Domingo na Marcha (2ª parte)

Domingo na Marcha (2ª parte)

em 26 jun

A “geração 2.0” não nos é estranha; é quando tiram dela o “rancor” que ela se transforma em estranha mercadoria. Por Passa Palavra

Pelo fato de reivindicarmos a herança de séculos de lutas e a criticarmos com liberdade, já fomos acusados de tudo. Certa esquerda tradicional, com as mesmas palavras-de-ordem do século XX, diz que não devemos puxar certos debates, que não podemos tratar de certos assuntos em público – exatamente os assuntos que dizem respeito às formas de dominação sobre aqueles à custa de quem constroem seu capital político. Por isto não nos espanta que críticas semelhantes nos sejam dirigidas não pelos jovens em luta, pelos jovens da rua, mas por aqueles que, tendo sido um dia jovens que localizaram muito rápido o caminho das pedras do poder político e econômico, e incapazes de refletir criticamente sobre aquilo que faz deles mesmos diferentes desta esquerda tradicional, ocupam nas lutas o mesmo lugar daqueles dinossauros, daqueles limitados a quem tanto criticam. Temos medo do novo e somos teoricamente limitados, é o que nos dizem. E isto que nos dizem, nos é dito tendo como base exatamente a mesma herança que reivindicamos – embora a vejamos de lugares diferentes, por sinal diametralmente opostos. Para sair desta geleia geral, é preciso que nos expliquemos, mais uma vez.

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Allen Ginsberg (de cartola) em manifestação contra a Guerra do Vietnã

Allen Ginsberg (de cartola) em manifestação contra a Guerra do Vietnã

Contracultura pode parecer coisa nova, mas é velha como andar para a frente – tal como sua cooptação. O romantismo do final do século XVIII e início do século XIX; o dandismo dos primeiros anos do século XIX e a boemia do final deste século; os dadaístas e toda a “geração perdida” no início do século XX; os beats no final da década de 1940; no início da década de 1960, os opostos mods/rockers (Inglaterra), blousons noirs/blousons dorées (França), dijkers/pleiners (Holanda) e beatniks; todos são movimentos contraculturais. Alguns deles, mais especificamente, são movimentos contra o capitalismo, contra alguns de seus aspectos, mas que, em geral, tomam o caráter de movimentos arcaizantes, cultores de aspectos mitificados de um passado pré-capitalista deslocados de sua História. O dandismo, por exemplo: contemporâneo dos primeiros passos da industrialização, foi a apropriação estética por parte de jovens burgueses da Inglaterra e da França da vestimenta, dos trejeitos e do modo de vida dos aristocratas do Ancien Régime; mesmo as simpatias do lucidíssimo Oscar Wilde com o socialismo não foram outra coisa além de passos necessários para a constituição do Individualismo (com “I” maiúsculo). Os beats e beatniks cultuavam  não apenas o improvisado e o onírico, mas também o místico e o oculto, e alguns se tornaram verdadeiros reacionários; ao contrário do budista praticante Allen Ginsberg e de William Burroughs, imersos – cada qual a seu modo – em todo movimento cultural (e contracultural) posterior aos beats, o genial Jack Kerouac – depois de anos sentado no sofá da casa da mãe vendo programas de auditório na TV, barrigudo, alcoólatra e reacionário, afastado de seus companheiros de geração beat e odiando cada cabeludo que via pela frente – diria ser, em certo momento, “um estranho e solitário católico louco e místico” que não conhecia “nenhum hippie” pois “eles pensam que sou um motorista de caminhão”.

Roube este livro

“Roube este livro”

Nenhum destes assemelha-se, de qualquer maneira, ao que vem a ser a geração que, a partir dos anos 1960, questionou radical e diretamente o modo de vida da sociedade fordista, em quase todos os domínios da vida social. Esta contracultura não se esquivou de certos confrontos e de certas alianças. Tomemos o exemplo de Abbie Hoffman. Não obstante a teatralidade e ludicidade típicas de sua política na fase do Youth International Party, publicou em 1971 Steal this book; além da incitação direta (“Roube este livro”), a obra continha conselhos sobre como plantar maconha, viver numa comunidade alternativa, roubar comida, furtar lojas, afanar cartões de crédito, fazer bombas e conseguir armas. Os ativistas da contracultura da época eram ao mesmo tempo teóricos, agitadores culturais e construtores de barricadas – como Rudi Dutschke, Alain Geismar e Dany Cohn-Bendit bem o demonstram. E sabiam muito bem que suas lutas estavam umbilicalmente ligadas não apenas às lutas de minorias, mas principalmente àquelas da mais ampla maioria. Não se tratava apenas, como analisaram certos pós-estruturalistas, de lutas travadas por grupos minoritários de trabalhadores, de mulheres, de expressões sexuais, de grupos étnicos etc., que não compartilhavam dos modos de expressão e dos valores da maioria e organizaram-se para fazer valer seus modos de expressão e valores e, a partir daí, colocar questões que alcançassem e interferissem nos modos de expressão e valores da maioria; tratava-se, sim, das lutas destas minorias, mais visíveis, e também das lutas invisíveis da mais ampla maioria pela transformação radical da sociedade – ou seja, de lutas revolucionárias, no mais forte sentido da expressão.

“O direito burguês é a vaselina…” (Nanterre, 1968)

Não por acaso o Maio de 1968 na França tomou as proporções que tomou. Não houve apenas um Maio de 1968, mas um Maio-Junho de 1968, a maior greve geral da história da França, em cujo apoio os estudantes radicais se concentraram, deixando a Sorbonne aos situacionistas (e seus telegramas inócuos) e partindo para a periferia operária do norte de Paris onde, ao lado dos grevistas, se bateram com os policiais e contra os burocratas sindicais. Só depois começou a se falar do Maio, para apagar a memória do Maio-Junho. Mais radicais ainda foram os trabalhadores chineses durante a Revolução Cultural, que sequer precisaram destes agitadores para perceber a enorme contradição entre o projeto dos burocratas do Partido Comunista, de promover apenas uma renovação nos quadros da burocracia, e seu projeto de uma China construída a partir de uma federação de comunas nos moldes da Comuna de Paris, com dirigentes livremente eleitos e revogáveis. Vale o mesmo para os trabalhadores de Praga, para os estudantes mortos no Massacre de Tlatelolco, para os estudantes e trabalhadores italianos que ocuparam fábricas em 1969 e passaram toda a década seguinte em luta… Não é esta, por exemplo, a história do mesmo Cesare Battisti por cuja libertação tantos – entre os quais nos contamos desde o início – se bateram?

Jane Alpert procurada pelo FBI: o rancor na geração 68

Esta geração, embora contasse também com inegáveis elementos arcaizantes, foi a responsável pela mais profunda crítica prática à tecnocracia – influência tanto de seu próprio modo de vida quanto das leituras dos comunistas de conselhos, dos anarquistas, dos frankfurtianos, de marxistas críticos como aqueles agrupados na revista Socialisme ou Barbarie, dos primeiros representantes da new left etc. Foi também, infelizmente, a primeira cujos mais visíveis representantes converteram-se muito rapidamente em candidatos ao status quo, a fazer parte desta mesma tecnocracia que tanto criticaram. Dany Cohn-Bendit, ele próprio tornado parlamentar europeu décadas depois, fez em 1988 o balanço desta geração em Nous l’avons taint aimée, la révolution: Jerry Rubin transformado em executivo yuppie; Bobby Seale, ex-Pantera Negra, transformado em cozinheiro filantropo; Roel van Duyn e Rob Stolk, ex-Provos e ex-kabouters, transformados em políticos “verdes”; isto enquanto gente como Jane Alpert, Hans-Joachim Klein e tantos outros era obrigada a esconder-se como cães escorraçados por haverem lutado de armas em punho e bombas à mão contra o “sistema” – do contrário, seriam presos até sabe-se lá quando. Salvou-se Rudi, assassinado aos poucos.

Deleuze, Sartre e Foucault em conferência do Groupe dInformation sur les Prisons (GIP) de 1972

Deleuze, Sartre e Foucault em conferência do Groupe d’Information sur les Prisons (GIP) de 1972

É a esta geração que se vinculam alguns de nós. Os muros das fábricas não caíram de velhos, não. Se ruíram, foi porque a luta dos trabalhadores, em especial de sua geração mais jovem, demonstrou na prática os limites da sociedade fordista, numa ponta, e da superexploração nos países do assim chamado “Terceiro Mundo”, de outro. Estes jovens trabalhadores mostraram também os limites de toda luta que não fosse internacionalizada, que não contasse com apoio e solidariedade ativos por toda a parte. Sabemos de onde viemos e não andamos por aí a esquecer nossa história – que, afinal, é a de nossas próprias vidas – em nome da mais recente moda intelectual. Para aqueles do PassaPalavra que estavam em Paris nos meses da agitação revolucionária – e podemos dizer “aqueles” no plural – Foucault, Deleuze, Guattari e tantos outros pós-estruturalistas não são representantes dos meses de Maio-Junho de 1968, mas representantes do fim destes meses: isto era tão evidente para todos que se alguém na altura pretendesse o contrário só receberia gargalhadas em troca. Esses teóricos geraram-se e proliferaram nas ruínas de uma sociedade possível que os radicais de pouco antes haviam pretendido construir, e serviram para erguer um biombo que escondesse a possibilidade desta alternativa.

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São Paulo, 20 de abril de 2001: Ah-ha, uh-hu, a Paulista é nossa!

São Paulo, 20 de abril de 2001: “Ah-ha, uh-hu, a Paulista é nossa!”

A dita “geração 2.0” não nos é estranha, muito pelo contrário. Outros dentre nós que integramos o PassaPalavra foram despertados para a militância pelo chamado à solidariedade internacional feito em 1994 pelos zapatistas – estes que, mesmo apropriados pelos pós-modernos como ícones, não se esquecem que tomar os meios de produção é fundamental para avançar qualquer luta anticapitalista, “minoritária” ou não. Alguns dentre nós participaram ativamente dos movimentos antiglobalização que antecederam as lutas em Seattle (1999) e ultrapassaram os limites impostos pela brutal repressão em Gênova (2001).

Somos nós o cognitariado; somos nós os que produzem com base no saber sobre as “novas tecnologias comunicativas”. É ele, transmitido de boca a ouvido ou de tecla a tela, quem nos permitiu estar lado a lado com tantos condenados da terra e apoiá-los em suas lutas enquanto vivíamos as nossas próprias. Por outro lado, somos nós o precariado; por opção política ou por total falta de oportunidade, também somos nós os que pulam de emprego em emprego, de bolsa em bolsa, de ONG em ONG, de bico em bico, sem futuro, sem expectativas, sem chances, sem nada. Nós não somos, nem agimos, nem vivemos, nem nos vestimos mais como aqueles trabalhadores que conhecemos quando pequenos – estes que eram nossos próprios pais – mas nem por isto deixamos de ser explorados. De um lado do Atlântico somos a geração à rasca; do outro, somos os que sabem por experiência própria que as promessas do pleno emprego jamais se cumprirão outra vez. É isto o que nos impele a lutar.

Seattle, 1999: rancor 2.0?

Seattle, 1999: “rancor 2.0”?

Nossa geração, de certa forma, continua e aprofunda lutas que aquela geração dos anos 1960 iniciou. Squats, okupas, pequenos coletivos e organizações, antes isolados ou com baixa capacidade de integração além daquilo que seus integrantes poderiam alcançar com os meios de que dispunham, contaram a partir de meados da década de 1990 com uma poderosíssima ferramenta de luta: a internet, ainda em sua versão “1.0”. Através dela – mas não somente – integramos articulações como a Ação Global dos Povos, de cujos Dias de Ação Global participamos ativamente em São Paulo, Salvador, Fortaleza e tantas outras cidades do país. O contato com formas de ativismo e militância inauditas no Brasil da época – tutte bianchi, autonomen, adbusters, Reclaim the Streets, Earth First!, black block, Ruckus Society, Direct Action Network etc. – e com movimentos sociais de base mundo afora – zapatistas, CNT, Tinki Huasi, CONAIE, Federação Krishok, COBAS, CGT, as Seis Federações do Trópico, Tino Ragantirotanga etc. – nos deu experiência para tocar iniciativas de produção de mídia, a apoiar os movimentos sociais que, como hoje, viviam pesada repressão e dar início a formas de protesto e a movimentos sociais que expressassem tudo aquilo que vivíamos e desejávamos.

Jerry Rubin 1968/1985

Ocorre que a rebeldia de décadas atrás já havia sido transformada em valor positivo no seio do próprio capitalismo – que, não esqueçamos, é dentre os modos de produção aquele único que necessita de constante renovação e destruição de aspectos de si próprio para seguir existindo. Na medida em que muitos daqueles que nos antecederam e outros daqueles com quem convivemos já haviam passado para o outro lado da trincheira, surgiram profissionais especializados em perceber nosso “ser” e nosso “fazer” para transformá-los em mercadoria – os cool hunters, praga espalhada por todos os cantos com vários nomes, não raro agindo em segredo para captar para dentro da produção capitalista aquilo que antes se lhe opunha. Eles são o aspecto mais evidente de uma inversão que se dá hoje na velha indústria cultural. Se antigamente a mais-valia para ser realizada precisava da audiência e dos olhares, isto é, para vender aquele artista do catálogo eles precisavam do jabá e de toda essa estrutura, a tendência da indústria cultural hoje é justamente a inversa: monetizar a partir do produto cultural que atraiu os olhares, mesmo quando produzido fora de suas cadeias produtivas principais. Veja-se, por exemplo, como a própria noção de interatividade na internet – boa invenção da contracultura digital materializada, entre outros lugares, na rede Indymedia – serve hoje, extirpada de sua radicalidade, ao mercado: demonstra-o, mais banalmente, o sucesso que hoje fazem certos vídeos postados no YouTube quando incorporados nos programas de TV. Os cool hunters e seus congêneres de hoje não precisam mais ser profissionais; basta estar “antenado” e vender sua ideia. Como se vê, conversões como a de Jerry Rubin hoje são fichinha.

Do berço à cova

E assim bailamos a dança de São Vito conosco próprios. Como o capital é uma relação entre pessoas mediada por coisas, ao mesmo tempo em que lutamos contra tais relações, somos não raro obrigados a fazê-las funcionar; na medida em que agimos e criamos novas formas de viver, elas logo são incorporadas como mercadoria. Vivemos esta contradição em nossa própria carne com aquilo que produzimos, mas sabemos bem de que lado estamos e quem queremos ter ao nosso lado na luta contra o capitalismo, que não é outra coisa além de luta entre classes; é isto que nos orienta e nos leva a criar todas as dificuldades possíveis à apropriação e mercantilização daquilo que produzimos. A luta contra a propriedade privada dos meios de produção se dá também no campo da produção da cultura digital, e por isto mesmo estamos em constante alerta contra qualquer forma de concentração de meios de produção cultural digital nas mãos de poucos – mesmo quando estes parecem multidão. Alguns tentam, com a desculpa da “imanência”, de que “só existe este mundo aqui”, sair desta esquizofrenia em que todo movimento anticapitalista hoje se vê enfiado. Não veem que estas são exatamente as justificativas daqueles que querem quantos novos mundos possíveis criemos para transformá-los naquilo que não são nem nunca se quis que fossem? (Na verdade, talvez o vejam bem até demais; aí seríamos nós os ingênuos, mas já é outro papo, bem mais grave.)

Antonio Negri (na frente, à direita) nas ruas pelo Poder Operário

Antonio Negri (na frente, à direita) nas ruas pelo Poder Operário

Por isto, aquilo de que falam Negri, Bifo, Virno, Lazzarato, Bologna, Marazzi e outros tantos pós-operaístas deslumbrados com os Grundrisse de Marx é exatamente o que vivemos, nós mesmos, em nossas carnes, bem antes que escrevessem sobre isto. Só viemos a conhecê-los fora de seus restritos âmbitos de atuação quando Império fez de Negri pop star do jet set intelectual internacional e levou-o a palestrar para o Ministério da Cultura em 2005. Quem mais precisa destes teóricos não somos nós, mas certos acadêmicos burocratizados e descolados das lutas, incapazes de ver o que se agita diante de si sem os óculos da teoria ou interessados nesta agitação para transformá-la em mais uma mercadoria; ou aqueles que, surgidos de nossa própria geração, pretendem encobrir com palavras difíceis sua conversão ao status quo. (Na verdade, quando Negri, exilado em Paris, apresentou em 1978 sua leitura dos Grundrisse em nove seminários na École Normal Supérieure da rue d’Ulm, falou para gente bem parecida conosco próprios e apresentou os rascunhos de Marx como um texto “dedicado à subjetividade revolucionária” que articula “uma apreciação das possibilidades revolucionárias criadas pela ‘crise iminente’ com a vontade teórica de sintetizar adequadamente as ações comunistas da classe trabalhadora frente à crise”. Isto posto, é bastante sintomático que alguns epígonos do operaísmo e do pós-operaísmo não retenham este conteúdo classista e prefiram as fugas linguísticas.)

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Apoiar as lutas

Como se vê, para nós a prática antecede a teoria. Ou, melhor dizendo, para não colocarem palavras erradas em nossas bocas: não nos interessam os termos abstratos e irreais em que tal oposição tradicionalmente é apresentada, mas estes outros, mais duros porque concretos: não há teoria que não seja reflexão sobre lutas concretas, reais, vividas, sentidas na pele e narradas por aqueles que lutam, enquanto lutam. Por isto mesmo, dizemos estar aqui para “noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas”. E é o que temos feito desde publicamos nosso primeiro artigo em 2 de fevereiro de 2009.

Os limites do fordismo colocam-se para nós não através de leituras do teórico A, B ou C, mas através da luta dos terceirizados, tidos como invisíveis – enquanto estiverem trabalhando, óbvio; da análise crítica das compensações para aqueles que jamais conseguirão retornar ao patamar de renda proposto pelos métodos fordistas clássicos de contenção dos conflitos sociais; da luta dos migrantes, que agora também estão no Brasil – país que hoje decola rumo a uma versão renovada do projeto “Brasil Potência” de décadas atrás, sobre o que pouco se tem refletido criticamente. Não reconhecemos tais limites desde hoje ou ontem, nem tampouco o fazemos apenas pela perspectiva da crítica às novas formas de exploração, mas também pela das críticas às velhas formas de luta, que mantemos desde muito tempo e não abandonamos. As velhas formas de exploração, que também criticamos, não morreram, muito pelo contrário; não há “tradição inventada” que nos faça esquecê-las, mesmo quando se dão nos lugares mais inusitados.

E para nós não se trata apenas de acompanhar as lutas quando rebentam, mas também de conhecer e divulgar as expressões culturais que nelas surgem; o cotidiano dos que lutam e dos que, entediados e angustiados, ainda não o fazem; o fazer artístico do dia a dia e as plataformas políticas que só a intuição poética pode oferecer… É só a partir disto, e não de qualquer leitura abstrata ou diálogo afável, que nos é possível conhecer a mercantilização da cultura e sua crítica, feita por todos os meios necessários. Para nós, “periferias” não são sujeito das lutas, mas sim o território onde trabalhadores, qualquer que seja o adjetivo que se lhes dê, lutam contra a paz dos cemitérios que as classes dominantes lhes querem impor, de armas em punho, sobre os cadáveres de inocentes. Lá onde também se luta contra o autoritarismo nas escolas e contra as tarifas abusivas dos transportes, é lá onde preferimos estar.

Nossa própria história de militância demonstra que acampamentos e “revoluções 2.0” não nos são estranhos – embora sobre eles nos demos o direito de divergir em um aspecto ou outro. Acompanhamos a “Primavera Árabe” e outras formas de manifestação na África (Marrocos, Angola, Tunísia, Egito, Bahrein etc. e mesmo lutas esquecidas como as que ocorrem na Costa do Marfim). Vimos nestas lutas o grande potencial das mídias interativas sempre que usadas para garantir a mais ampla autonomia e horizontalidade no seio das lutas. Isto nada mais é que a retomada de práticas que alguns de nós viveram sob outras formas no passado, e que outros de nós viveram há poucos anos e vivem ainda em outras situações.

Amarração 2.0?

Amarração 2.0?

É esta experiência que nos leva a ter os dois pés atrás com certo “ativismo 2.0” – da qual o coletivo Fora do Eixo é apenas um exemplo pontual, pois nele se incluem também inúmeros coletivos “artivistas” locais enredados na malha dos Pontos de Cultura, organizações como o Partido da Cultura (PCult) e ONGs como a Casa da Cultura Digital e Instituto Overmundo – que concentra saber e poder e, sob a desculpa de produzir novos modos de “viver” e “fazer”, cria nichos de mercado, domina técnicas de acesso a recursos públicos e pretende agora ter legitimidade social usando as Marchas da Liberdade como meio. Isto, evidentemente, desde que consigam antes esvaziá-las de qualquer conteúdo potencialmente conflituoso como a luta contra a repressão policial e a luta pela tarifa zero para enfim transformá-las nas “ilhas dos rancores proibidos” de um “arquipélago Gulag do pós-rancor”. Guardadas as devidas proporções e os diferentes tipos de capital que mobilizam, agem como certos sindicalistas que usam manifestações de trabalhadores e convenções coletivas tanto para rentabilizar certas operações financeiras que realizam através dos sindicatos quanto para viabilizar novas formas de arrecadação (contribuição confederativa, seguros de vida coletivos intermediados pelo sindicato, comissões de conciliação prévia etc.). Enquanto para os sindicatos vale o capital na forma de dinheiro antes de qualquer coisa – afinal, são “analógicos” – no caso das Marchas o que se mobiliza também é o capital simbólico, ou seja, o prestígio de terem sido organizadores de tal movimento e de terem-lhe dado tal ou qual rumo, ou mesmo nenhum; isto lhes será útil nas futuras disputas com uma gestão do Ministério da Cultura que agora, circunstancialmente, lhes é hostil e ameaça quebrar o novo modelo de “mercado da cultura” em cuja instituição trabalham ativamente. Justo eles, os “modernos”, os “digitais”, a guardar tantas semelhanças com estes ultrapassados trambolhos “analógicos”!

O tom com que iniciamos o debate foi, como se viu e como se vê, tão duro quanto duro precisou ser o próprio debate; do contrário, lá estaríamos nós, diante destes adversários, dizendo como poderiam fazer para apagar exatamente aqueles aspectos que fazem deles exatamente o que são – e, por tabela, servindo-nos de bandeja não à antropofagia, mas à fagocitose que lhes assegura a sobrevivência ameboide no “mercado das ideias”. E é neste mesmo tom que seguiremos debatendo. Como se vê, não negamos a produção cultural digital e o uso de novas tecnologias em favor das lutas sociais. Do contrário, nós que fechássemos o PassaPalavra em nome da coerência, pois dizemos em nossos Pontos de Partida: “é urgente a criação de uma rede que ligue as diversas formas de contestação, um espaço comunicacional que favoreça o contacto entre as diferentes correntes anticapitalistas, independente tanto do poder económico como das tutelas políticas e ideológicas. Igualmente, apoiamos e estamos dispostos a cooperar com outros projectos neste sentido”. Por isto mesmo, somos, sim, contra, rancorosamente contra, toda e qualquer forma de mercantilização da cultura disfarçada de “ativismo” “cidadão” “pós-rancor”, e quanto a isto – não custa dizê-lo mais uma vez – não há diálogo possível.

(Continua aqui)


Comentários 33

    • Ronan

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      jun 26, 2011

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      Faltou dizer naquela parte: periferia não é uma mercadoria, como querem hoje. Mas o local onde viver é um ato de guerra. Aí um imbecil da USP me pergunta de que lutas participo. Estou vivo, isto é a minha luta.

    • Le Miserable

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      jun 26, 2011

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      Um artigo confuso, fala de mil coisas e com muita autocongratulação. Os artigos desse site são interessantes, mas infelizmente falam mais pra dentro que pra fora.

      E essa crítica tosca (que aliás é uma falsidade patente) dos situacionistas que meteram no meio do texto e não explicaram pra continuar falando de 12785 outras coisas?

      Porra, a primeira proposta dos Situs nas Assembléias Gerais da Sorbonne era apoiar a construção de conselhos operários e ocupações de fábricas! E a “Miséria do Meio Estudantil” que fala que os estudantes radicais tem que se fundir com as lutas dos trabalhadores?

      De qualquer forma e tirando esse e outras opiniões passadas como verdades factuais, interessante a questão da acumulação de “capital simbólico” dos organizadores profissionais de marchas. Isso pode ser visto tbm nas mega Paradas Gays e afins…

    • Lukacs

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      jun 26, 2011

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      Os Passa Palavra caminhavam solitários no grande hotel do abismo, localizado no beco dos rancores em que se escondem os cinicocéticos. Ao saírem para comprar haxixe, notaram uma multidão nas ruas portando bandeiras que eles achavam ser exclusivamente suas. Então, voltaram para o já decadente salão dourado do Hotel do Beco Bizarro e resolveram escrever uma crítica anti-capitalista e sectária do processo em curso.

    • Júh 2.0

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      jun 26, 2011

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      Falou então!!! Agora o Passa Palavra vai querer dá uma de moderno e de conectado à Revolução 2.0 como a gente…

      E querer tipo contaminar com Rancor um processo tão lindo, tão leve, tão colorido no mundo inteiro… Com sua visão preto e branco da história: marxismo, luta de classes, ódio, violência, fim do diálogo etc etc.

      Meu, será que vocês não conseguem abrir suas mentes????? Libertem-se!!!!

    • Tales Pinto

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      jun 26, 2011

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      As partes do artigo “O Domingo na Marcha” estão com argumentos estruturados, mostrando os caminhos pelos quais o coletivo se associa ao longo da história recente da luta de classes, mostrando suas raizes de ação social e política.
      Os defensores do FdE estão somente esperneando frente ao desnudamento de suas raizes gestoriais, de suas práticas de ação social que levam, querendo ou não, à sua reprodução enquanto classe dominante.
      Deixem de falar de rancor, de lindeza, de cores, de abrir mentes, de liberade (vaga).
      Argumentem! Exponham seus pontos de vista claramente e refutem o artigo. É o que resta a vocês para manter um pouco de dignidade dentro do debate que vocês mesmos querem manter.

    • Diguilim

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      jun 26, 2011

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      Bem, tava me mantendo a distância acompanhando o debate meio desconfiado em relação aos rumos seguidos… mas como o caldo tá ficando mais temperado, resolvi dar um pitaquinho.

      Preciso localizar minha fala. Fiz e faço parte dessa geração citada aí no texto, venho de um contexto de convergência das lutas anticapitalistas com essa nova realidade e ambientação possibilitadas pelo advento da internet e de novas tecnologias da informação. Participei da formação de vários coletivos que utilizam como estratégia e também como ferramentas meios multimídia – rádios, websites, organização a distância através de listas de e-mail (isso é meio óbvio hoje mas é preciso lembrar que não era assim há 12 anos atrás…), mecanismos de publicação aberta, informativos e jornais digitais e impressos, incorporação à luta contra a propriedade intelectual como é entendida pelo mercado e flexibilização ou mesmo a extinção de direitos autorais, e por aí vai… Tudo isso baseado em princípios que caminham para a superação do modo de produção em que vivemos – Capitalismo.

      Também estive no meio da Cultura Digital, inclusive trabalhei com formação com ferramentas livres nos kits multimídia de pontos de cultura.

      Posso dizer que acompanhei esse desenvolvimento do tal “2.0” a partir de diferentes perspectivas. Transitei e ainda transito em espaços diferenciados, me considerando até um doispontozero anticapitalista.

      Essa pequena apresentação é só pra não parecer que caí aqui de paraquedas e tal.

      O debate tá ficando muito interessante e quando conseguimos olhar para as coisas que foram surgindo e realizar uma leitura a partir de um acúmulo de lutas e experiências, vemos que passamos por mais um momento dentro do que consideramos fluxo e refluxo das mobilizações e ações coletivas.

      De Seattle pra cá podemos contar vários momentos de pico nas mobilizações – dias de ação global, espetaculares e viscerais atos do MPL Brasil a fora, outras mais locais como o Fora Arruda e BSB outros 50 em Brasília…

      Por outro lado também houveram vários momentos formativos, compartilhamento de experiências e apropriação de novas tecnologias pra intensificação das lutas e aproximação das localidades, isso somado a uma grande expansão do acesso tanto à internet quanto a essas novas tecnologias que foram e continuam surgindo.

      Creio que uma coisa importante aqui é olhar pra tudo isso e entender o que realmente ficou, o que foi se transformando com o passar dos dias, o que foi apropriado pelo capital em suas mais dinâmicas e sedutoras garras, e o que ficou de acúmulo objetivo para a construção de projetos populares e a superação dessa realidade que não tem outro nome galera, é Capitalismo mesmo.

      Não precisamos ser ingênuos achando que não precisaremos de dinheiro em nossas vidas e mesmo durante o processo de lutas. Isso é real e não há como fugir dessa realidade de imediato. Mas também não podemos cair na armadilha de que, ao considerar qualquer dinheiro sujo, podemos reivindicá-lo de qualquer fonte sem entender o processo e a conjuntura e não termos como horizonte a radicalização da forma como organizamos a sociedade, e isso passa também pela reconstrução do pensamento econômico.

      Então realizar projetos que dialogam diretamente com o mercado, mesmo assentados em propostas vinculadas à economia solidária, só pode ser seriamente compreendido como um paliativo, não como o fim do nosso processo. Se entendemos essa forma “maneira” e “justa” de realizar esses projetos e organizar nossa sociedade como o fim, não conseguimos superar o pensamento econômico capitalista, e por consequência a realidade opressora, vertical e excludente que esse pensamento perpetua, apenas estaremos renovando-o, alimentando com mais carne esse monstro que agora nos delicia com aromas e fragrâncias e com muito prazer em forma de zeros e uns.

      Essa análise não desmerece as tentativas e experiências que estão sendo feitas. Muitas delas são realmente muito legais e transformam muitas vidas e comunidades. É antes um alerta a não pararmos por aí, precisamos entender o funcionamento e as estruturas sociais, aprofundar o estudo da realidade e converter isso continua e dialogicamente em ação, superando o imediatismo dos momentos de fluxo, que são massivos mas temporários, e construindo caminhos mais perenes e que dialogam diretamente com as mais diversas realidades longe do mundo doispontozero e da internet.

      Isso não é ser rancoroso, me soa mais como lógico pra quem tem interesse real em transformar a sociedade do que qualquer bravata ou retórica.

      Na boa, essa mulecada das marchas tão de parabéns, as ruas precisam mesmo ser ocupadas, tomadas, pintadas, vivenciadas. Também estão de parabéns por utilizarem as ferramentas digitais e confirmarem mais uma vez que nós trilhamos o caminho correto em apostar e lutar por estes espaços e tecnologias. Mas pra além do happening e do direito cool, é preciso a intensificação do processo formativo, é preciso sim ler e dialogar com os clássicos, sem com isso deixar de renovar as ideias e propostas, e é preciso entender que esse momento não surgiu do nada, o processo histórico não é ilusão e está longe de deixar de existir.

      A formação política pode nos assegurar que não seremos o almoço ou a janta do próximo banquete do mercado, e se o formos, seremos inevitavelmente indigestos. Qual o problema de hyperlinkarmos Marx, Bakunin, os contemporâneos, enquanto marchamos na rua e construimos com continuidade alternativas de superação da hegemonia do capital?!

      Creio que algumas pessoas estão invertendo a situação e confundindo outras, sinceramente quem não evoluiu ou não quer evoluir é quem não consegue ou busca essa convergência atenta, crítica e algumas vezes ousada entre o digital e a militância comprometida. Cultura não é campo pra fetichização das relações, é espaço de disputa fundamental, e nós precisamos entender melhor como o trabalho e a produção tem se organizado nesses nossos tempos e que produção simbólica estamos sendo alvos ou geradores, e quem está realmente ganhando com isso.

      O Passa Palavra acertou no levantamento do debate e em grande parte na análise, ao desvelar uma situação e tirá-la do acordo e silêncio tácito, passamos a ter condições de avançar.

    • Jair

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      jun 26, 2011

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      no final do ano passado o circuito fora do eixo fechou uma parceria com o rapper emicida, lançaram um cd e uns vídeos: http://www.youtube.com/watch?v=9bBAa5vtPuA

      no início desse ano, coincidentemente, o rapper emicida virou principal garoto propaganda da nova campanha do itaú, “o sonho brasileiro”: http://www.youtube.com/watch?v=h-GdqOO-u3s

      as duas campanhas comerciais seguem a mesma linah: liberdade pra mudar, pra se adaptar..

      “o sonho brasileiro” mais que uma campanha publicitária é um estudo sobre os novos sonhos e as novas atitudes dos jovens de 18 a 24 anos. uma iniciativa do itaú e da pepsi, com apoio da rede globo: http://osonhobrasileiro.com.br/indexn.php

      é assim que é!

    • |

      jun 27, 2011

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      Parabéns pelo artigo. Quase ao mesmo tempo, publicamos (eu e Gavin) um artigo discutindo algumas questões presentes num texto anterior de vocês e na réplica da Ivana Bentes. Acho que o debate está interessante e insisto na necessidade do diálogo político e teórico entre todas os interessados. Por isso, aproveito para compartilhar o link do post que fizemos, na torcida pelo aprofundamento das reflexões:
      Nem eixo nem seixo:
      http://www.trezentos.blog.br/?p=6070 ou http://pimentalab.net/blogs/medialab/2011/06/27/nem-eixo-nem-seixo/
      Saudações, hp

    • Anomalia Caótica

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      jun 27, 2011

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      Toda essa tendência de as empresas desenvolverem projetos ‘verdes’, sociais’, de ‘inclusão’, nada mais é do que uma tentativa de emprestar para si própria, uma aura de ‘humana’, ‘bondosa’, ‘responsável’…Claro, desde que todos os gastos sejam abatido no imposto de renda.
      Pensando um pouco sobre essa dicussão aqui do PASSA PALAVRA, deduzi que assim como as empresas (ou um dos aspectos do capitalismo) se utilizam desses projetos que mencionei acima para se promover, elas o fazem através da cultura (isso é uma coisa óbvia!), não é à toa que os festivais de alcance internacional (Terra, Skol, Hollywood, Close Up planets, Claro que é Rock…) são produzidos por empresas. Para essas empresas, é importante estabelecer uma proximidade com os jovens, utilizando suas linguagens, vestimentos, ‘rebeldia’.
      Esses coletivos como o FDE são uma mão na roda para abrir espaço para as empresas. Analisem o texto do vídeo do Itaú em que o EMICIDA é protagonista http://www.youtube.com/watch?v=h-GdqOO-u3s, parece que foi no pessoal do FDE que escreveu. Todo cheio de rebeldia, de questionamentos, de contradições…todo ‘jovem’. É bem aquela ideia de que “a revolta é uma fase do jovem”, quando cresce isso passa.

    • Mariana

      |

      jun 27, 2011

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      Pois é, parece que foi o Fora do eixo que escreveu mesmo mas quem escreveu foram esses primos deles aqui ó, a Box1824 – http://www.box1824.com.br .

      É muito interessante assistir este outro vídeo dessa Box pra ver como eles encaram a mercadoria juventude: WE ALL WANT TO BE YOUNG – http://www.vimeo.com/16641689 .

      Gostei dos comentários do Jair e do Anomalia Caótica que lembraram desse comercial do Itaú com o Emicida. Só esqueceram de dizer que nessa mesma época o Festival Fora do eixo 2010 em São Paulo também foi financiado pelo Itaú cultural – http://pt-br.facebook.com/event.php?eid=107666159256752 . Coincidencias?

      Obrigada PP por levantar essa discussão!

    • taiguara

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      jun 27, 2011

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      Caros,
      Creio que este segundo texto da série responde parcialmente a alguns aspectos da críticas honestamente levantadas pelo artigo “Nem eixo nem seixo”, do Henrique e do Gavin. Irei me referir apenas ao seguinte trecho: “No sistema analítico mobilizado pelo Passa Palavra, a forma e a dinâmica do conflito e de seus sujeitos já está dada a priori.”

      O artigo mostra que para o Passa Palavra não se trata de deter um referencial político de antemão e, em seguida, aplicá-lo à realidade. Quem acompanha o conjunto das publicações sabe que pela página passam colaborações das mais variadas matizes teóricas, porém com pelo menos um critério em comum: o da luta. Obviamente que vez ou outra surgem reflexões mais centradas em perspectivas teóricas específicas, mas não me parece ser esta a tônica do site. Assim, pouco importa a representação que cada pessoa que enfrenta os conflitos sociais cotidianos faça da sua própria experiência, mas sim o próprio fato de presenciar e refletir sobre os conflitos – desde que da ótica dos de baixo, é claro!

      Digo isso pois não me parece que a publicação de “A esquerda fora do eixo” tenha colocado em debate perspectivas teóricas, para onde a réplica de Ivana Bentes tentou desviar a discussão, por exemplo, ao afirmar que “Falta ao texto um arsenal teórico minimamente a altura das mutações, crises e impasses do próprio capitalismo” antes de invocar suas fontes inspiradoras. Ora, o que está em jogo não é as ideias arcaicas da esquerda do século passado versus a ideias inovadoras dos que leram Deleuze, Guattari ou Negri. Teoria? Cada um que tenha a sua, desde que ancorada em eventos concretos, e com a condição de serem determinadas pela posição social que cada um ocupa, ou pela ambiguidade desta posição.

      E os fatos e as contradições sociais estão aí, para quem se dispuser a vê-los, basta por a cara para fora da janela. O novo capitalismo, o pós-fordismo, ou qualquer coisa do tipo, se apresenta através dos novos patamares de luta; é através desses novos acontecimentos que vamos nos dando conta de que alguma coisa mudou. E estas lutas, a despeito do que pensemos delas, continuam a ocorrer, como fartamente o demonstra não só o Passa Palavra mas qualquer outro noticiário. Diante disso, não me parece que os protagonistas (ou antagonistas) em cena sejam caixas vazias, dadas “a priori’, que preenchemos conforme as conveniências. Eles são reais, habitam o cotidiano, seja lá qual for o nome que empreguemos, e foi para o destino destes sujeitos em luta que o artigo procurou chamar a atenção, o que se colocou como obstáculo prático para um certo projeto em curso. Daí todo debate teórico gerada em seu entorno.

      Abraços,
      Taiguara

    • Claudia

      |

      jun 28, 2011

      |

      Nao entendi o porquê do Passa Palavra publicar essa defesa, e nem por que sentiram a necessidade de se colocarem como os grandes revolucionários. O conteúdo é de qualidade como sempre, mas tão precisando de auto-afirmação? A discussão tava mais interessante antes…

    • Gil

      |

      jun 28, 2011

      |

      Essa Juh2.0 existe mesmo ou é um alter ego de alguem de esquerda mesmo? Só pode ser piada, não é possível que alguem se depare com argumentos como os colocados aqui e tente rebater com esse nível “orkut” de argumentação. Pra não dizer imbecil. Ops, já disse.

    • João Ezaquiel

      |

      jun 28, 2011

      |

      Não vejo como auto-afirmação no sentido de aumentar o próprio ego. Vejo como afirmação e eu dirai reafirmação de uma posição, muito mais do que teórica eu diria de posição no tabuleiro. E claro, com uma boa dose de ácido para coroer as ilusões sobre quem é quem na luta cotidiana contra as estruturas sociais (também denominadas Capitalismo)

    • Veterano

      |

      jun 28, 2011

      |

      Excelente debate, este. Tem tempo que não leio coisas do tipo.

      A propósito de uma coisa bem pontual dita por Le Miserable sobre os situacionistas, digo: me faça uma garapa! Um milhão de pessoas nas ruas no dia 13 de maio, depois dos combates no Quartier Latin do dia 10, a Sud-Aviation já em luta desde o dia 14, e os situacionistas levam o crédito por haverem lançado panfletos em favor das ocupações no dia 16! Lotrous, Cheval, Riesel, Negroni, Bigorne e os outros raivosos fizeram essa marmelada, imagino, para justificar aqueles telegramas palhaços que começaram a enviar no dia 17 aos partidos comunistas, aqueles onde mandam os burocratas se cagarem de medo.

      Este tipo de prática nos relembra uma regra de ouro: no calor de lutas tão profundas quanto foram aquelas, um dia é tempo suficiente para separar revolucionários de oportunistas.

      Com este parêntese não quis de forma alguma desviar o assunto. Mas não poderia deixar proliferar certas versões dos fatos bem ao gosto de certas editoras radicaloides, até porque colocar certos fatos em seu devido lugar é o que está no centro do debate de agora.

    • Anomalia Caótica

      |

      jun 28, 2011

      |

      Caraca…vi o vídeo que a Mariana indicou, assim como o Facebook do festival junto com o Itaú (e os caras ainda querem debater?). Tá tudo explicado.
      Agora dá pra entender todo esse lance de flash mob, marchas, rebeldias e tal; nada tem ligação com uma ideia minimamente coerente, nem de direita (no sentido fiel do termo) É tudo e ao mesmo tempo não é nada, é uma fusão de coisas, de ações, comportamentos…convertidos em lucro. Talvez essa ‘rebeldia’ desafiaria alguém na idade média, onde se exercia um controle mesmo com as pessoas. Atualmente (de uns 60 anos pra cá), os pais riem disso, os padres, o estado…é totalmente inóquo, não ameaça ninguém, é um fim em si mesmo…que horror. É isso aí a sociedade do espetáculo?
      Essa prática aí que superou o ‘rancor’, a ‘amargura’…se for, como estou rancoroso hoje.

      Coveiro

    • Carnaval fora de época

      |

      jun 28, 2011

      |

      Citando: “Salvou-se Rudi, assassinado aos poucos.” Há algo a mais para se falar sobre Rudi Dutschke, não? A não ser que for inconveniente…

    • Júh 2.0

      |

      jun 28, 2011

      |

      Gil: um dia vocês da esquerda ultrapassada vão perceber porque vocês não toleram o diferente, cara.

      Vocês só sabem criticar e ser do contra, não são a favor de nada, não tem proposta pra nada, não mergulham em nenhuma história com a mente e o corpo aberto. E eu que sou a imbecil agora?!?!?!

      Fica aí com a sua caretice, bicho! Fiquem aí na sua redoma frígida enquanto a gente está nas ruas construindo a Liberdade! Vocês são muito previsíveis: agora vão voltar sua patrulha ideológica contra mim??? Depois quando a gente fala de rancor dizem que estamos exagerando…

      Mas eu não vou me deixar contaminar por esse ressentimento todo: a cada desrespeito de vocês eu devolvo uma rosa de Paz & Amor 2.0!!! Sempre!!!

      Experimenta assistir este vídeo, Gil, com a mente desarmada: http://www.youtube.com/watch?v=qqdF28Go1Y0

    • Astolfo Jr.

      |

      jun 28, 2011

      |

      Boa Júh 2.0! Somos a favor do tanque rosa choque, da explosão multicolorida na cidade. A marcha é pós-rancor! Até a polícia entrou na onda, dispensou o cassetete e a vaselina e aderiu ao voyeurismo: agora só filma, ficha e cataloga.

    • Roger

      |

      jun 29, 2011

      |

      Olha a que situação chegamos, é feita uma denúncia, uns concordam (os amigos do PP) outros descordam (os amigos do FdE) e nada muda!
      Dinheiro público é usado pra fortalecer grupos com objetivos escusos (mas que trabalham muito bem com comunidades) enquanto anticapitalistas com potencial intelectual impecável, ficam fechados em clubinhos com sua masturbação ideológica.
      Resultado, o FdE vai continuar crescendo e o PP vai continuar denunciando.
      E nada muda.

    • Diogo

      |

      jun 29, 2011

      |

      cara, esta história “pós-rancor” é de vomitar.
      Pós-rancor é manter o status-quo na bunda dos outros.
      Pós-rancor é vc ter se acostumado tanto com a trolha na bunda que acha graça.
      Pós-rancor me lembra o discurso pró-ditadura que elegeu um futuro pro Brasil e tratorou todo mundo.

    • Maria

      |

      jun 29, 2011

      |

      Oi pessoal do Passa Palavra:

      O Blog do Rovai publicou um texto de crítica a vocês, bastante injusto na minha visão: http://www.revistaforum.com.br/blog/2011/06/28/fora-do-eixo-e-a-esquerda-que-a-direita-gosta/#comments

      Aí eu que acompanho o Blog dele fui lá e publiquei um comentário. Ele me respondeu. E quando eu respondi de novo ele deletou meu novo comentário. Não sei porque!

      Peço por favor pra vocês publicarem aqui os três comentários. Pode ser?

      Muito obrigada PP! E parabéns pelo debate!

      Maria disse:
      28 de junho de 2011 às 19:13

      Não entendi o seu texto, Rovai: você tá acompanhando todo o debate que está acontecendo no sítio do Passa Palavra?

      Já foram publicado três artigos, sendo que o primeiro deles já está perto dos 150 comentários com posições muito consistentes de todos os lados, de todas as perspectivas. Um dos melhores DEBATES que eu já acompanhei na internet: “A esquerda fora do eixo” – http://passapalavra.info/?p=41221

      Depois disso já foram publicado outros dois textos dando sequência ao debate:

      “Domingo na marcha (1ª Parte)” – http://passapalavra.info/?p=41431

      e “Domingo na marcha (2ª Parte)” – http://passapalavra.info/?p=41710, que já está com 20 comentários

      Pelo que eu entendi o Passa Palavra tem uma crítica muito grande ao Circuito Fora do Eixo e não quer participar de um debate com transmissão ao vivo com eles, pois não acreditam que vai ser nada produtivo debater com um grupo que eles consideram de “ativismo empresarial”.

      O Passa Palavra é obrigado a aceitar se não é anti-democrático?

      Renato Rovai disse:
      28 de junho de 2011 às 19:23

      Maria, convenhamos, essa de “só debato no meu blogue” é um tanto fraquinha. A resposta do Passa Palavra foi de que não quer papo com gente do “ativismo empresarial”.
      Então por que escreveu um texto imenso sobre os caras?
      Se a Miriam Leitão se ofender comigo por algum motivo e me chamar prum debate, pode ter certeza, não vou me esconder atrás de um discurso preconceituoso.

      Maria tentou dizer:
      28 de junho de 2011 por volta das 19:30

      Rovai: tem uma série de pessoas do próprio ao Circuito Fora do Eixo que estão participando livremente do debate no Passa Palavra.

      O fato de ser bastante crítico a um grupo não deve obrigar a pessoa a ter que debater com o grupo, ainda mais que o Pablo Capilé propôs um tipo de debate ao vivo, recusando o debate escrito.

      E o fato do Capilé ou de VOCÊ toparem debater com a Miriam Leitão não obriga que TODOS devam aceitar. Vocês não são a única posição certa do mundo.

      Desta vez me decepcionei com você, Rovai!

      (Agora mais ainda por ter deletado este meu comentário! Que democrático é mesmo você, Rovai?)

    • Tales Pinto

      |

      jun 29, 2011

      |

      Uma das dúvidas que surgem ao acompanhar o debate é a seguinte:

      Será que os membros do coletivo Fora do Eixo conseguem escrever algum texto com mais de 140 caracteres?

    • Diogo

      |

      jun 29, 2011

      |

      Olha pessoal, agora que consegui ler tudo. Inclusive o posto do Rovai em seu blog.

      infelizmente, pro Fora do Eixo, chamar para um debate nestes moldes “num encontro” só tornará a coisa toda particular. é isso que eles querem, retirar o caráter público do debate.

      assim que é o modus operandi. quando vem uma crítica contundente eles respondem assim: vem aqui, vamos lavar a roupa suja em casa. é fazer política das mais toscas e coronelistas que já vi.

      e incrível que o Passa Palavra conseguiu hackear o Fora do Eixo (termo caro para eles não?). Foderam o esquema de “coleguismo pós-rancor”.

      O Fora do Eixo deveria passar o sabão e mexer a bunda. Terá que resolver o que quer efetivamente do slogan “turma da xuxa pós-rancor tanque de guerra arco-iris”.

      Aliás me lembrei da banda ELMA que recentemente se fudeu com a FdE. Que no meio do embate com o profundo descaso que a Fora do Eixo/StudioSP lhes impuseram conseguiram uma CONVERSA ao vivo para resolver!!! Imaginem o que aconteceu né. Tomaram sabugada! (vejam aqui: http://tinyurl.com/3dgezbb )

      Viva o coleguismo pós-rancor que interdita o debate ACUSANDO o outro lado de não debater!!!! os caras não escrevem nada e vem pra cima tentando “compor” uma saída. típico do ambiente empresarial e da repartição das migalhas.

    • Gil

      |

      jun 30, 2011

      |

      Juh, nao disse q vc é imbecil, e sim o nível dos argumentos que está colocando aqui. Discussão de Orkut, de carinhas smile e sem nenhum argumento. Alias, n vi de ninguem da turma do pós rancor nenhuma formulação própria. No maximo apelaram pra Ivana Bentes,mas onde esta o debate teórico do proprio Fora do Eixo? Conseguem escrever pra alem de 140 caracteres como pergunta o amigo acima? Ou só escrevem editais? E vc, tem algum argumento melhor do q chamar os outros de caretas e mandar abrir a cabeça? Vc conhece alguem aqui pra dizer que é careta? Nao esta generalizando tbm?

      E sobre o vídeo, eu estava la e trabalhei bastante pra essa Marcha rolar. Infelizmente, tem gente q só quer capitalizar o trabalho de rua dos outros, para seus fins empresariais… Provavelmente n é nem seu caso, cabe vc olhar para os q estao realmente levando algum com esse papinho de pós rancor…

    • Roger

      |

      jun 30, 2011

      |

      Que diferença faz argumentar com 140 ou 7360 caracteres, se isso aqui é só um espaço virtual? Se as coisas estão acontecendo mesmo é lá fora, senhores analistas-críticos-contempladores. Desçam de seus pedestais, vocês não sabem dialogar com as pessoas comuns, no cotidiano, abstraem-se da ralidade, agem como se estivessem extra-sociedade. Arrogância, vaidade e preciosismo. Tentem algo prático pra variar (mas não vale só com quem é do clubinho, hein?).

    • Nêgo Bang

      |

      jun 30, 2011

      |

      Aí tiozão, de que realidade cê tá falando? De que prática cê tá falando, maluko? De sai por aí comendo o cérebro da mulekada dizendo que acabou o rancor e agora é o Rap fazendo propaganda pro Itaú, pra Coca-Cola, pra quem pagá mais?
      Aí tiozão, nunca vi esses nóia do pós-rancor aqui na favela ajudando as tiazinha a salvá os móveis dos incendio, a televisão das enchentes, nunca vi esses nóia do pós-rancor cai pá dentro de um terreno junto com os pai de família e a rapaziada sangue nos olho, e já vi a rapaziada do PAssa Palavra escreve de dentro do baguio, junto e misturada de verdade. Tem uns textos deles que é mais difícil de entende, mas isso não desmerece o trampo.
      Cês qué o que? Que todo mundo entre no circuito Fora do Eixo e acredite que a vida é hippi de novo, comece a endeusá esse nóia desse Claudio Prado, enquanto nossas família segura o veneno limpando a casa dele e das madame sem rancor? Quem ajuda nóis a segurá as neurose toda na madrugada da favela?
      Isso me lembra o Brow, mano, a milianos tb: Na época dos barraco de pau lá na pedreira onde cês tava? Que que cês fizeram por nós? Que que cês deram por nós? Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho? No dinheiro da Periferia? Demorô,tio, nóis qué até sua alma!

    • Deuhs

      |

      jun 30, 2011

      |

      Peraí, isso já não é um debate? Um debate “ao vivo” pela internet, tipo debate eleitoral, seria menos virtual? Ah, sim! Por causa do encontro físico dos participantes, o olho no olho, talvez até uma platéia. É, olhando por esse lado talvez seja menos virtual, mas com certeza bem mais espetacular. Quem já enfrentou a galera dos partidos tentando tomar a frente nos sondicatos ou mov. estudantil sabe bem disso. É bom pra avaliar o desempenho pessoal do orador, mas não dá pra aprofundar discussão nenhuma. É bom pra dar enfoque mais aos debatedores que isuas ideias, trocar acusações, e aí sim, gerar o tal rancor. E nesse caso não é uma critica simples, que se consiga expressar em 140 caracteres ou em frases de efeito, e um debate em formato academico seria sem sentido, né?

      Que ironia, quem mais se apresenta como típico representante da era da internet quer um debate bom para não debater, tipico da televisão, indo contra ao que a internet trouxe de melhor. Mas pra quem não tem o que debater é uma boa. Não conseguiram ainda nem perceber o tamanho da diferença de uma prática e discurso autonomista para a dos partidos. Nem o que está realmente sendo criticados neles.

    • quando eu era criança, mamãe preparava minha lancheirinha com todynho e danoninho e frutinha e tudo gostosinho pro bb ficar fortinho… agora que eu estou crescidinho e com pelo na cara eem outras partes, troquei a lancheirinha pela mochilinha e o todynho pela bavária geladinha que bebo com meus coleguinhas revolucionários lá na vila madalena, com o dinheiro que papai me dá claro… ah, de vez em quando assisto uma aulinha de sociais tb…, vcs acham que é fácil fazer cinquenta citações confusas num texto ridículo de 50 linhas?… sim, sim, sou revolucionário 2.0 gente! sou ultra-moderninho, descoladinho e revolucionáriozinho.

    • |

      jul 3, 2011

      |

      Já que se reduziram ao debate de voz silenciosa e luz escrita. Será que sabem que quando chegarem a web 3.0, isso não fará a minima diferença? Que o google já fala e escuta nas suas pesquisas e falta pouco para aposentar os dois grupos dualisticos para uma verdadeira rede integrada e dinamica nessa biblioteca de babel borgiana!

    • Eder Camargo

      |

      ago 20, 2013

      |

      Parabéns pelo debate e pela iniciativa!

      Acredito, sim, que o tempo tem clareado alguns debates após as Jornadas e a referência ao precariado foi, de fato, muito oportuna e necessária!

      Tomei a liberdade de repercutir o artigo, embora não tenha tempo de seguir acompanhando o debate.

      Saudações

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