedade capitalista arcaica, que apenas reconhece um autor monográfico (no máximo o orientador da universidade como co-autor).

    Sem querer estas feministas reafirmam o machismo nosso de cada dia e também o quanto não parecem de fato interessadas na superação desta condição, mas apenas em galgar posições nos seus departamentos, grupelhos e com xs amiguinhsx numa militância que se confunde com festinhas e grupos sociais.

    Uma pena, tomara que feministas (mulheres e homens) mais sérias se preocupem em realizar um debate de verdade.

  28. Nina Karina escreveu:

    “Ah, Léo, antes de você vir com uma resposta acadêmica de 3 páginas com inumeras referencias, procure entender uma coisa: não existe mulheres machistas. Posso até concordar que se reproduza o machismo, mas mulheres machistas, sinceramente, você tá viajando.”

    A menos que se refira ao machismo como um ideologia professada, “reproduzir o machismo” só pode significar ser machista, afinal se reproduz uma relação social através de prática. De outro modo um suposto agressor com discurso libertário não poderia ser considerado machista. Dito isso, chegamos a um acordo de que existem mulheres machistas, o que inclusive deveria ser uma obviedade.

    Nina Karina também escreveu:

    “se vocês quisessem contribuições, vocês paravam de atacar o feminismo e as feministas.”

    O texto discorda de uma categoria de feminismo, bem definida no próprio texto (categorização que pode ser questionada). Agora, querer passar crítica a essa categoria de feminismo como “ataque ao feminismo e às feministas” é simplesmente se esquivar ao debate de idéias. Sinceramente, isso me lembra muito o que os sionistas, ou parte deles, fazem quando se critica o Estado de Israel ou o próprio sionismo. Tentam fazer passar essa crítica como anti-semitismo.

  29. só uma correção, disse que não pude ler o texto inteiro ainda, mas pela parte que li duvido que seja a prova cabal que espaços exclusivos sejam fascitas, por que já participei de vários e sinto que isso contribui muito para a luta e para o feminismo. só um exemplo, todos os anos na argenina é realizado um encontro que vão mais de 20 mil mulheres de toda a esquerda, com oficinas exclusivas e é MUITO bom. mas é algo que quem nunca foi não vai entender, e quem nunca vai poder ir vai ficar criticando sem saber.
    óbvio que o combate à postura autoritária deve partir de homens e mulheres!!! isso é o básico do básico, mas precisamos passar o tempo todo juntos? eu acho que não, e sei que há companheiros que apoiam e respeitam isso, e é com eles que prefiro dividir meu tempo. e ué, quem não precisa de espaço exclusivo que não vá!! isso exclui mulheres que não querem ir? que tipo de argumento é esse, se elas nem querem estar lá?
    agora o que eu já disse e repito é que várias denúncias são feitas em espaços exclusivos, e somente neles.

    eu sei que o texto se refere a grupos específicos, mas dá um tiro no pé quando usa vários argumentos que são iguais aos que se usa normalmente em outros contextos contra qualquer feminista. várias feministas “não excludentes” vão ler isso e, sinceramente, eu acho que quem vai sair perdendo com essa reflexão são vocês. digo pq já perderam meu respeito em relação aos debates sobre feminismo e de outras compas que leram.

    bom, com isso me retiro do debate! boa sorte nessa construção, vocês vão precisar.

  30. Vou fazer coro com a Lili e me retirar desse debate.

    Concordo 100% com ela que ao tentar tecer uma crítica a grupos feministas específicos o Passa Palavra acabou dando um tiro no pé. O artigo mostra uma perspectiva de gênero fraca, que nega uma bagagem grande de discussões. Confesso que fiquei um pouco decepcionada de ver um site que costuma ser tão criterioso em termos teóricos produzindo um artigo tão fuleiro. Da próxima vez recomendo que vocês convidem alguém que tenha maior conhecimento sobre o tema para escrever. Caso contrário, podem chamar figuras tipo o Pondé, porque os argumentos tão bem parecidos.

    Vocês são muito bons para analisar o recorte classista das lutas, mas não entendem nada de feminismo. Ao tentar atacar uma expressão específica dele vocês acabam por utilizar um tanto de argumentos já bem batidos dentro da esquerda que secundarizou a questão das mulheres para evitar a fragmentação.

    Em relação ao artigo sobre a experiência do “feminismo inclusivo” em Portugal: muito bonito, belo relato histórico. Mas daí comparar a segregação de gênero imposta por um regime fascista aos espaços de solidariedade que nós organizamos (por opção) para politizar os problemas que temos em comum me pareceu muito forçado (pra não dizer burro mesmo).

    O “A.F.” (depois de elogiar o artigo que muito provavelmente ele mesmo ajudou a escrever) afirma:

    “Quando estas feministas afirmam que “pessoal é político” é exatamente disso que estão tratando: uma norma de conduta em todos os âmbitos para homens e mulheres, sobretudo normas sexuais, como por exmeplo, a obrigatoriedade do “amor livre” para um “poliamor”. E o inverso passa a valer também: a política é pessoal, uma ação entre amigos e amigas. Não por acaso esse feminismo é crescente no meio anarquista e o que veio a ser chamado de “autônomo”, aonde se confunde política com estilo de vida.”

    Acho contundente a crítica da transformação dos movimentos autônomos em meros grupos de afinidade e acredito que algumas perceptivas feministas tenham contribuído pra isso. Mas em relação ao “pessoal é político” sua interpretação foi completamente equivocada. Essa expressão foi cunhada na segunda onda do feminismo para estimular que homens e mulheres passassem a problematizar as relações de poder interiores a seus relacionamentos. Acho meio ridículo dizer que alguém está te constrangendo praticar “poliamor”.

    Se engana também quem diz que há um grande silêncio sobre os casos de agressão e violência entre casais de lésbicas. Sinto que cada vez mais esses casos são discutidos nos tais “grupos de gênero”. Se ainda não aparecem tanto publicamente é porque talvez não sejam tão frequentes assim. Tenho dúvidas quanto a isso.. Mas é um tema certamente interessante e coloca em pauta o que Leo tinha chamado atenção como carácter relacional do machismo.

    Me equivoquei quando ao termo “feminicídio”. Esse termo pode ser associado a uma ideia estritamente numérica sobre morte de mulheres. O termo mais correto, se eu não me engano, seria “femicídio”, que indica as mortes que são motivadas por uma desigualdade de gênero estrutural. Basicamente se refere às mulheres que foram mortas “por serem mulheres”. Acho que entram pra essa conta principalmente aquelas mortas, estupradas e mutiladas pelos “crimes passionais”. (Vocês podem argumentar que esse tipo de crime pode vir de mulheres também.. mas sinceramente, acredito que os casos não bem menores, constituindo-se mais que tudo como exceção, não constituindo um fenômeno social).

    Marcos,

    “Ao contrário, cansei de ver feminista defendendo explicitamente o estupro de homens. O horror!”

    Poxa vida.. Me conta depois onde você mora que eu tô passando longe dessa cidade onde feministas defendem estupro. Juro que nunca vi isso! Eu não disse em nenhum momento que homens não podem ser estuprados, mas acredito que as motivações sociais que perpassam por esses estupros são outras, que também merecem seus espaços de reflexão, obviamente! Acho que seria importante que essa problematização inclusive viesse dos homens.

    Ana, em relação ao cartaz que você citou (abstraindo todo o contexto da contracultura Riot onde ele foi produzido): não estou falando que seja super legal, mas certamente não é a mesma coisa dizer a uma mulher que ela é “incontestável” e dizer o mesmo a um homem. Veja bem, não estou justificando a escolha de palavras de um cartaz, mas estou dizendo que por exemplo, não é a mesma coisa dar um fogãozinho de brinquedo para um menino e para uma menina. Estamos com essas escolhas ou tentando criar valores diferentes onde eles não existe ou apenas reforçando uma estrutura de poder que já existe.

    O problema pra mim de vários argumentos expostos aqui é que se pensa em construir a igualdade partindo do pressuposto que ela já existe. Se ela não existe não é por questão biológica, mas sim histórica. Como disse antes, não podemos supera-las fingindo que não há mais nada a superar.. ou estaremos reproduzindo algo semelhante ao discurso meritocrático do liberalismo.

    Bueno, fico por aqui e na espera de ver alguma colocação decente vinda de um homem nesses comentários. São esses caras que me salvam da tentação de cair em um “feminismo excludente”! hahaha!

    obs2: cara, que que foi aquele parágrafo sobre Andy Warhol? Meus deus! hahahaha!

  31. É interessante notar que os argumentos do artigo contra o feminismo excludente são corroborados por lili.

    Ela diz: “só um exemplo, todos os anos na argenina é realizado um encontro que vão mais de 20 mil mulheres de toda a esquerda, com oficinas exclusivas e é MUITO bom. mas é algo que quem nunca foi não vai entender, e quem nunca vai poder ir vai ficar criticando sem saber.”

    A(O)s excluído(a)s jamais poderão discutir abertamente os assuntos tratados, evidenciando um ótimo exemplo de construção de relações igualitárias.

    Além disso, usa as “opressivas” letras maiúsculas para adjetivar a positividade de oficinas excludentes.

    Nada mais conveniente que encerrar o debate depois disso tudo.

  32. Camila,
    até onde eu entendo o papel do universalismo na luta social, a construção da igualdade não parte do pressuposto de que ela exista, mas sim de que é a igualdade existe como projeto humano, não como constatação biológica. É um esforço humano ultrapassar as diferenças para construir o universal.
    O projeto igualitário seria então a construção social da igualdade, não cabendo nem admiti-la como a priori, nem insistindo nas diferenças como bases para a construção da luta social.

    Digo isso apenas porque minha impressão é que a crítica deve sempre ser direcionada para aquelxs que tem como horizonte político a organização social pautada pela insistância nas diferenças e não pela construção de igualdades. Vou me abster de comentar a respeito de táticas pois de fato não tenho muito acúmulo a este respeito, e não vejo nada de muito político num grupo exclusivo feminino, que bem poderia ser apenas uma reunião privada de um grupo de amigas para trocar idéias e experiências (ou denuncias). Estou certo que muitos homens fazem coisa parecida sem categorizar tal encontro.

  33. Pardon, mas gostaria de esclarecer que ce n’est pas une pizza, mais une tarte.

    A opressão das mulheres pelos homens é um sistema dinâmico no qual as desigualdades vividas pelas mulheres são os efeitos das vantagens dadas aos homens. Quando se atribui ao dividir uma torta sete partes aos homens e uma às mulheres, a luta por igualdade deve significar que se divida a torta em porções iguais. Logo, os homens terão menos!

  34. É compreensível que a maioria das mulheres comentando na caixa de comentários deste texto se sinta ofendida. Compreensível porque o texto é ruim, no seu tom, na sua abordagem, na sua estrutura e na análise que pretende ser íntima e conhecedora do caso mas que passa longe disso na maior parte do tempo.

    Começando por abordar o “feminismo excludente”. As referências às mulheres que pretensamente praticariam esse tipo de feminismo são abstratas e vagas, e as práticas desse “tipo” de feminismo estão longe de estar claras. Quem são as feministas excludentes? Quais são, na prática, as exclusões que promovem? Porque as promovem? O texto falha em responder a isso, e deixa entender que toda feminista ou grupo feminista que defende ou se organiza em fóruns só para mulheres está automaticamente a ser excludente. Isso é uma mentira e uma ignorância sobre, como colocado na caixa de comentários por algumas companheiras, a importância desse tipo de espaço pra diversas socializações entre mulheres.

    Passamos então para acusações sobre as feministas excludentes atacarem “tipos frágeis”. Tem tantos problemas com essa afirmação e os exemplos dados que eu nem sei por onde começar. Posso fazê-lo dizendo que sou homem, peso 52kg e meço 1,76m. Provavelmente sou a pessoa mais magra que quem estiver lendo isso conhece. E sabe o que isso diz sobre a minha agressividade? NADA. Absolutamente nada, principalmente se a crítica do texto é à biologização do gênero. De todas as infelizmente muitas amigas ou companheiras agredidas que conheço, uma grande parte foi por homens menores que elas. Mais magros, “mais fracos”. Nem dá pra crer que esse argumento foi usado a sério no texto, porque pouco importa a estrutura física da pessoa. Uma agressão não depende dela pra acontecer.

    O texto segue querendo dizer que as práticas das “feministas excludentes” se baseiam nos “argumentos” de Valerie Solanas no seu SCUM Manifesto. Pior: tenta desqualificá-la por ser esquizofrênica. De um texto claramente satírico sendo tratado como “teórico” a um diagnóstico clínico complicado sendo utilizado para desqualificar uma opinião política – que, repetindo, já era satírica desde o início. Precisa ir adiante pra entender o problema disso tudo?

    Passa-se então a utilizar o recorte de classe, com estatísticas do IBGE, pra defender um feminismo que seja unificador da classe trabalhadora e não excludente, que seja inclusivo e não exclusivo. Muito bonito, tudo muito certo. Mas e quanto a defender uma unificação da classe trabalhadora que seja inclusiva às mulheres, que não submeta-as à mesma subjugação das classes dominantes, que não reproduza uma divisão do trabalho tipicamente machista? E quanto a garantir que no interior dessa classe trabalhadora mulheres e homens poderão ser tratados em pé de igualdade? E quanto a escrever um texto se preocupando com isso, com a parte de cima da balança (os homens) passando a rever seus privilégios, os usos que são feitos deles, o pessoal político (sim, como não?) que oprime tanto dentro dos grupos libertários quanto fora deles?

    Me parece que o Passa Palavra passou longe do problema com este texto. Passou longe e atirou de longe também, tentando acertar alguma coisa mas conseguindo muito pouco. Ignorou todas as dinâmicas dos grupos femininos e feministas e não falou uma vírgula sobre PORQUÊ alguns grupos – generalizados como excludentes – defendem a não-participação de homens em seus círculos. Não é possível que acreditem mesmo que é tudo por conta da Valerie Solanas.

    Pra não ficar só na crítica ao texto, faço a minha crítica pessoal ao contexto que deu origem a ele: há grupos feministas que defendem o caminho do punitivismo e reproduzem a lógica do Estado penal. Mesmo quando afirmam que o problema está na estruturam social, machista e patriarcal (sem a-historicismo nenhum nisso), acabam culpabilizando o indivíduo de uma forma que não permite nunca mais que ele deixe de ser “o agressor”. Não é o caminho que eu acredito nem o que defendo, mas antes de colocar como prioridade se opor a estes grupos, convém tentar compreender – de verdade e não de uma forma caricatural como no texto – porque defendem isso. Defender outro caminho que não o do punitivismo não significa que agressores não devam ser culpabilizados, questionados e mesmo afastados de seus coletivos, como no caso do Bandeira Negra, de Florianópolis. Mas significa que, pra além da denúncia, do escracho e da exclusão, há de se pensar em ambientes e formas de relação que propiciem outras estruturas dentro dos coletivos, que reproduzam cada vez menos as relações de poder de gênero, e que preparem cada vez mais pra casos de agressão que possam acontecer.

    Acredito que os grupos e movimentos libertários passam tempo demais se preocupando com discursos, símbolos, posturas pra fora e roupagens. E passam tempo de menos efetivamente tentando construir outras práticas, pra que o pessoal seja efetivamente político todos os dias, e não só quando há uma agressão ou, pior, quando convém. Faz quase um ano que em São Paulo alguns coletivos se organizam em torno do seminário “Há machismo na esquerda?”. Nesse um ano, muito pouca gente tentou construir esse espaço. Ele, assim como outros que discutam e pratiquem continuamente outras formas de relação de gênero, me parece fundamental. Já passou da hora de os grupos e pessoas que efetivamente se importam com isso tomarem conta desses espaços e produzirem outros.

    Ou isso, ou continuamos nessa perspectiva dualista de feminismo excludente x feminismo inclusivo, como se o problema fosse mesmo esse e como se essa oposição efetivamente existisse límpida e claramente. Quem dera.

  35. Camila,

    Você em nenhum momento tocou na questão de que homens são estuprados, a começar pelos meninos. Na verdade, na maioria dos grupos feministas a questão é meio que posta de lado, como que só houvessem estupros contra mulheres. Mas muitos meninos, rapazes e homens são estuprados, principalmente meninos.

    Eu realmente ouvi inúmeras vezes feministas dizendo que fulano de tal devia se ferrar, que tinha que ser estuprado na cadeia e isso e aquilo. Uma apologia explícita ao estupro de homens. Mas isso é um debate na internet. Eu não te conheço, mas acreditei quando disse que sofreu tentativa. Cabe a você acreditar em mim ou não. Mas se não acreditar, não vai doer. Só impossibilita algum debate ou diálogo. Ao menos tentei ser educado contigo.

  36. Marcos, não duvidei não. Só acho bizarro esse tipo de posição vindo de feministas. Aprecio a educação e retribuo.

  37. Sabe o que me espanta? Não é a posição controversa do Passa Palavra (da qual, em alguns pontos, eu discordo). É que disso algumas pessoas passem a acusar o texto de “passar pano para agressores” (!). Na prática, o que se significa com isso é que o Passa Palavra defende o estupro. Não se apresenta o argumento mostrando porque da posição específica do Passa Palavra decorre a possibilidade de se reabilitar as defesas da opressão de gênero. Acusa-se apenas. Vocês não percebem até que ponto a discordância pode chegar ao nível da insanidade política? Entre um argumento e outro, também se comenta com desdém as posições do texto, dizendo-se que “não se tem dó” deste ou daquele homem. Vocês não percebem a imbecilidade? Realmente faz questionar até que ponto as militantes e os militantes feministas estão preparados para enfrentar a problemática, sobretudo quando esta aparece sob forma dissonante.

    Assim qualquer um fica deprimido.

    Minha principal oposição ao que defende o texto diz respeito a uma de suas bases: a organização em separado de certos núcleos femininos. A experiência mostra que eles têm sido responsáveis por enormes efeitos terapêuticos sobre mulheres agredidas: efeitos não apenas psicológicos, mas políticos, capazes de articular uma tomada de posição diante da desigualdade de gênero. Creio que o Passa Palavra tiraria proveito de uma distinção: nem toda organização em separado de mulheres significa isolamento das lutas sociais. A crítica do PP vale apenas para a situação em que essa organização em separado se descola das lutas e de de suas elaborações estratégicas e táticas. É óbvio, para um pensamento feminista radical, que não se afoga na mania das identidades, que no plano da articulação política é preciso incluir a deliberação de homens comprometidos com os objetivos da luta. Quem nega isso vive num mundo de fantasias e se compraz na pregação a convertidos.

  38. Esse tipo de “debate” – em realidade, um duelo verbal em que os duelistas trocam antes agressões e ofensas que argumentos, a despeito das tentativas esporádicas de discussão racional – é lamentável. Não apenas pela substituição da razão pela emoção (coisa perigosíssima, capaz de estragos gigantescos e manipulações terríveis), mas por ser muito tedioso. É um diálogo de surdos, e não vejo em que se avance.

    POR UM LADO, negar a opressão específica que, em muitas sociedades e ao longo da história, acomete as mulheres – ou negar a reflexão específica sobre essa opressão, o que de certo modo dá no mesmo – me parece, justamente, alimentar o ressentimento e as reações de quem, por ter sofrido/sofrer na própria pele ou por solidariedade (da parte de mulheres E HOMENS), exige justiça e respeito. Contudo, e independentemente de concordar ou não inteiramente com o estilo deste polêmico artigo do Passa Palavra (ou do igualmente polêmico artigo anterior), não vejo que isso tenha sido a intenção do PP. Pode-se lhe censurar, talvez – isso sim -, uma certa tendência a, por trás da divisão entre feministas “excludentes” e “transformadoras”, restringir o alcance e a importância das especificidades da opressão de gênero enquanto um tipo particular de opressão. A minha impressão é que o “subtexto” é, constantemente, esse: subordinar, de algum modo, as diversas formas de opressão à exploração de classe, e hierarquizar à luz disso as situações de injustiça (e as contribuições reais e potenciais para a emancipação humana). Mesmo assim, o PP traz argumentos, que, se precisam ou devem ser refinados, complementados ou criticados, só podem sê-lo à luz de argumentos melhores e fatos históricos minimamente comprováveis – e não por meio de vociferações. Porque, na base das vociferações, não se tem debate algum, apenas uma violência verbal como Ersatz da violência física que alguns, ao que parece, gostariam de cometer (e como Valerie Solanas, de fato, cometeu).

    POR OUTRO LADO – e aqui estou eu, então, a referir-me a essa personagem -, perder tempo com o “Manifesto SCUM” é, a meu ver, exatamente isso: perder tempo. Há, ali, com intenção satírica ou (mais provavelmente, por incrível que seja) não, um ódio e um desfile de sandices que interdita qualquer diálogo sério, ou simplesmente qualquer diálogo. E para os (ou as) que sugerirem que “falar em diálogo racional com essa calma é fácil, quando você não sofreu ou sofre os abusos que sofremos”, minha resposta é dupla:

    1) Sim, eu sei, desde garoto, e não somente por contos ou relatos, muito bem o que é a covardia machista contra mulheres. Entretanto, se a nossa reação a isso, ao longo da vida, se der por meio de posicionamentos alimentados apenas por ódio e outras emoções, não será uma reação produtiva, pois não vejo em que poderá colaborar para algo útil.

    2) Em termos mais amplos, não vejo que possa existir alternativa razoável (note-se: RAZOÁVEL) a uma reconsideração das relações entre os gêneros, por meio de persuasão (o que, sem dúvida, também sempre precisará incluir sensibilização e afetos, para além de argumentos). Podemos desejar eliminar as classes sociais enquanto tais; pode-se, até, como louca e abominavelmente desejaram e tentaram os nazistas e outros genocidas/etnocidas, eliminar fisicamente povos inteiros. Mas não se pode eliminar os homens. (Aliás, presumo que a esmagadora maioria das mulheres, mesmo aquelas que sofreram abusos e maus-tratos, mas que permanecem lúcidas, consideraria essa simples ideia uma rematada tolice, e nada mais que isso.) Ou seja: queiramos ou não, homens e mulheres coerentemente comprometidos com a emancipação humana não têm alternativa a não ser buscarem se entenderem novas bases.

    Seja lá como for, escrevi estas linhas apenas como desabafo. Pelo andar da carruagem, não tenho a menor esperança de que este tipo de debate, ao menos aqui, venha a se instaurar. Enquanto isso, teremos, de tempos em tempos, novas sessões de agressões e xingamentos. Muito calor, pouca luz e a vida que segue.

  39. Ah, esqueci de dizer uma coisa: considerei o primeiro comentário da Camila bastante equilibrado, bem informado e perspicaz – no que afirma e no que critica. Se fosse exemplificar, eu diria que intervenções desse tipo, infelizmente raras neste espaço, são o fundamento para o diálogo que me parece tão necessário.

  40. Camila,

    é claro que sei que “não é a mesma coisa dar um fogãozinho de brinquedo para um menino e para uma menina”. O que não concordo é que a opressão da mulher possa ser combatida se valendo dos mesmos mecanismos que atualmente fundamentam as atitudes machistas, entende? Não conseguiremos criar valores diferentes só invertendo os papéis, que é o que me parece que tem acontecido em boa parte do feminismo, pelo menos nos grupos que tive contato em toda minha militância.

    Não acho que criticar os espaços separados signifique que esteja partindo do pressuposto que a igualdade já existe. Na verdade penso que a criação de espaços separados conduz a criação de novos espaços exclusivos, e novos espaços, e novos…. e por assim vai, e assim, o problema persiste.

    Achei que este artigo possibilitaria debater o assunto, já que sempre me senti oprimida ao tentar debater esta questão dos espaços fechados pessoalmente com as feministas que conheço. Elas nunca tinham disposição para dialogar e isso fazia parecer que toda minha militância passava a ser questionada. Mas como o Marcelo Lopes diz, isso aqui parece um duelo, e poucos estão com a preocupação em debater, o que reforçou ainda mais esta minha impressão. Acho as agressões verbais (que algumas pessoas aqui fizeram) desnecessárias…

  41. Fiquei um pouco incomodada ao ver que o texto trazia de novo velhas questões… meio desatualizado. Mas tudo passou quando li nos comentários gente praticamente dizendo que o texto defendia agressor. Por mais errado que seja o texto pelo menos se mantem na abertura da argumentação e do dialogo, ao contrario do que se lê em alguns comentarios. Lamentavel… Diante dessa situação, eh melhor defender o PP do que essas pessoas cheias de odio de “grupinho” aqui. Triste…

    PS: passa palavra, apelar pro SCUM foi golpe baixo. Ele não eh referencia pro feminismo contemporaneo. Se vcs acham que implicitamente as posições do manifesto se renovam na prática e nas concepções do movimento, vcs precisam demonstrar. Isso não ficou evidente na argumentação.

  42. Manolo,

    Não entendi muito bem com que intenção você mencionou a reportagem do Globo sobre os P2. Também não entendi essa história do artigo que as feministas acham que só homem pode ser P2, sugerindo uma certa “solidariedade feminina” entre feministas e policiais mulheres.

    Mas de todo jeito achei que, já que a matéria foi citada, era importante publicar a resposta que o casal deu a ela:

    http://rionarua.org/cartas-respostas-de-geografos-ao-jornal-o-globo/

  43. Francine foi quem comentou primeiro sobre proteção de feministas a P2 mulheres. E foi a ela que perguntei sobre a matéria. Mas se Camila responde, não há problema.

    Nas últimas semanas manifestantes chegaram a criar o “esporte” de identificar P2. Homens de cabelos curtos, entre seus trinta e quarenta anos, camisa pólo por dentro das calças, às vezes filmando tudo e todos com celular: este é o “tipo”, o “padrão” de P2 criado pelos manifestantes para facilitar a identificação.

    Acontece que vi as coisas de outro lado. Nas madrugadas que passei em delegacias há algumas semanas ajudando a soltar presos junto com outros advogados, pelo menos metade havia sido capturada nas ruas por P2; nas delegacias, por estarem conduzindo pessoas que prenderam em flagrante (real ou forjado), precisam se apresentar como o que são. E entre estes, vi muita PFem (policiais femininas). Olhando de longe, ninguém diz. Ninguém cogita esta possibilidade. Parece absurdo, contra-senso. Mas muita ativista feminista, do tipo que inclusive sabe bem da atuação da PFem à paisana como P2, e que poderia alertar os demais sobre o problema, silencia e deixa o “tipo”, o “padrão” descrito acima continuar valendo. Até contribuem com a construção da imagem do P2, apontando suspeitos.

    E note outra coisa (não só Francine e Camila, como todos os demais leitores): a matéria que passei fala sobre agentes da ABIN, não sobre P2. E a ABIN costuma ser um pouco mais inteligente que a P2: a agência admite em seus quadros gente de todos os tipos — homens e mulheres, “de esquerda” e “de direita”, brancos, negros, indígenas, etc. — hoje infiltrada em lugares que sequer se imagina. E além disto, a ABIN, a depender do caso, coordena outros órgãos como a Polícia Federal (onde também há agentes femininas), etc. Se o casal estava ou não agindo infiltrado na manifestação onde a moça foi presa, este é o menor dos nossos problemas.

  44. Quanto a acolhida as denúncias em grupos feministas uma militante escreveu o seguinte no artigo sobre os Dois Feminismos:
    “No ano passado entrei em contato com algumas organizações feministas porque precisávamos de orientações porque uma companheira que sofreu um estupro. Em algumas delas, conversando com as militantes, fomos novamente violentadas: não recebemos quase nenhuma orientação que não estivesse nas cartilhas, mas recebíamos sermões. Elas se importavam muito que fizéssemos o boletim de ocorrência e diziam que era importante que o caso entrasse nas estatísticas, que o agressor fosse enquadrado na lei Maria da Penha! Mas ninguém perguntou em que condições ela estava, se havia risco em fazer a denúncia, qual era a necessidade de proteger-se, se ela tinha para onde ir para não conviver com o agressor, ou se tínhamos conseguido fazer os exames de saúde, etc. Apesar de umas delas fazer questão de dizer que também tinha passado por agressões, os contatos foram absolutamente impessoais e nada acolhedores, e o fato de também se apresentar como vítima, parecia ser apenas para legitimar um procedimento padrão, mas não para provocar uma identificação. Enfim, digo tudo isso porque me parece que teríamos que ter ao menos uma rede de solidariedade (existe?), onde não importasse tanto as normas institucionais, legais, punitivas – e, diga-se de passagem, burguesas. E muito menos o preconceito. Sim, o preconceito, pois o fato de não poder oficializar a denúncia, fazia com que rondasse a dúvida de que ela teria se oferecido ao agressor, sabe? como fazem as mulheres pretas e pobres… Pois é. Certamente tivemos muito azar em nossa busca, mas é um exemplo tenebroso da incapacidade de ter uma prática política que vá além do umbigo e de sei lá quais outros interesses. Mas que está longe de mobilizar quem as busca para alguma forma de participação na luta contra o machismo. E tudo isso vindo de quem, justamente, tem alguma margem de escolha de não lutar somente para sobreviver (embora aquilo fosse uma militância profissional…). Mas, de todo modo, vinda de quem pode optar por apenas reproduzir a violência dominante ou se posicionar contra ela, a começar por não coisificar uma outra mulher, como mais um número da desgraceira a que estamos submetidas.”

  45. Me parece que considerar todo e qualquer homem um potencial agressor, considerar que falar alto para ganhar no grito e atropelar decisões é um comportamento típico dos homens; são posições que remetem a posições defendidas por Solanas. Claro que ela não aparece enquanto referência explicita, mas o pensamento é similar.

  46. Fico muito feliz com os comentários críticos e sensatos de algumas colegas feministas neste artigo que subestima e generaliza o movimento feminista no Brasil.

  47. Concordo e entendo muito do exposto no artigo aqui. Realmente, há um “feminismo que exclui”. Na minha visão são, em geral, os grupos não classistas e segregacionistas. Grupos que ao invés de somarem nas lutas, preferem minar muitas delas sem ao menos dialogar, em nome do que seria para esses grupos “a luta feminista”. Entendam que não estou sendo a favor de silenciar agressões, só questiono como para alguns grupos feministas, a denúncia pública e perseguição aos agressores é a máxima expressão da luta contra a opressão, sem ao menos dialogar com todxs os envolvidos ou com as organizações e movimentos envolvidos. Existem inúmeras experiências de combate à agressores que não se pautam em desqualificar também uma organização/ movimento inteiro. Aliás, o primeiro comentário exposto aqui traz uma dessas experiências.
    A meu ver, um feminismo que se propõe libertador, deve ser sim classista e evitar ao máximo segregacionismos. Mas, vejo no texto, alguns pontos complicados. Utilizar a Valerie Solanas, por exemplo. Essa mulher já é caricata e (embora deva existir grupos também caricatos que a utilizem), utilizá-la nesse texto me pareceu um tanto forçado, assim como insinuar que jovens franzinos não tendem a ser agressores. Além disso, teço minha crítica sobre os espaços fechados. Creio que, em algumas situações há sim a necessidade das mulheres tecerem dúvidas e repartirem angústias entre si, assim como os homens. Dentro de uma organização, de um movimento social, eu optaria por uma pluralidade. Acredito que os espaços de debate onde a pauta seja a estratégia do movimento, uma tomada de posição, conjuntura e etc, todxs devem participar e intervir, ativamente, mas creio que isso não deva excluir uma roda de conversa só de mulheres sobre sua saúde reprodutiva, por exemplo. Agora, eu acho que essas decisões devam ser tomadas dentro das organizações e movimentos e é isso que eu defendo: que o feminismo (abrangendo homens e mulheres) não seja deslocado da luta social, que esteja colado à ela e que consigam não só dialogar, mas que as pautas se misturem e sejam de todxs e que os debates sejam abertos e francos.
    Fico abismada com a raivosidade de alguns comentários, de um lado e de outro, de um lado feministas e de outro o pessoal mais ligado ao PP. Existem homens que sofrem agressões por mulheres? Existem, e a defesa desses homens deve ser feita pela luta feminista. Existe uma mortalidade muito maior de homens jovens por outros homens do que a mortalidade de mulheres por homens? Existe, o extermínio da juventude negra nas periferias brasileiras é algo sabido por qualquer militante de esquerda, mas isso não anula os assassinatos realizados por machismo contra as mulheres e, tanto a luta contra o extermínio dos jovens negros das periferias, quanto a luta contra os assassinatos de mulheres são lutas que devem ser travadas por feministas.
    O que me preocupa nesse texto, não é a denúncia de “um feminismo que exclui”, ele existe sim, assim como existem grupos excludentes e grupos mais aguerridos no movimento negro e lgbtt, por exemplo. O que me preocupou é que, o artigo do Passa Palavra e alguns dos comentários desse artigo, ao tentar falar sobre o feminismo que exclui, acaba tentando colocar em xeque conceitos históricos utilizados pelxs feministas que incluem, como machismo, patriarcado e feminicídio para fazer a argumentação sobre os problemas desse feminismo que exclui.

  48. Há um enorme problema de generalização e especificação nestes comentários! Que bagunça!!!

    Há quem peça por exemplos, nomes e “rostos” para as críticas apontadas no texto, e há quem está tomando o texto como uma crítica “ao movimento feminista no Brasil”. Bem, com relação a esta segunda postura resta apenas lamentar. Existem feminismos e existem feministas. Achar que qualquer crítica a qualquer tipo de feminismo é uma afronta geral à organização das mulheres é problemático! Onde está o espaço para crítica? Não seriam as diversas agrupações diferentes entre si, inclusive de maneiras bastante estruturais? E se acham que a crítica só pode ser interna, bem, então não há como as mulheres criticarem as organizações machistas.

    Com relação a falar sobre casos específicos, acho que poderia ser uma proposta. O PassaPalavra não deixa de fazer isso em um texto ou outro, mas a tônica geral é debater antes as idéias por trás das lutas, e não as táticas e os grupos em especial (noto que uma excessão são as organizações de expressão nacional, como partidos ou o MST), um exemplo respeitoso disso são os recentemente publicados relatos de ex-trotskystas: não há necessidade de estar sempre dando nome aos bois (no caso, os partidos ou grupos onde militaram), é importante antes debater no campo das idéias, no campo onde todos podem participar sem pertencer a este ou aquele grupo.

    Neste sentido, creio que quando o PP fala de feminismo excludente não está necessariamente falando que ESTE ou AQUELE grupo são INTRINSECAMENTE assim, da mesma forma não fala que ESTE ou AQUELE grupo tem o Manifesto SCUM como referência. O que se tenta fazer é um paralelo, indicar uma linha de pensamento que trás isso ou aquilo de uma tradição anterior (se essa herança tem base ou não, caberia aqui indicar outras fontes mais atualizadas a respeito de pensamentos que defendem a política do exclusivismo).

    Outro exemplo sintomático são os comentários de companheirxs que se incomodam com o artigo porque ele diz que há um “feminismo correto” e outro “errado”. Oras, a crítica não vai sempre um pouco por ai? Ou seria também interditado o debate a respeito de que tipo de socialismo queremos? Quando optamos por socialismo libertário não estamos dizendo que o socialismo autoritário é o “errado”? Mais uma vez, a crítica só pode existir internamente? As idéias só podem ser debatidas por quem pertence?

    Por fim, seria maravilhoso que alguém produzisse um texto respondendo a este e o submeta para publicação neste site. Do contrário as muitas críticas que se encontram nos comentários correm o risco de serem vistas como pouco fundadas. Não precisaria ser nada acadêmico, visto o desgosto que alguns tem por esta tradição, bastam idéias bem expressas. Como leitor e ignorante a respeito de muitos debates feministas, gostaria muito de ler um texto onde alguém explique a história e a importância dos grupos exclusivos femininos, quais são as idéias que animam este tipo de proposta e qual a importância de vermos isso como algo político e não apenas terapêutico. Ou até mesmo, como diz um comentário: “E quanto a escrever um texto se preocupando com isso, com a parte de cima da balança (os homens) passando a rever seus privilégios, os usos que são feitos deles, o pessoal político (sim, como não?) que oprime tanto dentro dos grupos libertários quanto fora deles?”. Para xs que ainda não perceberam, este site funciona com inúmeras contribuições externas ao coletivo PP, basta ver os autores dos textos em destaque.

  49. Uma observação:

    No início de junho de 2012, um colega meu foi assassinado pela esposa com dois tiros na cabeça enquanto dormia. O padrinho do meu irmão se matou, ateando fogo ao próprio corpo, pois não suportava mais as torturas psicológicas feitas pela mulher. No mesmo bairro, um outro conhecido se matou enforcado por causa da namorada e um outro se matou com um tiro na cabeça por conta da esposa. Para não faltar proximidade com o trágico, fui vítima de uma tentativa de homicídio praticado por minha ex mulher. Herdei 16 pontos, todos na cabeça. No meu roteiro particular a coisa se parece mais com a existência de um androcidio. Apesar disso, nada é reunido num conjunto de forma a se ter um panorama de violência praticada por mulheres contra seus companheiros- sejam facadas, humilhações, vexames, torturas psicológicas, xingamentos sequenciais.

    O mito – alimentado nos filmes, quadros, desenhos, programas policiais e histórias infantis – de que a violência é essencialmente masculina é apenas isso, um mito. A propósito do caso Solanas, me recordei que, nas quebradas, é muito comum que as mulheres agridam e até espanquem os seus companheiros depois que eles ficam fragilizados por anos de alcoolismo. Uma tia minha dava frequentemente surras num ex marido dela, acóolatra. Várias outras mulheres seguem a mesma linha: quando passam a ter superioridade física, abandonam tortura psicológica como principal arma de violência e vão para o pedaço de pau, socos, chutes…Novamente, nada disso é reunido num relato conjunto, de forma que impossibilita uma análise precisa.

    Quando racistas de gênero formam milícias para agredir rapazes franzinos estão praticando na juventude uma mesma violência que muitas mulheres da quebrada praticam com os companheiros em idade mais avançada. A diferença é que as mulheres das quebradas não untam seus gestos atrozes com teorias acadêmicas.

  50. Urge encaminhar o ‘plano B’, antes que alguém ordene: “Prendam os suspeitos de sempre!”
    Play it again, Sam.
    Alguém descarregou o ‘tresoitão’ no pianista…

  51. Marcos,

    minha mãe mora no Jd. Boa Vista, zona oeste de São Paulo. Periferia. Outro dia estava em sua casa e o companheiro dela, que estava bebendo no boteco em frente com os camaradas, voltou para casa dizendo que a esposa de um deles foi buscar o marido em baixo da pisa, ou seja, dando um cola nervoso no cara, uma sova. O companheiro da minha mãe relatava a sessão de horror e humilhação que o cara sofreu frente aos parceiros de bar… E, eles debandaram; saíram, um por um, de fininho.
    Bom, e se fosse um cara que chegasse agredindo um daqueles homens, na frente do bando, será que os caras teriam se comportado daquela forma, sem tomarem partido ou tentarem apartar a briga? Isto me sugere duas coisas. Primeiro, na periferia, as brigas entre casais não recebem a intervenção de externos; a lei é a do “ninguém se mete”; há um consenso de que a briga entre um homem e uma mulher “é deles”, de que resolverão por eles mesmos. Antes que me acusem, não estou fazendo apologia a isto! Até porque, sei que o contrário é também verdade. Se uma mulher apanha do marido, os vizinhos muitas vezes se calam. Segundo, pode ser que os caras não tenham entrado no caso porque respeitaram um acordo tácito, segundo o qual a mulher teria “seus motivos” para fazer aquilo. São suposições, insisto.
    O fato que quero notar aqui, todavia, é o de que, nos seus cotidianos, homens e mulheres tocam as suas vidas, tomam atitudes, inovam e inventam práticas muito complexas, que não são analisadas, sistematizadas e teorizadas por eles, os sujeitos. Assim, o trabalho nos bairros, quebradas e comunidades pode sugerir questões que vão além daquelas apresentadas pelo texto do Passa Palavra. Nesse sentido, seria bacana que @s [email protected] atendessem ao apelo de Lucas para que escrevessem seus relatos, mencionassem práticas, ações e experiências no sentido da superação da dicotomia entre mulher e homem e da superação do machismo. Coisa que fez o comentador Obinaldinho, citando os exemplos como do Coletivo Bandeira Negra.

    Abraços,

  52. Simone e Lucas,

    Considero que a forma como foi escrita essa artigo do Passa Palavra destoa muito dos outros artigos normalmente postados aqui. Foi descriterioso, raso, sem embasamento teórico e prático e com um “subtexto”, como disse o Marcelo Lopes, bastante ofensivo não só para as “feministas excludentes” que o artigo aponta, mas sim para o feminismo de uma forma geral.

    Se o Passa Palavra normalmente é tão criterioso quanto a uso de termos e categorias, quando ao contexto históricos em que elas se inserem e quanto as referências literárias que usa, porque dessa vez escreveram um artigo assim, tão pobre e descuidado? Porque não convidaram alguém que entendesse minimamente do assunto para escrever? Porque não convidaram alguém que pudesse fazer a crítica ao tal “feminismo excludente”, só que de uma forma mais criteriosa? Acho que isso já é por si um sintoma de como o Passa Palavra trata a questão do machismo: em segundo plano.

    Por isso eu entendo perfeitamente que muitas companheiras tenham feito comentários bastante exaltados, porque sei que muitas se sentiram desrespeitadas com o teor do artigo. Misturado a isso sei que existe um contato pessoal com alguns dos participantes do Passa Palavra e por isso, já de antemão, algumas de nós sabemos como essas pessoas tratam a questão do machismo na esquerda.

    Por fim, esse artigo aparece em um momento em que várias situações de agressão de homens contra mulheres outra vez emergiram nos coletivos. Pra mim, é um baita retrocesso as muitas posições que estão se dando no sentido de isolar os casos de um contexto maior, chegando a essas conclusões bizarras de que “ora, hoje em dia os homens estão apanhando mais de suas companheiras do que o contrário!”. Entendo que o artigo do Passa Palavra tende a colaborar nesse sentido interpretativo. Porque ao invés disso não vemos aqui artigos pensando em como tratar essa questão do machismo na esquerda? Porque quando um caso de agressão acontece e vem acompanhado de uma denúncia algumas pessoas ficam mais que tudo preocupadas em criticar as ações feministas que reagiram e quase que esquecem o caso de agressão? Não estou falando que concordo com a postura de um ou outro coletivo feminista nessas formas de denúncia, só acho preocupante que esse vire o tema central e que praticamente se esqueça das agressões, estupros e violações entre nós.

    Por isso, acho meio cínico que se peça agora que as comentadoras escrevam um artigo colaborando com o debate do Passa Palavra. Estaremos discutindo o feminismo só entre as mulheres, estaremos discutindo entre as mulheres e os homens, estaremos debatendo também entre aqueles e aquelas que já nem se enxergam em nenhuma dessas duas categorias. Mas nós conversaremos sobre as diferentes possibilidades do feminismo nos espaços onde encontraremos uma postura mínima de sensibilização e abertura. Não me parece o caso desse site.

  53. De volta a São Paulo, tive a oportunidade de participar de duas reuniões para pensar a organização do Seminário Machismo na Esquerda, que acontecerá no dia 24/08/2013, e que está publicado aqui http://passapalavra.info/2013/07/81413
    Pude pensar, brevemente, ao lado de camaradas militantes feministas algumas das dificuldades em ser debatido o machismo na sociedade em geral e na Esquerda em particular. Notei a seriedade e preocupação destas militantes quanto à análise e aos encaminhamentos das questões. Seriedade que se expressa, por exemplo, quando da crítica à apropriação das questões de gênero pela burocratização de partidos, sindicatos e movimentos, e, também, por reconhecerem que, a despeito de todo o acúmulo teórico sobre o tema, não dispomos de fórmulas para superarmos o machismo – que se renova nos centros e periferias – e de outros tipos de opressão. Talvez por isso, ao invés de estarem aqui desqualificando uma opinião, estão procurando tocar o trabalho de gênero nos espaços e quebradas onde atuam. Aquelas camaradas, sem fazerem concessões a quaisquer simplismos ou fórmulas prontas, apresentaram grande disposição em fazerem o debate franco, sério e horizontal.
    Abraços,

  54. Camila,
    dizer que este site não tem abertura me parece um grande engano.
    Mais uma vez vem a questão a respeito do que o coletivo PP é, o que ele faz, como deve se posicionar. Eu não faço parte nem conheço nenhum membro, mas como leitor vejo que há sim abertura para debate e temas polêmicos, e este é um dos aspectos centrais, ao meu ver, na atuação deste coletivo.

    Também indo no sentido contrário da companheira Simone, se a entendi bem, creio que este espaço aqui é importante justamente porque transcende este ou aquele grupo, esta ou aquela cidade, está aberto à pessoas organizadas e desorganizadas, uma vez que para pensar não é necessário pertencer a um grupo (mas que isso faz bem para o pensar não há dúvidas!).

    Eu entendo se você acha que “não vale a pena” gastar tempo escrevendo para este site, que a maioria das militantes prefere gastar seus tempos se dedicando de outra forma à luta na qual se engajam. Mas desmerecer este espaço pela opinião dos editores é um grande erro. Este site é veículo de muitas coisas que não são feitas ou que não necessariamente estão em completo acordo com o pensamento dos integrantes. São pouquíssimos os blogs com comentários minimamente sérios, com verdadeiros debates na seção de comentários (como nos posts sobre o Fora do Eixo), e que bom que um deles seja de extrema-esquerda, e não se limite a dar uma única linha de pensamento.

    É sempre um risco colocar suas idéias à exposição massiva assim, à pessoas das mais variadas tendências da esquerda e que não tem nenhum compromisso com você ou seu grupo. Isso permite que inúmeros desconhecidos ameacem tuas certezas, massacrem teus argumentos, apontem todas as tuas fragilidades. Mas por sorte, diferente do machismo ou de qualquer outro tipo de violência de gênero, esse tipo de machucado nos argumentos só faz bem, ajuda a construir uma luta coletiva que vai muito além dos espaços físicos, pode alcançar pessoas em outros países. Com isso não quero dizer que é um erro deixar de fazer um tal texto em resposta, quero apenas enfatizar no quão acertado poderia ser.

    (PS: aliás, se o que incomoda é escrever um texto para postá-lo aqui neste espaço especificamente, poderia-se muito bem escrevê-lo e publicá-lo em outro lugar, assinalando se tratar de uma resposta a este texto, com o devido link para que os desavisados possam saber que se trata de um debate!)

  55. Recordamos que o Passa Palavra não publica comentários contendo insultos pessoais, injúrias e obscenidades.

  56. caros passa palavrandos,

    a crítica central ao texto de vocês é: como transformar um espaço hostil para uma militante em um espaço não-hostil?

    não acho que para que a crítica tenha validade é necessário apresentar soluções ao problema. mas acontece que enquanto vocês não forem capazes de responder a essa questão, e de fazê-lo do ponto de vista da militante hostilizada, tudo o mais que vocês disserem terá sua validade comprometida. pois até agora os movimentos que vocês classificaram como excludentes – e não apenas eles, mas aí não cabe um juízo de valor, cada coletivo encontrou sua forma extraída de sua realidade – eles foram capazes de dar soluções e soluções que contemplassem as sobreviventes. daquele jeito que vocês adoram: a prática levou-os a construir sua metodologia.

    enfim, já ouvi falar aqui que uma das soluções seriam espaços que disseminem a auto-defesa. ora, isso é muito comum, sobretudo em grupos que onde existem os espaços só para mulheres.

    a questão não é se um determinado grupo femininista ajuda ou atrapalha a revolução, a questão é que esses grupos apresentam respostas concretas para a hostilidade machista, e nisso entra a pergunta, qual o valor de uma revolução onde essa hostilidade machista ainda está presente?

    acho que falta tentar fazer a reflexão a partir do resultado final onde se quer chegar. e o resultado final é um tipo de militância onde as mulheres continuem se sentindo convidadas a fazer parte, como garantia de coerência entre meios e fins (uma militância onde as mulheres não se sintam convidadas a fazer parte dificilmente apontará para uma sociedade onde as mulheres se sintam convidadas a fazer parte).

    enquanto tentarmos fazer a discussão isoladamente a partir da estratégia adotada por esse ou aquele grupo, estaremos esbarrando necessariamente na cegueira da unidimensionalidade, estaremos sendo arrogantes por achar que nós é que temos a resposta e finalmente estaremos sendo excludentes, ao postular que se não querem me deixar opinar então também não devo valorizar sua opinião “facistas!” “bruxas!”, aí perdemos toda a construção histórica que levou determinados grupos a indisposição de ouvir nossa (homens) opinião.

  57. 1. O artigo anterior (Dois feminismos) cita a Saffioti. Recomendo a leitura de outras obras dela para não falar as besteiras que dizem aqui sobre a questão do patriarcado (“pseudo-conceitos supra-históricos, vazios de conteúdo concreto”?? leiam Genero, patriarcado e violência da autora que vcs citaram).

    2. Ainda sobre o outro texto, vocês associam os espaços de auto-organização das mulheres ao feminismos excludente, dizendo ser uma abstrata necessidade a reunião separada dos homens. Realmente vocês conhecem as relações de violência nos meios populares, né? Afinal é tranquilo alguém que apanha do marido ou que foi violentada dizer isso abertamente em reunião, com o agressor presente ou homens que convivem com ele. Vocês omitem, talvez propositalmente, que os espaços de auto-organização das mulheres não são (nem devem ser) os únicos de combate ao machismo, mas são necessários para que as mulheres possam romper com o machismo internalizado e naturalizado. Vocês dizem que a criação de coletivos feministas servem para que “apenas as mulheres possam discutir suas questões e revidarem as agressões”. Isso não é honesto. Generaliza e desqualifica o sentido da auto-organização das mulheres. As generalizações que associam a auto-organização das mulheres à exclusão de homens (que até pode ocorrer em espaços minoritários e femistas) não contribuem para a superação do machismo.

    4. Não se pode negar ao oprimido a sua auto-orgnização, sejam dos que lutam contra o machismo, o racismo ou a opressão de classe. Cada luta parcial deve se articular à luta contra a opressão mais geral. Com seus momentos e espaços que forem necessários.

    5. Sobre o machismo na esquerda. Quando um militante torna-se um pelego e passa a defender os valores da burguesia, ele não é rechaçado pela esquerda? Se nós combatemos o machismo na sociedade, devemos combater com mais intensidade no interior da esquerda. Como companheiros de um militante que comete atitudes machistas, devemos alertá-lo e ajuda-lo a superar. Mas não podemos permitir que um machista convicto faça parte de nossas organizações. E de forma alguma podemos tolerar a violência machista na esquerda se queremos construir uma sociedade igualitária em todos os sentidos.

  58. Não havia visto o debate precedente neste espaço antes de responder à ele e uma réplica a ele no CMI, aqui . Então, vou colar meu comentário abaixo, que faz mais sentido ao ler a réplica no CMI.

    Os dois textos acima sintetizam parcialmente alguns dos principais debates e seus argumentos em torno da Questão de Gênero. Insistirei para que se prossiga, este é o empenho das iniciais considerações abaixo:

    1. O texto do Passe Palavra trás polêmicas considerações as quais a conjuntura exige, desde, por exemplo, o que consideramos como uma ascensão naturalizada da ideologia pós-moderna permeando (leia-se corroendo) o pensamento da esquerda ao adotar o , ou mesmo o ainda não bem tratado tema da segurança militante a partir das possibilidades de infiltramento de policiais femininas em decorrência de uma dupla caracterização, a saber, a construção social do homem que o torna um pegador por ofício tornando fácil a aproximação/confiança (parenteses, onde a negação do papel do homem de objetificação da mulher é a hostilização do sujeito) e a maléfica inviolabilidade feminina onde se pressupõe que toda mulher estaria certa por princípio, sendo verificável, infelizmente, em nossos meios feministas (ou pretensas feministas) a defesa do empoderamento nos cargos sociais de dominação de classe pelas mulheres ou mesmo a defesa de fala de mulheres fascistas só pelo fato de serem mulheres.

    2. No entanto, um erro crasso do texto do Passa Palavra cujo texto em resposta começou a questionar sem tocar na chave da questão, refere-se as estatísticas. Inicialmente, o Passe Palavra tratou de reproduzir sutilmente o empenho governista de criar uma história política e econômica do Brasil pré-Lula e outra pós-Lula, ao trazer os dados desde 2003, mesmo empenho que fazem as agências oficiais como o IBGE, apesar de que, sim, podemos usar seus dados. Tal divisão com marco em Lula é simulacro. Passa Palavra afirma <> Tal inserção social é questionável. E o próprio texto do IBGE dá a dica, dizendo <>. O machismo pode ser estruturalmente lido através da Questão do Trabalho. Se a opressão contra as mulheres antecede o capitalismo, este por sua vez não vive sem o machismo e o reproduz para suas categorias mais elementares de sustentação, a exploração do trabalho. Trabalho de uma forma geral, entendendo a própria permanência da divisão social e sexual do trabalho doméstico que recai ainda desproporcionalmente sobre as costas das mulheres, mas também o emprego, e neste caso o salário é o ótimo indicativo quantitativo da análise qualitativa. A inserção das mulheres no mercado de trabalho confirma a indissociabilidade entre discriminação/opressão identitária/originária e exploração econômica/exclusão política. Uma vez que os capitalistas utilizam os setores já social e historicamente discriminados/excluídos/oprimidos (como mulheres, indígenas, homossexuais, transexuais, estrangeiros, imigrantes, negras etc.) como forma de rebaixamento do valor pago pela força de trabalho, ou seja, ampliação da mais valia absoluta. Esta tendência se expressa mundialmente e, portanto, o dado de aparentemente mero desnível salarial revela a maior vinculação entre capitalismo e machismo, nos apontando como duas faces de um mesmo inimigo a ser derrotado.

    3. Quanto ao texto em resposta, das colegas Ana, Júlia e Pedro, vejo alguns equívocos, e gostaria de suas réplicas neste debate. O primeiro, trata-se da não compreensão da crítica a construção teórica do que o Passa Palavra aqui chamou de feminismo excludente onde <>. Não se trata de pretensa neutralidade. Muito menos de supor fragilidades epidemiológicas das mulheres ou complexidades próprias da questão de gênero. Nada houve de machista na alegação, evidentemente. Ao contrário, vocês quase chegam a concordar metodologicamente com o texto. Pois parecem considerar que as pesquisas teóricas são sim enviesadas indubitavelmente pelas ideologias. Particularmente concordo, não se dissocia o ser social de seu pensamento. Então o problema não é esse. O problema é exatamente a ideologia predecessora da construção da pesquisa que além de enviesá-la pode inclusive construir um resultado distinto do existente na própria história. Agora, a afirmação de que <>, francamente, vocês devem revisar isso, pois assim estão paquerando com o pós-modernismo na já citada relativização epidemiológica e a falsa substituição da categoria trabalho como fundamente da sociedade para a categoria multifacetada e subjetivista da comunicação. A existência de verdades científicas e o conceito mais dialético possível, pois é a única afirmação passível de superação, desde que, claro, baseada em comprovações. Enfim, me pareceu que vocês acabaram sem o saber reproduzindo uma defesa indiscriminada de uma forma específica e equivocada de feminismo tão somente por ser formulado por mulheres. O mesmo valeu para a tímida observação ao suposto feminismo de Valerie Solanas ao dizer que este não seria consenso, quando o mais correto seria exatamente corroermo-lo exatamente desde as trincheiras do próprio feminismo e não fazer vista grossa e deixá-lo passar como uma das possibilidades legítimas de leitura. O que definitivamente não é. Ou me enganei?

    4. <> Correto. Mas parece ainda que as colegas não conseguiram chegar à raiz da questão. Ao fim do texto, fazem um apontamento que deveria melhor refletir sobre ele, que foi o rechaço à <>. Novamente, discriminação e classe. E quais suas bases fundantes? A divisão sexual e social do trabalho, respectivamente. Então não é radical ainda a desconstrução de gêneros e seu binarismo pobre. Sabemos como o capitalismo se apropria e deturpa as mudanças na sua sociedade, principalmente e facilmente as culturais. Portanto não há nada de radical nesta suposta resolução, ainda que concorde que de fato deve-se retirar a carga opressiva da construção do gênero. Mas o fim da opressão na resultará nisso. Resultará na ação combinada da luta contra as opressões e contra a exploração, a qual apenas a derrubada violenta do Estado e do Capital podem proporcionar as condições materiais para a resolução, o que não significa que necessariamente no pós-revolução iremos acabar com a opressão de gênero/sexual, mas apenas no socialismo isto é plenamente possível.

    5. Sobre a quase discussão sobre lesbianismo, francamente não se mostrou convincente tal argumentação. O texto do passa palavra não condena a relação lésbica hora nenhuma. Questiona, isso sim, a alteração do padrão sexual, no caso, inferiorizando os homens ao torná-los desnecessários na humanidade sendo possível a homogeneização das relações humanos afetivas tão somente como relações lésbicas. Como se feminismo significasse a supremacia das mulheres em detrimento dos homens. Isso só pode ser deturpação, e parece que vocês fugiram do debate pra supostamente atacar por outra trincheira que não estava em questão. A propósito, colegas, foram vocês mesmas que falaram na desconstrução de gênero socialmente imposto. Bem, me pareceu bem pouco pobre argumentativamente a suposição da relação lésbica como a única possível, e pior, como <>. É impossível concordar.

    6. Outra afirmação <>. Hora, isso é tanto possível como facilmente observável. Uma analogia seria a retórica colocada no quesito de classe, como se fosse impossível um proletário realizar uma ação ideológica burguesa ou mesmo em caso minoritário e extremo vir a se tornar um explorador. Porém sabe-se que isso ocorre. Isso porque se o machismo é a ideologia e prática dominante isto esta passível de ser reproduzido pelas dominadas.

    7. Quanto a afirmação <> esta se mostra bem preocupante. Concordamos e este é um problema sério e evidente de que o homem dispõe de condições de exercer a assimetria de poder. Porém o que se tem produzido euforicamente a partir desta constatação inicial é algo torpe. Pois se logicamente é o homem um potencial agressor machista, ora, vamos logo combater a raiz do problema, quer dizer, os homens. Nada mais precoce do que tal pensamento. E bastante danoso para a luta pela emancipação das mulheres. Porque do ponto de vista da emancipação, a mulher não se emancipa no atual período histórico sem destruir o capitalismo. E não se destrói o capitalismo com apenas um setor da classe. As mulheres trabalhadora são um setor expressivo, mas não compõe exclusivamente as principais frações de classe as quais tem todo o potencial revolucionário, a saber, o campesinato e o subproletariado. Quer dizer, ao considerar os homens como inimigos, não se derrota nem os homens, exatamente pois as mulheres isoladas não seria capazes de derrotar o capitalismo. Mas a discussão não deve sair no utilitarismo. As mulheres não devem usar os homens como uma fase de transição para destruir o capitalismo e depois destruir os homens, como pretendem os comunistas com o Estado numa aproximação analógica. A Luta de Gênero se distingue da Luta de Classes pois na primeira não se pretende eliminar os homens, ao passe que a luta de classe deve necessariamente abolir a burguesia como classe.

    8. Que este debate não vire nem a defesa do machismo nem a fetichização da inviolabilidade da mulher (no sentido de que toda mulher estaria certa etc.). Ambos são extremos que não nos servem. Por exemplo, tomemos cuidado, meninas, ao dizer <>, pois isso pode soar como reforço do machismo. Quando, na verdade, devemos gritar <>.

    9. Por fim, fica o trecho de um texto <>

    Nem feminismo burguês!
    Nem machismo classista!
    A luta das mulheres faz parte da luta do povo!
    E a luta do povo faz parte da luta das mulheres!

  59. Repetimos que o Passa Palavra não publica comentários contendo insultos pessoais, injúrias e obscenidades.

  60. O texto ao qual a Estudante Classista se refere é este aqui:
    http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2013/07/522303.shtml

    Ao meu ver, uma leitura muito rasa do texto do Passa Palavra, gasta linhas e linhas para responder a argumentos que em nenhum momento estão no texto do PP, em nenhum momento fazem uma defesa séria dos espaços excludentes como prática política (e não apenas terapêutica), além de afirmar que a condição biológica de uma pessoa (cromossomo X e cromossomo Y) é determinante para que ela tenha um certa característica social (potencial agressor machista).

    Mas acho que o pior de tudo é a lógica de que o feminismo é uma coisa só e que um texto que critica certos aspectos de algumas militâncias feministas seria uma afronta e uma “reação” à “luta das mulheres” como um todo. Seria isso motivado por um medo de fragmentação e desunião deste setor? Oras, reconhecer as diferentes matrizes do feminismo, que obviamente é claro a todas estas militantes, não seria um dos primeiros passos para a construção da luta?

  61. Acho que você não entendeu Lucas, é pra mim claro que a resposta ao texto do Passa-Palavra defende que o que faz todos os homens serem potenciais agressores machistas não tem absolutamente nenhuma relação com as condições biológicas (com os míticos cromossomos X e Y), mas sim com a construção social do gênero e com e a supervalorização dos aspectos e indivíduos socialmente construídos como homens em detrimento dos aspectos e indivíduos socialmente construídos como mulheres. O X e o Y passam longe…

    A opressão de gênero não tem relação algum com pretensas diferenças naturais e biológicas entre cromossomos – os homens não são potenciais agressores machistas por pretensamente serem biologicamente mais fortes. Posição evidenciada por exemplo nos seguintes trechos da crítica:

    ” A partir daqui, não é difícil concluir que todo homem, até mesmo o mais frágil e miserável, é sim um potencial agressor machista – incluindo aqueles que nunca cometeram uma agressão ou que nunca venham a cometer – isto pois lhe é dado socialmente o privilégio da possibilidade do exercício assimétrico de poder, devido ao fato dos espaços em geral serem machistas e masculinizados. Nada há de absurdo nesta ideia, parece-nos, pelo contrário, que ela chega a ser quase uma obviedade.”

    Segue um trecho no qual as três autoras argumentam a cerca da construção social do gênero:

    “A concepção que defendemos, conjuntamente com a ampla maioria dos coletivos feministas, é de que tanto o gênero quanto a sexualidade são construções sociais². Essa tese tão comum nos coloca, de antemão, uma diferenciação conceitual entre gênero e sexo – o primeiro remetendo a esta construção social, e o segundo aos aspectos biológicos. Assim sendo, tanto a identificação da mulher com o feminino quanto a do homem com o masculino é uma construção, ou melhor, uma imposição social. Não só a diferenciação entre homens e mulheres é socialmente construída, mas também o valor dado a estas diferenças igualmente o é – ou seja, tanto a mulher não é “natural” e biologicamente mais fraca do que o homem, mas sim socialmente construída desta maneira; quanto a força física não é “natural” e biologicamente um valor humano, mas sim uma construção valorativa de nossa sociedade³. O que caracteriza sociedades heteropatriarcais é esta dupla biologização; simultaneamente, a violenta divisão binária e biologizante do gênero, e o maior valor dado aos atributos socialmente fomentados/impostos nos/aos homens. Longe de reivindicar a biologização da questão de gênero, o feminismo se mostra como, e efetivamente é, uma luta contra esta identidade entre o fator biológico e o social: qualquer luta feminista que se proponha a ir à raiz das relações assimétricas entre gêneros intentando as destruir, invariavelmente deve defender a desconstrução do gênero e seu binarismo pobre.”

    Vamo lá Lucas, faz um esforço, não é tão dificil assim de entender. Se pá mais fácil que entender a mais-valia… =]

    Ah… Aproveito pra dizer que adorei e tenho grande concordância com as críticas expostas no texto de resposta divulgado no CMI. Arrasaram!

    =*

  62. Ops, não tinha postado, então segue o trecho do texto referido no ponto 9 de minha resposta, uma ótima síntese:

    “A via classista entende que a opressão milenar sobre as mulheres esteve, desde sempre, vinculada às relações de propriedade e produção, oriunda na divisão sexual do trabalho, atravessando todos modos de produção (escravista, feudalista e capitalista). Com o advento do modo de produção capitalista e posteriormente com a maior inserção da mulher nas atividades produtivas, as diferenciações de gênero (enquanto construção social) são apropriadas pelo capital com o propósito de dividir a classe trabalhadora e infligir a algumas das frações regimes mais acentuados de exploração. O trabalho, então, é a nossa categoria de análise que está na raiz dos problemas e sua emancipação das formas de trabalho explorado é, na atualidade, sua emancipação do capitalismo. Assim, ao mesmo tempo em que as mulheres trabalhadoras lutam pela sua emancipação, encontram como inimigo a dominação burguesa que lhe explora sobre um regime de classes, sendo sua emancipação específica indissociada de sua libertação enquanto classe. Desse modo, compreende-se que tanto as mulheres necessitam da luta de classes para se emancipar, quanto a classe trabalhadora necessita da emancipação das mulheres para se libertar por completo. Dito de outro modo: não há libertação das mulheres sem a libertação da classe, nem libertação da classe sem a libertação das mulheres e todos setores oprimidos. Nesse sentido, a questão específica da mulher deve ser pensada enquanto elemento da luta de classes, como parte essencial da luta pela emancipação do conjunto das massas populares da exploração e opressão capitalista.”

  63. Hugo,
    me parece que há uma problema essencialmente categórico na argumentação: se o gênero é identidade e o sexo é biológico então eles não se determinam. Se sou do sexo masculino (ou XY) posso me identificar com um gênero que não seja “homem”. Sigo tendo privilégios relativos ao meu sexo, uma vez que a sociedade é quem os impõe e não minha identidade ou minha força física (“os espaços em geral são machistas”). Logo não é o gênero o critério para se receber ou não estes privilégios que pela defesa dxs autorxs são a própria definição da relação machista. Ter nascido com duplo X ou XY então é o critério para definir aqueles que necessariamente estão envolvidos nas relações machistas na sociedade.

    Isso fica claro nesta parte, citada por você:

    “A partir daqui, não é difícil concluir que todo homem, até mesmo o mais frágil e miserável, é sim um potencial agressor machista – incluindo aqueles que nunca cometeram uma agressão ou que nunca venham a cometer – isto pois lhe é dado socialmente o privilégio da possibilidade do exercício assimétrico de poder, devido ao fato dos espaços em geral serem machistas e masculinizados.”

  64. Bem, me parece que minha resposta saiu incompleta, sem as citações. Peço desculpas, mas posto novamente com todas estas correções. Agradeço ao PP por publicá-lo.

    Os dois textos acima sintetizam parcialmente alguns dos principais debates e seus argumentos em torno da Questão de Gênero. Insistirei para que se prossiga, este é o empenho das iniciais considerações abaixo:

    1. O texto do Passe Palavra trás polêmicas considerações as quais a conjuntura exige, desde, por exemplo, o que consideramos como uma ascensão naturalizada da ideologia pós-moderna permeando (leia-se corroendo) o pensamento da esquerda ao adotar relativização epistemológica, ou mesmo o ainda não bem tratado tema da segurança militante a partir das possibilidades de infiltramento de policiais femininas em decorrência de uma dupla caracterização, a saber, a construção social do homem que o torna um pegador por ofício tornando fácil a aproximação/confiança de uma PFem e a maléfica inviolabilidade feminina onde se pressupõe que toda mulher estaria certa por princípio, sendo verificável, infelizmente, em nossos meios feministas (ou pretensas feministas) a defesa do empoderamento nos cargos sociais de dominação de classe pelas mulheres ou mesmo a defesa de fala de mulheres fascistas só pelo fato de serem mulheres. Aqui abro um parenteses sobre os papéis sociais, onde a negação do papel do homem de objetificação da mulher é respondido com a hostilização deste sujeito, portanto mostrando a inserção social do machismo e que sua institucionalização, por assim dizer, também trás consequências negativas aos homens, tal como é o fato do alistamento obrigat´[orio do exércio ou os dados de que a maior parcela de assassinatos ocorrer com homens jovens negros da periferia. Esta constatação não significa reduzir a opressão sofrida pelas mulheres, mas tão somente mostrar que a divisão sexual de funções atinge a própria sobiabilidade.

    2. No entanto, um erro crasso do texto do Passa Palavra cujo texto em resposta começou a questionar sem tocar na chave da questão, refere-se as estatísticas. Inicialmente, o Passe Palavra tratou de reproduzir sutilmente o empenho governista de criar uma história política e econômica do Brasil pré-Lula e outra pós-Lula, ao trazer os dados desde 2003, mesmo empenho que fazem as agências oficiais como o IBGE, apesar de que, sim, podemos usar seus dados. Tal divisão com marco em Lula é simulacro. Passa Palavra afirma “é inegável que a inserção social da mulher vem aumentando, juntamente com o ascenso a posições de liderança tanto no âmbito público quanto privado.” Tal inserção social é questionável. E o próprio texto do IBGE dá a dica, dizendo “A razão desta defasagem [salarial] deve-se possivelmente ao fato de em 2010 o salário médio feminino (R$ 1.097,93) ser inferior ao masculino (R$ 1.518,31), o que leva as mulheres, para competirem profissionalmente com os homens, a procurarem obter habilitações superiores”. O machismo pode ser estruturalmente lido através da Questão do Trabalho. Se a opressão contra as mulheres antecede o capitalismo, este por sua vez não vive sem o machismo e o reproduz para suas categorias mais elementares de sustentação, a exploração do trabalho. Trabalho de uma forma geral, entendendo a própria permanência da divisão social e sexual do trabalho doméstico que recai ainda desproporcionalmente sobre as costas das mulheres (cuidados com o lar, com as crianças etc.), mas também o emprego, e neste caso o salário é o ótimo indicativo quantitativo para a análise qualitativa. A inserção das mulheres no mercado de trabalho confirma a indissociabilidade entre discriminação/opressão identitária/originária e exploração econômica/exclusão política. Uma vez que os capitalistas utilizam os setores já social e historicamente discriminados/excluídos/oprimidos (como mulheres, indígenas, homossexuais, transexuais, estrangeiros, imigrantes, negras etc.) como forma de rebaixamento do valor pago pela força de trabalho, ou seja, ampliação da mais valia absoluta. Esta tendência se expressa mundialmente e, portanto, o dado de aparentemente mero desnível salarial revela a maior vinculação entre capitalismo e machismo, nos apontando como duas faces de um mesmo inimigo a ser derrotado.

    3. Quanto ao texto em resposta, das colegas Ana, Júlia e Pedro, vejo alguns equívocos, e gostaria de suas réplicas neste debate. O primeiro, trata-se da não compreensão da crítica a construção teórica do que o Passa Palavra aqui chamou de feminismo excludente onde “o resultado da pesquisa já está decidido antes mesmo de ter começado”. Não se trata de pretensa neutralidade. Muito menos de supor fragilidades epistemológicas das mulheres ou complexidades próprias da questão de gênero. Nada houve de machista na alegação, evidentemente. Ao contrário, vocês quase chegam a concordar metodologicamente com o texto. Pois parecem considerar que as pesquisas teóricas são sim enviesadas indubitavelmente pelas ideologias. Particularmente concordo, não se dissocia o ser social de seu pensamento. Então o problema não é esse. O problema é exatamente a ideologia predecessora da construção da pesquisa que além de enviesá-la pode inclusive construir um resultado distinto do existente na própria história. Agora, a afirmação de que “As verdades são contidas nos e produzidas pelos discursos”, francamente, vocês devem revisar isso, pois assim estão flertando com o pós-modernismo na já citada relativização epistemológica e a falsa substituição da categoria trabalho como fundamente da sociedade para a categoria multifacetada e subjetivista da comunicação. A existência de verdades científicas é o conceito mais dialético possível, pois é a única afirmação passível de superação, desde que, claro, baseada em comprovações. Enfim, me pareceu que vocês acabaram sem o saber reproduzindo uma defesa indiscriminada de uma forma específica e equivocada de feminismo tão somente por ser formulado por mulheres. O mesmo valeu para a tímida observação ao suposto feminismo de Valerie Solanas ao dizer que este não seria consenso, quando o mais correto seria exatamente combatê-lo exatamente desde as trincheiras do próprio feminismo e não fazer vista grossa e deixá-lo passar como uma das possibilidades legítimas de leitura. O que definitivamente não é. Ou me enganei?

    4. “qualquer luta feminista que se proponha a ir à raiz das relações assimétricas entre gêneros intentando as destruir, invariavelmente deve defender a desconstrução do gênero e seu binarismo pobre.” Correto. Mas parece ainda que as colegas não conseguiram chegar à raiz da questão. Ao fim do texto, fazem um apontamento que deveriam melhor refletir sobre ele, que foi o rechaço à “possibilidade de existência hoje de um capitalismo que não fosse heteropatriarcalista”. Novamente, discriminação e classe. E quais suas bases fundantes? A divisão sexual e social do trabalho, respectivamente. Então não é radical ainda a desconstrução de gêneros e seu binarismo pobre. Sabemos como o capitalismo se apropria e deturpa as mudanças na sua sociedade, principalmente e mais facilmente as culturais. Portanto não há nada de radical nesta suposta resolução, ainda que concorde que de fato deve-se retirar a carga opressiva da construção do gênero. Mas o fim da opressão não resultará nisso. Resultará na ação combinada da luta contra as opressões e contra a exploração, a qual apenas a derrubada violenta do Estado e do Capital podem proporcionar as condições materiais para a resolução, o que não significa que necessariamente no pós-revolução iremos acabar automaticamente com a opressão de gênero/sexual, mas apenas no socialismo isto é plenamente possível e todo empenho feminista que não seja socialista é uma farsa para a emancipação.

    5. Sobre a quase discussão sobre lesbianismo, francamente não se mostrou convincente tal argumentação. O texto do passa palavra não condena a relação lésbica hora nenhuma. Questiona, isso sim, a alteração do padrão sexual, no caso, inferiorizando os homens ao torná-los desnecessários na humanidade sendo possível a homogeneização das relações humanas afetivas tão somente como relações lésbicas. Como se feminismo significasse a supremacia das mulheres em detrimento dos homens. Isso só pode ser deturpação, e parece que vocês fugiram do debate pra supostamente atacar por outra trincheira que não estava em questão. A propósito, colegas, foram vocês mesmas que falaram na desconstrução de gênero socialmente imposto. Bem, me pareceu bem pouco pobre argumentativamente a suposição da relação lésbica como a única possível, e pior, como “expressão máxima da luta feminista”. É impossível concordar.

    6. Outra afirmação “é impossível uma mulher protagonizar uma agressão machista”. Hora, isso é tanto possível como facilmente observável. Uma analogia seria a retórica colocada no quesito de classe, como se fosse impossível um proletário realizar uma ação ideológica burguesa ou mesmo em caso minoritário e extremo vir a se tornar um explorador. Porém sabe-se que isso ocorre. Isso porque se o machismo é a ideologia e prática dominante ele está passível de ser reproduzido pelas dominadas. Não existe barreira biológica ou de gênero para a ideologia machista dominante.

    7. Quanto a afirmação “todo homem, até mesmo o mais frágil e miserável, é sim um potencial agressor machista” esta se mostra bem preocupante. Concordamos e este é um problema sério e evidente de que o homem dispõe de condições de exercer a assimetria de poder. Porém o que se tem produzido euforicamente a partir desta constatação inicial é algo torpe. Pois se logicamente é o homem um potencial agressor machista, ora, vamos logo combater a raiz do problema, quer dizer, os homens. Nada mais precoce do que tal pensamento. E bastante danoso para a luta pela emancipação das mulheres. Porque do ponto de vista da emancipação, a mulher não se emancipa no atual período histórico sem destruir o capitalismo. E não se destrói o capitalismo com apenas um setor da classe. As mulheres trabalhadoras são um setor expressivo, mas não compõe exclusivamente as principais frações de classe as quais tem todo o potencial revolucionário, a saber, o campesinato e o subproletariado. Quer dizer, ao considerar os homens como inimigos, não se derrota nem os homens, exatamente pois as mulheres isoladas não seriam capazes de derrotar o capitalismo. Mas a discussão não deve cair no utilitarismo. As mulheres não devem usar os homens como uma fase de transição para destruir o capitalismo e depois destruir os homens, como pretendem os comunistas com o Estado numa aproximação analógica. A Luta de Gênero se distingue da Luta de Classes pois na primeira não se pretende eliminar os homens, ao passo que a luta de classe deve necessariamente abolir a burguesia como classe, inclusive fisicamente no primeiro sinal de resistência desta.

    8. Que este debate não vire nem a defesa do machismo nem a fetichização da inviolabilidade da mulher (no sentido de que toda mulher estaria certa etc.). Ambos são extremos que não nos servem. Por exemplo, tomemos cuidado, meninas, ao dizer “Ow, seu macho, aceita que tu é um privilegiado, poha”, pois isso pode soar como reforço do machismo. Quando, na verdade, devemos gritar “camaradas homens, RECUSEM seu papel social imposto como machistas!”.

    9. Por fim, fica o trecho de um texto: “A via classista entende que a opressão milenar sobre as mulheres esteve, desde sempre, vinculada às relações de propriedade e produção, oriunda na divisão sexual do trabalho, atravessando todos modos de produção (escravista, feudalista e capitalista). Com o advento do modo de produção capitalista e posteriormente com a maior inserção da mulher nas atividades produtivas, as diferenciações de gênero (enquanto construção social) são apropriadas pelo capital com o propósito de dividir a classe trabalhadora e infligir a algumas das frações regimes mais acentuados de exploração. O trabalho, então, é a nossa categoria de análise que está na raiz dos problemas e sua emancipação das formas de trabalho explorado é, na atualidade, sua emancipação do capitalismo. Assim, ao mesmo tempo em que as mulheres trabalhadoras lutam pela sua emancipação, encontram como inimigo a dominação burguesa que lhe explora sobre um regime de classes, sendo sua emancipação específica indissociada de sua libertação enquanto classe. Desse modo, compreende-se que tanto as mulheres necessitam da luta de classes para se emancipar, quanto a classe trabalhadora necessita da emancipação das mulheres para se libertar por completo. Dito de outro modo: não há libertação das mulheres sem a libertação da classe, nem libertação da classe sem a libertação das mulheres e todos setores oprimidos. Nesse sentido, a questão específica da mulher deve ser pensada enquanto elemento da luta de classes, como parte essencial da luta pela emancipação do conjunto das massas populares da exploração e opressão capitalista.”

    Nem feminismo burguês!
    Nem machismo classista!
    A luta das mulheres faz parte da luta do povo!
    E a luta do povo faz parte da luta das mulheres!

  65. Ai lucas querido…

    Vou tentar te explicar só mais uma vez, pois to começando a desconfiar que teu problema é mais má vontade que ignorância…

    A resposta a este infeliz texto do Passa-Palavra explicitamente defende que o gênero (a identidade) é uma imposição social, não uma escolha do seu umbigo. Repetindo, não é uma escolha sua a identidade masculina ou não, mas sim uma violenta e opressiva imposição social do heteropatriarcado. De fato alguns machos, a partir duma patética vulgarização da teoria queer, chegam a defender que o gênero é uma mera questão de escolha individual – algo do tipo “ah… Cansei de ser homem, a partir de hoje não mais serei, agora sou queer”. Todavia, não é possível ter dúvida de que este posicionamento não está presente em nenhuma linha do texto resposta… (e se nos remetermos a base teórica do queer, que é essencialmente Foucault, é igualmente patético imaginar que um indivíduo tenha o poder de decidir a respeito de sua identidade social… Basta lembrarmos que este filósofo não só faz criticas contundes ao mito modernista do “indivíduo” racional, como também deixa por diversas vezes transparecer a sua esperança de que um dia esta criação social europeia e moderna, que é o indivíduo, deixe de existir, seja totalmente desconstruída)

    O que te faz um potencial agressor machista (assim como a mim) não é o fato de ter um pênis (o tal do Y da teoria biológica que você tanto gosta de se referir, a qual, a meu ver, não serve para absolutamente nada ao discutirmos questões referentes a sociedade humana) – a nossa genitália não nos confere de maneira alguma mais força física ou mais poder – mas sim o fato de você ter sido socialmente construído como um homem somado ao fato dos espaços sociais privilegiarem as características fomentadas/impostas aos socialmente construídos como homens. O artigo chama a isto de “dupla biologização” do gênero. Ou seja, e pela última vez meu amor, não é uma questão biológica, mas sim social…

    As feministas (e alguns socialmente construídos como homens), de maneira geral, e pelo que humildemente sei, lutam pela des-biologização da questão de gênero, pela desconstrução dos gêneros, a biologização do gênero (o sinal de igual entre o XY e o macho) é uma imposição social do heteropatriarcado, não do movimento feminista…

  66. carxs,
    com todo o respeito, seria muito bom para todxs nós que lutamos a baixo e a esquerda, se o passa palavra publicasse uma vez ou outra artigos sobre temáticas feministas: legalização do aborto e as recentes polêmicas sobre o estatuto do nascituro, luta das trabalhadoras domésticas, discussão sobre legalização da prostituição e situação das trabalhadoras do sexo, paternidade, tráfico de mulheres, diferenças no sistema carcerário masculino e feminino, violência lesbofóbica, abuso sexual e violência machista nos movimentos sociais e processos revolucionários (por exemplo falar sobre os altíssimos números de estupros na praça Tahir), situação das trabalhadoras travestis… enfim, seria muito melhor para todxs nós se a intenção fosse fazer, na prática, uma discussão com fundo feminista, e não uma discussão para atacar este ou aquele tipo de feminismo…
    como feminista, desejo sinceramente que o debate melhore. para o bem de todxs nós.

  67. Hugo,
    a questão é simples: se a sociedade impõe a todos os homens (A) o gênero “homem” (identificação subjetiva social, um processo inconsciente), e é o gênero que os torna machistas (B), o único resultado disso é que todos os homens (A), tendo necessariamente sofrido uma tal imposição de construção social, são machistas (B).

    Indepentende da boa vontade de uma teoria da dupla biologização, o resultado a que se chega por esta visão é de que A = B, ou seja, seres biologicamente homens são socialmente machista por determinação (“da sociedade”, não por vontade das feministas, é claro). Não vejo como ser mais biologizante do que isso, é apenas o reverso do machismo existente e que um certo feminismo estranhamente parece sustentar, a idéia de que assim como todo pecador tem que carregar sua cruz, todo homem tem de se reconhecer como machista. Se a construção social fosse assim tão onipotente todos os heterossexuais seriam homofóbicos, todos os brancos seriam racistas, todos os religioso odiariam os ateus, todo rico odiaria pobre, enfim.

    E não me venha com esse papo infantil de que a única maneira de discordar da sua nobre opinião é ou por má fé ou por ignorância. Um pouco de humildade lhe cairia bem. Desta forma da a impressão de que debater idéias não faz parte do seu repertório.

  68. O Hugo Scabello matou a charada: “não é uma escolha sua a identidade masculina ou não, mas sim uma violenta e opressiva imposição social do heteropatriarcado.”

    Isso mesmo, o machismo, ou o heteropatriarcado, é uma realidade social que oprime tanto mulheres quanto homens. De onde decorrem duas coisas.

    Se assim é, ser atravessados pelo machismo não é exclusividade dos homens (seres humanos nascidos com pênis), mas também um infeliz atributo dos seres humanos nascidos com vagina. E, se ambos são objetos dessa “violenta e opressiva imposição social” (palavras do Hugo), então são ambos que devem combatê-la.

    OBS: Se passarmos a nos referir às mulheres como “fêmeas”, tal como se referem aos homens como “macho”, é machismo? Não estou provocando, é só pra aprender a usar o vocabulário do meio sem cometer gafes.

  69. Oi tai,
    Acho que você levantou vários assuntos relevantes a serem tratados, nao acho que eles invalidam outros como os tratados nesse artigo. De qualquer forma coletei alguns exemplos de como isso já foi publicado por aqui, mas acho interessante que mais gente produza coisas.
    Sobre as mulheres na revolução egípcia tem essa entrevista: http://passapalavra.tv/?p=43564
    Já sobre luta contra o machismo nas escolas teve essa outra: http://passapalavra.info/2012/12/69044
    Sobre as lutas feministas contra o capitalismo teve esse artigo: http://passapalavra.info/2010/12/32504
    Sobre o rapto de mulheres teve essa reportagem
    http://passapalavra.info/2010/03/20858
    Sobre a inserção das mulheres nos movimentos sociais teve esse aqui: http://passapalavra.info/2010/03/20858
    Ainda sobre a luta contra a opressão em uma sociedade salafista
    http://passapalavra.info/2010/03/20858
    Por fim sobre o direito das mulheres ao próprio corpo teve esse:
    http://passapalavra.info/2009/11/14389

  70. Que lindo Lucas, você tá quase entendendo!!! Viu, não é tão difícil assim né?

    Agora só falta largar mão do chorôrô e aceitar que é um privilegiado!!! (é triste ver como nós homens somos pouquíssimos criativos na defesa de nossos privilégios, eu mesmo já me utilizei deste patético argumento do “pecado original”…)

    Ah, e querido – na verdade esta vai mais pro povinho que não consegue escrever um comentário sem autoproclamar o seu classismo, em especial pro “estudante classista” – ficar fazendo paralelos mecânicos entre a questão de gênero e outras lutas é vergonhoso, só revela grande ignorância no assunto…

    Santori,
    concordo que o heteropatriarcado afeta homens e mulheres, todavia é muito raso achar que os afeta de maneira igual, e igualmente raso achar que podemos fazer este combate também de maneira igual.

    Gostaria de pedir sem maldade pra você ler este texto: A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia (por Daniel Welzer-Lang)- https://rizoma.milharal.org/2013/03/29/a-construcao-do-masculino-dominacao-das-mulheres-e-homofobia-por-daniel-welzer-lang/
    Sem exagero, este artigo é realmente maravilhoso e mudou minha vida.

    Um segundo texto que sugiro fortemente, o qual deixa bastante claro a questão do machismo só ser possível devido ao fato dos espaços serem machistas (o que os três críticos a este artigo do palavra chamaram de “machismo includente”) – http://pt.protopia.at/wiki/Geometria,_ideologia_e_geografia_das_rela%C3%A7%C3%B5es_de_confian%C3%A7a_%E2%80%93_Apontamentos_sobre_viol%C3%AAncias_de_g%C3%AAnero

    Por último, gostaria de humildemente e sem querer pagar de carinha legal, sugerir um texto meu sobre o assunto. Texto que escrevi na ocasião duma tentativa de organização de um grupo de minos sobre sexualidade. Mudaria diversos aspectos dele, mas tá valendo: https://hugoscabello.milharal.org/as-liberdades-negadas/textos/nem-machos-oprimidos-nem-pretensos-feministas/

    =*
    hugo

  71. Na preguiça que eu tenho de explicar pela 3987398ª vez o pq de espaços organizados, fica a minha citação carinhosa dessa musiquinha para o passa-palavra ;)

    http://www.youtube.com/watch?v=iqfYerQzPsk

    “Soy aquella a la que juzgas por quedar con sus amigas y formar un colectivo,
    “colectivo de mujeres, ¡Qué carajo, vaya nazis!, ¿porqué no puedo entrar yo?”
    Como un ente omnipresente crees tener razon en todo y hablas de lo que no sabes,
    te escudas en tus misterios, tus secretos y tu cuerpo y andas con seguridad.”

    Estamos e estaremos sempre em luta, e, sim, autorganizad(A)s! Acostumem-se

  72. Oi LL,

    Lembro bem dos artigos que você listou, que eram publicados com bastante frequencia até 2010 (os dois de 2012 são entrevistas…). Uma pena o Passa Palavra não ter insistido mais nesse tipo de abordagem, os artigos eram excelentes naquela época.

  73. Hugo,
    parece que você concorda com as mesmas premissas da biologização das representações culturais (XY = consciência de superioridade machista), com a discriminação da luta contra o machismo feita pelas mulheres (XX) e pelos homens (XY). Me parece uma postural que não deixa espaço para contradições, uma análise completamente totalizante de como as construções sociais moldam inequivocamente e de maneira completa os sujeitos sociais. De fato, com este horizonte talvez o único que resta é cada um no seu quadrado até que as construções sociais desapareçam.

    Já a Jéssica, que não havia feito nenhum comentário antes, vem e coloca um link para uma música, relatando preguiça de explicar de novo o que até agora ninguém explicou aqui. Será que a construção social também impede homens e mulheres de compartilharem ideais iguais?

    Hugo: se homens e mulheres lutam de formas distintas contra o machismo, não se incorreria no risco da luta das mulheres criar uma certa nova construção social de gêneros, e a dos homens uma outra diferente? Não seria a repetição do mesmo?

    Jéssica: para além do seu desdem em apresentar argumentos, essas coisas perigosas, você podia ao menos indicar onde podemos encontrar as 3987397 vezes em que você defendeu o caráter político dos grupos excludentes.
    A sua última frase dá a entender que há pessoas que são contra a existência de grupos privados só de mulheres, que seriam a favor da proibição de reuniões secretas femininas. Nada mais caricato e perfeito para servir de exemplo para um ufanismo vazio da organização feminina. Tomar uma cerveja entre amigos homens também pode ser terapêutico e importante para os militantes homens. Mas é baseando-se em terapêutica que a luta deve ser construída? Até o momento não vi argumentos que me levassem a enxergar mais do que isso nessa proposta. Gostaria de ler opiniões ou argumentos que profundizem esta proposta ou que aponte outras formas de pensá-la.

  74. Estamos pensando em escrever um outro texto, desta vez pra discutir o tal dos “tipos de feminismo”.

    Cansa ver essa galera insistindo num feminismo burguês e em outro feminismo classista proletário.

    Já pensaram que talvez não faça sentido falar de feminismo classista, assim como não faria sentido falar de classismo feminista ou socialismo feminista? Não que não hajam relações entre estas dominações, como nós mesmos colocamos no texto sobre o machismo includente ou dos brother, mas só dá pra falar de feminismo classista ou classismo feminista se acharmos que uma das duas questões se reduz por inteiro à outra ou se a secundarizarmos bastante.

    Não é uma promessa, só uma ideia.

    um texto interessante, mas insuficiente na nossa opinião, que tangencia este assunto é: http://www.alquimidia.org/faisca/arquivosSGC/deirdre_feminismo.pdf

  75. Quem lê comentários aqui provavelmente acharia que as mulheres que morreram no dia 8 de março de 1857, queimadas numa fábrica durante uma luta por melhores salários, condições de trabalho, redução da carga de trabalho, equiparação dos salários com os dos homens, eram feministas e não proletárias.

    E que teria sido apenas um acaso histórico que elas tenham sido queimadas vivas e não um grupo qualquer de senhoritas de origem burguesa tomando chá e discutindo maior espaço para as mulheres na sociedade.

    Se, ou se tem luta de classes ou luta feminista, certamente o que ocorreu em 8 de março de 1857 em Nova Iorque foi resultado de uma luta de classes.

  76. Queria muito ver a argumentação de Ana, Pedro e Julia sobre a falta de sentido na clivagem entre diferentes feminismos que derivaria das clivagens de classe entre mulheres. Quero ver se bate com o que andam pensando a respeito o Grupo de Mulheres do Alto das Pombas, o Movimento de Mulheres Camponesas, o Grupo de Mulheres de Marechal Rondon, o coletivo Guerreiras Zeferinas (do Movimento dos Sem Teto da Bahia), a comissão de gênero do Movimento CETA, o Grupo de Mulheres do Calafate, a Marcha Mundial das Mulheres e outras tantas que fui conhecendo pelo caminho.

  77. Eu só queria saber porque quem escreve esses textos tortos sobre feminismo, precisa do anonimato.

  78. Eu só queria saber por que estas pessoas que criticam o anonimato do texto não entendem que ele está assinado por um coletivo, “Passa Palavra”.
    Será que não conseguem entender o que é uma construção coletiva?
    Será que esta incompreensão é um sintoma de como concebem a atuação dentro das organizações e coletivos que participam?

  79. Alguns comentários procuraram estabelecer confusão entre um texto anônimo e um texto assinado por um coletivo.
    Esclarecemos que até agora o coletivo Passa Palavra assinou 229 artigos e vídeos. Excluímos desta estatística os Flagrantes Delitos e as entrevistas realizadas pelo coletivo, senão o número seria muito superior.

  80. Lucas, não enxergou e não se convenceu por 2 motivos: 1 – eu não to tentando te convencer de nada. Para mim, o empoderamento das mulheres é mto mais efetivo na luta feminista do que ficar “tentando convencer” homens a não serem machistas. Julgo que homens tem cérebro e podem muito bem ir atrás do assunto sem que eu tenha que ficar sendo didática. 2 – Mesmo que eu tentasse te convencer de qualquer coisa, vc está de má vontade. Igual a vários dos outros “comentaristas” aqui presentes. Qual foi a ofensa que eu fiz a vc? Espaços autorganizados são importantes e não há nada de terapêuticos neles. Se se sentiu ofendido é pq a carapuça serviu. Um beijo pra vc.

  81. Jéssica,
    não quero ser convencido a não ser machista, quero ler boas opiniões e boas idéias, na esperança de debate-las. Fico triste em saber que para você a luta feminista não envolva um debate com os homens, mas que empoderar as mulheres é mais importante, nisso estou de acordo.
    Sobre ir atrás do assunto, prefiro receber indicações de militantes do que aventurar-me a esmo na internet, mas se você não quer colaborar, uma pena.

    Má vontade é o cúmulo! Agora quem não concorda comigo é porque tá de má vontade de entender meus argumentos… isso não tem a menor chance de soar sério. Você não me ofendeu de forma alguma, só achei sua postura estranha, de fazer um comentário dizendo que não iria comentar. E fiquei curioso para ler alguma das várias vezes que você expôs o porque de espaços organizados apenas de mulheres.
    Mas também fiquei confuso, pois a maioria dos demais comentários diziam da importância terapêutica destes espaços, você agora você diz que não há nada terapêutico neles e que ainda assim são importantes. Estou mesmo é com MUITA boa vontade para ler argumentações a este respeito, há muitos comentários que pergunto por isso, mas até agora não apareceu nada.
    Um beijo!

  82. para quem tem um bom inglês, recomendo este documentário a respeito da vida sexual na alemanha oriental. É claro que vai muito mais além de sexo, mas partindo disso se faz uma pesquisa a respeito das mudanças do papel da mulher a partir dos contextos peculiares deste país durante o comunismo alemão. Bom material para o debate aqui travado!

    Do Communists Have Better Sex
    https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Fl_r7rIcds8

  83. Olha que interessante esse texto, norte-americano, que coloca questões tanto para o passapalavra quanto para suas críticas. Para o passapalavra, defende a existência não só da organização das mulheres, mas a organização de mulheres negras em separado das mulheres brancas. Para aqueles que criticam o passapalavra como forçando uma fragilização do feminismo, ele concorda com o coletivo no sentido de que existem faturas radicais no interior do feminismo, e que estas precisam, sim, ser criticadas.

    http://blogueirasnegras.org/2013/08/13/racismo-nos-espacos-feministas-brancos/?fb_source=pubv1

  84. Acerca das discussões sobre biologização do social, os comentários de Hugo Scabello representam claramente essa tendência.

    A propósito desse comentador, uma questão que não foi apontada remete ao infeliz determinismo a que submete o ser social. Em outras palavras, para Hugo Scabello, não há liberdade no mundo dos homens. Resta apenas um determinismo mecanicista que impõe o machismo a todos os homens.

    Numa interpretação mais extrema (ótimo recurso utilizado pelo PP), para aquela concepção, o machismo pode ser resolvido, em última instância, pela depuração e extermínio dos homens (ver acontecimento no ENECS).
    O comentador ainda reproduz com um misto de desfaçatez e convicção:
    ‘A partir daqui, não é difícil concluir que todo homem, até mesmo o mais frágil e miserável, é sim um potencial agressor machista – incluindo aqueles que nunca cometeram uma agressão ou que nunca venham a cometer’.

    PS.: Gostaria de ver no PP uma discussão aberta (como é a regra por aqui, aliás) sobre patriarcado.

    Abraços.

  85. Bom dia.
    Este texto foi escrito em 2013, e estou a comentar em 2019. Já venho muito tarde. Mesmo assim, gostaria de deixar aqui uma nota…

    No artigo frisaram existir duas correntes de feminismo, um que exclui e outro que inclui.

    Bem, recentemente comecei a ler livros de autoras feministas. Estou, neste momento (2019-11-22) a acabar de ler o «Manifesto SCUM», de Valerie Solanas. Depois de ler o vosso artigo, resolvi pesquisar na NET artigos em que feministas criticassem o livro de Solanas. Não encontrei. Pode ser que existam esses artigos, mas não encontrei.
    Mas por outro lado encontrei muita gente a elogiar e a homenagear uma mulher claramente doente…

    Pode ser que me engane muito, mas o que vocês chamam de “feminismo que inclui” é super-minoritário e irrelevante. O feminismo que excluiu é muito, mas muito grande e é absolutamente dominante.

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